03
LE TCH’AN (ZEN). RACINES ET FLORAISONS. Paris: Les Deux Océans, 1985
Yuan-men levantou-se e perguntou: “Em última instância, a quem pertence a Via?
— A ninguém, do mesmo modo que o vazio não possui nenhum ponto de apoio. Se a Via possuísse vínculos ou qualquer pertencimento, ela estaria ora oculta, ora revelada; ora proprietária, ora locatária.
— Qual é o fundamento da Via? Em que consiste a atividade da realidade?
— O vazio é o fundamento da Via; os fenômenos são a atividade da realidade.
— No interior disso, quem age?
— No interior disso, em realidade não há ninguém que aja. A natureza do Domínio absoluto é a espontaneidade.
— Não é então o resultado da força cármica dos seres vivos?
— Aqueles que sofrem a retribuição cármica permanecem acorrentados no karma, mas não existe nenhum meio pelo qual possam, por si mesmos, ser agentes. Como teriam eles o lazer de modelar os mares, acumular as montanhas e moldar o céu e a terra?
— Ouvi dizer que o bodhisattva possui um corpo produzido pelo pensamento. Não o deve então à força de um poder sobrenatural?
— O homem ordinário possui um karma com escoamento, enquanto o Homem Santo possui um karma sem escoamento; há, portanto, uma diferença entre ambos. Mas este último ainda não se encontra na via da espontaneidade. É por isso que se diz:
‘No que concerne a todas as espécies de corpos produzidos pelo pensamento, afirmo que não são nada além de avaliações do espírito.’
— Dissestes que o vazio é o fundamento da Via; é ele o Buda ou não?
— Sim.
— Então por que o Homem Santo não incita os seres a considerar o vazio em vez do Buda?
— Ele ensina a considerar o Buda para o bem dos seres ignorantes, mas incita aqueles que possuem compreensão da Via a contemplar a natureza real da essência e igualmente a contemplar o Buda. Por natureza real deve-se entender o vazio, ou aquilo que é sem características.”
