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OBJETOS MÁGICOS
PROPP, V. Historical roots of the wondertale. Tradução: Miriam Shrager; Tradução: Sibelan E. S. Forrester; Tradução: Russell Scott Valentino. Bloomington, Indiana, USA: Indiana University Press, 2025.
15. O objeto e o ajudante
- A análise do ajudante encantado prepara a compreensão do objeto encantado, pois ambos mantêm estreita afinidade morfológica e funcionam, em grande medida, segundo a mesma lógica narrativa.
- O cavalo transporta o herói para a terra distante, enquanto o tapete voador ou as botas que caminham sozinhas realizam o mesmo fim por meio de um objeto encantado.
- O cavalo vence o inimigo, enquanto o bordão também o golpeia e chega a fazê-lo prisioneiro.
- A existência de ajudantes específicos e de objetos específicos, não intercambiáveis em certos casos, não elimina o princípio de sua afinidade morfológica.
- A enumeração dos objetos encantados é insuficiente para explicá-los, pois quase qualquer coisa pode assumir essa função no conto maravilhoso.
- Entre os objetos encantados aparecem peças de vestuário, adornos, instrumentos, armas, bolsas, sacos, recipientes, partes do corpo de animais, instrumentos musicais, utensílios comuns, bebidas, frutos e bagas.
- A classificação dos objetos encantados por suas funções também não conduz a uma chave explicativa segura, pois as mesmas funções podem pertencer a objetos diversos e o mesmo objeto pode receber funções distintas.
- Jovens hábeis que cumprem as ordens do herói podem sair do chifre, da bolsa, da tina, de uma caixinha, de um bastão que golpeia a terra, do livro encantado ou de um anel.
- As referências Af. 108, Af. 109, Af. 109 II, Af. 111, Af. 113 b e Af. 122 a exemplificam a multiplicidade de objetos associados a funções semelhantes.
- A função do transporte do herói ao reino distante é indicada como matéria própria de um capítulo separado.
- Os objetos encantados devem ser classificados segundo sua comunidade de origem, na medida em que os materiais disponíveis permitam estabelecê-la.
- A classificação não se organiza por grupos de objetos considerados em si mesmos.
- A classificação também não se organiza segundo as funções narrativas assumidas por esses objetos.
16. Garras, pelos, peles, dentes
- Os objetos encantados não são apenas aparentados morfologicamente aos ajudantes encantados, mas compartilham com eles a mesma origem ritual e simbólica.
- Muitos objetos encantados são partes do corpo de um animal, como peles, pelos e dentes.
- Durante a iniciação, atribuía-se aos jovens poder sobre os animais, exteriormente expresso pela entrega de uma parte do animal.
- O jovem carregava essa parte em um saquinho, ingeria-a ou a recebia incorporada ao próprio corpo.
- Os unguentos pertencem a essa categoria, pois também possuem origem animal perceptível no conto maravilhoso.
- A parte do animal entregue ao jovem constitui um meio de poder sobre os animais e reaparece tanto na iniciação quanto na aquisição individual do ajudante.
- Entre os índios Arapaho, era necessário subir ao cume de uma montanha para obter o espírito-guardião.
- A passagem citada afirma: “Depois de dois ou três ou, no máximo, sete dias, aparece ao homem o espírito-guardião, geralmente um pequeno animal com aparência humana que, fugindo, assume porém o aspecto de um animal”.
- O homem passa depois a portar a pele desse animal, conforme a referência 324.
- A forma mais antiga dos objetos encantados aparece, assim, como parte de animais.
- O conto maravilhoso conserva nitidamente o sentido desse dom: os pelos da cauda do cavalo concedem poder sobre o cavalo.
- A mesma lógica vale para as aves, como mostra a passagem: “E eis que a ave-chefe se levanta, dá-lhe uma pena de sua cabeça: ‘Guarda este pelinho, esconde-o. Qualquer desgraça que te aconteça, tira-o, passa-o de uma mão à outra, e nós te ajudaremos em tudo’”.
- Na referência Z.V. 129, a pena concedida pela ave funciona como meio de convocar auxílio.
- O herói recebe uma espinha de lúcio, e, no momento crítico, o lúcio o esconderá em seu ninho, o engolirá ou permitirá sua transformação em lúcio.
- A referência Z. St. 265 apresenta variantes em que o herói recebe um ossinho de corvo, uma garra de leão, uma escama de peixe e objetos semelhantes.
- Finist Falcão-Claro também entrega à jovem uma pena de sua asa e declara: “Com ela, faze um sinal para a direita e num instante terás diante de ti tudo o que puderes desejar”.
- A fórmula “tudo o que puderes desejar” substitui tardiamente desejos mais antigos e precisos, concentrados no animal como presa.
- Os mitos americanos revelam com clareza essa camada anterior, como na passagem: “Ele avistou um homem sentado na margem alta. Suas pernas pendiam sobre o abismo. Trazia consigo duas matracas redondas: cantava e batia as matracas no chão. Então os búfalos apareciam em bandos ao redor dele, caíam na margem e via-se que tinham sido mortos”.
- A referência 325 relaciona as matracas, geralmente feitas em forma de animais e quase sempre de aves, ao poder sobre a caça.
- O corvo, mesmo sem ser um animal robusto, pode assegurar boa caça de búfalos.
- A crença aparece entre muitos povos, inclusive entre alguns que desconhecem o rito de iniciação, e também entre os caçadores vogul.
- D. K. Zelenin afirma: “Uma crença vogul diz: quem traz consigo o focinho de uma raposa, de uma zibelina ou de um arminho terá êxito em tudo”.
- A falta de correspondência fixa entre o ajudante e sua função possui fundamento histórico na mentalidade primitiva, e não apenas valor artístico na criação fantástica.
- Quando não há conexão necessária entre o animal-ajudante, sujeito do auxílio, e o animal caçado, objeto do auxílio, qualquer animal e qualquer objeto pode funcionar como ajudante.
- A função não fica ligada a animais ou objetos determinados, e essa mobilidade expressa uma base histórica anterior.
- Frazer, ao descrever saquinhos curativos importantes no rito de iniciação, afirma: “O saco é feito de modo a representar grosseiramente o animal de cuja pele foi retirado”.
- Frazer acrescenta: “Cada membro da associação, isto é, da associação secreta, traz consigo um saco semelhante, no qual conserva os pequenos objetos bizarros e absurdos que constituem os amuletos e talismãs do selvagem”.
- Esses talismãs e amuletos mantêm ligação substancial com os animais e constituem o arquétipo dos “dons encantados”.
- Sacos, bolsas, bolsinhas e caixinhas formam um grupo próprio entre os dons encantados.
- Dessas bolsas e cofres saem os espíritos-ajudantes.
- Antes de tratar dos objetos dos quais saem espíritos, torna-se necessário examinar os objetos cuja derivação a partir de instrumentos pode ser comprovada.
17. Objetos-instrumentos
- A mentalidade do homem primitivo atribui à virtude mágica maior importância que aos instrumentos materiais usados na caça.
- Flechas, redes e armadilhas não ocupam o lugar essencial na caça.
- O elemento decisivo é a capacidade mágica de atrair o animal.
- Um animal abatido não era explicado pela habilidade do arqueiro nem pela qualidade da flecha, mas pelo conhecimento do encantamento que conduzia a fera ao alcance do disparo.
- O caçador, sob a forma de um saquinho cheio de pelos, possuía poder mágico sobre o animal.
- A função do instrumento permanece inicialmente secundária.
- Engels afirma: “Na base de tantas representações inexatas da natureza, das propriedades do homem, dos espíritos, das virtudes mágicas etc., há na maioria das vezes algo de negativamente econômico; o baixo nível econômico do período pré-histórico tem sua origem e até mesmo sua causa na representação errada da natureza”.
- A referência 327 exemplifica um caso particular dessa representação errada da natureza.
- À medida que os instrumentos se aperfeiçoam, a virtude mágica antes atribuída ao animal-ajudante por meio de uma parte de seu corpo transfere-se ao objeto.
- O homem percebe menos seu esforço e percebe mais a ação do instrumento.
- Surge então a ideia de que o instrumento age não pelos esforços humanos, mas por qualidades mágicas inerentes a ele.
- Desenvolve-se a representação do instrumento que trabalha sem o homem e no lugar do homem.
- A partir desse momento, o instrumento é deificado.
- O instrumento divinizado constitui um segundo substrato, mais tardio, na história dos objetos encantados.
- As funções do instrumento causam sua deificação.
- O manuscrito da Rússia setentrional O jardim da salvação, do século XVI, relativo à conversão dos Lapões ao cristianismo, afirma: “Se alguma vez se mata uma fera com uma pedra, é preciso honrar a pedra; e se se atinge a presa com a clava, é preciso deificar a clava”.
- A referência 328 registra uma crença nitidamente venatória.
- Mesmo no período da agricultura primitiva, alguns índios “rezam aos bastões com os quais escavam raízes”, segundo a referência 329.
- A ideia de que o instrumento age por virtudes próprias conduz à representação de instrumentos que operam sem intervenção humana.
- No mito dos índios Taulipang, basta o herói cravar a faca em um arbusto para que a faca comece sozinha a cortar árvores.
- O herói golpeia a árvore com o machado, e o machado começa sozinho a rachá-la, conforme a referência 330.
- A flecha disparada ao acaso atinge por si mesma as aves.
- No conto maravilhoso, o machado escava sozinho o navio, como em Af. 122 a, ou racha sozinho a lenha, como em Af. 100.
- Os baldes carregam sozinhos a água.
- Em um desses contos ainda permanece o antigo vínculo com os animais, pois é o lúcio que quer que assim aconteça.
- No conto maravilhoso, porém, essa conexão já não é obrigatória.
- O bordão golpeia os inimigos por iniciativa própria e os reduz à condição de prisioneiros.
- Com a granada e a muleta, “pode-se derrubar qualquer força”, segundo Af. 107.
- Nesse ponto, o antigo vínculo com o animal já se perdeu.
18. Objetos que evocam os espíritos
- Os objetos capazes de evocar espíritos tornam-se compreensíveis a partir da relação entre partes animais, instrumentos e outras coisas investidas de força mágica.
- Esses objetos podem ter natureza animal, como os pelos de cavalo.
- Podem também ser instrumentos, como o bordão.
- Podem ainda pertencer a outras séries de objetos, como o anel.
- A força atribuída aos objetos e aos instrumentos é concebida como algo vivo porque a mentalidade antiga ainda não dispõe de meios para formular abstratamente esse conceito.
- Os objetos e os instrumentos são imaginados como portadores de uma força.
- A força é um conceito abstrato, mas a linguagem e a mentalidade antigas não possuem ainda recursos adequados para exprimí-la como abstração.
- O processo de abstração ocorre, mas o conceito abstrato se incorpora ou se apresenta como um ser vivo.
- Os pelos que evocam o cavalo mostram esse processo.
- A força pertence a todo o animal e também a cada uma de suas partes.
- Nos pelos reside a mesma força que há no animal inteiro; assim, nos pelos há o cavalo, como há o cavalo na boca ou no osso.
- A representação da força como ser invisível constitui um passo rumo à formação do conceito de força, isto é, ao desaparecimento gradual da imagem e à sua substituição por um conceito.
- Desse processo nasce a concepção dos anéis e de outros objetos com os quais se pode evocar um espírito.
- Esse nível já se encontra acima da veneração do instrumento.
- A força separa-se do objeto e passa a ser associada a qualquer coisa que, exteriormente, não apresenta indício dessa força.
- Nessa forma se constitui o “objeto encantado”.
- Os objetos desse tipo existiram na prática cotidiana como fetiches, amuletos e talismãs, e o conto maravilhoso preservou reminiscências desse passado.
- A existência prática desses objetos é tratada como fenômeno conhecido.
- Na etnografia comparada, o problema ainda não encontrou estudo específico.
- As formas e os modos de uso desses objetos às vezes coincidem exatamente com o quadro fornecido pelo conto maravilhoso.
- Cita-se uma tribo na qual há “anéis dotados do poder de pôr seu portador em relação com determinados espíritos”.
- A referência 331 confirma a proximidade entre os objetos rituais e os objetos encantados da narrativa.
19. Objetos para acender o fogo
- Os instrumentos para acender o fogo ocupam lugar especial entre os objetos que evocam ajudantes, pois convocam sobretudo o cavalo.
- No conto maravilhoso, aparecem geralmente o fuzil de pederneira e a pedra de fogo.
- Às vezes esses instrumentos surgem associados aos pelos.
- Para evocar o cavalo, é necessário queimar os pelos.
- A conexão quase constante, embora não exclusiva, entre o fuzil de pederneira e o cavalo explica-se pela natureza ígnea desse objeto.
- O fuzil de pederneira manifesta de modo particularmente claro as forças mágicas atribuídas às coisas e deriva de formas mais antigas de produção do fogo por fricção.
- O fuzil de pederneira e a pedra de fogo parecem ter substituído formas anteriores nas quais o fogo era produzido por atrito.
- Agni era evocado pelo atrito de dois bastõezinhos.
- O instrumento que acende o fogo é, portanto, um objeto encantado que serve para evocar espíritos, e não somente o cavalo.
- Em um conto da Rússia Branca, o herói encontra numa cabaninha do bosque uma bolsa de tabaco que não contém tabaco, mas “um fuzil de pederneira e uma isca”.
- A passagem prossegue: “‘Quero experimentar esfregá-los! É uma coisa cômoda para um viajante’. Esfregou o fuzil de pederneira e saltaram para fora doze jovens. ‘De que precisas?’”.
- A referência 332 conserva a relação entre fricção, fogo e evocação de ajudantes.
- Em um conto alemão recolhido pelos Grimm, número 116, é preciso acender o cachimbo para evocar o espírito.
- Esse conjunto explica a lâmpada de Aladim.
- Também pode explicar o fato de que, às vezes, para fazer aparecer o espírito-ajudante, seja necessário esfregar o anel encantado.
20. A varinha
- A varinha, a vara ou o bastão derivam de representações ligadas à relação do homem com a terra e com as plantas, e não das partes animais nem dos instrumentos.
- A circunstância não conservada pelo conto maravilhoso consiste no fato de a vara ser cortada de uma árvore viva.
- Quando provém de uma árvore viva, a vara pode ser encantada porque transfere a quem toca a virtude milagrosa da fecundidade, da abundância e da vida.
- Mannhardt afirma: “Homens, animais e plantas, em várias épocas do ano, são batidos ou açoitados com um ramo verde, ou com uma varinha, para que se tornem sadios e fortes”.
- Mannhardt cita muitos casos que demonstram a transferência da força vital da planta para aquilo que ela golpeia.
- A mesma virtude é atribuída às raízes e às ervas.
- No conto A falsa doença, Af. 119 b, o reizinho morto é trazido de volta à vida por uma pequena raiz doada por um velho.
- A passagem afirma: “Eles pegaram a raiz, encontraram a tumba do reizinho Ivã, escavaram-na, tiraram-no para fora, esfregaram-no com essa raiz e por três vezes a fizeram passar por seu corpo, e o reizinho Ivã pôs-se em pé”.
- A força da pequena raiz transmite-se ao homem.
- Em outro conto, uma serpente faz outra reviver aplicando-lhe sobre o corpo uma folhinha verde, conforme Af. 119 a B.
- A “chicote-vivo” também ressuscita o morto, como em Onč. 3.
21. Objetos que dão a abundância eterna
- Um objeto só se torna encantado quando é obtido de determinado modo, sobretudo quando provém do domínio situado “além”.
- No tempo do rito de iniciação, o objeto encantado era aquele recebido dos anciãos.
- No conto maravilhoso, é encantado o objeto doado pelo pai morto, pela maga, pelo morto grato por ter sido sepultado ou pelos animais-senhores.
- O objeto encantado é, em síntese, aquele que foi tomado “de lá”.
- No estágio mais antigo, “de lá” significa “da floresta”, entendida em sentido amplo.
- Em fase posterior, trata-se do objeto trazido do outro mundo ou, segundo o conto maravilhoso, do reino distante.
- Nem todas as águas fazem reviver um morto; a água que a ave trouxe da terra distante, porém, devolve a vida ao morto.
- Há um grupo de objetos cuja virtude mágica deriva de terem sido trazidos do reino dos mortos.
- A esse grupo pertencem a água que restitui a vida ou a visão, as maçãs que conferem juventude, as toalhas que dão alimento e abundância.
- Esse fato só poderá ser explicado depois da análise do reino distante e de suas propriedades, conforme o capítulo VIII.
22. A água viva e morta, fraca e forte
- A água viva e morta, bem como sua variedade fraca e forte, merece atenção especial porque suas duas formas não são opostas, mas complementares.
- A fórmula canônica do uso dessa água afirma: “Borrifou o reizinho Ivã com a água morta e seu corpo se recompôs; borrifou-o com a água viva e o reizinho Ivã se ergueu”.
- A referência Af. 102 conserva a sequência ritual em que a água morta recompõe o corpo e a água viva restitui a vida.
- A duplicação da água coloca o problema de sua origem e da razão pela qual não basta aspergir simplesmente o morto com a água viva.
- Há casos raros em que o morto é aspergido apenas com água viva.
- A questão exige examinar crenças gregas relativas à vida no além-túmulo.
- As representações da Antiguidade clássica entre os Gregos associam a vida ultraterrena a dois tipos de águas do reino subterrâneo.
- As lâminas da Itália meridional apresentam claramente essa duplicidade.
- A lâmina de ouro de Petília, colocada no caixão do defunto, diz à alma do morto que na casa de Hades verá duas fontes diferentes, uma à esquerda e outra à direita.
- Junto à primeira fonte ergue-se um cipreste branco, mas não é dela que a alma deve aproximar-se.
- As lâminas ordenam à alma que se volte para a direita, onde corre do lago de Mnemosine a água restauradora, cercada por seus guardiães.
- A alma deve dirigir-se aos guardiães e dizer: “Desfaleço de sede! Dai-me de beber!”
- As duas águas do material grego indicam uma água sem benefício para o defunto e outra, cuidadosamente vigiada, que concede ao morto sua condição própria no além.
- A primeira água não é vigiada e não representa benefício para o defunto.
- A segunda água é muito cuidadosamente guardada, e o morto é interrogado antes de recebê-la.
- Essa água não é chamada no texto de viva nem de morta.
- Por ser benefício para o morto, trata-se de uma água para os mortos, ou seja, uma água “morta”.
- É admissível supor que essa água acalme o morto, dando-lhe morte definitiva ou direito de permanecer nas regiões de Hades.
- A água situada à esquerda, não vigiada por ninguém, pode ser compreendida por paralelos como água de vida destinada aos mortos que não entram no inferno, mas retornam dele.
- Antes da entrada no Hades, essa água não produz efeito e por isso não é vigiada.
- A catábase babilônica da rainha Ishtar torna essa hipótese mais clara.
- A. Jeremias afirma que Ishtar “torna a descer, depois que o guardião a obrigou a deixar-se borrifar com a água de vida”.
- Se essa hipótese for correta, explica-se por que o herói é borrifado primeiro com água morta e depois com água viva.
- A água morta termina de matá-lo e o transforma definitivamente em morto.
- Esse ato corresponde a uma espécie de rito funerário, análogo a cobrir o cadáver com terra.
- Somente depois disso o herói é verdadeiramente morto, e já não um ser entre dois mundos, suscetível de voltar sob forma de vampiro.
- Apenas após a aspersão com água morta a água viva pode produzir efeito.
- A distinção entre água “forte” e água “fraca” também se ilumina pela hipótese das duas águas do além.
- Essas águas ficam à direita e à esquerda do recém-chegado.
- Encontram-se na adega da maga ou junto à serpente.
- A maga e a serpente guardam a entrada do reino do além, e a água forte permite ao herói transgredir a ordem desse domínio.
- A serpente guarda o rio e a ponte que conduzem ao reino distante.
- A passagem afirma: “A água forte fica à direita da ponte, a fraca à esquerda”.
- Em Af. 77 V, antes da batalha, essas águas são trocadas.
- O herói bebe a água “forte”, mata a serpente e penetra no outro reino.
- A analogia com o material grego é ampla, mas não absoluta, pois o sentido originário da água bebida pelo herói já se apagou.
- Não é possível responder com precisão se o herói bebe água viva, isto é, água para vivos, ou água morta, isto é, água para mortos.
- A exatidão e o sentido originário já se perderam.
- Também não se pode responder se o herói é morto ou vivo.
- O herói é um vivo que irrompe no reino dos mortos como transgressor audacioso e raptor.
- O herói não bebe a água que lhe caberia caso fosse morto.
- Ao beber essa água, adquire força e a rouba, assim como rouba as maçãs rejuvenescedoras e outras coisas miraculosas.
- A água “morta e viva” e a água “forte e fraca” parecem constituir uma mesma realidade ritual e narrativa.
- O corvo que voa levando duas bexigas carrega precisamente essa água.
- O morto que deseja penetrar no outro mundo usa uma só água.
- O vivo que deseja penetrar no outro mundo também usa uma só água.
- O homem que enveredou pela estrada da morte e deseja retornar à vida usa os dois tipos de água.
- Essas hipóteses devem permanecer como hipóteses enquanto não surgirem materiais mais precisos, embora permitam compreender melhor a descida e o retorno de Ishtar.
- Antes de entrar no outro mundo, Ishtar bebe apenas a água “morta”.
- Ao retornar, Ishtar bebe a outra água.
- Essa água duplicada deve ser distinguida da água “que cura e vivifica”, que cura a cegueira e também se encontra no outro mundo.
- A água curativa será tratada no estudo do reino distante.
23. As bonecas
- A análise de certos objetos encantados reconduz ao mesmo domínio revelado por muitos outros elementos: o reino dos mortos.
- O percurso interpretativo dos objetos encantados converge para o universo funerário e para as representações do além.
- A boneca situa-se no limiar entre os ajudantes encantados e os objetos encantados, e seu estudo conduz à mesma esfera do reino dos mortos.
- Uma dessas bonecas aparece no conto Vasilissa, a Bela, Af. 59 a.
- A mãe morre e, antes de morrer, chama a filha, tira uma boneca de sob a coberta, entrega-a e diz: “Morro, e juntamente com minha bênção deixo-te esta boneca; conserva-a sempre contigo, não a mostres a ninguém, e quando te acontecer alguma desgraça, dá-lhe de comer e pede-lhe conselho”.
- Asadovskij, Andreev e Sokolov, editores da coleção de Afanasiev, inclinam-se a considerar esse motivo não folclórico por não encontrarem analogias no folclore.
- As analogias, porém, existem.
- No conto Grjaznavka, Sm. 214, há bonecas às quais a heroína se dirige com fórmula semelhante à de Afanasiev.
- A fórmula afirma: “Vós, bonecas, comei; minha dor escutai”.
- Em um conto da Rússia setentrional, a mãe moribunda diz à filha: “No meu baú há quatro bonecas; se te for necessária alguma coisa, elas te ajudarão”.
- A boneca deve ser alimentada.
- As bonecas aparecem amplamente nas crenças de muitos povos, e a analogia com o conto maravilhoso é bastante precisa.
- A boneca pode funcionar como substituto daquele que desce para debaixo da terra, isto é, para o inferno.
- No conto O príncipe Danila-Gavrilo, Af. 65, a jovem perseguida afunda pouco a pouco sob a terra.
- Em seu lugar, a jovem deixa quatro bonecas.
- As bonecas respondem ao perseguidor com a própria voz da jovem.
- Nesse caso, a boneca substitui quem desceu ao subterrâneo.
- As crenças de muitos povos atribuem à boneca a função de receptáculo da alma do morto e de presença substitutiva do defunto.
- Entre Ostíacos, Goldi, Giliaki, Oroki, Chineses e, na Europa, Mari, Tchuvaches e muitos outros povos, fabricava-se em memória de um membro morto da família um “boneco de madeira”, isto é, uma boneca.
- Esse boneco era considerado receptáculo da alma do defunto.
- A essa efígie dava-se de comer tudo o que os vivos comiam.
- Em geral, ela era cercada de cuidados como se fosse um homem vivo.
- Essa crença não pertence exclusivamente à Sibéria ou à Europa.
- Na África, entre os Eime, quando morre a esposa e o viúvo volta a casar-se, ele conserva em sua cabana uma boneca “que representa a esposa do mundo de lá”.
- A boneca recebe honras de todo tipo para que a esposa do outro mundo não tenha ciúme da esposa deste mundo.
- Na Nova Guiné holandesa, depois da morte de alguém, talha-se uma figurinha que serve para vaticinar.
- Frazer descreve minuciosamente o modo como a alma do enfermo é atraída para uma boneca.
- Ao conter a alma do doente, a boneca podia também conter ou representar a alma de um morto.
- Os parentes fabricam uma pequena boneca e a cercam de cuidados.
- Nela se encarna a alma do defunto.
- A boneca senta-se à mesa, é posta para dormir e recebe outros cuidados semelhantes.
- No Egito antigo, a representação da boneca como figura ajudante manifesta-se no culto em sufrágio dos mortos e nas práticas mágicas com estatuetas.
- Ju. P. Franzov identificou esse fenômeno em seu estudo sobre os contos do Egito antigo que tratam dos sumos sacerdotes.
- Na magia do Egito antigo, o uso de figurinhas para fins mágicos era amplamente conhecido.
- A representação da figurinha-ajudante conservada no conto maravilhoso difundiu-se no culto funerário sob a forma das figuras ajudantes ushebti ou shabti.
- Embora essas figuras tenham aparência animal, a ligação permanece indiscutível, pois o homem-ancestral substituiu o animal-ancestral.
- Wiedemann observa que as figuras ushebti tinham aspecto de estatuetas.
- Essas estatuetas eram colocadas na tumba junto ao morto.
- Recebiam o nome de “respostas”.
- Sua função era ajudar o defunto no além-túmulo.
- A boneca remonta a representações e costumes funerários nos quais o morto, encarnado nela e alimentado pelos vivos, torna-se capaz de ajudá-los.
- A boneca é o morto.
- É necessário alimentá-la.
- O morto incorporado nessa boneca auxilia os vivos.
24. Conclusão
- Os materiais examinados mostram que os objetos encantados possuem origens diversas quanto ao seu conteúdo.
- A diversidade de origem impede reduzir todos os objetos encantados a uma única fonte material ou simbólica.
- Os objetos encantados podem ser preliminarmente distribuídos em grupos fundamentais segundo sua origem animal, vegetal, instrumental, autônoma ou funerária.
- Há objetos de origem animal.
- Há objetos de origem vegetal.
- Há objetos fundamentados em instrumentos.
- Há objetos de natureza variada aos quais se atribuem forças autônomas ou personificadas.
- Há, por fim, objetos ligados ao culto dos mortos.
- Essa divisão constitui apenas um esboço preliminar que poderá ser ampliado por uma análise mais minuciosa.
- Novos grupos poderão ser encontrados.
- Objetos não examinados aqui poderão ser incluídos nos grupos indicados.
- Os objetos encantados, considerados sob o aspecto de sua composição, remontam historicamente às mesmas raízes do ajudante, do qual constituem apenas uma variedade.
- A categoria histórica dos objetos encantados não se separa da categoria do ajudante encantado.
- A diferença entre ajudante e objeto encantado é de forma e não de raiz histórica fundamental.
- O curso do conto maravilhoso confirma a integridade histórica da narrativa ao mostrar que os objetos encantados são doados pela maga, por seus equivalentes, pelos reis dos animais ou encontrados na floresta.
- A doação pela maga e por figuras equivalentes confirma a coerência do conto maravilhoso.
- A doação pelos reis dos animais preserva o vínculo entre objetos encantados e ajudantes animais.
- O encontro desses objetos na floresta conserva a memória de sua procedência de um domínio separado.
- Esses elementos comprovam a harmonia, o estado de integridade, o valor histórico e a coerência interna do conto maravilhoso.
- A maga e seus dons constituem dois aspectos de um mesmo todo, e o conto maravilhoso preserva integralmente essa conexão.
- A figura da maga não se separa dos objetos que ela entrega.
- Os dons da maga pertencem à mesma estrutura histórica e simbólica que define sua função narrativa.
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