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André-Jean Festugière – Hermes Livro 4 Festugiere – Introdução
FESTUGIÈRE, A. J. La Révélation d'Hermès Trismégiste III. Livre III Les Doctrines de l'Âme. Livre IV Le Dieu Inconnu et la Gnose. Paris: Les Belles Lettres, 1990.
- A formulação do “Deus desconhecido” (theos agnostos) não é atestada na literatura puramente grega e é considerada por estudiosos como Norden como um conceito estranho ao espírito grego, que preferia atribuir a Deus predicados como invisível, imperceptível, incompreensível ou inteligível, sendo a ausência de “desconhecido” ou “incognoscível” interpretada como um desvio em direção a influências orientais, tal como observado em textos gnósticos cristãos e platônicos tardios.
- A análise de Norden é posta em questão pela ambiguidade fundamental do termo agnostos, que pode significar tanto “desconhecido” quanto “incognoscível”, uma ambiguidade que se estende ao seu antônimo gnostos e que pode explicar sua relativa ausência na teologia pagã, pois o sentido preciso desses termos só pode ser determinado pelo contexto em que são empregados.
- A aplicação do termo agnostos a Deus no texto hermético Korè Kosmou não corresponde à concepção gnóstica de um Primeiro Princípio transcendental e absolutamente incognoscível, mas antes descreve um estado temporário de desconhecimento antes da revelação divina através da criação, uma ideia que se alinha com a noção convencional de um Deus cognoscível por meio de suas obras.
- A ausência do predicado agnostos em tratados herméticos como o I e o XIII, onde se poderia esperar sua presença, e sua substituição por sinônimos como inefável, indizível ou incompreensível, sugere que a presença ou ausência de um termo específico não é um indicador confiável de influência oriental, pois diferentes palavras podem expressar a mesma ideia de transcendência divina.
- O método de Norden é criticado por ser excessivamente mecânico e simplificador, ignorando a natureza contextual da língua grega, onde o significado de palavras como agnostos, akataleptos ou arretos é fluidamente determinado pelo seu uso, e por não considerar a variedade de maneiras pelas quais um deus pode ser considerado desconhecido, desde ser estrangeiro a um local até ser incognoscível em sua essência, mas acessível por via mística.
- A noção de incognoscibilidade divina está intrinsecamente ligada à ideia de transcendência, a qual se manifesta através de um aspecto físico, que situa o Deus supremo em um lugar hipercósmico, acima das esferas celestes, e de um aspecto metafísico, que emerge de especulações filosóficas sobre a natureza do Primeiro Princípio.
- O aspecto metafísico da transcendência pode ser subdividido em dois correntes principais: uma, de origem platônica e pitagórica, que enfatiza a transcendência do Uno ou da Mônade em relação aos números e à matéria, e outra, genuinamente platônica, que deriva dos diálogos de Platão e concebe o Primeiro Princípio, seja como o Bem, o Belo ou o Uno, como inefável, só sendo apreendido através de um processo de abstração que o separa de tudo o que não é ele mesmo.
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