folktale:calvino:fabulas:antologias
Antologias Folclóricas
CALVINO, Italo. Fábulas italianas. São Paulo: Companhia Digital, 2012.
A distribuição geográfica do trabalho dos folcloristas na Itália é bastante desigual, com algumas regiões oferecendo uma mina de material e outras quase nada.
- Coletâneas abundantes e benfeitas existem sobretudo de duas regiões: Toscana e Sicília.
- As duas antologias mais belas de toda a Itália são as “Sessanta novelle popolari montalesi” de Gherardo Nerucci e as “Fiabe, novelle e racconti popolari siciliani” de Giuseppe Pitrè, sendo o primeiro um livro de um escritor e o outro a obra de um cientista.
- Ambos os livros representam um ótimo possível de restituição no papel da arte de narrar oralmente, sendo belos textos quase desconhecidos da literatura italiana.
A obra de Giuseppe Pitrè e a protagonista Agatuzza Messia
- Os quatro volumes de “Fiabe, novelle e racconti popolari siciliani” contêm trezentas narrações e cem variantes de todas as províncias da Sicília, colocadas no papel por Giuseppe Pitrè e pela vasta equipe de coletores dirigida por ele.
- Surpreende a proporção de peças notáveis, produtos de uma tecelagem narrativa finíssima, nas quais se colocam diante de personalidades de narradoras e narradores bem distintos, quase sempre registrados com nome, sobrenome, idade e profissão.
- Foi Cocchiara quem estabeleceu o paralelo entre Verga e Pitrè, que contemporaneamente apuravam os ouvidos para escutar pescadores e comadres, embora com intenções bem diferentes.
- A protagonista da coletânea de Pitrè é uma velha narradora analfabeta, Agatuzza Messia, “costureira de edredons no Borgo (bairro de Palermo) no largo Celso Negro, no 8”, e antiga empregada na casa de Pitrè.
- A narrativa de Messia é cheia de cores, de natureza, de objetos, faz o maravilhoso nascer frequentemente de um dado realista, e está sempre pronta a movimentar personagens femininas ativas e corajosas.
- Não se apresenta nela a nota do sofrimento amoroso, predileção de boa parte da fabulística mediterrânea desde seu mais antigo testemunho escrito, a fábula “grecânica” de “O Amor e Psique” relatada em “O asno de ouro” de Apuleio (século II d.C.).
A fábula toscana e a obra de Gherardo Nerucci
- A fábula toscana demonstra ser um território aberto aos influxos mais diversos, um fruto mais “culto” e atualizado, sendo Montale, nas cercanias de Pistoia, um típico “lugar de conservação” que funcionava como apagador para todas as histórias.
- Nas “Sessanta novelle popolari montalesi” de Gherardo Nerucci, um certo “Pietro de Canestrino, operário” oferece o mais ariostesco conto já ditado pela boca de um homem do povo, com descrições de jardins e palácios que incluem uma lista de famosas beldades do passado introduzidas sob a forma de estátua.
- A descrição do palácio da rainha inclui: “[…] e essas estátuas representavam tantas mulheres famosas, companheiras no trajar mas diferentes no semblante, e eram Lucrécia de Roma, Isabela de Ferrara, Elisabete e Leonora de Mântua, Varisila Veronese, de belo aspecto e feições raras; a sexta, Diana de Regno Morese e Terra Luba, a mais renomada pela beleza na Espanha, França, Itália, Inglaterra e Áustria e mais sublime pelo sangue real […]”.
- Nerucci não se ocupava de novelística comparada, e já nas notas de Imbriani se verificam citações de “fontes” literárias para as montaleses, em vez de listas de variantes folclóricas.
- Há casos de “descida” da literatura ao folclore em época não distante, como “Paulino de Perúgia”, contado por Luisa, viúva de Ginanni, que repete a trama do “Andreuccio da Perugia” de Boccaccio.
- O nome de Boccaccio aproxima de uma definição do espírito com que se contam histórias em Montale Pistoiense, o nó entre fábula e novela, o momento da passagem entre narrativa de maravilhas mágicas e relato de acontecimentos individuais.
- Luisa, viúva de Ginanni, é a narradora predileta de Nerucci, sabendo três quartos da coletânea e representando as histórias com imagens sugestivas.
- O livro de Nerucci apresenta um vernáculo reelaborado na página, tornado homogêneo, trabalhado pela pena de um escritor, preservando o tom oral e o característico estilo narrativo montalês, sem pressa nem economia, cheio de detalhes a ponto de se tornar verboso.
As demais regiões italianas
- Ao lado da Toscana e da Sicília, está Veneza, ou toda a área dos dialetos vênetos, com o laborioso pesquisador Domenico Giuseppe Bernoni, que dedicou algumas de suas várias obras (em 1873, 1875 e 1893) às fábulas.
- Nas fábulas vênetas, impalpavelmente se respira Veneza, seus espaços, sua luz, e são todos de certo modo aquáticos, com mar, canais, viagens, navios ou o levante.
- Bolonha, cuja tradição recebeu uma transfusão de sangue napolitano por via literária, teve na segunda metade do século XIX uma coletânea boa de Carolina Coronedi-Berti, num dialeto pleno de sabor, com uma imaginação um pouco alucinada.
- A coletânea romanesca de Gigi Zanazzo apresenta a fábula como pretexto para um divertimento verbal à base de modos de expressão burlescos e insinuantes.
- A região dos Abruzos tem duas antologias bastante ricas: os dois volumes de Gennaro Finamore com textos dialetais transcritos com cuidado glotológico, e o volume de Antonio de Nino, reescrito em italiano com intenção de estilo jocoso e pueril.
- Oito “cunti” dentre os mais bem narrados estão no livro de Pietro Pellizzari, “Fiabe e canzoni popolari del contado di Maglie in terra d’Otranto”, com uma linguagem espirituosa e um prazer pela deformação grotesca, como no belíssimo “Os cinco desenfreados”.
- Em Palmi di Calabria, Letterio di Francia transcreveu uma coletânea (publicada em 1929 e 1931) que apresenta as contraposições mais ricas e precisas, com uma imaginação densa, colorida e complicada, destacando-se a narradora Annunziata Palermo.
- Fora dessas regiões “privilegiadas”, o material se torna escasso, com pouquíssimo do Piemonte, pouco da Lombardia, pouquíssimo da Ligúria, uma dezena de peças da região das Marcas narradas de forma alegre e vivaz, e quase nada da Úmbria e do Molise.
- A lacuna mais grave é a de uma boa coletânea napolitana ou da Campânia, sabendo-se pouco do terreno que alimentou Basile e Boccaccio.
- A Sardenha não possui grandes coletâneas, mas o modo de narrar triste, descarnado e pouco comunicativo, embora sempre com uma lâmina de ironia, parece característico da ilha.
folktale/calvino/fabulas/antologias.txt · Last modified: by 127.0.0.1
