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Demonização
LECOUTEUX, Claude. Les nains et les elfes au Moyen Age. Paris: Imago, 1988.
Contraste entre a popularidade de elfos e anões
- As pessoas acreditam na existência e nos poderes dos elfos, que desfrutam de um culto de seguidores, ao contrário dos anões.
- A “Maldição de Busla”, da saga de Bósi e Herrauð, demonstra a crença no grande poder dos seres invocados, como trolls, elfos, bruxas nornas, almas de lugares assombrados e gigantes das montanhas.
- * “Que trolls e elfos / E as bruxas Nornas, / As almas dos lugares assombrados / E os gigantes das montanhas / Incendeiem seu salão…”
- A ausência de anões na invocação sugere que eles eram considerados menos poderosos, visto que os elfos viviam ao lado dos deuses.
Relação com o culto aos ancestrais e inversão pelos clérigos
- Os elfos ocupavam um lugar importante nas crenças pagãs germânicas, estando ligados ao culto dos ancestrais, à Terceira Função e aos rituais de fertilidade.
- Os clérigos atacaram os elfos, reduzindo-os à condição de anões e demônios para abalar a fé que se depositava neles, enquanto os anões não eram alvo porque não eram objeto de culto.
Lições do léxico na Inglaterra
- O declínio dos elfos é evidente no léxico das línguas germânicas, começando na Inglaterra cristianizada desde o século VII.
- * O termo “ælf” foi esvaziado de seu conteúdo original, tornando-se uma concha vazia que designava apenas seres sobrenaturais e espíritos.
- * Em textos eruditos em inglês antigo, “ælf” entrou na formação de palavras compostas para traduzir termos latinos como hamadríades, ninfas, musas rústicas, oréades e náiades.
- * “Elfos da madeira”, “elfos da água”, “elfos da terra”, “elfos da colina”, “elfos da montanha” e “elfos do mar” foram criados, esvaziando a especificidade anterior dos elfos.
- * O fato de o inglês antigo apresentar uma série de palavras compostas por “ælf” é suspeito e indica a perda da especificidade original, não a existência prévia de tais elfos na cultura anglo-saxã.
- * A tradução de “ninfas” (plural) por “ælfinne” (elfos no plural feminino) é um exemplo ambíguo.
Demonização dos elfos em Beowulf
- Paralelamente à degradação dos elfos a espíritos, ocorre sua demonização, associando-os a criaturas extremamente malévolas.
- * No épico “Beowulf”, o poeta anônimo explica que todos os monstros, ogros (eotenas), elfos, espíritos malignos e gigantes (gigontas) nasceram de Caim.
- * “dele nascem todos os monstros, os ogros (eotenas), os elfos, os espíritos malignos e os gigantes (gigontas).”
- * Consequentemente, em inglês antigo, o pesadelo é chamado de “malefício do Elfo”, e os elfos em encantamentos são quase sempre associados a espíritos noturnos e demônios.
Evidências nos territórios de língua alemã
- Nos textos alemães mais recentes (a partir do final do século XI), observa-se o mesmo fenômeno da Inglaterra: o elfo é um fauno ou duende, um íncubo ou pesadelo, e até um lêmure (fantasma perturbador).
- * Os nomes pessoais formados com o determinante “elf”/”alp” contradizem essa visão, mas provavelmente continuaram sendo dados sem que se percebesse mais sua conexão original com o sagrado.
- * A demonização dos elfos ocorreu claramente como consequência da cristianização.
Elfos, anões e doenças
- Os clérigos medievais atribuíam as aflições dos seres vivos a elfos, anões, espectros, trolls e, posteriormente, bruxas, reduzindo todos a um denominador comum de maldade e paganismo.
- * Em inglês antigo, um louco ou epiléptico era chamado de “elfico” (ylfig), e o indivíduo com doença mental era chamado simplesmente de “anão” (dweorg).
- * O alemão moderno mantém um resquício desse sentido no adjetivo “überzwerch” (atravessado, hostil).
- * Atribuíam-se aos elfos doenças como urticária (elveblest norueguês, álfarbrúnni islandês), cólica (alvskot dinamarquês), rosácea (Elffeuer alemão) e o tropeço em ovelhas (Elbe alemão).
- * O dinamarquês “elleskudt” designa os indivíduos afligidos pelos elfos (“atingido pelo tiro de um elfo”).
- * Na atual Alemanha, a lombalgia é chamada de “tiro de bruxa” (Hexenschuß), mas antigamente era “tiro de elfo” (Alpschuß).
- * Coleções de prescrições médicas do século X, como o Læcebok e o Lacnunga, apresentam seções sobre “doença dos elfos”, “sucção dos elfos” e “doença do elfo da água”.
- * As receitas incluíam pomadas de ervas, incenso, o sinal da cruz, e o conhecimento do Credo e do Pai-Nosso para proteger contra “a raça élfica, o visitante noturno goblin e as mulheres com quem o diabo tem comércio carnal”.
- * O anão ou elfo age por possessão interna ou externa, como descreve o compilador do Læcebok sobre um asmático: “às vezes ele se contorce como se fosse atormentado por um anão”.
- * A forma mais comum de ataque é a ferida por tiros invisíveis disparados por elfos, anões (dvergscot), bruxas (hægtessan gescot) e os Æsir (esa gescot).
- * Um encantamento em inglês antigo finaliza com: “Se você foi atingido na pele, ou atingido na carne, / Ou foi atingido no sangue, ou atingido no osso, / Ou foi atingido no membro, que sua vida nunca seja dilacerada, / Se foi tiro de Æsir, ou foi tiro de elfos, / ou foi tiro de bruxa, eu te ajudarei.”
- * A propagação da infecção também ocorre pela respiração (alfpûste no alto alemão médio, alvgust dinamarquês).
- * Um encantamento alemão do século XV exemplifica: “Elfo com o nariz adunco / Eu te proíbo de soprar em meu rosto! / Eu te proíbo, elfo, de fumegar [?] / De rastejar, de aspirar [chupar]! / Filhos de elfo, demônios, / Removam suas garras de mim!”
- * O “sopro” aparece no Roman van Lancelot em holandês médio, quando um rei anão sopra no rosto de Gawain e o reduz ao tamanho de um anão.
- * A palavra composta norueguesa dvergslag (“golpe de anão”), que pode designar apoplexia, indica outro método, e nos romances medievais, um anão frequentemente golpeia um cavaleiro sem motivo.
- * Chupar, soltar uma flecha, soprar, golpear, lançar-se sobre alguém e possuí-lo são os métodos usados por elfos e anões para causar doenças.
- * Não há encantamento que banisse exclusivamente um elfo; quando mencionado, é sempre junto com outras criaturas da mitologia inferior, mas há pelo menos um encantamento anglo-saxão muito antigo que concerne unicamente a um anão (uma aranha).
Anões e fios
- Os anões dos contos populares, mais tarde chamados de “goblins”, são frequentemente apresentados como aqueles que emaranham novelos e dão nós nos fios.
- * Na Samsons saga fagra (Saga de Samson, o Belo), as quatro filhas do gigante Krapi, chamadas de “mulheres-elfo” (álfkonurnar), são ladras e fiandeiras sobrenaturais que fazem um casaco com propriedades maravilhosas.
- * O tema mais difundido é o de indivíduos que emaranham o fio que as mulheres deixaram no fuso.
- * O Bispo Hugo de Mons, em 1135, descreve um fauno (faunus) que torceu os fios preparados por Amica, causando emaranhados impossíveis de desfazer.
- * O emaranhamento do fio pode ser obra de um espírito brincalhão que termina o trabalho ou o vandaliza, ações comumente atribuídas a espíritos domésticos.
- * Guilherme de Auvergne, Bispo de Paris (1180–1249), relata que espíritos malignos fazem aparecer lanternas de cera em estábulos, de onde pingam gotas de cera nas crinas e pescoços dos cavalos, cujas crinas são meticulosamente trançadas.
Elfos enganadores e maléficos
- A partir da segunda metade do século XII, o elfo começou a aparecer sob uma forma muito diferente do significado de seu nome, como uma figura marginal na literatura associada a demônios ou feitiços malignos.
- * Herbort von Fritzlar, no Roman de Troie (ca. 1165), escreve: “Acredito que os elfos estão me enganando.”
- * Heinrich von Morungen (morto em 1222) abre um poema com: “Mais de um homem foi enfeitiçado pelos elfos.”
- * Konrad von Würzburg (morto em 1287), em Partenopier und Meliur, mostra a personagem Meliur dizendo: “Milorde, você está imaginando que está sendo enganado por um elfo ou demônio porque permaneço invisível para você.”
- * A crença no caráter maléfico do elfo perdurou até o início do século XX, como exemplificam feitiços e encantamentos de coleções de superstições e julgamentos de bruxaria.
- * “A caminho, elfo e ela-elfo, anão e ela-anão, para cima e para baixo, vá para a casa de Fulano de Tal; provoque suas pernas, prove sua carne, beba seu sangue e afunde no chão, em nome de todos os demônios.”
- * “Eu te conjuro, elfo, você que tem olhos como um bezerro, costas como uma amassadeira [corcunda], diga-me onde fica a casa de seu mestre!”
- * “Vocês, elfos, sentem-se firmes, não abandonem seu ninho! Vocês, elfos, vão embora, partam logo para algum outro lugar!”
- * No século XV, os elfos emergem ao lado de todos os espíritos noturnos, enquanto os anões se tornam um povo bom, ajudantes amigáveis e servos devotados, usurpando funções que não eram originalmente suas.
- * O anão ou gnomo grotesco visto nos jardins hoje é a manifestação moderna dos espíritos domésticos de outrora, descendente do Silvano (Sylvanus sanctus) romano, protetor dos limites da propriedade.
O elfo e o pesadelo (Mahr)
- No alto alemão antigo, “elfo” (Alp) designa o pesadelo, hoje chamado de “pressão élfica” (Alpdruck) ou “sonho élfico” (Alptraum).
- * O termo francês “cauchemar” (pesadelo) é formado a partir do holandês médio “mare” (fantasma) e um modificador que significa “pisar, pressionar” ou “calçar”.
- * O Mahr (pesadelo) é uma criatura que ataca e pressiona com seu peso, semanticamente semelhante ao grego “ephialtes” (“aquele que pula em cima”) e ao romano “incubus” (“aquele que dorme em cima”).
- * O primeiro traço da fusão dos elfos com os Mahren está no Læcebok (ca. 950–1000), onde a “mara” (mare) é colocada na mesma categoria que os elfos.
- * No Heimskringla, de Snorri Sturluson, o feiticeira Huld (cujo povo inclui anões e elfos) faz com que uma mara (Mahr) pise em Vanlandi até matá-lo.
- * No fabliau alemão Irregang und Girregar (século XIV), de Rüdiger von Munre, a Mahr é chamada de “coisa élfica”.
- * Um encantamento do início do século XV confirma: “Mãe do Elfo, Trute e Mahr, saia pelo telhado!”
- * “Trute” é sinônimo de Mahr, usada no sul da Alemanha e norte da Itália.
- * Nesse período, “elfo” tornou-se um nome coletivo que abrangia todos os espíritos noturnos nocivos, opondo-se a “anão”, que designava criaturas benéficas.
- * A confusão entre elfo e Mahr foi encorajada pela proximidade de ambos com a morte (o Jöl, ou “sacrifício aos elfos”, celebrava rituais de fertilidade e comemoração dos mortos) e pela associação com magia, feitiços e ilusão.
- * Originalmente, o Mahr era um morto malévolo, como mostra uma anedota de Guilherme de Newbury, na qual um homem morto entra no quarto da esposa e a esmaga com seu peso, comportando-se como um pesadelo.
- * Estudos sobre o “chaufaton” (espírito doméstico da Alta Saboia) revelam conexões com animais domésticos e produção agropecuária (Terceira Função), trançando crinas de cavalo, caçoando das pessoas e agindo como um Mahr, pressionando os adormecidos.
Conclusão sobre a transformação dos elfos e anões
- “Elfo” tornou-se o nome genérico para criaturas temidas, confundido com os anões propriamente ditos e com os Mahren, e o adjetivo alemão “elbisch” designa os seres fantásticos da literatura medieval e dos contos populares.
- * Na Islândia, os elfos ainda são às vezes chamados de “liuflingar” (“queridos amigos”), enquanto na Dinamarca eles se assemelham a velhos e nas Ilhas Faroé são figuras de grande porte com cabelo preto.
- * As pessoas acreditavam na existência de anões e elfos, e os anões eram especialmente temidos porque nenhum sacrifício poderia apaziguá-los.
- * Nas tradições populares nórdicas, “tiro de anão”, “tiro de elfo” ou “tiro de trol” referem-se a pequenos pedaços de osso (lascas) encontrados na carne de animais abatidos, interpretados como pontas de flecha dessas criaturas.
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