User Tools

Site Tools


xivaismo:danielou:dsd:3

3 A deusa

DANIÉLOU, Alain. Shiva et Dionysos: La religion de la Nature et de l'Éros; De la préhistoire à l'avenir. Paris: Fayard, 1979.

A deusa: potência, amante e mãe

A deusa

1. Shiva é o idealizador do mundo e, para realizar seu plano, necessita de um executor, de uma força material, de uma energia, a Shakti, sua primeira manifestação e complemento saído dele mesmo, poder de materialização que a cosmologia sânkhya representa ora como força de coesão centrípeta organizadora da matéria, chamada Vishnu, o Imanente, ora como contraparte feminina do deus, sendo a deusa o receptáculo, a matéria-prima formada de elementos energéticos, suporte indispensável de toda manifestação aparente.

2. Sem a energia criadora representada pela deusa, Shiva é como um corpo sem vida, shava, incapaz de agir, de se manifestar e de realizar sua ideação do mundo, e, sendo a representação do princípio do mundo como masculino ou feminino mera questão de ponto de vista, o Tantrismo considera o princípio feminino como o aspecto eficaz e, portanto, real para o homem, fazendo da deusa o objeto central do culto, por vezes substituída por Vishnu-Apolo.

3. A manifestação de um mundo cuja natureza é energia exige dois polos opostos, sendo a substância do mundo a corrente que os une e a matéria não algo estável, mas energia pura organizada no espaço-tempo, de modo que, na Trindade primordial, a substância do criado não é Shiva nem Shakti, mas a centelha que brota entre eles, atração, gozo, prazer e amor, eco que se encontra em Hesíodo na sequência abismo, terra e amor, e cuja imagem grosseira mas exata é a união dos sexos percebida essencialmente como prazer, sendo o gozo a substância do mundo e o que nos aproxima do estado divino, enquanto a reprodução e a fecundidade são apenas acidentes ocasionais da união sexual, constituindo erro moderno interpretar os mitos e símbolos dessa união em termos de fertilidade, como mostra Afrodite, que nunca foi a deusa por excelência da fertilidade, mas do amor físico e da união carnal, revelação da sexualidade como transcendência e mistério.

4. Nas mais antigas teogonias gregas, os seres divinos masculinos, neutros ou femininos geram por partenogênese e a união do deus e da deusa é estéril, procriando cada um independentemente do outro, como Shiva, representado em coito permanente com a deusa durante milênios, que só gera um filho, Skanda, quando o coito é interrompido e o sêmen divino cai na boca do fogo sacrificial, e como a deusa, que também gera por si mesma, à maneira de Hera, que deu à luz Hefesto sem união amorosa, por cólera e desafio ao esposo.

5. A união de Zeus e Hera, patronos do casamento, é infértil, sendo Zeus pai de numerosos filhos dos quais Hera não é mãe e Hera mãe de alguns filhos dos quais Zeus não é pai, e o mesmo mito reaparece no mundo cristão na Virgem que dá à luz o deus sem intervenção masculina.

6. A preferência pelo culto da deusa, o Shaktismo, tem origem extremamente antiga e não é exclusiva da Índia, ligando-se às relações afetivas do ser vivo com a mãe, o útero e a caverna de onde provém, e remete a um fundo espiritual análogo ao do Mediterrâneo proto-histórico, pelásgico e pré-helênico, em que as deusas negras hindus, como Kâlî e Durgâ, e as deusas paleomediterrâneas, como Deméter Melaina, Cibele, a Diana de Éfeso e a de Táurida, até as virgens negras cristãs, remetem a um protótipo único, pertencente ao substrato dravídico e a civilizações ainda mais antigas, como as de Mohenjo Daro e Harappa, nas quais o culto da Grande Deusa ou Mãe universal ocupava lugar central ignorado pela tradição ário-védica, viril e patriarcal, permanecendo latente durante a conquista ariana e ressurgindo no Tantrismo.

Os múltiplos aspectos da deusa

1. Como fonte de todos os aspectos da manifestação, a deusa é una e múltipla, pois na base de qualquer aspecto do mundo encontra-se uma energia, uma shakti, que é um dos aspectos da Shakti universal, razão pela qual a deusa tem múltiplos nomes e formas que, do ponto de vista ritual, podem parecer princípios diferentes e até contrários.

2. A deusa é virgem e mãe, benevolente e terrível, exterior a nós ou presente em nós, de modo que se percebem inúmeras shaktis e ao mesmo tempo sua unidade, traço não exclusivo do Shivaísmo, pois as deusas gregas também são intercambiáveis e as deusas celtas podem ser vistas como funções da deusa-mãe, como Macha, deusa da fertilidade honrada com orgias e depois deusa da guerra, Anu, cujos seios são as colinas do condado de Kerry, na Irlanda, e Brigitt, deusa da abundância e do casamento que se tornou a santa Brígida cristã.

3. Cada aspecto da deusa possui longa pré-história, como Atena, de nome pré-grego, associada às serpentes, à oliveira e à coruja como a deusa minoica e ao culto minoico da serpente, da árvore e das aves, e como Sarasvatî, que, à semelhança de Atena, protege as ciências e as artes, inspira e é venerada pelos artesãos e, em sua festa, a Sarasvatî Pûjâ, recebe a veneração de todas as ferramentas, livros e instrumentos musicais colocados sobre um altar como seus símbolos.

4. Em todos os ritos que visam realizações imediatas, o culto popular dirige-se de preferência à deusa, à mãe, à amante, segundo o ponto de vista tântrico, pois é o elemento feminino presente em todo ser que nos liga ao mundo material e, portanto, é por meio dele que se podem desfazer os laços que nos prendem ao mundo, papel que os ritos orgiásticos do Tantrismo e a exaltação das Mênades evocam na mística dionisíaca ou shivaíta.

5. A deusa permite a realização da obra criadora, controla a imaginação do deus e sua loucura criadora ou destruidora e é a intercessora a quem se deve recorrer, papel encontrado em todas as deusas e até na Virgem Maria, prevalecendo nas religiões pré-históricas o culto de uma deusa-mãe, que cedeu lugar gradualmente ao da deusa-amante com a expansão do Shivaísmo e do Tantrismo, manifestando-se a deusa também sob formas masculinas, pois, segundo o Bhagavatî Tattva, Vishnu, Krishna, Râma, Ganesha e o Sol são manifestações do princípio feminino, o que explica muitos aspectos de seus cultos.

A Dama da montanha

1. O principal nome da deusa é Pârvatî, a da montanha, pois os cumes são pontas pelas quais a energia terrestre sobe ao céu e onde céu e terra se unem, ligando a união da abóbada celeste, assimilada ao Linga de Shiva, com a energia telúrica das montanhas o deus ao mundo dos seres vivos, de modo que o oráculo de Dionísio se encontra nas mais altas montanhas, cada região associa a deusa a uma montanha sagrada e as altas montanhas são a morada aprazível das deusas, sendo Pârvatî filha de Himâvat, o Nevado, senhor do Himalaia, e reaparecendo sua imagem na Dama da montanha suméria Nin-har-sag, na Mãe da montanha de Eurípides, em Reia, deusa das montanhas em Creta, e em Diktynna e Ártemis, Mãe-montanha e caçadora, sendo Diktynna, ligada ao monte Dikté, guardiã dos iniciados, cujo santuário mais antigo se chamava Tityros, Sátiro, e cujos servidores, os Tityroi, semelhantes aos Coribantes e correspondentes aos Ganas de Shiva, pertenciam ao ciclo greco-frígio ligado ao culto do menino Zeus em Creta e da mãe dos deuses na Frígia e no Ida troiano.

2. Um selo de Cnossos mostra a Dama da montanha inclinando o cetro para um adorador masculino, precedida por um leão, veículo de Pârvatî, e em Éfeso, numa gruta de Cibele, Mãe dos montes, a deusa aparece entre dois leões, acompanhada de um jovem companheiro equivalente a Ganesha, filho e guardião de Pârvatî.

A potência do tempo

1. Por sua relação com Shiva, a deusa permite a manifestação do eros divino, mas, em relação ao homem, pode aparecer como a matriz, a mãe de onde tudo procede e para onde tudo retorna no fim, identificando-se então com Kâlî, a potência do tempo e da morte.

2. Shiva, em seu aspecto terrível, é assimilado a Kâla, o tempo, o Cronos dos gregos, e Kâlî, potência do tempo e da morte, também chamada Durgâ, a Inacessível, representa o aspecto terrível da deusa, dançando sobre um mundo em ruínas com os atributos de Shiva destruidor, colar de crânios e serpentes, cercada de demônios e matando tudo o que dela se aproxima, sendo por isso invocada para obter uma prorrogação, num culto ligado ao Tantrismo, muito difundido, retomado pelo Budismo Mahâyâna, no qual o erotismo e os sacrifícios sangrentos têm grande papel e que faz dela a principal divindade em certas regiões da Índia, sobretudo em Bengala, à semelhança da sinistra deusa-corvo celta Morrigan, cujo frenesi sexual igualava sua sede de sangue e carnificina e que copulava com Dagda, o Grande Deus que gerou os Tuatha Dé Danann, o povo da deusa Danu.

3. A essa deusa eram oferecidas as cabeças dos guerreiros inimigos mortos em combate, reconhecendo-se nela a imagem de Kâlî com colares de crânios em união erótica com Shiva, com paralelos também no Egito.

4. A carnificina e o canibalismo são traços característicos das deusas arcaicas, como Anat no mito ugarítico cananeu do terceiro milênio, que, em sua fúria homicida, mata guardas, soldados e velhos, com sangue até os joelhos, e, como Kâlî, cinge-se com as cabeças e as mãos das vítimas.

5. A morte é um retorno ao seio da mãe, à terra de onde viemos, e somente Kâlî é invocada por seus fiéis como Mãe e protetora, pois de ninguém mais se pode implorar misericórdia senão da onipotência do Tempo.

A Dama branca

1. Gaurî, a Deusa branca, é o aspecto benevolente da deusa, protetora, amiga dos homens e boa fada, correspondendo entre os gregos a Leucoteia, a Dama branca protetora dos navegantes, nome dado a Ino depois que se lançou ao mar com o menino morto Melicertes, chamado Palêmon, ambos socorrendo os marinheiros nas tempestades, e, segundo João Lido, Leucoteia substitui Prosérpina como mãe de Dionísio, tendo o culto do Dionísio arcaico e cretense se mantido longamente nas ilhas, onde a Dama branca do mar recebia culto importante.

Sati (Fidelidade)

1. Assim como Ísis é o símbolo da fidelidade na mitologia egípcia, Sati, Fidelidade, é a amante de Shiva, com lenda distinta da de Pârvatî, sendo filha do rei-sacerdote ariano Daksha e evocando tanto o fracasso da fusão entre os panteões dravídico e ariano quanto o papel da mulher que deve fidelidade ao esposo e abandona todo vínculo com sua família e seu clã de origem.

2. Após o suicídio de Sati, Shiva carrega seu corpo no ombro e deixa cair os pedaços em diversos lugares da terra, inversamente ao mito de Osíris, em que Ísis recolhe as partes do corpo do deus e as enterra em diversos locais que se tornam lugares santos, e ao mito cananeu dos adoradores do touro, em que Anat, esposa e irmã de Aliyan, filho de Baal e equivalente de Pashupati, deus das fontes e das florestas, vai buscá-lo no país dos mortos, traz seu corpo no ombro e o enterra no cume do monte Safon.

A senhora dos animais

1. Contraparte de Pashupati, senhor dos animais, Pârvatî, a Dama da montanha, aparece também como senhora dos animais, assim como Ártemis, antiga Dama das montanhas, é em toda a pré-história mediterrânea, inclusive na Creta minoica, a senhora dos animais selvagens.

2. Ártemis é a padroeira dos caçadores, das feras e das moças, rege a sacralidade da vida selvagem e, como deusa das florestas, conhece a sexualidade e o parto, mas rejeita os laços sociais do casamento.

3. Na religião cretense, as divindades femininas, terrestres e secretas por natureza, tinham papel predominante, sendo a mais conhecida pelos monumentos a senhora das feras, Potnia thêrôn, representada matando ou submetendo animais selvagens ou armada para a caça.

4. Ela corresponde à antiga mãe dos animais pré-celta cuja imagem se encontra na caverna de Pech-Merle, no sudoeste da França, e à deusa celta Flidais, esposa de Fergus, deusa das florestas e do mundo selvagem e soberana dos animais, semelhante à Diana clássica e de origem paleolítica.

5. Afrodite, deusa considerada de origem oriental, nascida da semente dos órgãos sexuais de Urano lançados ao mar segundo mito paralelo ao da castração de Shiva, é também senhora das feras como Pârvatî e Ártemis, semeando o desejo entre animais, homens e deuses, e a deusa cretense aparece sob formas variadas, cercada de animais, aves e serpentes, com o pilar betílico ou a árvore sagrada, a papoula ou o lírio, a espada e o machado duplo, caçadora e deusa dos esportes, armada e presidindo a dança ritual, soberana da montanha, da terra, do céu, do mar, da vida e da morte, mãe e virgem, una e múltipla.

O casamento de Shiva e Pârvatî

1. Quando os sábios quiseram persuadir o deus errante a tomar esposa, Shiva exigiu uma mulher bela, praticante do Yoga e capaz de suportar o ardor de seu sêmen, que fosse yoginî quando ele praticasse o Yoga e mulher apaixonada quando praticasse o amor, e que tivesse absoluta confiança nele e em suas palavras, sob pena de ser abandonada.

2. Shiva, benevolente com seus fiéis e amante de encantamentos, aproximou-se de Menâ, esposa do rei das montanhas, sob a forma de um dançarino de veste vermelha, com uma trompa na mão direita, um tambor na esquerda e um saco às costas, dançando maravilhosamente e cantando com voz muito doce, num espetáculo que reuniu em êxtase todos os habitantes do lugar.

3. Pârvatî, filha do rei das montanhas, viu a forma harmoniosa de Shiva com o tridente e demais atributos, o corpo coberto de cinzas, o colar de crânios, o rosto sorridente, os três olhos brilhantes e uma serpente como cordão sagrado, e, quando o belo deus de brancura resplandecente, amigo dos humildes e oceano de bondade, convidou a fazer um voto, ela se inclinou e lhe pediu que fosse seu esposo.

4. Shiva concedeu-lhe o voto e prosseguiu a dança, recusou as joias e o ouro oferecidos por Menâ, pediu a mão de Pârvatî e, quando Menâ, ultrajada, quis expulsá-lo, ninguém conseguiu empurrá-lo para fora, pois era ardente ao toque como o fogo mais intenso e iluminava tudo ao redor, até que o mendigo desapareceu.

5. O chefe dos brâmanes advertiu o rei das montanhas contra a entrega de sua filha, delicada como uma flor de lótus e divinamente bela, a Shiva, descrito como alguém sem domicílio nem relações, malfeito e sem mérito, morador dos locais de cremação, semelhante a um encantador de serpentes, iogue nu de membros disformes adornado apenas de serpentes, de família, casta e origem desconhecidas, rapaz de má conduta e sem ofício, coberto de cinzas, irascível e sem juízo, de idade ignorada, cabelos desgrenhados, companheiro de todos os vagabundos, mendigo que sistematicamente se opõe aos mandamentos dos Vedas.

6. Segundo o Shiva Purâna, o rei das montanhas, incitado pela mulher e pelos filhos, mandou escrever uma carta de noivado levada com presentes a Shiva no Kailâsa, seu paraíso, onde os mensageiros lhe aplicaram a marca sagrada na fronte e foram recebidos com honra, e em seguida lançou convites e reuniu provisões para as celebrações, com grandes quantidades de arroz, açúcar e sal, reservatórios de leite, óleo, coalhada, bolos de cevada, doces, vinho, caldo de cana, manteiga, bebidas embriagantes e sucos de frutas, pratos condimentados para agradar aos Ganas de Shiva, belas vestes purificadas pelo fogo, joias, pedras preciosas e objetos de ouro e prata, iniciando-se os ritos num dia favorável com as cerimônias de purificação de Pârvatî realizadas pelas mulheres das montanhas.

7. Todas as montanhas reuniram-se para as festas na morada de Himâvat, o monte nevado, chegando os montes Mandara, os do Oeste e do Leste, Malaya, Dardura, Vishâda, Gandhamâdana, Karvira, Mahendra, Pâriyâtra, Krauncha, Purushottama, Nîla, Vindhya, Kalanjara, Kailâsa e todas as montanhas dos outros continentes.

8. Todos os rios também se reuniram, cobertos de joias, chegando o Godâvarî, o Yamunâ, o Brahmastrî, o Venîkâ, o Ganges e o Narmadâ.

9. Toda a cidade estava em festa, com estandartes, bandeiras e guirlandas, e Vishvakarma, arquiteto dos deuses, construiu um imenso salão esplendidamente mobiliado, com leões, cegonhas e pavões esculpidos de maravilhoso realismo, mulheres artificiais que dançavam, falsos homens que lhes lançavam olhares, guardas de arcos tensos, elefantes, carros e soldados tão naturais que pareciam vivos, a estátua da deusa diante da entrada, como que saindo do oceano de leite, e um magnífico aposento preparado para Shiva.

10. Ao receber a carta de convite, Shiva riu, mandou lê-la em voz alta e aceitou a proposta, declarando estar sempre a serviço de seus admiradores, que Pârvatî obtivera por sua devoção o favor de tê-lo como esposo e que as núpcias se realizariam dentro de sete dias.

11. Shiva convocou seu touro, todos os seus Ganas e a horda dos espíritos malignos, os Bhûtas, para acompanhá-lo ao país das montanhas nevadas para as festas do casamento.

12. A terrível Chandî, irmã de Shiva, veio também, semeando o terror por toda parte, montada num fantasma, coberta de serpentes, com uma urna de ouro na cabeça e acompanhada por milhares de gnomos, ao som ensurdecedor de tambores que destruíam tudo o que não era de bom augúrio.

13. O rei das montanhas, acompanhado de todas as montanhas, veio inclinar-se diante de Shiva, que se aproximava sorridente, sentado em seu touro coberto de joias, com uma beleza que iluminava os quatro cantos do espaço, a coroa resplandecente, as serpentes transformadas em preciosas guirlandas e o corpo irradiando luz divina, cercado pelos deuses que o abanavam e levavam espanta-moscas, sendo recebido com grandes honras e muita cerimônia.

14. Menâ pediu então para ver Shiva em seu aspecto habitual, que destrói a vaidade e o orgulho, e de sua sacada viu chegar o imenso cortejo dos Gandharvas, músicos celestes magnificamente vestidos em seus carros, tocando instrumentos e acompanhados de ninfas, e, a cada novo personagem cada vez mais esplêndido, como o chefe dos deuses das esferas, Vasu, ela exclamava que era Shiva, ouvindo sempre que se tratava apenas de um ministro ou de um figurante, até ficar deslumbrada.

15. Quando Shiva apareceu sentado em seu touro, coberto de cinzas, com os cabelos desgrenhados, o crescente lunar na fronte, um crânio na mão, uma pele de tigre no ombro, arco e tridente, olhos estranhos, sujo e mal vestido, cercado de seus companheiros, diabos e fantasmas de formas aterradoras, Menâ desmaiou de pavor e, ao voltar a si, num furor sem limites, sentiu-se desonrada e enganada, amaldiçoou a filha por trocar uma joia por um caco de vidro e um leão por um chacal, amaldiçoou todos e o dia em que a concebera, exigiu de Himâvat que a amarrasse e a lançasse num abismo ou no mar, preferindo envenená-la, despedaçá-la ou afogá-la a entregá-la a Shiva, ser sem pai, mãe, irmão ou parentes, sem beleza, ofício, casa, roupas ou joias, nem rico nem jovem, sujo, ignorante e repugnante.

16. Admoestada pelos deuses, Menâ acabou por se abrandar, consentindo no casamento caso Shiva aparecesse sob forma agradável, e o deus mostrou-se então em seu aspecto encantador, com cada parte do corpo irradiando beleza, vestes multicoloridas, joias preciosas, pele clara e lustrosa e o crescente lunar realçando seu esplendor.

17. Deslumbrada, Menâ pediu perdão pelas injúrias dirigidas ao deus, enquanto todas as mulheres abandonavam suas ocupações e corriam para vê-lo, umas seminuas, outras arrancando o filho do seio ou deixando o marido à mesa sem servi-lo, e homens e mulheres, encantados com a beleza do deus, felicitaram Menâ, que desceu para receber o noivo.

18. Após os ritos do banho, o rei das montanhas e Menâ adornaram Pârvatî com os ornamentos trazidos por Shiva, que realizou as abluções cerimoniais e vestiu trajes esplêndidos.

19. Deu-se uma grande festa, com o sopro das conchas, o rufar dos tambores, como as timbales pataha e o tambor duplo anaka, o som das conchas marinhas gomukha e os cantos de bom augúrio que acompanhavam as dançarinas.

20. Um sacerdote iniciou os ritos num recinto onde se erguera um altar, com Pârvatî sentada numa plataforma elevada e grãos de arroz lançados sobre os noivos, e, ao pedir a Shiva, conforme as regras, sua genealogia, casta, família, ancestrais védicos e os Vedas que recitava, causou um momento de embaraço em que o deus desviou o rosto, até que o sábio Nârada, tocando a vînâ, declarou que Shiva é o Ser supremo, sem ancestrais nem família, cuja única família é a palavra divina, sendo ele o Som primordial, Nâda.

21. O rei das montanhas pronunciou então ele mesmo as palavras rituais de entrega da filha como esposa, colocou a mão de Pârvatî na de Shiva e ofereceu-lhe como dote joias e vasos preciosos, cem mil vacas, cem cavalos arreados, cem mil jovens servas, carros e elefantes.

22. Pârvatî era tão bela que Brahmâ, olhando apenas as unhas de seus pés, foi ferido por Eros e, contemplando repetidamente seus membros, deixou escorrer o sêmen no chão, envergonhando-se, velho como era, e apertando o sexo entre os pés, o que enfureceu Shiva a ponto de querer matá-lo, até ser acalmado pelos louvores dos deuses, enquanto a semente de Brahmâ, sob repetidas pressões, se espalhou em vários jatos cintilantes dos quais nasceram numerosos sábios chamados Vâlakhilya.

23. Os Vâlakhilya foram exilados na Montanha dos perfumes, Gandhamâdana, e tornaram-se fiéis de Shiva, enquanto o casal era conduzido à câmara nupcial, as mulheres da cidade das neves realizavam os ritos de bom augúrio, as deusas vinham conceder favores e Shiva, na companhia da esposa, mascava bétel e cânfora.

24. A noção do deus cujo sêmen dá origem a seres vivos reaparece no mundo grego, como Erictônio, nascido da semente de Hefesto caída na terra enquanto perseguia Atena, e Zeus, que derrama sua semente à vista de Perséfone e que, antes ainda, em seu desejo impossível pela deusa nascida em Chipre, espalhou na terra a espuma ardente de seus amores, de onde floresceu em Chipre a raça de corpo duplo dos Centauros cornudos.

xivaismo/danielou/dsd/3.txt · Last modified: by 127.0.0.1