3 O Dardo
CALASSO, Roberto. IL CACCIATORE CELESTE. MILANO: ADELPHI, 2016.
O DARDO COM PONTA DE OURO
1. Procris, princesa ateniense e caçadora, esposa do belo caçador Céfalo outrora raptado por uma deusa, desembarcou sozinha em Creta em busca de aventura e em fuga do escândalo de um duplo adultério, precedida por rumores de beleza, de incesto com o pai e de traição ao marido por um estrangeiro carregado de presentes, chegada que não podia escapar ao rei Minos, habituado a apoderar-se das moças vindas do continente antes de entregá-las ao Minotauro.
2. Reaparecida após uma temporada nas montanhas, Procris mostrou-se disponível a Minos com seu olhar direto, entre mulher do porto e rainha, e diante da confissão do rei de que Pasífae, além de traí-lo com um touro, o enfeitiçara para que descarregasse serpentes, escorpiões e centopeias na vagina das amantes, respondeu com senso prático, introduzindo em si uma bexiga de cabra e convidando-o para a cama.
3. O longo caso entre Minos e Procris transformou-se em obsessão do rei, que nela reconhecia cada vez mais a semelhança com Britomártis, a viajante e caçadora que perseguira em vão por nove meses pelas gargantas de Creta até vê-la lançar-se ao mar de um penhasco, salva sem que ele soubesse por pescadores, e que agora parecia retornar não fugindo, mas acolhendo com paciência de amante os animais venenosos de seu corpo, num gesto de intimidade insuperável que era esvaziá-los toda vez numa tina.
4. Apesar da entrega total de Procris, Minos sentia que a bexiga de cabra era fragmento de uma cortina invisível que os separava, como se a história de Britomártis se repetisse, e para conquistá-la de fato ofereceu-lhe, acima de qualquer riqueza, um presente divino, o cão Laelaps e o dardo de ponta de ouro dados por Zeus a Europa, aos quais nenhuma presa escapa, presentes que Procris recebeu com entusiasmo, mas pensando em algo que Minos ignorava.
5. Procris retribuiu com uma erva divina nascida do sangue negro do gigante Picolo e branqueada por Hélio, que livraria Minos das serpentes e lhe permitiria voltar ao leito da esposa e gerar herdeiros para Cnossos, presente que o rei não percebeu ser de despedida, pois no dia seguinte ela embarcou para Atenas.
6. Nos longos encontros secretos no quarto de Procris, Minos, o mais régio dos reis, senhor dos mares e conselheiro de Zeus, revelava os segredos de sua família e de seu reino, e Procris narrava seu amor infantil pelo pai Erecteu, sua paixão por Céfalo, a promessa mútua de fidelidade e seu amor pela caça, escondendo apenas uma história, a de que chegara a Creta não como aventureira ou fugitiva, mas como princesa em busca de sua deusa, Ártemis.
7. Ártemis declarou a Procris que ela lhe pertencia e era ela mesma, apesar de toda uma vida de entrega ilícita do corpo, e revelou tê-la enviado à cidade como mensageira secreta para conservar por meio dela o domínio sobre Céfalo, que, cansado de Eos, ansiava por Procris e através dela adorava a deusa, e, recusando acolhê-la entre suas ninfas, confiou-lhe o dardo infalível e o cão Laelaps, que é Sírio, astro mais poderoso que os deuses e guardião do mundo contra o fogo, destinados a servir-lhe apenas numa sutil vingança amorosa, mas a salvar o mundo quando entregues a Céfalo, revelação que trouxe a Procris uma dor lancinante e uma felicidade suprema, ao reconhecer que seus domínios de ciúme e adultério eram governados não por Afrodite, mas por Ártemis.
8. De volta a Atenas disfarçada de jovem caçador, Procris encontrou Céfalo no Himeto, superou-o na caça com o cão e o dardo e ofereceu-os em troca de possuí-lo, e quando ele aceitou revelou-se mostrando o seio, recordando a infância, o casamento, a promessa de fidelidade, os oito anos de ausência dele com Eos, sua própria entrega a Ptéleon por despeito e pelo prazer intenso dado pelo primeiro desconhecido, e declarando que os presentes de uma deusa e de um rei só serviam para provar que, para traí-la, Céfalo não precisava de uma deusa, bastando o primeiro rapaz encontrado na montanha, até que ambos voltaram reconciliados à antiga casa.
9. Raptado por Eos, Céfalo passou do terror à ilusão de uma felicidade perpétua e depois de novo ao terror e ao desejo desesperado de fuga, ao descobrir entre os frascos de maquiagem da deusa um pequeno rolo escrito.
10. Eos despertou um dia numa concha no fundo do oceano e, ao estender os braços e os dedos com preguiça, sentiu uma força indeterminada pronta a apoderar-se de tudo, abrindo faixas de luz rosada na abóbada celeste até que o contorno de suas mãos se perdesse num único raio radiante, a aurora.
11. Maquiada e de seio nu, Eos percorria o céu em seu carro de quatro cavalos brancos à caça de amantes, sobretudo caçadores, consciente de que sua passagem, maravilhosa e fatal, desgastava o tempo dos homens, e raptava jovens belos e solitários como Céfalo e Clito, condenada por Afrodite a renová-los sem cessar.
12. Eos obteve de Zeus a vida sem fim para Tituno, mas esqueceu de pedir a juventude eterna, porque, como as filhas dos Titãs, mal distinguia a mente da luz e do tempo de que era feita e não soube formular o que para ela não precisava ser nomeado, a juventude, idêntica à própria existência, até perceber que Titono envelhecia a seu lado.
13. Vendo Titono definhar, encolher e perder a voz, Eos sentiu um desânimo perigoso e desconhecido, afastou-o de seu leito para outro quarto, alimentou-o com comida humana misturada a alimentos divinos e um dia o encontrou transformado em cigarra, que fechou numa gaiola junto ao leito onde continuava a receber amantes, alimentando-a amorosamente cada manhã entre seus frascos de maquiagem e adormecendo ao som de seu canto.
14. Naquela noite, ao retorno de Eos, Céfalo pediu para voltar à terra, e ela consentiu.
15. Com Laelaps e o dardo, Céfalo saía todas as manhãs para caçar, até que Procris soube por outro caçador que ele, encostado a um pinheiro, chamava Aura e Néfele, nomes que o caçador evemerista tomou por brisa e névoa, mas que Procris, criada entre fábulas, reconheceu como mulheres ou algo pior, lembrando a ninfa Aura possuída por Dioniso e Néfele, talvez nome de Eos ou da imagem de Hera com que Ixíon gerou os Centauros, e perguntando-se se as imagens não seriam tão poderosas quanto aquilo de que emanam, retomada pelo ciúme mais doloroso e pressentindo o fim do turbilhão de traições.
16. Já não mulher segura, mas moça desesperada, Procris foi procurar Céfalo e, escondida atrás de um arbusto, ouviu-o chamar Néfele e Aura com uma voz alheia, como habitada por um fantasma, e deixou escapar um gemido que também não era seu, atraindo Laelaps e o dardo de Céfalo, que a transpassou no peito, morrendo ela com o cão lambendo-lhe os pés e o marido debruçado amorosamente sobre ela.
17. Diante do corpo ensanguentado de Procris, Erecteu, o pai incestuoso, fincou uma lança em seu túmulo, sinal de morte violenta a reparar, pois para os atenienses a involuntariedade do homicídio não atenuava a culpa, antes a tornava mais solene, e o significado de Procris, modelo de todas as comédias e dramas de amantes infiéis ou portadora de algo mais misterioso e glorioso, a ponto de figurar no Hades entre Fedra e Ariadne, foi ponderado pelo Areópago, que condenou Céfalo ao banimento perpétuo, partindo ele sozinho para Tebas com o dardo e o cão.
18. A lança de Erecteu no túmulo de Procris, segundo golpe do primeiro amante sobre a morte infligida pelo segundo, evocava a história de Atenas, salva desde a origem por uma nuvem de virgens sacrificadas ou suicidas, as filhas de Cécrope e as do próprio Erecteu, todas eleitas pelo oráculo que exigira o sacrifício de uma filha pela vitória contra os eleusinos e todas sacrificadas de modos diversos, sendo Procris, cujo nome significa “a eleita” e designa também um tipo de figo, nome dado às mulheres incestuosas, uma delas.
19. Ao atrair Procris ao seu leito, Erecteu a encerrou num muro de amor proibido e infidelidade que adiou o sacrifício e o transformou em seu oposto, uma morte involuntária e acidental que a fez morrer não como virgem ignorante, mas como heroína romanesca que percorrera todo o ciclo das paixões, e a lança fincada em seu túmulo correspondia, na linguagem muda do rito, à de Salamina, onde se imolava um homem em honra de Aglauro, nome também da filha secreta de Procris e Erecteu, sendo ao mesmo tempo o dardo que a matou e a lança que exigia vingança e honra para ela.
20. Desde o banimento dos herdeiros de Cadmo, Tebas sofria o flagelo enviado por Zeus de uma raposa magra e faminta que, emboscada no Teumesso, matava sistematicamente quem encontrava, mal irremediável cuja essência era jamais ser capturada, contra o qual os tebanos expunham mensalmente uma criança, sem conseguir atenuar uma matança regular como o nascer do sol.
21. Anfitrião pediu a ajuda de Céfalo, propondo lançar o cão infalível contra a raposa inapanhável e confiar a Zeus essa incompatibilidade, em troca da purificação do assassinato de Procris.
22. Zeus contemplou Laelaps e a raposa no Teumesso como epítome do mundo, sabendo que o cão era Sírio, o astro em torno do qual se ordena o mecanismo das esferas, chegado ali após a longa cadeia de dons que o levou de Zeus a Europa, a Minos e a Procris, que já o recebera de Ártemis, e reconhecendo em Procris, cuja vida emaranhada de tormentos amorosos parecia não ter outro sentido, a figura da salvação que, sem jamais sabê-lo, trouxe o cão de Creta a Céfalo e livrou a Grécia e o mundo da raposa.
23. Zeus petrificou a raposa e dissolveu o cão no ar, devolvendo-o ao céu onde Sírio brilha mais que qualquer estrela, suspendendo uma perseguição que um dia seria retomada enquanto durasse seu reino.
24. Depois da raposa, Céfalo seguiu Anfitrião para o oeste na guerra contra os teléboas, buscando morte e esquecimento, mas tornando-se famoso por sua audácia e por sua história cantada por séculos, e soube que o rei inimigo Ptérelao era imortal graças a um fio de cabelo dourado, sentindo por esse homem incapaz de morrer, como ele próprio, uma estranha simpatia, ainda mais ao descobrir que ambos tinham por pai um Deioneu, como se combatesse um irmão desconhecido.
25. Ptérelao, amante da própria filha Alteia, foi traído pela outra filha, Cometo, que Céfalo reconheceu nas muralhas com um olhar que reabriu sua ferida e que arrancou o cabelo dourado do pai adormecido, supostamente por amor a ele, permitindo que Anfitrião o matasse em duelo, sendo depois morta com desprezo, enquanto Céfalo, de novo só, concluía ser acompanhado apenas pela traição.
26. Sem desejar mais nada e sem sequer um filho de tantas mulheres, Céfalo recebeu do oráculo a ordem de unir-se à primeira fêmea que encontrasse, e, vagando pelas montanhas, encontrou uma ursa da qual se aproximou indefeso esperando a morte, mas que o abraçou como mulher numa última exaltação de familiaridade antiga, lembrando-lhe o prazer dos desconhecidos de que falava Procris, e que, ao despertar, se tornara Procris, mãe de Arcésio, avô de Ulisses, que no Hades não sabia ser ela de seu sangue.
27. Novamente só, Céfalo subiu ao penhasco de Lêucade, de onde anualmente se lançava um criminoso amarrado a aves para afastar o mal, com barcos embaixo para resgatá-lo, e, encontrando o mar vazio e a solidão absoluta, atirou-se com alívio, sem ser salvo como Britomártis, dizendo-se que se matara por amor a Ptérelao.
28. No Hades Procris representava o romance, pois, princesa ateniense de uma época em que os atenienses começavam a se chamar assim, teceu desde a infância uma trama de emoções que um dia se chamariam sentimentos, e sua história, embora entre reis e deusas, foi inteiramente privada, separada apenas por um sopro de Anna Kariênina ou de uma personagem de Schnitzler, razão talvez de Homero nomeá-la e de Polignoto pintá-la em Delfos de costas para Clímene, ambas ainda ciumentas no mundo subterrâneo, sinal de que a arte grega já desenredava fio a fio a meada que se chamaria literatura.
29. A história de Céfalo e Procris, amantes perfeitos que juraram fidelidade e se traíram incessantemente sem alcançar uma vida feliz e comum, permanece suspensa e por compreender, e a razão de sua inquietação perpétua e da sobrevivência dessa história acima de todas as outras de traição mútua está em que ambos eram caçadores.
