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folktale:beowulf:tolkien

J.R.R TOLKIEN

SOBRE TRADUÇÃO E PALAVRAS

A defesa de traduzir Beowulf é necessária, especialmente quando se publica uma versão em prosa de um poema métrico e artisticamente trabalhado.

  • Muitas pessoas formam opiniões sobre Beowulf após ler apenas uma tradução ou um resumo simples, como um crítico famoso que o classificou como “apenas cerveja fraca”.
  • A tradução em prosa não serve para julgar o original, mas sim como auxílio de estudo para quem não lida diretamente com a poesia.
  • Mesmo em assuntos como nomes heroicos ou crenças antigas, o uso de evidências do anglo-saxão não é seguro sem conhecimento da língua original.
  • A repetição de uma mesma palavra no original não pode ser mantida na tradução com um único termo moderno, como ocorre com “eacen”, traduzido como “robusto”, “largo”, “enorme” ou “poderoso”.
  • O termo “eacen” significa “aumentado” e carrega uma conotação de poder sobrenatural, aplicado a Beowulf, a espada do gigante ou o tesouro do dragão.
  • A expressão “eacne eardas” (moradas dos monstros) pode indicar um poder extra além do perigo natural, mas nem toda tradução literária consegue captar essas nuances.
  • Muitas palavras poéticas do inglês antigo não têm equivalentes exatos no inglês moderno, pois trazem ecos de tempos antigos além das fronteiras da história nórdica.
  • Para quem tenta ler o poema original, uma boa tradução auxilia o trabalho honesto, sem substituir o estudo essencial da gramática e do glossário.
  • O inglês antigo não é uma língua muito difícil, mas o idioma e a dicção da poesia anglo-saxônica são complexos, com métrica e convenções diferentes das modernas.
  • Várias palavras e frases aparecem raramente ou apenas uma vez, como “eoten” (gigante) e “hose” (séquito), cujo uso exato e raridade na época do poeta são incertos.
  • As dificuldades incluem o aprendizado de palavras que raramente serão úteis novamente e os compostos descritivos, estranhos aos hábitos literários atuais.
  • Exemplos de compostos poéticos incluem “sundwudu” (madeira da inundação, para navio) e “swanrad” (estrada do cisne, para mar), cuja tradução literal ou resolução em frase apresenta dilemas.
  • A expressão “onband beadurune” (desatou uma runa de batalha) tem ar antigo, sugerindo feitiços que provocavam tempestades em céu claro.
  • Para estudiosos do século XVII e XVIII, a poesia saxônica parecia um tecido de enigmas e palavras difíceis, mas o elemento de enigma não torna o verso obscuro intencionalmente.
  • O objetivo primário dos compostos era a compressão, a força da brevidade, empacotando cor pictórica e emocional dentro de uma métrica sonora lenta.
  • A tradução de Clark Hall, embora útil, continha coloquialismos desnecessários (“montes de rixas”) e termos inadequados (“réptil” para dragão, “gemas artísticas brilhantes”).
  • A revisão corrigiu esses aspectos, mas nenhuma tradução deve ser usada servilmente por quem tem acesso ao texto original.
  • A principal função de uma tradução para o estudante é fornecer um exercício de correção, não um modelo para imitação.
  • O esforço de traduzir ou melhorar uma tradução desperta a compreensão do original, sendo mais proveitoso que anotações interlineares.
  • A linguagem da tradução de Beowulf deve ser literária e tradicional, pois a dicção do poema já era arcaica e artificial na época em que foi feito.
  • Palavras como “beorn” (guerreiro, originalmente “urso”) e “freca” (lobo, “ávido”) eram poéticas e nunca fizeram parte da fala coloquial, sobrevivendo por mais de mil anos em verso aliterativo.
  • Evitar a linguagem trivial atual é necessário para não deturpar o estilo do autor, preferindo-se “golpear” a “bater”, “discurso” a “papo”, “convidados” a “visitantes”.
  • O defeito oposto, usar palavras apenas por serem antigas ou obsoletas, também deve ser evitado; os termos escolhidos devem permanecer em uso literário entre pessoas educadas.
  • A falácia etimológica é enganosa: “wann” não é “pálido” mas “escuro”; “mod” não é “humor” mas “espírito”; “burg” não é “distrito” mas “lugar forte”; “ealdor” não é “vereador” mas “príncipe”.
  • A variação de sinônimos no inglês antigo para “homem” (como beorn, ceorl, freca, guma, hæleð, leod, rinc, secg, wer) é difícil de igualar em inglês moderno, mesmo com uma lista extensa.
  • Não há necessidade de evitar palavras de cavalaria como “cavaleiros”, “escudeiros”, “cortes” e “príncipes”, pois os homens dessas lendas eram concebidos como reis de cortes cavalheirescas.
  • A tradução de compostos poéticos exige hesitação entre nomear o objeto (como “harpa” para “gomen-wudu”) ou resolvê-lo em uma frase (como “madeira da alegria”).
  • Compostos prosaicos (como “mundbora”) podem ser traduzidos diretamente por “protetor” ou “patrono”; os intermediários (como “heals-beag” – colar de pescoço) permitem equivalentes compostos em inglês moderno.
  • Os compostos poéticos ou “kenningar” (como “swanrad”, “beadoleoma”, “woruldcandel”, “goldwine”, “banhus”) oferecem uma descrição imaginativa e devem ser preservados, não meramente substituídos pelo nome simples.
  • Expressões como “banhus” (casa de ossos) não significavam apenas “corpo”, mas evocavam a alma presa na carne, como um pássaro em gaiola ou vapor em caldeirão.
  • O poeta via os homens bravos sob o céu, na terra ilhada cercada pelos mares sem fim e pelas trevas exteriores, suportando os breves dias da vida até a hora do destino.
  • A mágica irrecuperável da poesia inglesa antiga está em frases breves, toques leves, palavras curtas que ressoam como cordas de harpa, despertando sentimento profundo e visão pungente.
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