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Sete frascos de lágrimas
CALVINO, Italo. Mundo escrito e não escrito. São Paulo: Companhia Digital, 2014.
Carducci evocava as fábulas que sua avó lhe contava com versos que soam como um genuíno testemunho do folclore toscano, nos quais o choro da narrativa popular pode ser avaliado em termos quantitativos.
- Os versos citados são: “Sete frascos de lágrimas enchi/ sete longos anos, de lágrimas amargas:/ tu dormes aos meus gritos sem esperança,/ e o galo canta, e não queres despertar.”
- Na lógica especial da fábula, cada objeto tem sua eficácia prática: uma determinada quantidade de lágrimas deveria servir para obter o ressarcimento da dor que foi causa das lágrimas, por exemplo, ressuscitar a pessoa amada.
- No barroco napolitano do Seiscentos, o “Pentameron” de Gian Battista Basile se inicia com a história da princesa Zosa, condenada (por contrapasso de uma risada inoportuna) a encher de lágrimas uma ânfora em três dias para conseguir ressuscitar o príncipe.
- A Gata Borralheira dos Irmãos Grimm (Aschenputtel) se diferencia daquela de Charles Perrault quando borrifa de lágrimas o túmulo da mãe, de onde nasce uma árvore mágica que realiza todos os desejos da menina abandonada.
- O famoso folclorista russo Vladimir Propp (“Edipo alla luce del folclore”, Einaudi, 1975) estudou o tema da árvore que desponta do túmulo, associando-o às tradições do pranto ritual.
O pranto como instituição ritual e a análise de Darwin
- O alívio trazido pelo pranto se estende ao universo a fim de restabelecer uma imagem de harmonia, e já nos mitos clássicos a copiosidade das lágrimas tinha essa função, como em Ovídio, que conta histórias de ninfas que choram tanto a ponto de se transformar em fontes.
- Nas fábulas, o choro é desvalorizado como fraqueza quando aquele que não chora (o Pequeno Polegar, João) é quem age para encontrar as soluções, mas também é valorizado como emblema de sensibilidade moral, piedade e bondade.
- Em Perrault, a mãe chora quando pensa que deve abandonar os filhos no bosque, e também chora a mulher do Ogro ao pensar na sorte que caberá aos infelizes que baterem à sua porta.
- Darwin notou muito bem em sua concepção estritamente biológica (veja-se o esplêndido volume “A expressão das emoções no homem e nos animais”, Boringhieri, 1981) que a origem do choro é explicada em dois níveis: filogeneticamente, como um dispositivo de secreção para proteger a córnea, e ontogeneticamente, como o hábito dos recém-nascidos de gritar em situações de desconforto.
O aspecto cultural do choro segundo Mauss e Dumas
- O grande etnólogo Marcel Mauss (“Il linguaggio dei sentimenti”, Adelphi, 1975) afirma: “As lágrimas, e toda espécie de expressão oral dos sentimentos, não são fenômenos exclusivamente psicológicos ou fisiológicos, mas fenômenos sociais, caracterizados sobretudo pelo signo da não espontaneidade e da mais perfeita obrigação”.
- Mauss demonstra em que medida o choro é uma linguagem elaborada e codificada, mas “o convencionalismo e a regularidade não excluem absolutamente a sinceridade. Como, de resto, em nossos costumes funerários. Tudo é ao mesmo tempo social, compulsório, e também violento e natural; busca e expressão da dor seguem juntas”.
- O ensaio de Mauss partia de um estudo de Georges Dumas que, no “Traité de psychologie” (1923), havia descrito pela primeira vez “a linguagem das lágrimas”.
- Uma interessante observação de Dumas é que os olhos se enchem de lágrimas quando uma forte emoção não pode traduzir-se em movimentos, em gestos, em ação, o que explica as lágrimas de raiva e de impotência.
- Segundo Darwin, o choro não é específico dos seres humanos; haveria ao menos um animal que chora de verdade: o elefante em cativeiro, quando não pode liberar a energia de sua enorme massa muscular.
As lágrimas na literatura e o exemplo de Michel Strogoff
- Na corte dos feácios, Ulisses ouve um aedo que canta suas travessias (como se a “Odisseia” já estivesse em circulação), e eis que o herói inabalável se desfaz em soluços, definindo bem o mecanismo emotivo: comovemo-nos porque nos identificamos com a história narrada.
- O triunfo do lacrimoso sentimental se inicia no século XVIII, com os romances de Richardson, mas essa época foi a mesma em que as lágrimas de jovens desventuradas se tornaram estímulo de prazer perverso nas fantasmagorias de Sade.
- Tem-se o exemplo de “Coração”, de De Amicis, escrito com o propósito de educar para a comoção um povo de cínicos, sem pensar que o risco pior é ver-se entre cínicos lacrimosos.
- O exemplo mais acabado de fenomenologia do pranto na literatura se encontra no “Michel Strogoff”, de Jules Verne, no qual o emissário do tsar é capturado pelos tártaros.
- Ao ver a mãe obrigada a assistir ao suplício, os olhos de Strogoff tinham se enchido de lágrimas, as quais serviram de proteção à ardência da lâmina que o cegaria, salvando-lhe a vista.
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