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Sartapek

Jean-Claude Carrière. Le Cercle des menteurs. Contes philosophiques du monde entier.

Farid Uddin Attar conta, em O Livro Divino, a história de um jovem muito inteligente e culto que se apaixonou por uma princesa invisível, filha do rei dos gênios. Ele sonhava constantemente com ela, sem nunca tê-la visto.

O pai do jovem aconselhou-o a procurar um sábio hindu, que conhecia os segredos do mundo, a servi-lo, fingindo ser surdo e mudo, e a observar atentamente todas as suas práticas. Talvez ele aprendesse algum segredo de suma importância.

O jovem foi até o sábio. Acendia-lhe o fogo, trazia-lhe água, escovava-lhe os cabelos e preparava-lhe a cama com respeito. Várias vezes, o sábio o colocou à prova para se certificar de sua deficiência. O jovem resistiu até mesmo à picada de um alfinete que seu mestre lhe cravou no pé, enquanto dormia. Sob o impacto da dor, ele abriu a boca e pareceu gritar, mas nenhum som saiu de sua boca.

Dez anos se passaram. O jovem aprendia aos poucos todos os segredos do sábio e os anotava — com exceção daqueles que estavam guardados em um baú cuidadosamente trancado. E incessantemente, como antes, ele pensava na princesa sem rosto, cuja presença sentia ao seu redor, sem nunca vê-la.

Um dia, o rei adoeceu. Algo se movia sem parar em sua cabeça e os médicos não entendiam nada. O sábio foi chamado. Ele dirigiu-se ao palácio com seu assistente, que passava por surdo e mudo. A cabeça do rei apresentava um enorme inchaço que parecia esconder um animal.

O mestre raspou o cabelo do rei, fez uma incisão no tumor, encontrou a fera (que parecia uma espécie de caranguejo) e começou a retirá-la com uma pinça. Mas quanto mais ele enfiava a pinça, mais a fera se agarrava à cabeça do rei, que gritava de dor.

De repente, não aguentando mais, o aluno exclamou, após dez anos de silêncio:

— Mestre, cuidado! Com sua pinça, você só está piorando o aperto dessa fera! Queime as costas dela, e ela retirará imediatamente suas patas!

Ao ouvir essas palavras, o sábio morreu de susto, ali mesmo, na hora. Impossível trazê-lo de volta à vida. Seu aluno então começou, delicadamente, a queimar as costas do animal com um pedaço de carvão. Ele soltou a presa. Retiraram-no.

O rei, recuperado, concedeu ao jovem o título hindu de Sartapek e mil presentes. O jovem também herdou os bens de seu mestre.

Sua primeira preocupação foi abrir o baú. Lá encontrou a descrição do rosto da princesa invisível, com quem tanto sonhara. Desenhou uma estatueta representando-a e recitou encantamentos mágicos. Quarenta dias depois, ela apareceu para ele.

Sartapek não encontrava palavras para descrevê-la. No entanto, percebia que ela havia saído de dentro dele mesmo.

— Como pudeste penetrar em mim? — perguntou-lhe ele, surpreso.

— Desde o primeiro dia — respondeu ela —, estou contigo. Sou a tua alma. O que procuras com tanto ardor não é outro senão tu mesmo. Olha bem, e verás que o universo inteiro não é outro senão tu mesmo. Eu sou, de fato, a tua alma, ó meu amigo. Agora sabes que o que procuras só o encontrarás em ti mesmo. Não sejas preguiçoso nessa tarefa. Se procurares bem, descobrirás que tu és tudo.

— E por que devo procurar em mim mesmo? perguntou o jovem.

— Porque te perdeste.

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