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Pigmeus
LECOUTEUX, Claude. Les nains et les elfes au Moyen Age. Paris: Imago, 1988.
- A fábula dos Pigmeus desempenhou papel considerável ao salvar muitos anões do esquecimento, fornecendo à inteligência medieval motivos descritivos e o nome latino pygmaeus, além de emprestar credibilidade à existência dos anões do Ocidente medieval.
- Os termos latinos pumilio e nanus, ambos significando “anão”, foram preteridos em favor de pygmaeus na literatura erudita
- Plínio, o Velho, Solino e mesmo os Padres da Igreja escreveram sobre os Pigmeus, o que conferia autoridade à crença em sua existência
- Santo Agostinho discutiu seriamente se certos humanos monstruosos poderiam descender de Adão, “nosso pai de todos”
- As diferenças de estatura entre os povos são reais e alimentaram, desde a Antiguidade, relatos de viagem que a lenda ampliou até o domínio do maravilhoso, como já observava Gossouin de Metz em 1245.
- Gossouin de Metz escreveu: “Os gigantes que vivem em alguns lugares manifestam grande espanto ao ver como somos pequenos em comparação com eles. Fazemos o mesmo com aqueles que têm apenas metade do nosso tamanho”
- Viajantes da Antiguidade clássica ficaram atônitos com os Pigmeus africanos e os Negritos das Ilhas Andamão, do Arquipélago Malaio e dos contrafortes do Himalaia
- Hesíodo, Homero, Heródoto e Ctésias de Cnido registraram progressivamente a figura dos Pigmeus, passando do relato mítico à descrição quase etnográfica, mas sempre mesclando observação e fantasia.
- Hesíodo mencionou os Pigmeus no século VIII a.C.; Homero popularizou a fábula de sua batalha com os grous um século depois
- Heródoto forneceu o primeiro relato etnográfico no século V a.C.
- Ctésias de Cnido, médico na corte do rei persa Artaxerxes II Mênon, dedicou longa descrição aos Pigmeus em seu Indica no século IV a.C.
- O patriarca Fócio I de Constantinopla (século IX) preservou o trecho de Ctésias em sua Bibliotheca: “No meio exato da Índia existem homens negros chamados Pigmeus, que falam a mesma língua dos demais habitantes do país. São muito baixos — o mais alto tem apenas dois cúbitos de altura, a maioria apenas um e meio. Seu cabelo é muito longo, chegando aos joelhos e até abaixo, e suas barbas são maiores do que as de qualquer outro homem…”
- Megastenes, embaixador de Ptolomeu II na corte do rei da Índia, e Estrabão transmitiram descrições dos Pigmeus que revelam como a lenda foi gradualmente suplantando a realidade e transpondo-a para a esfera do maravilhoso.
- Estrabão (64 a.C. — ca. 25 d.C.) preservou uma passagem do livro perdido de Megastenes na qual os Pigmeus travam guerra contra os grous — mencionados por Homero — e contra perdizes do tamanho de gansos
- Nessa versão os Pigmeus não possuem narinas, aproximando-os de outro povo monstruoso, os Arinos
- Plínio, o Velho, em sua História Natural, que representava o conjunto do conhecimento humano no século I d.C., apresentou os Pigmeus com elementos já claramente lendários, como a descrição de seus combates sazonais contra os grous e seus abrigos de lama misturada com penas e cascas de ovos.
- Aristóteles, citado por Plínio, afirmava que os Pigmeus habitavam cavernas
- Um capitel da Catedral de Saint-Lazare de Autun, na Borgonha, mostra um Pigmeu a cavalo sobre um grou que está matando
- Os escritores medievais, inspirando-se em Plínio e Solino, situaram os Pigmeus na Índia — designação que abrangia também a Etiópia, o Egito e o subcontinente indiano — e na ilha de Bridinno ao norte da Ásia, onde na verdade eram os lapões os observados, denominando-os homolulli ou pumiliones e nani.
- O teólogo Honorius de Autun, no século XII, acrescentou que as esposas dos Pigmeus davam à luz a cada três anos e envelheciam aos oito — informação tomada de empréstimo de Plínio, que a aplicava a outro povo
- No século XIII os Pigmeus foram inseridos em geografias, enciclopédias e mapas ao lado dos Acéfalos, Cinocéfalos, Esciápodes e outros seres humanos monstruosos
- Teólogos e estudiosos medievais jamais conseguiram determinar se os Pigmeus deveriam ser classificados como homens ou animais, debate que só avançou com as observações do missionário Odorico de Pordenone.
- Santo Agostinho questionou se os Pigmeus poderiam ser descendentes de Adão
- Alberto Magno (1206—1280) os via como elo possível entre o homem e o macaco, e citou o caso de uma menina de oito anos de Colônia do tamanho de uma criança de um ano, atribuindo a origem da monstruosidade — seguindo Avicena — a um ato de coito falho em que apenas pequena porção do sêmen paterno penetrara no ventre materno
- Aristóteles já propusera uma teoria dupla: útero pequeno demais para o embrião e alimentação insuficiente do recém-nascido
- Pedro de Auvergne (morto em 1304), reitor da Universidade de Paris e posteriormente bispo de Clermont, formulou explicitamente a questão “Os Pigmeus são homens?” sem chegar a respondê-la
- Odorico de Pordenone (1289—1331), missionário enviado à China em 1314, foi o primeiro a reconhecê-los como homens dotados de “alma racional” como os demais
- Rabano Mauro, o chamado Praeceptor Germaniae — abade de Fulda e posteriormente arcebispo de Mainz — fornece o único indício de que o termo “Pigmeu” designava também anões autóctones do Ocidente, não apenas os povos orientais descritos por Plínio.
- Rabano Mauro (784—856) interpretou o substantivo “Pigmeu” como designando “aqueles que o povo comum chama de os sete-caúlinos, porque sete deles podem dormir sob um caule”
- A realidade do nanismo biológico provavelmente contribuiu para a formação das tradições medievais sobre anões, embora as evidências documentais sejam escassas — o cronista inglês João de Oxnead registra um anão de corte medindo três pés em 1249, e a Condessa Mahaut de Artois e Borgonha tinha a seu serviço o anão Calo Jean, de origem siciliana, que casou em 1304 e viveu até 1328, além do anão Perrinet, presente na corte da mesma dama por volta de 1310.
- Catarina de Médici tentou criar uma raça de anões casando pessoas de baixa estatura entre si
- O pintor Anthonis Moor retratou o anão de Carlos Quinto em obra hoje no Museu do Louvre
- Velázquez pintou o anão de Filipe IV em obra conservada no Museu do Prado
- Hugo von Langenstein, membro de família nobre às margens do Lago Constança, escreveu por volta de 1290: “Todo dia nascem no mundo homens que, pela frente e pelas costas, estão tão mal formados que é difícil incluí-los no número dos filhos de um homem. Os cegos são tão numerosos quanto os paralíticos…”
- A escassez de registros de nanismo deve-se provavelmente ao fato de que essas crianças não eram viáveis e morriam nas semanas seguintes ao nascimento
- Existem dois tipos de nanismo: o primeiro produz indivíduos normais e belos, apenas em miniatura, inteligentes, férteis e longevos; o segundo produz indivíduos feios, com membros desproporcionais, simplórios, estéreis e de vida curta
- A fábula dos Pigmeus forneceu à literatura medieval pelo menos dois componentes identificáveis — a fixação do tamanho dos anões em torno de três palmos e a noção de animais anões como montarias — que foram adaptados à fauna local sob a forma de cavalos, camurças e veados.
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