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VIDA ESPIRITUAL (POIMANDRES I 20-23, IV, VII, XII 1-14)

FESTUGIÈRE, A. J. Hermétisme et mystique païenne. Paris: Aubier-Montaigne, 1967

A salvação no hermetismo não é o efeito da vinda súbita, em um momento do tempo, de um Salvador que teria vivido sobre a terra, instituído sacramentos, depois teria morrido e subido ao céu. A salvação hermética consiste essencialmente em conhecer-se, isto é, em reconhecer em si mesmo esta parte de Luz, de intelecto divino, que já se possui naturalmente, em reconhecê-la, digo, e em amá-la, enquanto se odiará a parte material, o corpo oriundo das trevas que aprisiona esta luz. A gnose, o Conhecimento, tem um duplo objeto: é o conhecimento de Deus, e é o conhecimento de si mesmo enquanto se é, por nascimento, um ser divino. Leia-se com efeito: «Que aquele que tem o intelecto reconheça-se a si mesmo como imortal, e que saiba que a causa da morte é o amor» (I 18). «Aquele que se reconheceu a si mesmo chegou ao bem eleito entre todos, enquanto aquele que amou o corpo oriundo do erro do amor permanece na obscuridade, errante, sofrendo em seus sentidos as coisas da morte» (I 19). Haverá, pois, desde aqui embaixo, duas categorias de homens: há os que estão no Conhecimento, isto é, na imortalidade, ou ainda em Deus, e há os que estão na ignorância, isto é, na morte, ou ainda nas trevas. Estes merecem morrer. Eles já estão na morte, e nela permanecerão sempre. Por quê? Porque — cito — «a fonte de onde procede o corpo individual é a obscuridade sombria, de onde vem a Natureza úmida, pela qual é constituído no mundo sensível o corpo onde se alimenta a morte» (I 20). Em contrapartida, aquele que se reconheceu a si mesmo «vai em direção a si», isto é, em direção a seu verdadeiro eu, a esta parte divina que está nele, portanto, em definitivo, em direção a Deus. Cito ainda (I 21): «Se, pois, aprenderes a conhecer-te como sendo composto de vida e de luz e que são estes os elementos que te constituem, retornarás à vida».

Mas então se coloca o problema: todos os homens não possuem o intelecto, isto é, esta parte de intelecto divino que devem a seu ancestral, o Homem celeste filho de Deus? A esta questão, que retorna no Poimandres (I 21), na Cratera e no tratado XII, a resposta é a seguinte: Todos os homens receberam o intelecto em potência. Mas depende deles atualizá-lo. Eles o atualizam pelo modo como vivem. Aqueles que são santos, bons, puros, misericordiosos, em suma, os homens piedosos, não somente possuem o intelecto por essência, mas, pelo fato de que vivem segundo o intelecto, o Nous divino está neles como um anjo guardião: «Ainda mais, eu, Nous, não permitirei que as operações do corpo, que os assaltam, consumam sobre eles seus efeitos. Pois, em minha qualidade de guardião das portas, fecharei a entrada às ações más e vergonhosas, cortando pela raiz os maus pensamentos» (I 22). Do mesmo modo XII 3: «Quando, pois, as almas se deixam dominar pelo intelecto, este lhes faz aparecer sua luz e se opõe aos maus pensamentos que se apoderaram delas de antemão (em razão de sua união com o corpo)». Como um bom médico corta a parte doente, «assim o intelecto faz sofrer a alma ao retirá-la do prazer, que é o princípio de onde deriva toda doença da alma» . Em contrapartida, se os homens são insensatos, maus, viciosos, invejosos, ávidos, homicidas, ímpios, o Intelecto divino se afasta, cede lugar ao demônio vingador, que tortura a alma enferma pelos próprios apetites e desejos que a agitam sem repouso e que jamais encontram satisfação. Estes homens também receberam, eles igualmente, o intelecto, mas, como não vivem segundo o intelecto, não têm mais por guia o Intelecto divino, são sem intelecto (cf. I 23 = XII 4). Assim se compreende a doutrina do Cratera, que aparentemente contradiz a do Poimandres e do tratado XII. Hermes aí ensina a Tat que todos os homens receberam em partilha a razão, mas não o intelecto. E como Tat pergunta (IV 3): «Por que Deus não deu o intelecto em partilha a todos?», Hermes responde: «É que ele quis que o intelecto fosse apresentado às almas como um prêmio que elas devessem conquistar». Ele encheu, pois, de intelecto um grande cratera que enviou aqui embaixo e designou um arauto com ordem de dar a conhecer aos homens esta proclamação: «Toda alma, que o pode, deve mergulhar neste cratera, toda alma que crê que retornará àquele que enviou o cratera, que sabe por que ela veio a ser» (IV 4). Na realidade, toda alma humana já possui o intelecto. Mas resta tomar consciência desta posse, e, uma vez adquirido este conhecimento, fazer uso do Intelecto divino imanente. Isto exige capacidades, um esforço, — daí a expressão he dynamene, «toda alma que o pode», — e sobretudo, isto exige, no princípio, uma escolha.

É-se livre de escolher: segundo a palavra de Platão, aitios ho elomenos, a responsabilidade recai sobre aquele que escolheu. Conforme a escolha, faz-se uma divisão entre os homens: aqueles que escolheram pelo corpo e contra a luz, aqueles que escolheram pela luz e contra o corpo. É esta operação segunda, dependente da escolha do homem, que significa o dom do cratera e a expressão «ser batizado no cratera». Não é a operação primeira, independente da escolha do homem, pois que se passa no nascimento, quando o intelecto é dado uma primeira vez ao homem na qualidade de instrumento que deve ser posto em uso.

Esta resposta comanda, por sua vez, a solução de outra dificuldade. Esta aparece no tratado XII (5—9). Hermes explicou a Tat como a alma pode se conduzir diversamente em relação ao intelecto que recebeu, como pode obedecer-lhe ou, ao contrário, entregar-se às paixões irracionais, como enfim, neste caso, Deus faz cair as almas sob o golpe da lei penal, para puni-las e convencê-las de pecado. — Mas então, pergunta Tat, o que se torna a doutrina da Fatalidade? «Se, com efeito, o Destino determinou absolutamente que tal ou tal será adúltero ou sacrílego ou cometerá algum crime, vai-se ainda castigar aquele que não cometeu o ato senão sob a coação da Fatalidade?» — A resposta é a seguinte: Todos os homens estão submetidos à fatalidade no que concerne a seu corpo, eles crescem e morrem. Mas seu estado moral depende da maneira como se comportam em relação ao intelecto. No homem, o intelecto tem por função dominar as paixões que nos acorrentam ao corpo, portanto à fatalidade. Se, pois, se entrega à ação benfazeja do intelecto, escapa-se às paixões, portanto ao corpo, portanto ao Destino. O corpo sofre bem ta eimarmena, «as coisas fatais», a alma permanece pura de todo mal; o gnóstico sofre como se tivesse cometido o crime, mas sem ser criminoso. O espírito humano, que não faz senão um com o eu de Deus, permanece sempre bom. Hermes cita então uma palavra do Bom Gênio, Agathos Daimon, divindade benfazeja como no Egito e que os hermetistas se apropriaram para fazer dela, ao lado de Hermes, um mestre de sabedoria revelada. Segundo o Bom Gênio, portanto, o intelecto em nós não é senão uma emanação do Intelecto divino, e, já que a vida é união deste intelecto e da alma, vivemos, pois, por Deus, pelo Intelecto e pelo eu de Deus. Ora, todos os inteligíveis são um, não há neles matéria, portanto espaço, e em consequência o Intelecto divino em nós não faz senão um com o Deus-Intelecto ele mesmo. Desde então, já que este Deus-Intelecto é por essência acima de todas as coisas, e que o intelecto no homem não faz senão um com este Deus-Intelecto, nosso intelecto, sendo a própria alma e o eu de Deus, tem poder de fazer tudo quanto quer, reina sobre tudo, fatalidade, lei, etc., e pode, portanto, colocar a alma humana acima da Destinação. Vê-se aonde conduz a doutrina: a uma aberração moral que se encontra com bastante frequência entre os falsos místicos. Desde que a alma se sinta em união com Deus, ela é livre de conduzir-se a seu bel-prazer: os crimes que pode cometer são o fato da parte inferior de seu ser, da parte material que não é o verdadeiro eu. O verdadeiro eu já está divinizado, fixado em Deus: o resto não é senão aparência, ou moicheusas peisetai all' hos moicheusas (XII 7): «o gnóstico sofrerá (aqui embaixo) o castigo da lei penal, não por ter sido adúltero, mas como se tivesse sido adúltero».

Com a reserva desta última conclusão, que está tão distante quanto possível do cristianismo, poderia comparar-se a livre escolha do hermetista quanto ao intelecto à livre escolha do cristão quanto à graça. A graça, ela também, é dada em potência: todo cristão batizado a possui. Mas trata-se para ele de atualizá-la. Para isso, é necessário primeiramente que tome consciência dela (há, portanto, uma pregação cristã como há uma pregação hermetista: C. H. I, IV, VII), depois, que escolha, depois, se escolheu bem, que faça esforço para viver segundo a graça. Neste caso, ele está unido ao Espírito de Deus, e pode-se dizer deste Espírito, como do Intelecto hermético, «que ele está junto do justo, e que esta presença lhe torna um auxílio e lhe faz conhecer todas as coisas» (I 22).

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