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ODISSEU E PENÉLOPE
TATAR, Maria. The heroine with 1,001 faces. First edition ed. New York, NY: Liveright Publishing Corporation, 2021.
- O herói de mil faces dominou a imaginação ocidental, impedindo que se visse como as mulheres figuram nas ficções que foram transformadas em expressões culturais atemporais e universais — nelas as mulheres aparecem, mas quase sempre carecem de vozes e agência, sem falar de presença na vida pública.
- Vê-se Odisseu em ação, presos por seus ardis engenhosos e feitos ousados; sente-se sua dor quando se separa de Calipso, treme-se com ele na caverna de Polifemo e se rejubila com seu retorno a casa para Penélope e Telêmaco.
- Penélope, por contraste, como suas muitas primas na epopeia e no mito, está confinada à arena doméstica, com pouco a dizer em seu próprio nome; nas epopeias nacionais que vão do finlandês Kalevala à francesa Canção de Rolando, e em obras como o drama Fausto de Goethe e a ópera O Holandês Voador de Richard Wagner, as mulheres silenciosamente fiam e tecem, cozinham e limpam, bordam, geram filhos, curam e consertam as coisas, preparando o caminho para a salvação do herói.
- Para avaliar o impacto cultural da Odisseia de Homero, basta imaginar quantos jovens nos Estados Unidos foram solicitados a descrever os traços de caráter de seu protagonista; uma pesquisa no Google por “Odisseu” e “herói” revela que: “Odisseu é corajoso, leal, inteligente, às vezes arrogante, sábio, forte, astuto, manhoso, majestoso”; o SparkNotes declara que “Odisseu tem os traços de caráter definidores de um líder homérico: força, coragem, nobreza, sede de glória e confiança em sua autoridade”; e o CliffsNotes acrescenta que ele “vive tanto pela astúcia quanto pela coragem” e é “um intelectual.”
- Quanto a Penélope, o primeiro resultado no Google a define não por si mesma, mas por seu papel doméstico de “esposa de Odisseu” e “mãe de Telêmaco”; “as qualidades mais proeminentes de Penélope são a passividade, a lealdade e a paciência — junto com a beleza e a destreza no tear — as antigas virtudes femininas”, e o comentário culmina em: “ela faz muito pouco além de deitar na cama e chorar”; a “fidelidade” permanece uma de suas “características mais significativas”, enquanto a infidelidade do marido deixa de ser mencionada; um site intitulado A Psicologia de Penélope declara que ela é “renomada” porque mescla “a fidelidade que todo homem espera de sua esposa, mas também exala o desejo sexual que ele quer de uma amante.”
- A Odisseia oferece personagens femininas que são os estereótipos fundacionais da cultura ocidental: de um lado está a encantadora Helena, a femme fatale sedutora que figura como ameaça à civilização humana por ser irresistível aos homens — com a ironia de culpá-la pela vulnerabilidade masculina à beleza; de outro, há Penélope, a esposa virtuosa, casta e fiel, ficando em casa enquanto o marido se expõe às atrações sedutoras de feiticeiras e sereias.
- Helena é responsabilizada pela morte e destruição — sua beleza lançando mil navios de guerra —, enquanto Penélope tece uma mortalha enquanto realiza os afazeres domésticos e habilmente repele seus suplicantes bajuladores; completando o trio, há a assassina Clitemnestra, que conspira com seu amante para matar o marido Agamêmnon jogando um manto sobre ele e o esfaqueando até a morte — lembrando que nem todas as mulheres são tão castas, fiéis e deslumbrantemente belas quanto as outras duas figuras femininas proeminentes da epopeia.
- Os estudantes foram ensinados a aceitar essas histórias como canônicas, autorizadas e normativas, raramente sendo encorajados a questionar o silenciamento ou a desafiar os estereótipos de gênero.
- A Odisseia emergiu de uma cultura de narrativa oral grega e foi composta na forma conhecida hoje no século VIII a.C.; uma vez escritas, as epopeias transmitidas oralmente perderam a energia improvisacional que impulsionava suas narrativas e recontagens.
- Transformadas em textos sagrados, imutáveis e incontestáveis, tornaram-se parte de um registro literário-histórico — histórias que não mais desafiavam os ouvintes a pesar, responder e remodelar seus termos e valores, como havia sido o caso das performances orais.
- Os contos tradicionais, tal como definidos pelos folcloristas, mudam a cada nova narrativa, incorporando as contribuições criativas dos ouvintes, mesmo enquanto capturam e conservam o que foi transmitido por narradores, bardos e rapsodos anteriores; mas uma vez escritos, mesmo quando reinterpretados por novas traduções, seus valores e crenças historicamente contingentes endurecem em verdades atemporais e universais.
- O contar de histórias e mitos do passado pode ser, e tem sido, contestado, complicado e reimaginado.
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