Túmulo do segredo
Jean-Claude Carrière. Le Cercle des menteurs. Contes philosophiques du monde entier.
Quando o universo foi criado, imenso e resplandecente, percebeu-se que esse universo guardava um segredo que compartilhava com a natureza humana, mas um segredo tão perigoso de se conhecer que poderia destruir todas as coisas — ou seja, fazer desaparecer em um instante tudo o que acabara de surgir à existência.
Era preciso, portanto, esconder esse segredo, da forma mais cuidadosa e profunda possível. Os deuses indianos reuniram-se e questionaram-se: onde encontrar o melhor esconderijo possível?
Shiva, o grande destruidor, assegurou que o melhor local era no fundo de um poço que ele conhecia, bem perto de um famoso templo. Ninguém iria procurar o segredo no fundo desse poço.
Os outros deuses discordaram dele. Os arredores do templo eram muito movimentados, e um peregrino poderia cair no poço por descuido.
Krishna, por sua vez, propôs esconder o segredo na manteiga (ele era um grande apreciador de manteiga clarificada). Mas a manteiga pode derreter e revelar o segredo, disseram os outros. A ideia foi rejeitada — Na minha estátua, disse então o temível Jagannath. É preciso esconder o segredo na minha estátua. Ninguém ousará procurá-lo lá, pois eu aterrorizo a todos.
Mas esse deus já estava envelhecendo e temiam que sua estátua se desintegrasse, se quebrasse.
Ganesha, o deus prestativo, com cabeça de elefante, chegou a propor esconder o segredo na Lua.
Mas os outros deuses viam a espécie humana tão louca, tão agitada, que pensavam: os homens talvez cheguem à Lua, um dia. Eles são capazes disso. — Exatamente, disse então Vishnu, e se escondêssemos o segredo no coração dos homens?
Todos os outros deuses acharam a ideia excelente. De comum acordo, eles enterraram o grande segredo no mais profundo de nós mesmos.
Ele ainda está lá? As opiniões, a esse respeito, continuam divididas. Parece, de qualquer forma, que até mesmo os deuses o tenham esquecido.
