Morte e Exílio
MARTINS, Mário. Introdução Histórica à Vidência do Tempo e da Morte. Braga: Livraria Cruz, 1969
A morte e o exílio do mundo
A experiência da morte é apresentada como um desterro e um exílio no mundo, onde se vive como prisioneiro de terra em terra.
- Vive-se no exílio do mundo, conforme a expressa consciência do desterro de Córdova: “exules in huius mundi exilio uiuimus”.
- S. Teotónio de Coimbra espera pela morte deitado em cinza e cilício, conforme o antigo costume: “in cinere et cilicio christiana traditione superpositus”.
- A cinza simboliza a terra que se é e a terra que se será, além do arrependimento, enquanto o cilício é sinal de penitência.
A morte de reis e santos na Península Ibérica
Narrativas de morte de figuras históricas portuguesas revelam diferentes atitudes diante do fim, desde o perdão à beira do túmulo até a espera serena pelo juízo.
- Do rei D. Pedro I, Fernão Lopes conta que, já à beira do túmulo, perdoou Diogo Lopes Pacheco pela morte de D. Inês de Castro e entregou a alma a Deus numa madrugada de segunda-feira de janeiro.
- D. Pedro I foi sepultado junto ao túmulo de D. Inês, como pediu, para ambos esperarem o Dia do Juízo, como se a morte fosse uma pausa entre dois mundos.
- Santa Isabel de Portugal, conversando com D. Afonso IV sobre a neta D. Leonor, sentiu seu acabamento e começou a rezar: “Maria, mater gratiae, mater misericordiae, tu me ab hoste protege et hora mortis suscipe”.
- Santa Isabel rezou o Credo, o Pai Nosso e outras orações, enfraquecendo na fala até acabar seu tempo, sem sentimentalismo ou terrores.
- A morte de Santa Isabel é descrita como a partida para a outra margem, mantendo-se à altura da obrigação de morrer com modesta grandeza.
A morte com devoção e correção litúrgica
A rainha D. Filipa de Lencastre enfrenta a morte com humildade, devoção e um conhecimento preciso dos rituais, corrigindo os clérigos no Ofício dos Defuntos.
- D. Filipa de Lencastre pediu o corpo de Nosso Senhor, levantou as mãos e pediu perdão dos pecados e salvação para a alma, com tanta humildade que parecia um anjo celestial.
- Após receber a comunhão e ser ungida, ela mandou chamar os clérigos para rezarem o Ofício dos Defuntos diante de si, e corrigia quem errava.
- D. João I, antes de falecer, pediu para ser colocado ante o altar de S. Vicente, mandou fazer a barba para não ficar “espantoso e disforme” depois de morto, fitando a morte sem arrogância e sem medo.
A morte como partida desejada para a glória
O Infante Santo, prisioneiro em Marrocos e doente, desejava intensamente partir deste mundo e recebeu a promessa da Virgem Maria de que seria levado para Deus.
- O Infante Santo tinha no coração uma “grande soidade e desejo” de partir deste mundo, vendo Nossa Senhora no meio de multidões de gentes formosas.
- Ao anoitecer, confessou-se, recebeu a absolvição plenária, voltou-se na cama para o lado direito e, sem mudança nem trejeitos, entregou a alma a Deus.
A morte corajosa mas não serena na batalha
Na batalha de Alfarrobeira, o Infante D. Pedro e o Conde de Abranches decidem morrer juntos de uma vez por todas, com coragem, mas sem a serenidade de Santa Isabel.
- D. Pedro decidiu acabar “inteiro e não em pedaços”, e tanto ele como o Conde de Abranches juraram sair juntos deste mundo.
- Mandaram vir o Dr. Álvaro Afonso, clérigo de missa, comunicaram-lhe o pacto de morte e pediram a sagrada comunhão, renovando o juramento.
- Falta, nesse caso, a serenidade de Santa Isabel, havendo coragem, mas não paz, e ânsia dolorosa de partir com certa falta de resignação.
A morte violenta e a redenção na última hora
O duque de Bragança, condenado à morte em Évora em 1483, correspondeu ao desafio trágico da morte violenta e ao desafio de Deus na última hora, tornando-se homem diferente do que fora em vida.
- D. Fernando, duque de Bragança, foi decapitado aos 20 de junho de 1483, numa praça de Évora.
- Garcia de Resende notou que o supliciado foi, na morte, homem diferente de em vida, engrandecido pela desgraça e pela visão de além-túmulo, ele que tanto amara o mundo.
A morte de Santa Joana de Aveiro: medo das contas com Deus
Santa Joana de Aveiro, irmã de D. João II, teve uma morte dolorosa, inquietada não pela morte em si, mas pelas contas que ia dar a Deus, mantendo a ternura, a amizade e as rezas de senhora encerrada em convento.
- Nos últimos dias, Santa Joana mandou levar o sobrinho a passear fora do mosteiro, desmaiava, sofria de insónias, punha os olhos na imagem da Virgem Maria e batia no peito com contrição.
- As freiras lavaram-lhe o rosto, os pés e as mãos, e o padre deu-lhe a extrema-unção, enquanto ela rezava a confissão em voz alta.
- Santa Joana pedia às freiras para não a deixarem sozinha, pois morrer não é partir para casa del-rei, mas dar contas de todo o mal que fez.
- Não era tanto medo da morte, mas temor dos juízos secretos de Deus, que há de julgar a todos.
- Despediu-se do sobrinho de nove anos, lembrando que o criara “vestida em burel, chorando e cantando”, e benzeu-o três vezes.
- Mandou separar as suas coisas das do sobrinho, recomendou que não chorassem e deixou-lhes boa “livraria” e um pomar para consolo espiritual.
- Pedia a celebração de missas por sua alma, suplicou para a enterrarem no coro de baixo e fazia colóquios à Virgem Maria, repetindo os versos “Monstra te esse matrem” e “Maria, mater gratiae”.
A lucidez e os rituais na hora da morte
Santa Joana manteve-se lúcida até o fim, pediu a leitura da Paixão de Cristo, deu uma bofetada em si mesma ao chegar à passagem da bofetada no Senhor e morreu enquanto o padre invocava os Santos Inocentes.
- Pediu que lhe lessem a Paixão de Cristo e, chegando à passagem da bofetada no Senhor, acenou para lhe erguerem o braço e deu uma bofetada em si mesma, como era seu costume.
- Apesar de arquejar, seguia atentamente a leitura da Paixão, rezou, recomendou-se a Deus e repetiu os versos marianos.
- Com os olhos nas relíquias da coroa de espinhos, exclamou: “Ave, spina, penae remedium” (Ave, espinho que és remédio no sofrimento).
- Rezou o “Quicumque vult” sozinha e, depois, ajudada pelos presentes, pediu as orações da agonia enquanto Margarida Pinheira lhe enxugava o suor.
- Com os belos olhos “verdes muito fremosos”, voltava-se para a cruz, mexia os lábios e morreu na altura em que o padre invocava os Santos Inocentes.
A morte de D. João II e a consciência da efemeridade
D. João II, ao falecer em 1495, saboreou novamente a efemeridade das coisas mundanas, recusou o tratamento de Alteza por não passar de um “saco de terra e de bichos” e esperou atento pela morte, entregando a alma ao Criador com a oração “Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere mei”.
- D. João II pensou no filho ilegítimo e, ao assinar um padrão de renda para D. Ana de Mendoça, “começou de chorar muito”.
- Recusou o tratamento de Alteza, pois não passava dum “saco de terra e de bichos”, expressão antiga da ascese cristã com a marca da morte e do sepulcro.
- Quando o bispo de Tânger lhe fechou os olhos e a boca, julgando que ele já morrera, D. João II disse: “Bispo, ainda não vem a hora”.
- Duas horas antes de morrer, mandou saber “em que ponto estava a maré” e replicou: “Daqui a duas horas me finarei”.
A morte violenta e aceita de D. Sebastião
D. Sebastião, nos areais de Alcácer-Quibir, aceitou a morte como um alto e amargo desafio, vendendo caro a vida e fitando nos olhos a detentora de todos os destinos.
- D. Sebastião aceita a morte, mas devagar, pois o rei venderá caro a vida.
- Ele soube fitar nos olhos a detentora de todos os destinos, sabendo que a morte nunca se ilude e que todos são homens em marcha para o outro mundo.
A nota dominante nas mortes heroicas
Nas situações e pessoas descritas, isola-se uma nota dominante: procuravam morrer sem subterfúgios e de olhos abertos para a verdade, como um ator que sai do palco da vida sem vergonha e sem medo, fazendo por ter uma morte decente.
- Não velavam inutilmente a face, nem recusavam o diálogo com a morte.
- Séculos depois, Bocage, boêmio e poeta meio perdido, entraria na linhagem heróica dos que não velavam a face amedrontada.
- Versos de Bocage: “Deus, ó Deus… Quando a morte à luz me roube, / Ganhe um momento o que perderam anos, / Saiba morrer o que viver não soube!”
