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CONTOS, INTERPRETAÇÕES FREUDIANAS
FAIVRE, Antoine. Les contes de Grimm: mythe et initiation. Paris: Lettres modernes, 1979.
- Para a psicanálise freudiana, as imagens dos contos são primeiramente sintomas — as situações dos heróis representam dilemas psicológicos frequentemente de tipo edipiano, cuja origem reside no passado individual de quem os elaborou, reativados e enriquecidos por narradores posteriores que expressam de forma disfarçada os problemas de um inconsciente que funciona de maneira semelhante em todos os homens.
- Vários KHM foram submetidos à investigação freudiana, e uma abundante bibliografia sobre o assunto pode ser encontrada em obra recente de Bruno Bettelheim.
- A proposição que resume o estatuto freudiano da imagem: “Dize-me quais são as tuas imagens e direi qual é a tua neurose.”
- Otto Rank, um dos mais interessantes exegetas freudianos nesse domínio, tentou pouco antes de 1914 aplicar grades psicanalíticas aos contos de dois ou mais irmãos nos KHM — especialmente Os Dois Irmãos (n° 60) —, interrogando-se sobre as relações entre mito e conto com interpretações que se distinguem pelo equilíbrio e a ausência de abuso sistemático.
- Rank concorda com os Grimm em que os contos representariam os restos degradados de crenças míticas.
- Os contos cujos três personagens principais são três irmãos têm por origem, segundo Rank, um conflito familiar primitivo — a revolta dos filhos contra o pai tirânico e todo-poderoso; os sentimentos hostis e ciumentos, não podendo se expressar abertamente, se reportaram ao irmão mais velho; esse tipo de narrativa aparece, portanto, como um “romance familiar”.
- O mito heroico traduz a oposição da jovem geração contra o pai; o conto, mais tardio, adverte ao contrário contra essa revolta — o filho mais jovem não mata o pai, mas lhe dá uma satisfação de caráter compensatório.
- A concorrência entre irmãos reflete a passagem de uma ordem social fortemente patriarcal para uma organização familiar mais socializada, em que o filho mais velho apenas usurpou o papel do pai.
- O mito seria, portanto, patriarcal e amoral; o conto, social e ético — daí a importância da recompensa e da punição, do sentimento de culpa ligado ao próprio sucesso e da maior importância dos elementos materiais como a oposição entre ricos e pobres, reis e camponeses.
- No mito, um oráculo obriga o rei-pai a expor seu filho; no conto, é a pobreza que constrange o camponês a tomar essa decisão — como em João e Maria (n° 15) e muitos outros KHM.
- A obra de Bruno Bettelheim — cujo título original The Uses of Enchantment é mais fiel ao conteúdo do que o título francês Psychanalyse des contes de fées — afirma que cada conto possui múltiplas significações em grande número de níveis diferentes, e que sempre é possível descobrir, além das interpretações propostas pelo próprio autor, uma infinidade de outras interpretações pertinentes.
- Bettelheim declara: “Os contos, como todas as obras de arte, possuem uma riqueza e uma profundidade que vão muito além do que pode ser extraído deles pelo exame mais completo.”
- A propósito de Cinderela, Bettelheim critica sem rodeios a valorização exclusiva da inveja do pênis nos primeiros tempos da psicanálise: “sem dúvida porque os tratados eram escritos por homens que não queriam examinar sua própria inveja de atributos femininos.”
- A maioria dos contos estudados por Bettelheim são KHM.
- O psicólogo se debruça sobre os problemas relacionados com a luta da criança para atingir a maturidade.
- O conto apresenta a vantagem de advertir contra as consequências que ameaçam aquele que não desenvolve sua personalidade — como os irmãos mais velhos das Três Penas (n° 63), as meias-irmãs de Cinderela (n° 21) ou o lobo de Chapeuzinho Vermelho (n° 26) — sem aludir às experiências sexuais como tais, o que Bettelheim considera mais judicioso psicologicamente do que a educação sexual moderna, que se dirige unicamente ao consciente.
- A educação sexual moderna desdramatiza a sexualidade, mas ignora que a criança pode achar a sexualidade repulsiva — reação espontânea cuja função protetora tem sua importância; o conto, ao compartilhar com a criança o desgosto que a rã inspira em O Rei-Sapo (n° 1), torna-se crível e contribui para a aceitação da própria sexualidade.
- As interpretações sexuais abundantes na obra de Bettelheim visam menos encontrar a origem dos fantasmas do que descobrir nos contos um ensinamento iniciático — no sentido puramente terapêutico e pedagógico — que se dirige às crianças por intermédio do inconsciente.
- Em Branca de Neve (n° 53): a mãe pica o dedo e três gotas de sangue caem na neve — a brancura, inocência sexual, contrasta com o sangue vermelho, o desejo sexual; o conto prepara a menina para aceitar o sangramento sexual — a menstruação e a ruptura do hímen; as tentações vindas da rainha são as do sexo; Branca de Neve, vermelha como o sangue e branca como a neve, apresenta-se como ser ao mesmo tempo assexuado e erótico.
- Em A Bela Adormecida (n° 50): a escada em caracol que a heroína sobe para acessar o quartinho fatal representa caracteristicamente as experiências sexuais; o pequeno quarto trancado lembra os órgãos femininos; a chave girando na fechadura evoca o coito; os pretendentes que perecem nos espinhos evocam o despertar amoroso que ocorre antes que o corpo e a mente estejam prontos.
- Em João e Maria (n° 15): a casa de pão de mel simboliza para o inconsciente a mãe boa que dá seu corpo como alimento.
- Em O Rei-Sapo (n° 1): a bola de ouro corresponde a uma psique narcísica ainda não desenvolvida, rica de todas as suas possibilidades; a rã evoca os órgãos genitais, que podem parecer repulsivos mas se tornam belos uma vez que se descobriu a maneira conveniente de usá-los; o conto se dirige ao inconsciente da criança para ajudá-la a aceitar a forma de sexualidade que convém à sua idade.
- O propósito essencialmente pedagógico de Bettelheim o leva a denunciar a raridade das famílias em que ainda se contam contos tradicionais às crianças e o número crescente de falsificações que desfiguram essas histórias, fazendo-as perder uma de suas funções essenciais — o ensinamento pelo inconsciente.
- Os contos de Perrault são apontados como tendo infelizmente mostrado o caminho das falsificações.
- Bettelheim deplora que se ilustrem coletâneas de contos e que o filme de Walt Disney — ao dar a cada um dos sete anões de Branca de Neve um nome e uma personalidade distintos, enquanto no conto eles são idênticos — dificulte a compreensão inconsciente do que os anões simbolizam: uma forma imatura e pré-individual que a heroína precisa precisamente transcender.
- Os contos devem ser narrados com a intenção de enriquecer a experiência da criança, sob pena de se transformarem em relatos moralizadores dirigidos apenas ao consciente — enquanto a grande vantagem dessa literatura oral é penetrar diretamente o inconsciente.
- Bettelheim distingue mito e conto a partir das situações edipianas: no mito, as dificuldades edipianas se traduzem por atos e tudo termina em derrota ou destruição total, ao passo que o herói do conto demonstra que as relações infantis virtualmente destrutivas podem ser integradas ao longo dos processos de desenvolvimento.
- O conto toca não apenas os problemas edipianos das crianças, mas também os dos pais.
- A mensagem do conto seria que as complicações e dificuldades edipianas podem ser combatidas com coragem, e que aqueles que são afetados por esses graves problemas podem ter uma vida muito preferível à daqueles que os ignoram.
- O relato dessas “provas de crescimento” encoraja a criança a não se deixar abater pelas dificuldades que encontra ao lutar para se tornar si mesma.
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