User Tools

Site Tools


folktale:tatar:start

TATAR

Maria Tatar, John L. Loeb Research Professor of Germanic Languages and Literatures and of Folklore and Mythology.

DANAHER, Patricia. Once Upon a Fairytale. Modern Retellings of Classic Fairytales. United States: BookBaby, 2021.

  • A expressão “Era uma vez” era o modo como os ancestrais separavam o contrafactual — o grande “E se?” — das notícias, fofocas e conversas triviais; para eles, contar histórias não era apenas uma maneira de transmitir sabedoria, conhecimento e habilidades de sobrevivência, mas também um caminho importante para desenvolver inteligência incremental e ascender na cadeia alimentar.
    • Essas histórias anunciavam: aqui está o que talvez nunca aconteça, não devesse acontecer ou talvez nem pudesse acontecer — mas que ajudará a exercitar a imaginação e a engenhosidade.
  • Em Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, Yuval Noah Harari descreve uma “revolução cognitiva” que permitiu ao Homo sapiens sobreviver e prosperar como nenhuma outra espécie — e vê como decisiva não tanto a invenção da linguagem como ferramenta de transmissão de conhecimento, mas a capacidade da linguagem de criar ficção: histórias sobre coisas sem qualquer fundamento na realidade.
    • Essas ficções coletivas assumem a forma de mito, lenda e religião, e permitem que os seres humanos cooperem em grandes grupos; as histórias são também construtos inventados — “não há deuses no universo, nem nações, nem dinheiro, nem direitos humanos, nem leis, nem justiça fora da imaginação comum dos seres humanos.”
    • Os humanos sobreviveram precisamente porque criam ficções coletivas e, de maneira improvável, transformam-se em verdadeiros crentes.
  • Harari não presta muita atenção às ficções coletivas que se sabe serem mentiras e às quais se traz ceticismo — o que Zora Neale Hurston chamou de “grandes e velhas mentiras” —, que assumem a forma das histórias simbólicas usadas não tanto para construir os fundamentos do mundo jurídico, político e comercial do Homo sapiens, mas para dar sentido ao mundo e desenvolver uma compreensão de quem somos e por que fazemos o que fazemos.
    • Ao contar contos de fadas, mitos ou lendas e ao criar ficções literárias, há plena consciência de que as histórias não são verdadeiras — e ainda assim continuamos a contá-las, não porque forneçam fatos históricos, mas porque nos fazem pensar mais e com mais profundidade sobre as contradições culturais vexatórias que fazem parte da condição humana.
  • Os contos de fadas, definidos por John Updike como o “lixo que alivia a vida do povo pré-letrado”, também funcionaram como entretenimento adulto numa era anterior às mídias sociais, ao streaming de filmes e às inúmeras distrações oferecidas pelos dispositivos atuais.
    • Os contos de fadas operam sua magia à medida que evoluem, acrescentando novas camadas enquanto descartam algumas das antigas, oferecendo tanto história quanto historiografia; narrativas como “Branca de Neve”, “Rapunzel” e “João e o Pé de Feijão” têm uma história longa, complexa e estratificada — ligam-nos ao passado e aos ancestrais que as contavam, mesmo enquanto se renovam para se tornar relevantes para a próxima geração.
  • Desde que a empresa hoje conhecida como The Walt Disney Company se tornou o portal dos contos de fadas, essas histórias passaram a ser pensadas como narrativas para os jovens — mas na verdade, embora possam ter migrado para o quarto das crianças com o surgimento da cultura impressa, continuam a ter uma vida robusta no entretenimento adulto.
    • “Chapeuzinho Vermelho” parece hoje propriedade cultural exclusiva das crianças — inúmeros livros ilustrados falam da menina de vermelho e alertam sobre os perigos de se desviar do caminho —, mas a heroína também adentrou a cultura adulta, tornando-se cada vez mais transgressora, sedutora e sensual.
    • Ela passou da posição de presa à de predadora — tornando-se a protagonista ousada do desenho animado Red Hot Riding Hood de Tex Avery (1943) e a heroína do novela erótica Little Red Riding Crop de Tiffany Reisz (2016) —, e a cultura cinematográfica a celebra em filmes como A Companhia dos Lobos (1984), Freeway (1996), Hard Candy (2005) e Hanna (2011).
  • No âmbito dos contos de fadas, está-se sempre renovando: cada versão — poética, dramática, cinematográfica ou literária — engaja o que o DNA do conto de fadas faz tão bem, replicando-se continuamente para produzir histórias que nos compelem a pensar sobre as apostas psicológicas nelas implicadas.
    • Os contos reunidos num volume como esse podem não desmantelar ou derrubar a autoridade da versão Disney, mas revelam quantas possibilidades narrativas diferentes estão embutidas na estrutura do conto de fadas que chamamos de “Cinderela”, “A Pequena Sereia” ou qualquer uma das inúmeras formas mais belas e maravilhosas que constituem o universo dos contos de fadas.
folktale/tatar/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1