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CONTOS, SIMBOLISMO NUMÉRICO
FAIVRE, Antoine. Les contes de Grimm: mythe et initiation. Paris: Lettres modernes, 1979.
- O formalismo estruturalista esbarra em um dado que, embora de aparência formal, não pode ser explicado por ele: os números que aparecem explicitamente nos contos e que obedecem a uma necessidade interna irredutível à análise estrutural.
- Greimas descreveu e classificou os personagens do relato como actantes — não de acordo com o que são, mas com o que fazem —, participando de três grandes eixos semânticos: a comunicação, o desejo ou a busca, e a prova; essa participação se ordena por pares — sujeito/objeto; doador/destinatário; adjuvante/oponente —, constituindo uma matriz de seis actantes.
- Greimas também reconhece três tipos de sintagmas narrativos: os performanciais — prova —, os contratuais — estabelecimento e ruptura de contrato — e os disjuncionais — partidas e retornos —; reaparece assim o jogo tradicional entre o ternário e o senário.
- Esses números se reencontram explicitamente nos contos, mas também nas mitologias e nas estruturas sociais — toda a obra de Georges Dumézil o testemunha.
- Trata-se de arquétipos, ou melhor, de esquemas cujo caráter orgânico não se deve perder de vista: eles só existem encarnados, não são dissociáveis de sua inserção concreta, e só têm significado uns em relação aos outros.
- O binário, ou número original, exprime uma situação conflituosa e uma polaridade da qual resulta ou um dualismo empobrecedor, ou uma polaridade dinâmica e construtiva — e os KHM exploram amplamente essa dupla possibilidade.
- Em Os Dois Irmãos (n° 60), duas vezes dois irmãos aparecem: da primeira geração, um rico ourives mau e sem filhos e um pobre fabricante de vassouras com dois gêmeos; a segunda geração supera a cisão irremediável da primeira — os gêmeos, dotados pelos poderes do pássaro de ouro, partem em direções opostas — leste e oeste — mas permanecem fiéis um ao outro, e o do Oriente salvará da petrificação o do Ocidente.
- Em Os Filhos de Ouro (n° 85), do peixe vermelho que se sacrifica nascem dois lírios de ouro, dois potros de ouro e duas crianças de ouro — a unidade se mantém na diversidade.
- Em João e Maria (n° 15) e Irmãozinho e Irmãzinha (n° 11), o irmãozinho representa a parte ameaçada da dualidade: João é engordado pela bruxa para ser comido; no outro conto, o irmãozinho é transformado em veado.
- Em Machandelboom (n° 47), um irmão assassinado se transforma em pássaro cantor — a parte passiva do casal de crianças; frequentemente o elemento masculino é ameaçado, enquanto o feminino desempenha papel salvador.
- Em A Nixie (n° 79), a escova da menininha se transforma em montanha de espinhos e o pente do irmão em floresta; em A Noiva Branca e a Noiva Negra (n° 135), a oposição de dois termos inconciliáveis cria tensão crescente, tendendo ao relato dramático.
- Ferdinando Fiel e Ferdinando Infiel (n° 126) é um bom exemplo de polaridade masculina destruída: o menino mau, sempre ciente do que o bom pensa e quer, apresenta-se como uma espécie de Mefistófeles clarividente, mas desde a primeira frase do conto sabe-se que a dualidade é inconciliável.
- Andersen, em A Sombra, modifica consideravelmente a tradição natural do tema do duplo: a sombra desprendida de seu dono volta para assombrá-lo, faz dele seu servo, casa-se com a princesa e manda prender o herói, que morre — caso limite, fim das possibilidades do relato fundado no número 2; apenas a forma exterior é preservada, mas a simbólica do conto tradicional se encontra profundamente modificada.
- Em Os Elixires do Diabo, de E. T. A. Hoffmann, temos outro caso limite do número 2, com o relato tendendo para o fantástico.
- O 3 é o número mais explícito nos contos — aparecendo até mesmo em relatos jocosos como Aquele que saiu em busca do medo (n° 4) —, mas nenhuma chave permitiria desvendar definitivamente o que há por trás dele: sem dúvida, ele só existe por si mesmo e deve ser tomado como entidade real que não é outra coisa senão o que é.
- Arthur Bonus, em ensaio sobre o tema, atribui a frequência do 3 a “um certo gosto decorativo, uma espécie de sentimento de simetria”; Wilhelm Grimm pensa que os três filhos que aparecem com tanta frequência nos KHM “não são outros senão as Trimurtis.”
- As três gotas de sangue aparecem várias vezes: o fiel João deve sugá-las do seio da princesa para fazê-la voltar à vida (n° 6); elas caem na neve em Branca de Neve (n° 53); a mãe da menina dos gansos as deixa cair em uma toalha branca (A Guardadora de Gansos, n° 89); em Roland, o Bem-Amado (n° 56), elas falam para enganar uma bruxa.
- As unidades de três personagens são sempre do mesmo sexo, geralmente parentes ou de profissão semelhante: três irmãos em Os Três Filhos da Fortuna (n° 70), O Ganso de Ouro (n° 64), As Três Penas (n° 63) e outros; três filhos do rei em O Pássaro de Ouro (n° 57), A Rainha das Abelhas (n° 62), A Água da Vida (n° 97); três irmãs em Cinderela (n° 21), O Pássaro de Fitcher (n° 46), A Cotovia Cantora e Dançarina (n° 88) e outros; três filhas do rei em O Rei-Sapo (n° 1).
- Há ainda grupos de três mulheres em As Três Fiandeiras (n° 14) e grupos de três homens em Pássaro Achado (n° 51), O Pobre Moleiro (n° 106) e O Pequeno Alfaiate Sábio (n° 114).
- Nesses grupos, pode ocorrer que nenhuma diferença notável apareça entre os três personagens — como em Os Três Homens na Floresta (n° 13) ou Os Anões (n° 39) — e que outro número pudesse ter servido igualmente bem, como testemunham as variantes: os sete corvos (n° 25) na edição de 1856 eram três na de 1812.
- Geralmente o terceiro personagem se distingue dos outros dois ao fazer a ação progredir — Gesteigerte Dreizahl —; é o mais jovem, como no mito hindu dos irmãos Rbhu em que o mais novo quadruplica a capacidade e recebe todos os votos.
- Nos KHM a progressão de 1 para 2 é menos marcada do que de 2 para 3; a dupla progressão aparece bem em Pelo de Urso (n° 101): o mais velho foge diante de Pelo de Urso, a segunda filha hesita, a caçula aceita casar-se com ele.
- No início do conto, o caçula — ou a caçula — é tido como estúpido ou incapaz: O Pássaro de Ouro (n° 57), A Rainha das Abelhas (n° 62), As Três Penas (n° 63), O Ganso de Ouro (n° 64), O Pobre Moleiro (n° 106), O Pássaro Grifo (n° 165); ou seus irmãos o invejam por sua beleza: A Guardadora de Gansos (n° 88), Pelo de Urso (n° 101).
- Em Os Três Passarinhos (n° 96), única exceção em todos os KHM, a mais velha prevalece — o que provavelmente se deve a um erro de transmissão, pois a variante islandesa favorece a irmã mais jovem.
- A ação se desenrola frequentemente em três lugares diferentes — como em O Enigma (n° 22), onde o herói passa pela cabana de uma bruxa, um covil de assassinos e a cidade do rei — e se estende por três períodos distintos, com três noites correspondendo a três provas ou tentações, em As Três Filhas do Rei (n° 113), A Luz Azul (n° 116), O Fogão de Ferro (n° 127) e muitos outros.
- A própria ação frequentemente se submete à divisão ternária: o rei de O Pássaro de Ouro (n° 57) envia sucessivamente os três filhos e só o terceiro cumpre a tarefa; em O Pássaro de Fitcher (n° 46), os dois mais velhos são idênticos e o segundo é apenas redundância do primeiro.
- O 4 aparece implicitamente em quase todo lugar onde há um grupo de três filhos, pois o pai ou a mãe — o rei doente ou fraco — completa o 3 em quaternário, como se os três filhos representassem os três ângulos de um triângulo cujo centro seria o soberano — número da realização ou da iniciação.
- Em Os Quatro Irmãos Habilidosos (n° 129), um dos poucos KHM onde o 4 aparece explicitamente, os quatro filhos chegados a uma encruzilhada se separam, decidindo se reencontrar a cada quatro anos, e ao retornar nenhum dos quatro herda o reino — assim se mantém a unidade do quaternário.
- O 5 é quase inexistente, mas o 6, por implícito que seja, não é menos importante — evocando o símbolo tradicional da estrela de seis pontas fixada por seu centro e os seis dias da criação.
- Os Seis Cisnes (n° 49) remete do 6 ao 7: os seis irmãos transformados em cisnes têm uma irmã que garantirá sua salvação.
- Os Seis que Conseguem Tudo (n° 71): os seis companheiros dividirão a riqueza do reino, completada pelo sétimo elemento.
- Os Seis Servidores (n° 134): o mestre coordena cada um dos seis em sua especialidade até o resultado obtido — símbolo da estrela de seis pontas e dos seis dias da criação.
- Em Os Filhos de Ouro (n° 85), o peixe mágico cortado em seis pedaços — dois comidos pela mulher, dois pelo cavalo, dois enterrados — transforma-se em duas belas crianças, dois magníficos potros e dois lírios: o peixe explodiu como uma estrela em tríplice binário, permanecendo o centro dessa constelação.
- O 7 aparece com frequência nos KHM, mas pode representar redundância — como em Os Seis Servidores (n° 134), onde além dos seis servidores e seu mestre há também a menção de que “o filho do rei está doente há sete anos” —, e a questão se coloca se os sete corvos (n° 25) não eram originalmente seis.
- O 8, como resultado da adição do 7 e do 1, representa tradicionamente a perfeição atingida ou reencontrada — esse duplo quaternário é o número de Cristo; tal seria também o número de Branca de Neve: a heroína mais os sete anões.
- O 9, explicado pelo tríplice ternário da Tradição, aparece em vários KHM: nove diabos atormentam o irmão Lustig (n° 81); é no nono dia que Joringel encontra a flor (n° 69); o militar tem nove ferimentos (n° 71); a cegonha trará a criança “daqui a nove dias” em Os Dois Viajantes (n° 107).
- O 12 aparece frequentemente como duração ou como número coletivo, e o agrupamento que mais se aproxima da tradição é 12 + 1 — e não 11 + 1 —, exprimindo o jogo entre a totalidade e o elemento que a transcende ou que ela exclui.
- Em A Bela Adormecida (n° 50), as treze parteiras — das quais a décima segunda foi esquecida — expressam o jogo do 12 e do 1.
- Em A Filha de Maria (n° 3), o número 13 se explica pelo fato de que doze das treze portas do céu escondem cada uma um apóstolo e atrás da décima terceira se encontra a própria Trindade.
- Em O Afilhado da Morte (n° 44), o afilhado é o décimo terceiro filho da família.
- Em Os Doze Caçadores (n° 67), o rei — décimo terceiro elemento — deve reconhecer a verdadeira noiva entre doze mulheres que se parecem.
- Em Os Doze Irmãos (n° 9), os doze irmãos da décima terceira criança — a caçula — só podem existir e retomar forma humana graças à irmã; sete anos de silêncio permitem a esta restabelecer a harmonia perdida; é por Benjamim, o mais novo dos doze, que a jovem está em relação com os outros onze.
- A comparação com o Novo Testamento se impõe: doze apóstolos, Jesus como décimo terceiro elemento, e quando um dos doze se suicida é preciso substituí-lo — como relatam os Atos dos Apóstolos.
- Essa aritmosofia se une à aritmosofia da teosofia tradicional — também pertencente ao domínio do mito no sentido forte da palavra —, e representa uma abertura para a gnose que nenhum formalismo poderia dar conta.
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