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CONTOS DE ANDERSEN
ANDERSEN, H. C.; TATAR, Maria. The annotated Hans Christian Andersen. 1st ed ed. New York: W.W. Norton, 2008.
- August Strindberg declarou que Hans Christian Andersen era “um perfeito mago” — “O Soldadinho de Chumbo”, “A Rainha das Neves”, “O Isqueiro” e outros contos o haviam atraído para um mundo encantado muito superior às cinzentas realidades da vida cotidiana; Charles Dickens, Henry James, Hermann Hesse, W. H. Auden e Thomas Mann figuram entre os escritores que cresceram com as histórias de Andersen ou amadureceram para admirá-las.
- A UNESCO lista Andersen entre os dez autores mais amplamente traduzidos no mundo, ao lado de Shakespeare e Karl Marx; “A Rainha das Neves”, “O Patinho Feio” e “A Princesa e a Ervilha” não são apenas títulos de histórias, mas termos com uma espécie de moeda global.
- Strindberg estava exatamente certo ao chamar Andersen de mago, pois há algo em suas histórias que transcende o bem e o mal — algo que, à falta de um termo melhor, se pode chamar de magia; como Adam Gopnik observa, “a moral de cada conto de fadas não é 'Virtude recompensada', mas 'Nunca se sabe' — qual feijão vai brotar, qual filho vai triunfar.”
- Os contos de fadas se movem no modo subjuntivo, apresentando perigos, mas também abrindo possibilidades, dizendo-nos o que poderia ser e o que poderia ser, em vez do que deveria ser; junto com o que pareceria mera aleatoriedade ou serendipidade vem também a tranquilização de que tudo, no final, dará certo.
- Hermann Hesse aludiu ao que cria magia nos contos de Andersen ao recordar “o belo brilho mágico” de seu “mundo inteiro, multicolorido e magnífico” — os contos de fadas como os de Andersen estão investidos acima de tudo em superfícies, em tudo que brilha, deslumbra e reluz; ainda assim, oferecem profundidade psicológica, mesmo quando os personagens são descritos apenas em termos de aparências.
- A tristeza é tipicamente expressa como lágrimas — às vezes de cristal —, e a gratidão vem na forma de objetos materiais — uma pequena roca de fiar dourada, uma flauta de prata, ou um vestido de diamantes; o resultado é o que se poderia chamar de “poder de ignição” — a capacidade de inspirar os poderes de imaginação do leitor de modo que ele comece a ver cenas descritas por nada mais do que palavras numa página.
- Em “O Goblin e o Merceeiro” — conto pouco conhecido fora da Dinamarca —, o goblin espia pela janela do quarto de um estudante que lê em sua mesa: “Como era extraordinariamente brilhante no quarto! Um raio ofuscante de luz ergueu-se do livro e transformou-se num tronco de árvore que espalhou seus galhos sobre o estudante. Cada folha na árvore tinha uma cor verde fresca, e cada flor era o rosto de uma bela donzela… Cada fruto na árvore era uma estrela brilhante, e a sala estava cheia de música e canção.”
- J. R. R. Tolkien reconheceu o poder dos discursos dos contos de fadas e do “artesanato élfico” que produz outros mundos a partir de meras palavras: “A mente que pensou em luz, pesado, cinza, amarelo, imóvel, veloz, também concebeu a magia que tornaria as coisas leves e capazes de voar, transformaria o chumbo cinza em ouro amarelo, e a rocha imóvel em água veloz.”
- Comprometidos com a cor, a textura, a luz, o brilho e a clareza, os contos de fadas de Andersen tentam criar a beleza tangível que não conseguem capturar pela limitação de seu meio como meras palavras; na “Pequena Sereia”, o sol parece “uma flor roxa com luz emanando de seu cálice”; os onze irmãos em “Os Cisnes Selvagens” escrevem em “tábuas douradas com lápis de diamante”; e o soldado no “Isqueiro” entra num “enorme salão onde centenas de lâmpadas estavam acesas.”
- Vladimir Nabokov, em suas conferências sobre sete grandes romances — todos “contos de fadas supremos” —, afirmou o poder da linguagem de construir outros mundos de beleza rarefeita; Andersen também via no cruzamento de beleza e prazer o valor supremo da ficção.
- Andersen é frequentemente mencionado no mesmo fôlego que Charles Perrault ou os Irmãos Grimm, mas é o que estava mais próximo do povo comum e que de fato cresceu com a cultura oral de narrativa da sala de fiação; ironicamente, é também o que é visto como o campeão do conto de fadas literário — em oposição ao tradicional oral —, pois, ao contrário dos Irmãos Grimm, Andersen não reproduzia o que ouvia dos lábios do povo.
- “Os Novos Trajes do Imperador” (1837) estabeleceu a reputação de Andersen como criador de histórias para crianças — não apenas no sentido do público-alvo, mas também como beneficiárias de algo extraordinário; a lição embutida nele é tão transparente que seu título circula na forma de sabedoria proverbial sobre a hipocrisia social.
- Os tecedores de Andersen estão simplesmente insistindo que “o valor de seu trabalho seja reconhecido à parte de sua incorporação material”; o tecido invisível que tecem pode nunca se manifestar em termos materiais, mas a descrição de sua beleza — “leve como teias de aranha” e “exquisito” — o transforma num dos muitos objetos maravilhosos encontrados nos contos de fadas de Andersen.
- Quase todas as ilustrações da história mostram a criança chamando alegremente a atenção para a nudez do Imperador; quando se trata de literatura infantil, os finais importam, e é lá que se busca habitualmente — às vezes de forma inconsciente — significado e morais para a criança que lê a história.
- Os objetos maravilhosos ocultos nos contos de Andersen não são sempre fáceis de identificar, pois realizam atos de desaparecimento notáveis; a ervilha em “A Princesa e a Ervilha” torna-se, ao final da história, uma autêntica peça de museu em exibição no Museu Real — se é que não desapareceu; o rouxinol vem e vai, cantando suas melodias encantadoras quando lhe apraz.
- William J. Bennett pode insistir que “A Menina dos Fósforos” é uma “simples história trágica que desperta piedade em cada coração infantil”, mas muitos leitores crianças serão mais comovidos pelas belas visões da menina do que por seu estado abjeto; a chama dos fósforos tem o poder de acender a imaginação, produzindo visões de calor, fantasia e beleza.
- Há boas razões para ser cauteloso sobre a consagração da beleza como valor supremo do conto de fadas — o culto de beleza de Andersen é ensombrecido por um profundo medo de que os encantos da beleza possam se tornar demoníacos, evocando desejos tão poderosos que excedem os limites da sociedade civilizada; em “Os Sapatos Vermelhos”, a jovem Karen é apaixonada pelos sapatos de uma princesa e tem um par feito pelo sapateiro local — mas a magia daquela beleza se volta contra Karen, tomando posse de seus pés e a compelindo a dançar sem parar.
- Mas Andersen também compreendia que, sem beleza, nossas vidas são empobrecidas, e quase todas as histórias que escreveu contêm cenas, objetos ou personagens que são edificantes, comoventes e encantadores; não é coincidência que dejligt — o termo dinamarquês que captura uma mistura de beleza, charme e deleite — seja a palavra favorita de Andersen.
- “O Patinho Feio” apresenta um momento triunfante de autorreflexividade — o patinho transformado, ao contrário de Narciso, não se apaixona por sua imagem, mas reconhece que o que está sendo espelhado de volta para ele é seu próprio reflexo; a transformação de patinho em cisne não requer esforço real — é parte de um processo natural e biológico, muito como a metamorfose de lagarta em borboleta.
- “A Rainha das Neves” perturba as águas de “O Patinho Feio”, sugerindo que o desejo de se esforçar pela beleza, quando fica aquém da imitação perfeita, pode se tornar diabólico e destrutivo; o espelho mágico introduzido no primeiro parágrafo de “A Rainha das Neves” é uma ferramenta do diabo, uma superfície que tem a capacidade de encolher o que é “bom e belo” e de ampliar o que é “indigno e feio.”
- Kai, com um fragmento do espelho alojado em seu coração, trabalha em solidão para alcançar a imortalidade, permanecendo preso em auto-absorção narcisista, lutando com o quebra-cabeça de gelo da Rainha das Neves que, quando resolvido, o recompensará — como aprendemos em “Tia Dor de Dente”, o mais assombrosamente sombrio anti-conto de fadas de Andersen — com nada, pois “tudo acaba no lixo.”
- Em “A Psique”, uma estátua de mármore esculpida por um perfeccionista sem nome que destrói tudo o que cria até alcançar a beleza impecável ocupa a posição central — inspirado por uma jovem que vê num jardim, ele molda uma estátua não apenas da jovem, mas também de uma imagem familiar de seus estudos de arte: a Psique de Rafael.
- Quando a jovem romana vê a estátua do artista e ouve sua declaração apaixonada de amor, ela se volta contra ele: “o rosto da beleza teve uma semelhança com aquele rosto petrificante com cabelos de serpente” — transformando-se de Psique em Medusa; a obra de arte apaga o artista, deixando-o apodrecer enquanto ela obtém vingança como um admirado e aclamado exemplo brilhante de beleza.
- “A Sombra” é assombrada pela ansiedade da influência: quando seu protagonista, um “homem erudito”, perde sua sombra, está menos perturbado com o desaparecimento da sombra do que com o fato de que “havia outra história sobre um homem sem sombra” — a novela romântica de Adelbert von Chamisso A Maravilhosa História de Peter Schlemihl (1814).
- A sombra, ao contrário do erudito, se estende e atravessa para o reino da poesia, expondo-se ao poder transformador da arte, encontrando ali os meios para alcançar autonomia, criar ilusões e inverter as relações de poder entre si e seu hospedeiro; a aliança estratégica da sombra com a beleza marca o triunfo da duplicidade e da fraude.
- Se Andersen celebrou a beleza e seu poder transformador em contos como “O Patinho Feio”, também começou a explorar o lado sinistro da beleza — suas ligações com o artificialismo, a frialdade e a paralisia — em obras que vão de “Os Novos Trajes do Imperador” a “A Rainha das Neves” e “A Psique”; “A Sombra” é sua suprema concessão ao lado perturbador da beleza, uma exploração sombria de como a beleza pode não engajar o bom, o verdadeiro e o belo e pode, em vez disso, ocultar um desejo mortal de destruir enquanto toma conta da vida.
- Os grandes escritores, como Nabokov lembrou, não são apenas narradores e professores, mas também encantadores — e como eles operam sua magia fica absolutamente claro quando se leem os contos de fadas de Hans Christian Andersen.
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