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AS TEORIAS SOBRE A "ORIGEM" DOS CONTOS
FAIVRE, Antoine. Les contes de Grimm: mythe et initiation. Paris: Lettres modernes, 1979.
- O conto como forma de arte precisa ou fixa não existia na Alemanha — e dificilmente na Europa — antes do século X, sendo que antes desse período predominava uma forma mais próxima da gesta heroica.
- O termo Kraftmärchen designa o conto heroico anterior ao século X, mais afim à Heldensage do que ao conto maravilhoso propriamente dito.
- O conto do tipo KHM — Kinder- und Hausmärchen — difundiu-se preferencialmente no norte da Alemanha, nas regiões de Holstein, Pomerânia e Mecklemburgo.
- A Áustria e a Baviera permaneceram como terreno preferencial para lendas e canções populares, e não para o conto maravilhoso.
- A Märchenforschung — o estudo do conto — constitui uma ciência verdadeira, dotada de objeto próprio, métodos, objetivos e pesquisadores especializados, cujos domínios são tão variados que chegam a ser incompatíveis entre si.
- A expressão Märchenforschung designa o campo científico dedicado ao estudo sistemático dos contos.
- Admite-se até falar em ciências, no plural, dada a multiplicidade de objetos, métodos e objetivos envolvidos.
- O campo é especialmente propenso à ilusão de sistemas absolutos de explicação, e os iniciantes tendem a demonstrar uma segurança que diminui à medida que cresce sua informação.
Teorias Filiacionistas
— A origem hindu dos contos
- A obra Pantschatantra, publicada em dois volumes em 1859, inaugura verdadeiramente a era das interpretações historicizantes, ao sustentar que os contos — especialmente os KHM — derivam todos da Índia e resultam de uma deformação de relatos budistas de fins pedagógicos.
- O autor da obra é Theodor Benfey, cujo nome ficou associado à teoria da origem indiana dos contos.
- A teoria de Benfey prevaleceu por algumas décadas, por falta de alternativa melhor, até que se descobriram no antigo Egito e na Antiguidade grega traços de relatos muito próximos dos contos.
- Essas descobertas fortaleceram os adversários de Benfey — os teóricos da poligênese —, entre os quais se destacam Andrew Lang e Joseph Bédier.
— A busca dos países de origem
- Outros pesquisadores propuseram métodos comparativos para remontar cada conto KHM ao seu país de origem por meio do cotejo de variantes, empreendimento cujo maior valor reside na riqueza incomparável dos materiais reunidos.
- Johannes Bolte e Georg Polivka são os autores da obra fundamental em cinco volumes publicada entre 1913 e 1932, que constitui o principal monumento dessa abordagem.
- Etnólogos, historiadores e psicólogos podem servir-se à vontade da abundância de variantes reunidas por Bolte e Polivka, independentemente de se aceitar ou não a hipótese de remontagem às origens.
- C. W. von Sydow defende que a origem dos contos maravilhosos é indo-europeia, e que cada região preservou uma forma particular do mesmo conto — o ecótipo —, o que explicaria as semelhanças entre variantes.
- Von Sydow chegou a tentar remontar as origens dos contos até o período megalítico.
— A “forma primordial” segundo a Escola Finlandesa
- Ao mesmo tempo que Bolte e Polivka, pesquisadores finlandeses empreenderam um trabalho comparável, voltado não tanto para os países de origem quanto para a reconstituição da forma primordial — Urform — dos contos, instrumento classificatório de valor indiscutível mas de fundamento questionável.
- Marian Roalfe Cox antecedeu a escola ao reunir e analisar 345 variantes de Cinderela, publicadas em Londres em 1893.
- Ernest Böcklen procedeu de modo análogo para Branca de Neve entre 1910 e 1915.
- A Escola Finlandesa foi fundada por Karl Krohn e Antti Aarne no início do século XX, com o objetivo de buscar a origem de cada conto, registrar e classificar todas as variantes conhecidas, traçar as vias de difusão e assim reencontrar a versão autêntica.
- O Índice dos tipos de contos, de Antti Aarne (1910), foi consideravelmente ampliado por seu discípulo Stith Thompson, que reuniu no Índice dos motivos de literatura popular cerca de quarenta mil motivos distribuídos em seis volumes — com capítulos sobre os mortos, os ogros, as provas, recompensas e punições, cativos e fugitivos.
- Essa busca de uma taxonomia da narração se apresenta menos como explicação da origem e da circulação dos contos do que como uma definição de categorias — comparável ao papel de Lineu na classificação das espécies naturais.
- Coloca-se em questão o fundamento da noção de forma primordial: quando se crê tê-la reencontrado, ela não seria senão uma das múltiplas formas preliminares — Vorformen — transmitidas até o presente.
- A crítica formulada por Propp aponta que a forma primordial tende a se definir pelo conteúdo mais do que pela composição, e pela natureza de certos atores mais do que pelo papel que desempenham.
- Para o psicólogo, é irrelevante saber se o príncipe-animal, na boca do primeiro narrador, era um urso ou um lobo.
- Lévi-Strauss afirma que a busca de uma versão autêntica e originária constitui um dos obstáculos maiores ao progresso das pesquisas mitológicas.
- Postular a existência de uma forma primordial implica um juízo de valor sobre as demais formas, facilmente consideradas como degradadas — o que não se sustenta, pois um conto não é mais verdadeiro em um momento do que em outro.
- Analogamente, um mito grego — o de Édipo, por exemplo — não é mais autêntico em tal época da história grega do que em qualquer outra.
- Max Lüthi avançou a noção de Zielform — forma-objetivo —, que tem a vantagem de permanecer aberta e propor uma dinâmica: o conto tenderia naturalmente para uma forma raramente atingida, mas que corresponderia à sua natureza própria, quando narradores retificam por si mesmos um relato transmitido de forma errônea.
- A Escola Finlandesa realizou trabalho útil além do de Aarne e Thompson: Kurt Ranke estudou as variantes de Os dois irmãos (1934), Marianne Rumpf as de Chapeuzinho Vermelho (1951), e Anna Birgitta Rooth trouxe elementos novos sobre Cinderela (1951).
Teorias Antropológicas
— A interpretação pelo rito
- Para os partidários do ritualismo, a maioria dos contos do tipo KHM tem por origem ritos — tese que encontrou em P. Saintyves seu principal defensor desde 1923, e que se desdobrou em variantes desenvolvidas por numerosos pesquisadores posteriores.
- P. Saintyves interpreta o conto Barba-Azul — do qual Fitschers Vogel (n° 46) é uma variante KHM — como fundado sobre um rito de iniciação.
- Saintyves interpreta Chapeuzinho Vermelho (n° 26) como originado de um ritual de Maio: o capuz de flores “constituía ainda ontem a coroa da rainha de Maio”, e o vinho levado pela criança à avó na versão alemã remete a presentes e interditos rituais — os bosques eram assombrados por maus espíritos e bestas temíveis desde os primeiros dias de maio.
- Para Saintyves, Chapeuzinho Vermelho simboliza também o ano novo, razão pela qual não pode permanecer no ventre do lobo — o caçador vem libertá-la.
- Em O gato de botas, Saintyves identifica a entronização de reis-sacerdotes primitivos.
- Saintyves reduz os principais tipos de contos a três categorias: os de origem sazonal, os de origem iniciática e os fabliaux ou apólogos — inventados pelos sermoneiros.
- V. J. Propp, autor da primeira abordagem estruturalista do conto, desenvolveu também um trabalho histórico no qual vê a origem dos contos nos ritos, particularmente nos ritos de iniciação, aproximados dos ritos funerários.
- Sergius Golowin percebe em A Bela Adormecida (n° 50), Branca de Neve (n° 53) e outros contos o reflexo de ritos iniciáticos — aventuras durante o sono, sabedoria por morte aparente.
- Entre os autores que tratam de ritos sazonais, de endogamia e exogamia e de iniciação xamânica, citam-se E. Meletinsky, W. E. Peuckert, A. Nitschke e Heino Gehrts.
- Peuckert recorda, a propósito de Rapunzel (n° 12), que durante a puberdade as mulheres de certas sociedades arcaicas eram encerradas em uma pequena cabana no fundo da floresta, sustentadas apenas por uma velha, sem que o homem pudesse se aproximar — e conclui que o lugar de nascimento dos contos seria o Mediterrâneo oriental, cujo universo refletiria uma sociedade de plantadores.
- August Nitschke estima poder remontar o conto Fiel João (n° 6) até a sociedade megalítica — por conservar traços de purificação e sacrifício de criança — e João e Maria (n° 15) até o paleolítico recente.
- Heino Gehrts analisa Os seis criados (n° 134) e o criado-comilão, remetendo-o a Thor, Indra e Hércules, e postula que “o mito, segundo uma opinião bem fundada, é uma abstração a partir de rituais muito antigos”, o que caracterizaria a presença de “grandes comedores rituais”.
- No conto Os sapatos gastos pela dança (n° 133), Gehrts vê na princesa uma sonâmbula em busca de cura espiritual, e interpreta o rei como necessitado de um xamã para segui-la em seu sono, partilhar suas experiências e ajudá-la a retornar ao estado de vigília.
- Em uma variante boêmia do mesmo conto, o soldado retira um dente da princesa — restituído após a viagem ao além —, o que configuraria um rito iniciático comparável à circuncisão ou à ablação do dedo mínimo.
- Gehrts não considera a iniciação xamânica uma crença ultrapassada, tendo estudado manifestações semelhantes ligadas a fenômenos parapsicológicos perturbadores na época de Justinus Kerner, contemporâneo dos irmãos Grimm.
- O mesmo autor identificou recentemente em Os dois irmãos (n° 60) o reflexo de um ritual de juramento fraterno indo-europeu.
— Os mitólogos da natureza
- As ciências da natureza desenvolvidas no rastro romântico do século XIX levaram pesquisadores a interpretar os mitos — e por extensão os contos — como alegorias de fenômenos naturais, teoria que se revelou por fim demasiado limitada e restritiva.
- Adalbert Kuhn lançou os fundamentos de uma mitologia comparada que reconhece o trovão como principal fenômeno natural criador de mitos.
- Max Müller, Angelo de Gubernatis, Sir George Fox, Leo Frobenius e Eduard Stucken veem nos mitos representações do mecanismo do sistema solar.
- Esses autores inspiraram a Escola Vienense de mitologia, que reporta o conto à mitologia dos povos indo-europeus e estuda a organização do tempo entre os arianos: 3 noites de lua negra, 3×9 noites de lua clara; sob influência babilônica, o 9 é substituído pelo 7 enquanto o 3 se mantém.
- A Bela Adormecida (n° 50) é interpretada nessa chave como alegoria natural: a cerca de espinhos corresponderia à aurora, a princesa à noite e o príncipe ao dia.
- Philipp Stauff propõe outra leitura do mesmo conto: o rei seria o sol, a rainha a lua, a Bela Adormecida a terra, e a exclusão da décima terceira fada simbolizaria a passagem, entre os antigos germanos, do ano lunar de treze meses ao ano solar de doze meses.
- O ponto fraco dessas teorias reside no fato de que os povos ditos primitivos dispõem de um poder de abstração bem superior ao que se acreditou por muito tempo, o que torna tais interpretações excessivamente redutoras.
— A interpretação antropológica propriamente dita
- A interpretação religiosa desenvolvida por Hans Naumann e Andrew Lang, embora próxima das teorias naturalistas, delas se distingue por recusar que os fenômenos naturais constituam o único núcleo da experiência psicológica e espiritual do primitivo, afirmando que são os enfrentamentos aos problemas da vida e da morte que decidem as direções do pensamento, da ação simbólica, da arte e dos relatos.
- Edward B. Tylor e Andrew Lang sublinharam, desde o fim do século XIX, a importância do elemento religioso nos motivos dos contos, destacando que as representações religiosas podem surgir fora de toda influência externa.
- Andrew Lang é sensível aos vestígios de canibalismo e de magia nos contos, que tendem a desaparecer nos relatos mais elaborados — o mito heroico e a gesta.
- Wilhelm Wundt, Lévy-Bruhl e Hans Naumann construíram, a partir desse ponto de partida, suas próprias teorias do conto.
- Hans Naumann precisou que o pensamento religioso se manifesta não apenas em ritos, mas também nesses contos que chamou de mitos, na medida em que contêm motivos religiosos — de modo que um conto não é necessariamente muito antigo, mas seus motivos podem sê-lo tanto quanto a humanidade.
- Lang, Wundt e Naumann consideram o conto como a primeira expressão do que Naumann chama mito — anterior ao mito da mitologia e à gesta —, vendo nele “a primeira forma de relato”.
- Naumann, que insiste como Propp sobre a importância dos rituais na gênese dos contos, escreve que “tudo é fundado sobre a crença nos mortos e no rito mortuário”.
- Para Naumann, os elementos constitutivos dos contos são motivos primitivos pertencentes ao reservatório coletivo dos relatos da comunidade primitiva — os mesmos reconhecíveis tanto no conto quanto na gesta.
- Naumann afirma que A Bela Adormecida (n° 50) não deve ser interpretada, à maneira da “velha pesquisa romântica”, como sobrevivência do antigo mito de Brunhilde — pois o conto, como a gesta, não é resíduo infantil do mito e da lenda heroica; ao contrário, sua grande simplicidade permite afirmar que os precede.
— A poligênese
- A teoria da poligênese, próxima das interpretações antropológicas precedentes, sustenta que os contos se desenvolvem sob certas condições da mesma forma que as mesmas plantas aparecem em lugares diferentes quando condições equivalentes são preenchidas — o que explicaria as semelhanças entre contos de povos distantes sem recorrer à difusão histórica.
- Edward B. Tylor e Andrew Lang associam-se a essa teoria, como consequência natural de suas posições antropológicas.
- Joseph Bédier observou em 1893 que as semelhanças entre contos de países muito diferentes poderiam resultar das semelhanças entre os homens e entre as situações fundamentais às quais a humanidade se encontra em toda parte confrontada.
- Essa posição conduziu Bédier a um amável ceticismo em relação às pesquisas históricas, sintetizado na afirmação: “Nunca saberemos nem onde nem quando eles nasceram, nem como se propagam. E é indiferente que o saibamos ou não” — o que se chamou o “agnosticismo” de Bédier.
- Wilhelm Grimm havia expressado ideia semelhante em 1856, ao falar das condições simples e naturais que se apresentam sempre de novo aos homens, e das ideias que também reaparecem sem cessar, aplicando essas reflexões aos contos.
- O agnosticismo de Bédier encontrou prolongamento no esteticismo de Benedetto Croce, para quem as pesquisas sobre a origem dos contos pela análise do conteúdo são inúteis — o estudo deveria se resumir ao exame da “forma irredutível” que Bédier pensava reencontrar em cada versão de um tipo.
- A teoria poligenética foi consideravelmente reforçada pela psicologia moderna — especialmente pela psicologia analítica de Carl Gustav Jung —, que afirma que relatos complexos e diferenciados, e não apenas motivos isolados, são suscetíveis de surgir espontaneamente em lugares e épocas muito diferentes, assemelhando-se até no detalhe.
- Jean de Vries, Peuckert e Mircea Eliade reconhecem o interesse da teoria poligenética, ao menos como hipótese.
- Jean de Vries situa o nascimento dos contos no período intermediário entre uma cultura mítica — na qual o mito era profundamente vivido — e uma cultura mais racionalista: os contos, com seu aspecto leve e lúdico, seriam o produto dessa fase de transição, surgindo em meios aristocráticos e descendo depois às camadas mais modestas da população, onde seriam transmitidos durante séculos graças ao seu caráter arquetipal.
- Os contos de Perrault trazem uma marca aristocrática ainda mais acentuada do que os de Grimm; mas Paul Delarue reconhece que eles, embora expurgados e polidos, são — com exceção de Riquet à la Houppe — autênticos relatos populares, enquanto os de Mme d'Aulnoy apresentam boa parte de invenção.
- As posições psicanalíticas em relação à interpretação dos contos serão apresentadas separadamente, dada sua importância para o conjunto da obra.
- Se a abordagem antropológica e a hipótese poligenética têm razão, uma reflexão sobre o conto não pode evitar a ontologia.
- Uma noção comum aos historiadores das diversas tendências evocadas e aos poligeneticistas — a de mito — poderá servir de fio condutor para o aprofundamento da relação entre conto e mito, antes de distingui-los ambos de seu parente próximo, a gesta ou saga.
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