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ORIGEM E PROVENIÊNCIA DO HOMEM SEGUNDO PARACELSO
FUSSLER, Jean-Pierre. Les idées éthiques, sociales et politiques de Paracelse (1493–1541) et leur fondement. Presses Universitaires de Strasbourg, 1986
- O homem é, para Paracelso, primeiramente um ser natural dotado de um corpo que o liga à terra e o torna perecível, formado por Deus a partir do limbo, matéria originária que marca a origem materialmente e biologicamente determinada da qual o homem não pode escapar.
- O corpo é composto dos quatro elementos terra, água, ar e fogo, com três princípios na base: enxofre, sal e mercúrio, transformados em carne e sangue.
- O homem tem também, além do corpo elementar, um corpo sideral proveniente do astrum, realidade espiritual dada por Deus a todos os níveis da vida, mas igualmente mortal.
- O homem é ao mesmo tempo do céu e da terra, e por isso Paracelso retoma a formulação tradicional do homem como microcosmo que contém e condensa o macrocosmo.
- O microcosmo humano contém todas as forças e virtudes do macrocosmo: os fenômenos celestes, a natureza terrestre, as propriedades aquáticas, os caracteres aéreos, as constelações, os quatro ventos e os frutos da terra, sem que nada exista na terra cuja natureza e poder não estejam também no homem.
- Ao mesmo tempo, o homem é envolvido pela natureza e pelo universo que o ultrapassa.
- Por esse laço real com a natureza, o homem pode tomar consciência de sua fraqueza, especialmente na doença, na infância, na angústia e na velhice.
- As doenças e sua cura existem unicamente para que o homem reconheça o limbo de que é oriundo, saiba que é semelhante aos animais e não lhes é superior, e não caia no orgulho do diabo que se estimou igual a Deus.
- O sofrimento convida o homem a pensar em si mesmo refletindo sobre sua origem e a apreender sua finitude diante da potência de Deus.
- Os próprios desejos de comer, beber, respirar e se aquecer recordam ao homem sua origem nos quatro elementos.
- O homem torna-se orgulhoso quando tenta ocultar de si mesmo essa finitude essencial, e a presença da natureza é convite a recusar o culto demasiado humano da vontade absolutamente livre.
- O homem é mais do que um animal porque possui uma alma, parte eterna de si mesmo que o torna semelhante a Deus, marca de sua proveniência divina que lhe atribui como fim a semelhança com Deus, e sem Deus a alma não é nada.
- O corpo está lá para ser servo da alma, e a alma deve governar o corpo.
- Os dez mandamentos são dados ao homem para que ele imponha à sua natureza a medida divina, pois o eterno deve governar o efêmero.
- A alma não excusa a natureza: o homem que diz assim quer minha natureza em mim não está por isso excusado, pois deve ser senhor dessa natureza.
- O Espírito Santo deve governar a alma, e o espírito do homem como alma da alma pode ser o que há de divino nele.
- Deus deu ao homem o livre-arbítrio para escolher os meios de satisfazer suas necessidades e para viver para o bem ou para o mal, mas a predestinação por Deus é posterior à escolha pessoal, o que significa que o homem está sempre comprometido e responsável.
- A razão permite reconhecer o bem e o mal, e a vontade permite escolher um ou outro, mas a razão pode ser obscurecida por uma má educação.
- A função da religião é chamar à conversão do mau, que está doente, sendo a religião apresentada por Paracelso como medicamento.
- O livre-arbítrio é dado apenas para ser negado: a liberdade reside não na independência, mas no reconhecimento da submissão necessária à vontade divina.
- A antítese do comportamento moralmente justo é Lúcifer, que acreditava poder fazer o que queria; não obedecer a Deus tornaria o homem órfão.
- O rapport da alma com o corpo deixa aberta a possibilidade da ação moral pela qual o homem é chamado a se realizar cumprindo a vontade de Deus, mas essa possibilidade como dever revela também ao homem sua finitude ao subordinar seu cumprimento a uma ordem que o ultrapassa.
- A realização da ordem querida por Deus pressupõe uma transmutação interior pela qual a proveniência do homem se subordina à origem.
- A luz natural que Deus acende não contradiz a do Espírito Santo, mas esta última revela em última instância o imperativo verdadeiro e remete, além da natureza, à potência indizível de Deus.
- Paracelso não opõe corpo e alma, mas quer pensar sua unidade, que é constitutiva da unidade entre o natural e o divino.
- O homem desdobra sua essência na vida social pelo respeito de sua proveniência e pela realização de sua destinação, e a sociedade é o lugar onde o divino pode se revelar e onde o homem tem a ocasião de se transformar e se elevar pela transmutação alquímica interior.
- A pensamento sociopolítico é estruturalmente necessário na visão de Paracelso, não por interesse circunstancial, mas porque a realidade da época serviu de causa ocasional.
- O homem torna-se aquilo para o que se volta, mas permanece sempre homem.
- A realização da ordem querida por Deus inscreve-se num panenteísmo ético aberto, no qual Paracelso sublinha simultaneamente, pela redução do dualismo, a distância e a proximidade do divino.
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