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folktale:propp:conto-de-fada:era-uma-vez

PRINCÍPIO

PROPP, V. Historical roots of the wondertale. Tradução: Miriam Shrager; Tradução: Sibelan E. S. Forrester; Tradução: Russell Scott Valentino. Bloomington, Indiana, USA: Indiana University Press, 2025.

I. As crianças no cárcere

1. O afastamento

  • Desde as primeiras palavras do conto — “Em certo reino, em certo estado” — o ouvinte é transportado a uma atmosfera de calma épica que é enganosa, pois logo se desdobram diante dele acontecimentos plenos de tensão e paixão, sendo a calma apenas um invólucro artístico que contrasta com a dinâmica trágica e às vezes comicamente realista.
    • O conto coloca em cena uma família — um camponês com três filhos, um rei com uma filha, três irmãos — cujos elementos estão tão intimamente ligados que o caráter dessa família só se descobre gradualmente.
    • Os minúsculos e imperceptíveis eventos que desencadeiam a catástrofe começam com a ausência de um dos membros mais velhos: em Afanássiev 64, “Filha, filha minha, nós vamos trabalhar”; em Afanássiev 148, “O príncipe teve de partir para longe e confiar a esposa a mãos estranhas”; em Afanássiev 115, “Um dia ele, o mercador, parte em viagem para terras estranhas.”
    • Os filhos ou a esposa — às vezes grávida — ficam sozinhos e desprotegidos, o que cria a base para a desgraça.
    • A morte dos pais representa uma forma intensificada de afastamento, e o mesmo acontece quando são os mais jovens que se afastam — a menina vai ao bosco colher bagas, leva a merenda aos irmãos nos campos, a princesa sai para passear no jardim.

2. Proibições ligadas ao afastamento

  • Os mais velhos sabem de algum modo que um perigo ameaça as crianças — o próprio ar ao redor delas está saturado de perigos e desgraças —, e ao partir ou ao deixar que os filhos partam acompanham a saída com certas proibições que, transgredidas, provocam alguma terrível desgraça.
    • Em Afanássiev 48: “O príncipe a exortou calorosamente, recomendou-lhe que jamais abandonasse o aposento no alto.”
    • Em Smirnov 43: “Esse moleiro, quando vai à caça, ordena: Tu, menina, não vás a lugar nenhum.”
    • Em Afanássiev 64: “Filhinha, filhinha! Sê juiciosa, não saias de casa!”
    • No conto O bode mocoso, o pai se assusta com o mau sonho das filhas e ordena à sua filha preferida que nem se aproxime da escada da entrada; em Afanássiev 156, a desobediência provoca a desgraça: “E ela não lhe deu ouvidos e saiu! Mas o bode a pegou nos chifres compridos e a transportou para as margens abruptas.”
  • Por trás da proibição de sair de casa não se percebe uma simples preocupação dos pais, mas um medo mais profundo — tão grande que os pais às vezes não se limitam à proibição e chegam a encarcerar os filhos de modo incomum: em torres altas, em colunas, em subterrâneos cuidadosamente nivelados com o solo.
    • Em Afanássiev 117: “Cavaram uma fossa profundíssima, mobiliaram-na, enfeitaram-na como um quarto, trouxeram tantas provisões para comer e beber; depois encarceraram os filhos nessa fossa e por cima fizeram um teto, jogaram terra e a aplainaram bem lisinha.”
  • O conto de fadas conservou a reminiscência dos procedimentos que nos tempos antigos eram efetivamente adotados em relação aos filhos de rei, preservando-os com espantosa completude e precisão.

3. A opinião de Frazer sobre a segregação dos reis

  • Em O ramo de ouro, Frazer demonstrou o complicado sistema de tabus que antigamente circundava os reis, os grandes sacerdotes e seus filhos — e uma das normas desse código consistia na proibição de abandonar o palácio, observada no Japão e na China até o século XIX.
    • O rei não deve mostrar seu rosto ao sol e por isso vive sempre na obscuridade; não deve tocar a terra e por isso sua habitação fica elevada acima do solo; nenhum homem deve ver seu rosto e por isso vive em absoluta solidão, comunicando-se através de uma cortina; a alimentação é cercada por um rigidíssimo sistema de tabus, sendo a comida introduzida por uma janelinha.
    • Frazer não faz nenhuma tentativa de situar ou explicar historicamente seu material — ele abre a série de exemplos com o Mikado japonês, passa pela África e pela América, pelos reis irlandeses e de lá salta a Roma.
    • Trata-se de um fenômeno da monarquia primitiva: ao chefe ou “rei” se atribui um poder mágico sobre a natureza, o céu, a chuva, os homens e o gado, e do seu bem-estar depende o bem-estar do povo.
    • “O rei-fetiche dos Benin, considerado uma divindade por seus súditos, jamais devia abandonar seu palácio.” “O rei de Loango está preso ao seu palácio, que lhe é proibido abandonar.” “Os reis da Etiópia eram divinizados, mas eram mantidos encerrados em seus palácios.”
    • Se esses monarcas tentavam sair, eram apedrejados.

4. A segregação dos filhos de rei no conto de fadas

  • O conto de fadas apresenta exemplos de segregação dos filhos de rei que correspondem exatamente às práticas descritas por Frazer, incluindo a proibição da luz, do olhar alheio, do alimento comum e do contato com a terra.
    • Em Afanássiev 118a: “Ele ordenou que construíssem uma coluna alta, encerrou nela o principezinho Ivan e a Bela Helena e mandou que pusessem provisões para cinco anos.”
    • Em Afanássiev 80: “O rei tinha cuidado deles mais do que dos seus próprios olhos, construiu certos aposentos subterrâneos e os encerrou lá, para que os ventos impetuosos não soprassem sobre eles e o sol não os queimasse com seus raios.”
    • Em Onchukov 4: “Construíram para ela um cárcere escuro.” Em Zivaja Starina 367: “Mas o pai e a mãe proibiram que se mostrasse qualquer luz a ela por sete anos.”
    • Nos contos de fadas da Geórgia e da Megrélia, a princesa é chamada mzeδunaq — termo que pode ter dois significados: “não vista pelo sol” e “a que não viu o sol.”
    • No conto de fadas alemão dos Grimm, 88, a proibição da luz solar se transforma, por transposição de sentido, na proibição da luz das velas — o leão se transformaria em pombo se fosse tocado por um raio de luz.
  • A proibição de ver qualquer pessoa e de ser visto acompanha igualmente a reclusão — ninguém deve ver os encarcerados, e eles não devem ver ninguém.
    • Em Smirnov 12: “Era uma vez um rei que tinha uma esposa lindíssima, tão linda que lhe fizeram o retrato, mas ela usava sempre uma máscara.”
    • Em Smirnov 313: “Quando o rei chegou até ele, o reininho lhe disse: Não te aproximes de mim, e virou-lhe as costas e suspirou, afastando-se do rei.”
    • Em Zivaja Starina 105: “Ela morava num subterrâneo. Se um jovem do sexo masculino a olhasse, para o povo era a ruína.”
  • Um exemplo reunindo várias espécies de proibições — incluindo a do modo de introduzir o alimento — aparece em Smirnov 10, num diálogo sobre uma torre sem janelas onde a filha do rei vive desde o nascimento, sem ser vista por ninguém e sem ver ninguém.
    • Em Zivaja Starina, Publicações 18: “O pai ordenou que construíssem uma torre de pedra com uma cama para deitar e uma janelinzinha com grades sólidas, deixando apenas um postigo pequeno para passar a comida.”
    • Em Chudiakov 21: “Ordenaram que a murassem numa coluna de pedra… Deixaram uma janelinzinha para passarem todos os dias um copinho d'água e um pedacinho de biscoito.”
  • Um conto de fadas da Abcásia conservou com exatidão outros dois tabus — o de tocar a terra e o de se alimentar com o alimento usual: “Eles mantinham a irmã numa torre alta. Tinham-na criado de modo que seu pé jamais tocara a terra ou a erva macia. Alimentavam-na apenas com miolos de feras.”
    • Nos contos russos a proibição de tocar a terra não é expressa abertamente, mas se depreende da permanência na torre.

5. A reclusão da donzela

  • Frazer fala de reis e chefes, e o conto de fadas fala às vezes de filhos de rei — mas também na realidade histórica as proibições valiam não só para os reis, mas também para seus herdeiros.
    • Frazer registra: “Os índios de Granada, na América do Sul, mantinham reclusos por alguns anos — até sete — os homens e as mulheres que no futuro deveriam se tornar chefes ou esposas de chefes. Os filhos de rei não deviam sequer avistar a luz do sol; se por acaso a vissem, perdiam seu título régio.”
  • O conto de fadas conservou também a proibição de cortar os cabelos — os cabelos eram considerados a sede da alma ou da potência mágica, e perdê-los significava perder o poder, como ilustra a história de Sansão e Dalila.
    • Em Afanássiev 74: “Nunca saía de seu aposento sob o telhado, a princesa não respirava o ar livre. Os cabelos reunidos numa trança lhe caíam até os calcanhares, e o povo começou a chamar a princesa Vasilissa de trança dourada, beleza descoberta.”
    • No conto dos Grimm 12, a fada Gothel encerra Rapunzel numa torre no fundo do bosco quando ela completa doze anos — ou seja, no início da puberdade — e a menina tinha longos e magníficos cabelos, finos como fios de ouro, pelos quais a fada subia até a janela.
    • Na fábula georgiana Iadon e Solovej, a bela vive numa torre alta, da qual pendura seus cabelos dourados, e para vencê-la é preciso que alguém os envolva firmemente na mão.
  • A proibição de cortar os cabelos não é mencionada nas descrições de reis e sacerdotes reclusos, mas é conhecida numa conexão completamente diferente — o costume de segregar as donzelas durante a menstruação, durante o qual também lhes era proibido cortar e pentear os cabelos.
    • Frazer aduz o mito de Danae para confirmar esse vínculo; von der Leyen, em seu livro sobre o conto de fadas, expressa o mesmo pensamento, repetido na edição das fábulas de Afanássiev organizada por Azadóvski, Andréev e Sokolóv.
  • À reclusão da donzela segue-se habitualmente o casamento — às vezes uma divindade ou uma serpente lhe faz visita no cárcere em vez de raptá-la, como ocorre no mito de Danae e em alguns contos russos.
    • Em Sev. 42: “Ele temia que a donzela fizesse tolices e a encerrou numa torre alta. E os pedreiros muraram a porta. Num ponto havia um buraco entre os tijolos, enfim uma fresta. E uma vez a princesa se pôs perto daquela fresta e o vento lhe encheu a barriga.”
    • No conto russo o filho gerado é chamado Ivan-Vento; no mito grego, Perseu.
  • A reclusão das donzelas é mais antiga do que a dos reis — encontra-se nos povos mais primitivos, como os australianos — e o conto de fadas conservou as duas formas, que derivam uma da outra, se estratificam e se assimilam reciprocamente, mas a segregação das donzelas se conservou em formas mais fracas e mais volatilizadas.

6. Motivação da reclusão

  • Na realidade histórica, a reclusão dos reis era motivada pelo fato de que o rei ou o sacerdote possuía faculdades sobrenaturais ou era encarnação da divindade, e da vida da natureza e de seus processos dependia em maior ou menor grau, sendo considerado responsável pelo mau tempo, pelas más colheitas e por todos os males do gênero — o que gerava cuidados particulares para preservá-lo dos perigos.
    • Frazer aceita esse fato, mas não tenta explicar por que a influência da luz, do olhar alheio ou do contato com a terra era considerada nociva.
  • O conto de fadas não conservou nenhuma motivação a esse respeito — nele a vida do povo não depende dos reclusos, e se trata apenas da incolumidade pessoal do príncipe ou da princesa — mas as representações subjacentes ao medo são mais antigas e remetem à crença de que o ar está cheio de perigos e forças prontas a se lançar contra o homem.
    • Nilsson indica que tudo está pleno de um mistério que infunde medo, e que o tabu nasce do temor de que um contato possa produzir algo semelhante a um curto-circuito.
    • Brinton afirma: “Para os maias, as florestas, o ar e a obscuridade estão cheios de seres misteriosos sempre prontos a prejudicar o homem ou a servi-lo, mas em geral a prejudicá-lo, de modo que a maior parte dessas criaturas de sua fantasia são seres malignos.”
    • Os etnógrafos como Nilsson e Brinton se enganam num único ponto: as forças e os espíritos que cercam o homem parecem “desconhecidos” apenas ao etnógrafo — os próprios povos os conhecem bem, representam-nos de modo absolutamente concreto e os chamam pelo nome.
  • No conto de fadas o medo é frequentemente indeterminado, mas com muito maior frequência é determinado e preciso — teme-se os seres que poderiam raptar os filhos do rei —, e esse temor religioso cria, na refração do conto, os cuidados pelos filhos do rei e desemboca numa motivação artística da desgraça que se segue à transgressão da proibição.
    • Numa fábula dos zulus: “Eles viviam sem sair, a mãe lhes havia proibido, dizendo que se saíssem os corvos os levariam e depois os matariam.”
    • Na fábula-mito egípcia, Bata diz à esposa: “Não saias de casa, senão acabarás no mar.”
    • Em Smirnov 323: “O rei deu ordem às amas que cuidassem da princesa, que não a deixassem sair para a rua, senão o Corvo dos corvos a levaria.”
  • A proibição de deixar a casa é a que mais se reflete no conto de fadas, dentre todos os tipos de proibições com que se queria proteger dos demônios — que aparecem no conto sob a forma de serpentes, corvos, bodes, diabos, espíritos, redemoinhos, ogros, bruxas e seres que raptam mulheres, donzelas e crianças.
    • As outras formas de purificação — jejum, obscuridade, proibição do olhar alheio e dos contatos — refletem-se mais fracamente.
    • Nas lendas da tribo Zuñi, da América do Norte, o pai, que era um grande sacerdote, havia iniciado a filha nas coisas sagradas e por isso a mantinha em casa longe dos olhares de todos os homens e adolescentes — mas um raio de luz penetra em seu quarto e nasce uma criança, que é levada secretamente à floresta e criada por um veado.
    • No antigo Peru, as “virgens do sol” eram mantidas segregadas, nunca vistas pelo povo — diziam-se esposas do sol, mas na realidade serviam de esposas ao substituto do deus-sol, o Inca.

7. Conclusões

  • O substrato religioso mais antigo do motivo da reclusão é constituído pelo medo das forças invisíveis que circundam o homem — e as causas desse fenômeno, ainda insuficientemente elaboradas pelos historiadores e etnógrafos, não estão no âmbito de competência do folclorista.
    • Esse temor faz com que as donzelas sejam submetidas à clausura durante o período menstrual, para protegê-las de tais perigos — fenômeno que no conto de fadas se reflete na imagem da donzela segregada na floresta com os cabelos crescidos.
    • Com o surgimento do chefe-rei ou do sacerdote, esses mesmos cuidados, nas mesmas formas, passam a se exercer em relação ao rei e a toda a sua família.
  • Os detalhes da segregação dos reis e as proibições que a acompanham correspondem exatamente aos detalhes presentes no conto de fadas — em particular a proibição da luz, as proibições ligadas à refeição e ao alimento, a proibição de mostrar o rosto e a do contato com a terra.
    • O conto contém apenas traços esporádicos da ideia de que o bem-estar do rei segregado esteja ligado ao bem-estar do povo.
    • No conto de fadas, a tendência é assegurar a incolumidade pessoal dos filhos do rei, e o motivo da reclusão e de sua violação serve de preparação artística e de motivação do rapto dos filhos do rei por serpentes e outros seres que aparecem de repente e sem que se saiba de onde.
  • A reclusão no conto de fadas nunca é motivada — sua motivação pela ira paterna, como em Grimm 198, é sempre esporádica, não é típica do conto e constitui uma transição para o gênero novelístico.
    • Nos contos de conteúdo novelístico, após as núpcias “o marido construiu um palácio para a esposa e nesse palácio fez uma só janela” — e da continuação resulta que isso foi feito para pôr à prova a fidelidade feminina.
    • Às vezes a segregação é um meio de perseguição usado contra as esposas, como em Azadóvski 5: “Encerraram a pobre mulher inocente, sem nenhum motivo. O dono da propriedade construiu no pátio uma torre, uma coluna de tijolos, e a encerrou nessa coluna… Deixaram-lhe uma janelinzinha, pela qual lhe estendiam biscoito e água.”
    • O motivo das donzelas e mulheres reclusas é amplamente explorado na literatura novelística — os maridos ciumentos recorrem ao expediente da segregação — e as mulheres reclusas são representadas como santas mártires, motivo que passou também para a literatura hagiográfica.
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