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ESOTERISMO E SIMBOLISMO

Esoterismo y Simbolismo

I — O ESOTERISMO NÃO TEM NADA A VER COM UMA VONTADE DE SEGREDO, OU SEJA, COM UM SEGREDO CONVENCIONAL.

Se assim fosse, deveríamos considerar que textos como os das Pirâmides do Egito, os Vedas e Upanishads indianos, o Tao-Te-King chinês, o Gênesis de Moisés, os Evangelhos e o Apocalipse, por exemplo [É inconcebível que sábios, filólogos, teólogos e, em geral, todos os estudiosos da história ainda não tenham compreendido a importância dos textos das Pirâmides. Nenhum outro texto sagrado, guardado e transmitido ao longo de milênios, conservou sua forma intacta. Se as transcrições, traduções e comentários não alteraram o sentido fundamental, deixam pelo menos uma margem de dúvida quanto à forma original, veículo precisamente do Esoterismo.

Nos textos — gravados em pedra — das câmaras das Pirâmides da quinta dinastia, as palavras permanecem inalteradas há quatro mil anos. Alguns samaritanos guardam como relíquia sagrada uma Bíblia que consideram autêntica e aqui alguns “civilizados” vêm a esses santuários com jazz em seus toca-discos e os turistas ignorantes, mas curiosos, vêm secar suas mangas nessas pedras gravadas. Nas quais cada traço, cada alinhamento, cada agrupamento de textos, cada cor tem um valor — já que aqui não podemos ler essas palavras, conservemo-las pelo menos para nossos sucessores. Não foi um grande mérito da missão de Bonaparte ter reconstruído escrupulosamente os textos cuja decifração parecia impossível?], são grandes mistificações.

Se, por exemplo, a intenção dos Evangelhos era dar aos homens uma moral de honestidade, e se o caminho para chegar ao “Pai” era explicável, por que nos impedir de alcançar esse objetivo falando-nos por meio de parábolas? Por que esses textos esconderiam o que pode ser dito abertamente para ajudar os miseráveis deste mundo? Por uma necessidade perversa de criar mistérios, ou “hipnotizar o povo”, como afirmam os materialistas? Porque o mundo daquela época era muito inculto em comparação com o nosso, tão inteligente? Ou porque esses profetas e inspirados divinos não sabiam se expressar melhor?

Temos testemunhos suficientes sobre a inteligência, a grande sabedoria e até mesmo o elevado grau de civilização alcançado pelos povos do passado para dar atenção a suposições semelhantes.

Por outro lado, nenhuma criptografia, nenhum hieróglifo é absolutamente indecifrável. É absurdo acreditar que textos como os que nos foram legados em abundância pelo antigo Egito apresentem um sentido esotérico baseado nesse tipo de explicação, se esse esoterismo pode ser expresso por escrito. A criptografia e os hieróglifos, na composição de um texto sagrado, não têm outra intenção senão despertar o interesse do leitor, destacar um aspecto do texto, guiá-lo, em última análise, para seu caráter esotérico. O mesmo ocorre com os “jogos de palavras” e as parábolas.

O Esoterismo não pode ser escrito nem dito e, consequentemente, não pode ser traído. É preciso estar preparado para captá-lo, vê-lo, ouvi-lo à sua escolha. Essa preparação não é um Conhecimento, mas um Poder, e só pode ser adquirida através do esforço da pessoa, uma luta contra seus obstáculos e uma vitória sobre sua natureza animal humana.

Existe uma Ciência Sagrada e, há milênios e milênios, inúmeros curiosos tentaram em vão penetrar seus “segredos”. Como se, com um pico, quisessem cavar um buraco no mar. O instrumento deve ser o adequado. Só se encontra o Espírito com o Espírito, e o Esoterismo é o aspecto espiritual do Mundo, inacessível à inteligência cerebral.

São charlatões aqueles que acreditam poder revelar o esoterismo de tal ensinamento. Eles podem tentar explicar o sentido subjacente de uma palavra ou fórmula, ou seja, um segredo convencional, mas, na Ciência Sagrada, a única coisa que poderão fazer será substituir as palavras e, como resultado, obterão, no máximo, má literatura em vez de uma ideia simples.

O verdadeiro Iniciado pode guiar um discípulo dotado para ajudá-lo a percorrer o caminho da Consciência mais rapidamente, e o discípulo, que chegará a estágios de iluminação graças à sua própria Luz interior, lerá diretamente o esoterismo de qualquer ensinamento. Ninguém poderá fazer isso em seu lugar.


XVII O SÍMBOLO É UMA REPRESENTAÇÃO CONVENCIONAL, O HIERÓGLIFO É UMA ESCRITA DIRETA, NÃO CONVENCIONAL, A ÚNICA CAPAZ DE TRANSCREVER DIRETAMENTE A INTELIGÊNCIA DO CORAÇÃO PARA SER TRADUZIDA POSTERIORMENTE PELA INTELIGÊNCIA CEREBRAL. EMPREGAR QUALQUER MÉTODO DE ESCRITA ESOTÉRICA IMPLICA: OU ELIMINAR GRANDE PARTE DA FORMA GRAMATICAL E DEIXAR QUE O LEITOR DEDUZA O SENTIDO DAS PALAVRAS SEM IMPOR-LHE UMA ESTRUTURA OU RECORRER A SUBTERFÚGIOS COMO A ALEGORIA, A METÁFORA, A PARÁBOLA OU O “JOGO DE PALAVRAS” OU CABALA FONÉTICA.

Em seu sentido original, a palavra Símbolo é sinônimo de coincidência ou complementação de duas partes de um todo. Em sentido amplo, hoje em dia, Símbolo significa convenção. Com este último significado, já não pode ser aplicado aos sinais hieroglíficos. A imagem não é uma convenção representativa do objeto, ela evoca esse objeto representado em suas características típicas ou essenciais. Usada dessa forma, nem mesmo a cor é convencional; a cor verde não é uma convenção em relação à vegetação floral porque ela é verde, como o musgo e os fungos.

Cada cor responde assim a uma fase da Gênese e está ligada às duas famílias principais de toda a Natureza, representadas pelas duas coroas egípcias. A forma estranha dessas coroas deve despertar o interesse em um sentido real e não convencional.

Em sua essência, como Neter medou, a escrita hieroglífica faraônica não é convencional.

No entanto, sempre intervém algum tipo de convenção na escrita exotérica organizada, embora a escolha convencional seja sempre feita com muito cuidado para não se afastar do sentido esotérico. Aqui em baixo, nada é absoluto. A escrita gráfica é o único meio para que um pensamento seja transmitido diretamente à Inteligência do Coração. A criança vê as imagens sem conhecer as palavras que explicam de forma inteligível aos outros o que sente. Ele sempre tenta se explicar através de gestos ou ações. Ele está mais próximo da verdade do que o sábio, para quem as palavras, de sentido fixo, são apenas sons que se alinham mais ou menos agradavelmente. Miséria da nossa literatura.

O ideograma convencional é compreendido em todas as línguas.

A escrita hieroglífica não pode ser compreendida tão facilmente. Ela quer ser lida em sua expressão particular e depois transcrita — como for possível. Essa língua falada tem, como a escrita, uma base de Conhecimento. Cada letra, cada raiz obedece a uma lei natural, correta, viva. Não se pode pronunciar uma letra sem ativar alguns centros nervosos. Existe, portanto, uma razão “vital” para construir sua ordem “alfabética”, daí existir uma lei para seu agrupamento em raízes.

Por outro lado, para se expressarem nas línguas alfabéticas de sinais estabelecidos, os sábios sempre recorreram a subterfúgios. O método mais perfeito nesse sentido é aquele que encontramos nos textos sagrados originais da Índia e nos livros de Moisés antes da introdução das vogais básicas e depois dos pontos vocálicos, para fixar a sonorização das vogais indefinidas não inscritas. Os substantivos geralmente soltos formam uma espécie de escrita em estilo telegráfico. O leitor deve deduzir o sentido dessas palavras de acordo com o que “ouve” ou o que “compreende”. O sentido lógico de uma ideia sempre seduzirá o homem, assim como uma “receita” o seduzirá mais do que a filosofia. O imediato é fácil, o útil é agradável, mas pensar é penoso; o inútil incomoda o preguiçoso. A preguiça e a inércia regem a Natureza, que, sem novos impulsos energéticos, degenera, se desintegra, se degrada e cai. Isso é válido para tudo.

Se vemos que há geração de vida, isso significa que há um novo impulso.

A parábola literária é como a curva parabólica geométrica; um centro focal e inúmeros raios paralelos que se concentram ali por reflexão. A alegoria, por outro lado, gira em torno do centro, da mesma forma que o gato gira em torno de um prato muito quente. A alegoria é enganosa ou infantil, se quiser ser sincera. A metáfora é um truque indigno do esoterismo. O “jogo de palavras” exige grande erudição e conhecimento etimológico. Esse meio é o mais próximo da Cabala. Pode ser construído com base na semelhança fonética.

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