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4 Moralidade

COOPER, J. C. Fairy Tales: Allegories of the Inner Life. Wellingborough: Aquarian Press, 1983.

4. Moralidade e tabu

1. Apesar das divergências sobre a moralidade das fadas, os contos geralmente estabelecem uma distinção rigorosa entre verdade e mentira, justiça e perversidade, possivelmente herdada das exigências impostas aos soberanos míticos ou do dualismo religioso persa, encontrando paralelos nos confrontos entre forças divinas e adversárias das tradições indianas, gregas e escandinavas.

2. A oposição inflexível entre decisões recompensadas e faltas punidas estabelece uma ordem moral sem ambiguidades, enquanto a dimensão interior dessas escolhas proporciona experiências capazes de desenvolver a compreensão, integrar forças conflitantes e promover a conciliação dos opostos e a evolução espiritual.

3. O estímulo proporcionado pelos contos de fadas fortalece a confiança dos frágeis diante dos poderosos e assegura a possibilidade de superação mediante forças benéficas, exprimindo na transformação do patinho feio em cisne a passagem do desprezo ao reconhecimento.

4. Mesmo num universo livre das limitações temporais, a paz e a felicidade dependem do cumprimento de condições e promessas, de modo que a fidelidade à palavra dada e o respeito às proibições constituem fundamentos comuns da ética e dos contos infantis.

5. O tabu constitui a dimensão negativa da magia, impondo a abstenção diante de perigos religiosos ou profanos, e organiza numerosos ciclos narrativos em torno de quartos, perguntas, objetos e nomes proibidos.

6. A proibição de contemplar o cônjuge encantado em sua nudez ou verdadeira aparência articula narrativas como as de Urvashi e Pururavas, Amor e Psiquê e Melusina, admitindo interpretações relacionadas aos ciclos luminosos, à jornada purificadora da alma e a costumes matrimoniais que restringiam a exposição dos esposos, enquanto sua transgressão provoca separação e exige uma busca para restaurar a união.

7. Certos tabus preservam a ligação de um personagem com uma condição anterior, cuja lembrança ou reativação o obriga a reassumi-la, como nas histórias de esposas animais que retornam à água ou de uniões sobrenaturais desfeitas pela morte de um animal proibido, tornando necessária uma posterior recuperação da pessoa amada.

Nomes tabu

1. Os contos sobre nomes secretos frequentemente apresentam uma jovem obrigada a demonstrar uma capacidade extraordinária de fiar, recebendo auxílio de um ser sobrenatural que exige sua posse caso ela não descubra seu nome, até que uma revelação involuntária permite romper o pacto, embora algumas versões acrescentem consequências desastrosas ao desaparecimento do trabalho mágico.

2. As variantes escocesas, suecas, húngaras e de outras regiões conservam o motivo da descoberta acidental do nome do auxiliar sobrenatural, combinando-o por vezes com a trajetória de Cinderela ou com a intervenção de fiandeiras deformadas cujo aspecto convence o rei a dispensar definitivamente a esposa desse trabalho.

O quarto proibido

1. O quarto ou a porta proibida constitui um antigo motivo narrativo, geralmente situado num palácio encantado e repleto de riquezas, cuja abertura revela horrores comparáveis aos males libertados por Pandora, mas conduz finalmente à vitória dos protagonistas e à conquista dos tesouros do proprietário perverso.

2. As proibições de acesso podem derivar de cerimônias de iniciação e da separação ritual entre os sexos, nas quais cabanas, templos, cavernas e outros lugares sagrados eram reservados aos iniciados e sua entrada indevida expunha os transgressores a perigos e punições extraordinárias.

Barba Azul

1. Barba Azul reúne o palácio encantado, os tesouros e a transgressão de uma proibição sob o domínio de uma figura dotada de atributos mágicos ou demoníacos, articulando o motivo iniciático da tentação à advertência contra a curiosidade superficial, os desejos irrefletidos e a procura de conhecimentos ou experiências para os quais ainda não existe suficiente preparação ética e espiritual.

2. A narrativa pode preservar antigas provas rituais de maturidade e casamento, nas quais força, inteligência e engenho demonstravam a aptidão dos participantes, encontrando paralelo nos contos em que a verdadeira noiva se distingue da impostora pela capacidade de resolver um enigma.

3. As interpretações de Barba Azul oscilam entre a identificação com o sol que destrói a aurora e sua compreensão como personificação da morte e senhor do mundo inferior, sendo a primeira leitura limitada pela sobrevivência da noiva e pela associação do Indra de barba azul às tempestades e chuvas.

4. A transgressão do tabu e a prática do mal acarretam punições sobrenaturais, podendo o culpado pronunciar involuntariamente a própria sentença, enquanto palavras e propostas irrefletidas obrigam seus autores a enfrentar os perigos que eles mesmos formularam.

A concessão de desejos

1. A realização de desejos depende de numerosos objetos e poderes mágicos, entre os quais se destaca a varinha como transmissora da força sobrenatural, aproximando-se também da eficácia atribuída à oração, mas exigindo prudência porque a capacidade de transportar, transformar e produzir acontecimentos pode converter desejos absurdos em desastres.

2. A dimensão moral da concessão de desejos censura a tentativa egoísta de submeter o mundo aos caprichos pessoais e exige consideração pelas necessidades alheias, pelas leis naturais e pelo valor das coisas tal como existem.

3. As fadas punem severamente a avareza e o roubo e recompensam a virtude, de modo que a escolha modesta conduz aos maiores benefícios, enquanto a preferência gananciosa pelas aparências mais valiosas resulta na pior recompensa, afirmando a superioridade da humildade e da abnegação.

4. A cortesia, a compaixão e a disponibilidade para ajudar seres humanos, animais, plantas e até objetos constituem condições fundamentais para receber benefícios sobrenaturais, como demonstram as histórias em que protagonistas prestativas conquistam beleza e riquezas, enquanto suas rivais, ao recusarem auxílio e escolherem por cobiça, recebem deformidade, servidão ou presentes ameaçadores.

5. A ingratidão também provoca punições, como na narrativa do Pentamerão em que uma jovem abandona a fada que a criou sem agradecer nem se despedir e, por isso, tem o rosto transformado no de uma cabra.

6. A libertação desse encantamento e a recuperação da aparência humana dependem da aprendizagem efetiva da lição imposta pela fada.

7. As promessas irrefletidas dirigidas a seres sobrenaturais frequentemente comprometem o primeiro filho, o filho mais amado ou alguém ainda desconhecido por quem faz o pacto, preservando possíveis relações com antigos sacrifícios humanos destinados a consagrar construções e outras realizações coletivas.

8. O propósito moral de numerosos contos, especialmente em suas adaptações teatrais, consiste em afirmar a superioridade do amor sobre os encantamentos e sua capacidade de vencer todos os obstáculos.

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