User Tools

Site Tools


folktale:calvino:princesas

Sete Princesas

CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia Digital, 2012.

  • Pertencer a uma sociedade polígama em vez de monogâmica certamente muda muitas coisas na estrutura narrativa, abrindo possibilidades ignoradas pelo Ocidente.
    • O motivo do herói que vê um retrato de sua bela e se apaixona instantaneamente é muito difundido nas fábulas ocidentais, mas no Oriente ele aparece multiplicado.
    • Em um poema persa do século XII, o rei Bahram vê os sete retratos de sete princesas e se apaixona por todas as sete de uma só vez.
    • Cada princesa é filha de um soberano de um dos sete continentes; Bahram as pede em casamento uma após a outra e as desposa.
    • Mandam construir sete pavilhões, cada um de uma cor diferente e “construído segundo a natureza dos sete planetas”.
    • A cada princesa dos sete continentes corresponderão um pavilhão, uma cor, um planeta e um dia da semana; o rei fará uma visita semanal a cada esposa e ouvirá de sua boca um relato.
    • As vestes do rei terão a cor do planeta daquele dia, e as histórias contadas pelas esposas terão a tonalidade da cor e as virtudes do planeta correspondente.
    • Os sete contos são fábulas cheias de maravilhas no gênero das Mil e Uma Noites, mas cada um tem uma finalidade ética, nem sempre reconhecível sob a cobertura simbólica.
    • O ciclo semanal do rei-esposo é um reconhecimento das virtudes morais como equivalente humano das propriedades do cosmos, configurando uma poligamia carnal e espiritual do único rei-macho cujo poder se exerce sobre suas numerosas esposas-servas, sendo o papel dos sexos irreversível na tradição.
  • Nas fábulas de iniciação orientais de estrutura poligâmica, o herói ganha uma nova esposa a cada prova superada, e essas esposas sucessivas se somam como tesouros de experiência e sabedoria, ao contrário do esquema ocidental que reserva as núpcias para o fim ou as submete a perdas e reencontros.
    • No esquema típico da fábula de iniciação ocidental, o herói passa por diferentes provas para merecer a mão da moça amada e um trono real, guardando as núpcias para o final.
    • Se as núpcias ocorrem no curso do relato ocidental, elas precedem novas vicissitudes, perseguições ou encantamentos, durante os quais a esposa (ou o esposo) é primeiro perdida e depois reencontrada.
    • Na fábula oriental em questão, o herói, a cada prova superada, ganha uma nova esposa, mais alta que a anterior.
    • Essas esposas sucessivas não se excluem mutuamente, mas se somam como os tesouros de experiência e sabedoria acumulados ao longo da vida.
  • Trata-se de um clássico da literatura persa medieval, Nezâmi, e de sua obra As Sete Idolias, cuja abordagem permanece uma experiência aproximativa para os profanos devido ao parfum lointano que chega por meio de traduções e à dificuldade de situar a obra em um contexto desconhecido.
    • O poema As Sete Idolias (Haft Peikar, literalmente “as sete efígies”), datado de cerca de 1200, é um dos cinco poemas escritos por Nezâmi (1141-1204), nascido e morto em Gandjé, no Azerbaijão, muçulmano sunita.
    • Nezâmi conta a história de um soberano do século V, Bahram V, da dinastia sassânida, em uma interpretação mística islâmica do passado da Pérsia zoroastriana.
    • O poema celebra ao mesmo tempo a vontade divina, à qual o homem deve se entregar inteiramente, e as diversas potencialidades do mundo terrestre, com ressonâncias pagãs, gnósticas e também cristãs (evocando o grande taumaturgo Isu, isto é, Jesus).
  • Antes e depois das sete fábulas narradas nos sete pavilhões, o poema ilustra a vida do príncipe, sua educação, suas caçadas, guerras, a construção do castelo, festas, amores, constituindo um retrato do soberano ideal que funde a antiga tradição iraniana do “rei sagrado” e a tradição islâmica do sultão piedoso.
    • O poema inclui caçadas ao leão, ao onagro e ao dragão, guerras contra os chineses do Grande Khan e amores até mesmo servis.
    • A ideia ocidental de que um soberano ideal deveria ter um reino próspero e súditos felizes é considerada um preconceito da mentalidade tacanha.
    • O rei pode ser um prodígio de todas as perfeições sem que seu reino deixe de sofrer as mais cruéis injustiças nas mãos de ministros pérfidos e ávidos.
    • Como o rei goza da graça celeste, chegará o momento em que a triste realidade de seu reino se desvelará a seus olhos.
    • Ele punirá o infame vizir e dará satisfação a quem vier lhe contar as injustiças sofridas, resultando nas “histórias das pessoas ofendidas”, também em número de sete, mas menos atraentes.
    • Restabelecida a justiça, Bahram reorganiza o exército e põe em debandada o Grande Khan da China.
    • Tendo cumprido seu destino, ele desaparece literalmente em uma caverna onde entrara perseguindo o onagro que caçava.
    • O rei é, em suma, o “Homem por excelência”, importando a harmonia cósmica que se encarna nele, harmonia que se refletirá até certo ponto sobre seu reino e súditos, mas que reside sobretudo em sua pessoa.
    • Observa-se que ainda hoje existem regimes que pretendem ser dignos de louvor por si mesmos, independentemente de as pessoas viverem muito mal neles.
  • As Sete Idolias funde em si dois tipos de relatos “maravilhosos” orientais: o épico-glorioso do Livro dos Reis de Firdûsi (poeta persa do século X que inspirou Nezâmi) e o da novela, que conduzirá, a partir de antigos compêndios persas, às Mil e Uma Noites.
    • O prazer do leitor é mais satisfeito pela segunda veia, recomendando-se começar pelas sete fábulas e depois remontar ao quadro do relato.
    • O quadro também é rico em encantamentos fantásticos e finezas eróticas, como na passagem: “O pé do rei sobre o quadril dessa sedutora se insinuava entre a seda e o brocado”.
    • Nas fábulas, o sentimento cósmico-religioso atinge altos cumes, como na história da viagem realizada simultaneamente por um homem que se entrega à vontade de Deus e por um homem que quer explicar racionalmente todos os fenômenos.
    • A caracterização psicológica dos dois homens é tão persuasiva que é impossível não ficar do lado do primeiro, que não perde de vista toda a complexidade do conjunto, enquanto o segundo é um pedante malévolo e mesquinho.
    • A moral a ser tirada é que a maneira de viver, em harmonia com a própria verdade, conta mais do que a posição filosófica.
  • É impossível separar as diferentes tradições que convergem em As Sete Idolias, pois a linguagem vertiginosamente figurada de Nezâmi as absorve em seu cadinho, desdobrando em cada página uma folha dourada incrustada de metáforas que se encaixam umas nas outras como pedras preciosas em uma joia faustosa, conferindo unidade estilística ao livro.
    • A unidade estilística se estende também às partes introdutórias eruditas e místicas.
    • Entre estas, recorda-se a visão de Maomé que sobe ao céu montado em um cavalo-anjo, até o momento em que as três dimensões desaparecem e “o Profeta viu Deus quando não havia espaço, ouviu palavras quando não havia lábios nem som”.
    • Os acabamentos dessa tapeçaria verbal são tão luxuriantes que todos os paralelos com as literaturas ocidentais, atravessando a plenitude fantástica do Renascimento de Ariosto e Shakespeare, chegam naturalmente ao barroco mais carregado.
    • O Adônis de Marino e o Pentamerão de Basile parecem de uma sobriedade lacônica em comparação com a proliferação de metáforas que recobrem densamente o compêndio de Nezâmi, desenvolvendo o germe de um relato a cada imagem.
  • Esse universo metafórico possui características e constantes próprias, como o onagro (asno selvagem do planalto iraniano) que, nos versos de Nezâmi, reveste a dignidade dos animais heráldicos mais nobres, aparecendo a cada página.
    • Nas caçadas do príncipe Bahram, os onagros são a presa mais cobiçada e difícil, frequentemente citados ao lado dos leões como adversários que medem a força e a destreza do caçador.
    • Nas metáforas, o onagro é imagem de força, de força sexual viril, de presa amorosa (o onagro presa do leão), de beleza feminina e, em geral, de juventude.
    • Como parece que sua carne é deliciosa, aprende-se que “jovens garotas de olhos de onagro assavam no fogo coxas de onagro”.
  • Outro elemento de metáfora polivalente é o cipreste, evocado para indicar a robustez viril e como símbolo fálico, mas também como modelo de beleza feminina (a alta estatura sendo muito apreciada), associado às cabeleiras das mulheres, às águas correntes e ao sol da manhã.
    • Quase todas as funções metafóricas do cipreste também valem para a vela acesa, e muitas outras.
    • O delírio das semelhanças é tal que qualquer coisa pode significar qualquer outra.
  • Nos trechos de bravura feitos de metáforas em sequência, destaca-se uma descrição do inverno na qual, a uma série de imagens geladas (“a violência do frio tinha tornado a água espada e a espada água”), seguem-se uma apoteose do fogo e uma descrição simétrica da primavera, onde a vegetação se anima, como em “a brisa se deu em garantia ao manjericão”.
    • A nota explica sobre a imagem gelada: as espadas dos raios solares se tornam chuva e a chuva se torna espadas de relâmpagos.
  • As cores que dominam nas sete fábulas são também catalisadoras de metáforas, utilizando-se o sistema mais simples de vestir todos os personagens com aquela cor, como na fábula negra.
    • Na fábula negra, conta-se a história de uma dama que se vestia sempre de negro porque fora serva de um rei que só usava preto porque encontrara um estrangeiro vestido de negro que lhe contara a história de uma região da China onde só havia pessoas vestidas de negro.
    • Em outros casos, o vínculo é apenas simbólico, fundado nos significados atribuídos a cada cor: o amarelo é a cor do sol e, portanto, dos reis, então o relato amarelo falará de um rei e culminará em uma sedução comparada a forçar um estojo que encerra ouro.
  • O relato branco é inesperadamente o mais erótico de todos, mergulhado em uma luz leitosa onde se veem “jovens garotas de seios de jacinto e pernas de prata”, mas é também o relato da castidade, envolvendo um jovem casto cujo jardim é invadido por belas jovens dançantes.
    • Duas das jovens, após açoitarem o jovem por julgarem ser um ladrão (não se excluindo certa complacência masoquista), reconhecem-no como seu mestre, beijam suas mãos e pés e o convidam a escolher a preferida.
    • O jovem espia as jovens se banhando, faz sua escolha e, sempre com a ajuda das duas guardiãs ou “mulheres-policiais” que guiarão seus movimentos, encontra-se com a favorita.
    • No entanto, durante esse encontro e nos seguintes, algo sempre acontece no momento culminante que impede o abraço: ou o chão do aposento desaba, ou um gato cai sobre os dois amantes enlaçados, ou uma abóbora cai de uma treliça e o barulho da queda faz o jovem perder toda a inspiração amorosa.
    • O jovem compreende que deve primeiro casar-se com a jovem porque Alá não quer que ele cometa pecado.
  • O motivo do abraço interrompido de modo repetido é muito difundido mesmo nos relatos populares ocidentais, mas sempre com uma interpretação grotesca, enquanto no mundo de Nezâmi é um mundo visionário de tensão e tremor erótico, sublimado e rico de claro-escuros psicológicos.
    • Em um cunto de Basile, os imprevistos que se sucedem se assemelham muito aos de Nezâmi, mas resulta um quadro infernal de miséria humana, sexofobia e escatologia.
    • O mundo de Nezâmi é um mundo visionário de tensão e tremor erótico, ao mesmo tempo sublimado e rico de claro-escuros psicológicos.
    • Nesse mundo, o sonho polígamo de um paraíso de huris alterna com a realidade íntima de um casal, e a licença desenfreada da linguagem figurada introduz os tormentos da inexperiência juvenil.
folktale/calvino/princesas.txt · Last modified: by 127.0.0.1