4 Heroísmo
BIRZER, Bradley J. J. R. R. Tolkien’s Sanctifying Myth: Understanding Middle Earth. New York: Regnery Publishing, 2023.
1. Os grandes pensadores frequentemente ofereceram a suas comunidades uma anamnese, isto é, a recuperação de encontros passados com o transcendente, como fizeram Aristóteles, Cícero e Santo Agostinho para seus contemporâneos, segundo a tese do filósofo Eric Voegelin.
2. Tal como Santo Agostinho, Tolkien enfrentou um mundo e uma cultura que pareciam a muitos à beira do colapso e esperava que seu mito servisse de anamnese e de retorno à reta razão, ambos convictos de que este mundo e sua história são irredimíveis pela simples vontade ou razão humana, corrompidos por inteiro por Morgoth, embora o mal acabe falhando em corromper os bons, salvos e santificados por Cristo, pois, como ensinou Agostinho batizando Cícero, o homem bom não se exalta com os bens do tempo nem se quebra com seus males, enquanto o mau, corrompido pela felicidade do mundo, sente-se punido por sua infelicidade, e, como responde Aragorn ao cavaleiro de Rohan, o bem e o mal não mudaram desde outrora nem são uma coisa entre Elfos e Anões e outra entre Homens, cabendo a cada um discerni-los tanto no Bosque Dourado quanto em sua própria casa, discernimento e sofrimento que tornam o homem melhor, mais santificado e capaz de ser fogo que faz o ouro brilhar.
3. Nem por isso se deve, em desespero, abandonar o mundo ao inimigo e a seus aliados ou isolar-se da sociedade, pois um dos temas mais importantes de toda a obra acadêmica e ficcional de Tolkien é o heroísmo, não como ato da vontade, mas como fruto da graça, já que Deus, em seu mistério, majestade e graça, permite o mal para que os bons pratiquem o bem, e o mal trabalha com vasto poder e êxito perpétuo em vão, preparando apenas o solo para que brote um bem inesperado, assim como, para Agostinho, o mundo acaba destruindo os ímpios, incapazes de suportar reveses no mundo que reverenciam com orgulho excessivo.
4. Como parte da preparação para o céu, ou santificação, devem-se praticar atos de heroísmo cristão, o que significa cumprir a vontade de Deus e integrar o exército de Cristo, descrito por Hugo de São Vítor como o exército do Verbo Encarnado, Rei que veio a este mundo guerrear contra o diabo, no qual os santos anteriores à sua vinda marcham à frente do Rei e os posteriores, até o fim do mundo, o seguem, estando o Rei no meio de suas colunas, e no qual, embora diversos os armamentos nos sacramentos e nas observâncias dos povos que precedem e seguem, todos servem ao único rei, seguem o único estandarte, perseguem o único inimigo e são coroados pela única vitória.
5. O exército de Cristo é a Igreja que atravessa o tempo e o espaço, continuação do Cristo encarnado, e a Sociedade do Anel constitui seu equivalente mitológico, movendo-se pela paisagem sombria, suportando toda privação, assustada mas cheia de coragem, cumprindo a providência de Deus, enquanto as muitas partes da Igreja, os dons singulares e seus portadores, formam juntos o corpo de Cristo.
6. Embora nem sempre diretamente visível, Deus está sempre e intimamente envolvido na formação e na condução de sua Igreja e de sua criação, intervindo direta e indiretamente tanto no mundo real quanto no mundo subcriado, onde Ilúvatar age por meio de seus agentes, os Valar e Maiar leais, mas distribui os dons da graça a todos os seus servos, Valar, Maiar, Elfos, homens, Anões e hobbits, de modos surpreendentes conhecidos só por ele, o que torna a vida infinitamente complexa e fascinante, pois as grandes políticas da história mundial são muitas vezes decididas não pelos senhores e governantes, nem mesmo pelos deuses, mas pelos aparentemente desconhecidos e fracos, graças à vida secreta da criação e às intromissões dos Filhos de Deus no Drama, de modo que, dentro do Anel de Morgoth, que é a própria Arda, Ilúvatar depende de seu exército, ajuda-o às vezes diretamente pela Chama Imperecível, equivalente mitológico do Espírito Santo, que desperta a criatividade e a imaginação moral, e é a única fonte de toda boa ação.
7. Por isso frustravam Tolkien os leitores incapazes de encontrar Deus na mitologia, cujo elemento religioso está absorvido na história e no simbolismo, podendo Deus ser achado no próprio enredo, já que os elementos do verdadeiro heroísmo cristão aparecem repartidos entre as quatro personagens principais de O Senhor dos Anéis, Gandalf, o profeta, Aragorn, o rei, Frodo, o sacerdote, e Sam, o homem comum e servo, tese dos ofícios cristãos de sacerdote, profeta e rei demonstrada primeiro pelo acadêmico australiano Barry Gordon e reconhecida por Tolkien como verdadeira, embora inconsciente, segundo a qual a Terra-média é salva pelo autossacrifício sacerdotal de Frodo, pela sabedoria e orientação de Gandalf e pela autoridade de Aragorn, herdeiro dos reis, além de forças superiores, crescendo cada agente em poder e graça e tornando-se cada vez mais cristão à medida que responde a seu chamado, pois, como ensina o cristianismo, a jornada de santificação começa quando se aceita a própria vocação e se empregam os próprios dons em prol do Corpo de Cristo.
8. À primeira vista, Frodo parece o herói de O Senhor dos Anéis, pois, no papel de sacerdote, carrega o Anel, a cruz de Cristo e os pecados do mundo, até o coração do inferno, Mordor, por profundo amor aos amigos e à própria vida, e, talvez igualmente importante, compreende e aceita que esse dever é só seu, por ter sido escolhido por Ilúvatar, embora desconheça esse nome.
9. Frodo sobrevive à jornada, mas a experiência de carregar o Anel e sucumbir por fim à tentação transforma-o profundamente, pois conhece por experiência própria o pecado mortal e arrepende-se abraçando a misericórdia, a ponto de, no Expurgo do Condado, pedir aos hobbits que não matem nem mesmo em legítima defesa e deixar Saruman escapar impune, só para vê-lo traído e morto por Gríma Língua de Cobra, parecendo ter se tornado pacifista convicto.
10. Ao aceitar e carregar o fardo do Anel, Frodo despejou na tarefa todo o seu ser espiritual e físico até o ponto de ruptura, e, embora tenha sido brevemente prefeito de Grã-Cava e escrito a história da Guerra do Anel, permanece inquieto, sem a constituição física de antes da demanda e aparentemente abalado também na mente, como sugere o poema “O Sino do Mar”, em que parece descer lentamente à loucura, vagando esfarrapado e falando sozinho porque os homens que encontra não lhe falam, de modo que, para curar-se, atravessa o mar rumo a Tol Eressëa com Gandalf e muitos líderes da Terceira Era, numa jornada final purgatorial, mas de cura, e não de sofrimento.
11. Apesar de parecer o herói, Frodo carece da profundidade e da personalidade matizada de outras personagens do legendário, sendo menos interessante por ter de ser elevado e possuir, por assim dizer, uma vocação, que naturalmente o enobrece e rarefaz demais com a realização da demanda, e, embora desenvolva profundo apreço pela piedade e pela misericórdia, permanece um ponto fixo enquanto outros, como Sam, mudam ao seu redor, prosseguindo no papel de servo sofredor rumo a Mordor, fiel até quase o fim, quando o peso do Anel, que representa o pecado e a tentação, torna-se grande demais, e, transformado permanentemente por carregar a cruz, não consegue reintegrar-se à existência normal e sente-se alheio à vida hobbit, agora pitoresca demais, partindo do mundo que preservou para que outros vivessem vidas normais, produtivas e felizes, mas que ele próprio já não pode desfrutar.
12. O verdadeiro herói de O Senhor dos Anéis é o hobbit à sombra de Frodo, Samwise, de quem o leitor desprevenido pouco espera, já que no início de A Sociedade do Anel ele parece um ignorante e um tolo, envolvido numa discussão inútil numa taverna de Beirágua com o cínico Ted Ruivão e outros provincianos que nunca saíram do Condado e zombam dos boatos de trolls, árvores que andam e trevas que se espalham e talvez penetrem o próprio Condado, recusando-se Sam a recuar apesar de provas frágeis, e até seu nome, que significa meio sábio, nada promete de grandioso.
13. Sam possui uma grande virtude que santifica seu caráter, a lealdade, a do homem comum nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, pois ele reflete o soldado inglês, os soldados rasos e ordenanças de 1914 reconhecidos por Tolkien como muito superiores a ele próprio, lealdade também bíblica, que faz de Sam um São João Evangelista para o Jesus de Frodo, fiel durante toda a jornada e presente ao pé da cruz nas Fendas da Perdição, e que o aproxima ainda de Sir Gawain, cujo motivo é humilde, proteger Artur, seu parente mais velho, rei e chefe da Távola Redonda, da indignidade e do perigo, arriscando em seu lugar a si mesmo, o menor dos cavaleiros e o mais facilmente dispensável, por dever, humildade e autossacrifício.
14. Sam lembra também Wiglaf em Beowulf, outra figura de São João, que nunca abandona Beowulf mesmo quando dez de seus onze companheiros o fazem e que é herói mais verdadeiro que o senhor, frequentemente derrubado pelo próprio orgulho e movido antes pelo desejo de glória pessoal do que pelo dever, sobretudo para com Deus, razão pela qual o subordinado imediato importa tanto, por seguir ordens por amor e dever, e não por proveito, com o orgulho pessoal em seu nível mais baixo e o amor e a lealdade no mais alto, de modo que o heroísmo mais profundo nasce da obediência e do amor, e não do orgulho ou da obstinação, amor e obediência puros que Sam demonstra sobretudo quando, julgando Frodo morto por Laracna, enfrenta a aranha grotesca com Ferroada e o Frasco sacramental de Galadriel, rezando a Elbereth, e o vidro arde de repente como tocha branca, chamejando como estrela que, saltando do firmamento, queima o ar escuro com luz intolerável.
15. Sam é a personificação, o representante e o defensor supremo do Condado, o novo Bilbo, e o simples amor rústico entre Sam e Rosa, nunca desenvolvido, é absolutamente essencial ao estudo de seu caráter e ao tema da relação entre a vida ordinária, respirar, comer, trabalhar, gerar, e as demandas, sacrifícios, causas, a saudade dos Elfos e a pura beleza, de modo que a jornada à Montanha da Perdição diz respeito tanto a ele quanto ao sacerdote Frodo, ao profeta Gandalf ou ao rei Aragorn, já que, enraizado no solo do Condado como um guerreiro-camponês anglo-saxão da alta Idade Média, ele compreende a verdadeira necessidade da demanda e, após o primeiro encontro com os Elfos, pressente uma longa estrada rumo às trevas da qual não pode voltar, por ter algo a fazer antes do fim que está adiante, e não no Condado, representando a liberdade, a paz e a vida ordinária, preferindo cuidar do jardim e da lavoura a caminhar até o coração do inferno, mas aceitando, como todo homem bom, a tarefa dada por Deus, seguindo Frodo com lealdade pura e sem questionar, sempre com o Condado em mente, pois a destruição do Anel representa a vitória do exército de Cristo, que permite a homens, Elfos e hobbits como Sam levar as vidas pacíficas para as quais foram feitos e desfrutar livremente os dons recebidos de Deus.
16. Num capítulo inédito de O Senhor dos Anéis, conservado em duas versões semelhantes e omitido por receio de parecer banal, a história de Sam prossegue alguns anos dentro da Quarta Era, uma semana antes do décimo sétimo aniversário da destruição do Anel, quando Sam, prefeito do Condado, é convidado por Aragorn, Rei Elessar de Gondor e Senhor das Terras do Oeste, e por Arwen a encontrá-los na fronteira, já que o rei proibira os homens de viver no Condado ou atravessá-lo e não podia ele próprio entrar, para receber a grande honra da Estrela dos Dúnedain, traduzindo Aragorn com ternura o nome de Sam em élfico não como meio sábio, mas como simplesmente sábio e plenamente sábio, sinal de que o hobbit tolo que discutia com Ted Ruivão se tornou um estadista sábio e virtuoso, amado e respeitado pelos filhos, que o escutam como as crianças hobbits de outros tempos observavam o mago Gandalf, portando a autoridade de um anjo encarnado.
17. O epílogo revela também o destino de outros heróis da Guerra do Anel, como a partida de Scadufax com Gandalf para o Oeste, a permanência na Terra-média de muitos orcs e Elfos, entre eles Celeborn, o lento isolamento dos orcs pelas forças de Aragorn, que precisam penetrar fundo em lugares sombrios como Moria, a reconstrução de Gondor em sua antiga glória com a ajuda de Gimli e dos Anões e a cura da profunda ferida entre Anões e Elfos, agora unidos por forte amizade.
18. O epílogo mostra a vida como deveria ser, como era antes da ascensão do Senhor Sombrio e como Frodo e os oito da Sociedade a desejariam, com Sam amando a esposa e os numerosos filhos com que Deus o abençoou, ainda mais por vir, uma turba que o velho Saruman desprezaria, pois o mal vê as crianças como obstáculos, enquanto Sam sabe que são essenciais à vida boa, reconhecendo que, se Frodo recebeu a devida glória, ele próprio teve muitos tesouros, e, ao recordar com Rosa a queda de Gollum com o Anel nas Fendas da Perdição e a incerteza de voltar ao lugar mais amado do mundo, à sua Rosa e ao seu jardim, entra em casa e, ao fechar a porta, ouve de súbito o suspiro e o murmúrio profundos e incessantes do Mar nas praias da Terra-média, chamado da eternidade que um dia o levará dos Portos Cinzentos ao Reino Abençoado para um repouso purgatorial como o de Frodo, embora até lá desfrute da família e do jardim.
19. Embora presente em todas as grandes obras, O Silmarillion, O Hobbit, O Senhor dos Anéis e Contos Inacabados, a origem de Gandalf permaneceu um mistério para seu criador durante toda a vida, surgindo primeiro, brevemente, como Olórin, o mais sábio da segunda ordem de anjos, os Maiar, cheio de piedade e paciência aprendidas com um dos Valar, movendo-se invisível entre os Elfos na Primeira Era e oferecendo-lhes belas visões e impulsos de sabedoria.
20. No ano 1000 da Terceira Era, os Valar enviaram Olórin com outros quatro Maiar em forma encarnada à Terra-média, com permissão direta de Ilúvatar, única via pela qual um Maia podia entrar no mundo natural, para despertar seus habitantes do desespero e afastar as imaginações das trevas, chegando Gandalf como o menor dos Istari, os Sábios, depois de Saruman, Radagast e dos dois magos azuis, todos fracassados em deter as obras do Inimigo, pois Saruman, o maior da ordem, estudou demais as artes do Inimigo e tornou-se aliado do mal, Radagast apaixonou-se tanto pelas aves, árvores, animais e terras que esqueceu a missão e o criador, e os dois magos sem nome provavelmente foram corrompidos por Sauron e talvez fundaram cultos de mistério orientais, ao passo que Gandalf se tornou para Manwë o que Sauron era para Morgoth, seu maior servo e lugar-tenente.
21. Gandalf triunfou onde os outros falharam por compreender as tentações que a encarnação traria, os prazeres da carne e a cobiça de poder, assumindo o ascetismo recomendado por São Paulo a Timóteo, de que nada se trouxe ao mundo nem dele se levará e de que basta ter alimento e abrigo, e ecoando Jó ao declarar, ao voltar da morte como o Branco e não mais o Cinzento, que foi enviado de volta nu, por breve tempo, até cumprir sua tarefa, fazendo assim tudo o que podia para atenuar os desejos da carne.
22. Gandalf serve diretamente ao Fogo Secreto e, ao chegar à Terra-média, é reconhecido por Círdan, guardião élfico dos Portos Cinzentos, que, julgando-o o maior dos Istari embora criado como o menor, entrega-lhe Narya, o anel do fogo, capaz de reacender os corações para o valor antigo num mundo que esfria e de opor ao fogo que devora e devasta o fogo que acende, símbolo de seu serviço à Chama Imperecível, o Espírito Santo, como ele declara na Ponte de Khazad-dûm diante do Balrog, demônio de fogo, ao proclamar-se servo do Fogo Secreto e portador da Chama de Anor, enquanto o próprio Saruman teme nele o grande poder e a estranha boa sorte que o acompanham, suspeitando que Ilúvatar, a Chama Imperecível e Manwë o protegem.
23. Cinzento ou Branco, Gandalf carrega imensos fardos espirituais cujo peso transparece no corpo cansado, raramente revela sua verdadeira natureza aos seres comuns, como aos hobbits, que, segundo Aragorn, só lhe veem as brincadeiras e os brinquedos, e nem mesmo a uma Alta Elfa como Galadriel expõe seu propósito pleno, embora nenhum de seus feitos tenha sido inútil, e, antes de morrer em Khazad-dûm, mostra-se inseguro das próprias capacidades, admitindo haver no mundo poderes maiores que ele, alguns com os quais ainda não se mediu, mas jamais vacila em sua missão.
24. Ao retornar como o Branco, Gandalf está cheio de confiança, mais intenso, mais bondoso e mais alarmante, mais alegre e mais solene, presumivelmente fortalecido e instruído por Manwë ou Ilúvatar enquanto sua forma encarnada estava morta, tendo passado pelo fogo e pela água profunda, esquecido muito do que julgava saber e reaprendido muito do que esquecera, invulnerável às armas dos companheiros, com a missão de proteger a Terra-média e inspirar as forças de Ilúvatar a derrotar Sauron, e, cumprida essa tarefa com a queda de Sauron no fim da Terceira Era, que foi sua era, deve partir, deixando o fardo aos povos que ficam, pois seu imenso e direto poder sagrado não pode permanecer sem o risco de, por sua virtude e carisma de Maia encarnado, distorcer o livre-arbítrio dos habitantes na escolha do bem, já que o mundo do mito admite que tais seres caminhem sobre a terra, mas o mundo da história raramente tolera tais intromissões.
25. Além da imaginação moral própria, diversas fontes contribuíram para a personagem, a começar pelo nome Gandalf, tirado da Edda de Snorri Sturluson, do século XIII, uma das muitas designações listadas na Völuspá, a Profecia da Vidente, de onde vieram também os nomes da companhia de Anões de O Hobbit, narrativa em que Odin, o Pai de Todos escandinavo, consulta uma vidente para descobrir a natureza dos homens e do mundo, e que constitui talvez a melhor síntese existente da religião nórdica pré-cristã.
26. Gandalf é um andarilho odínico, à semelhança de Odin na Saga dos Volsungos, do século XIII, em que ele surge como velho errante vestido de cinza, entrando no salão onde as pessoas se sentavam ao fogo à noite, desconhecido de todos, com capa malhada e capuz baixo, descalço, de calções de linho, muito alto, grisalho e caolho, cravando até o punho a espada no tronco da árvore do salão e deixando todos sem palavras de boas-vindas.
27. Em toda a mitologia nórdica, Odin inspira certos heróis e, como Gandalf, não só lhes dá coragem, mas também poderosos dons sobrenaturais para seus feitos, possuindo igualmente um cavalo dotado de poderes sobrenaturais.
28. Fontes cristãs também moldaram Gandalf, como o episódio dos Atos dos Apóstolos em que Deus envia um anjo para libertar Pedro da prisão e, implicitamente, São Bonifácio, Wilfrido, de Mainz e Crediton, missionário anglo-saxão que, segundo o historiador Christopher Dawson, percebeu primeiro a importância dos anglo-saxões e de seu lar isolado e protegido nas Ilhas Britânicas, base intelectual do plano de construir a cristandade medieval a partir das ruínas de Roma e defendê-la das tribos bárbaras pagãs, enquanto Carlos Martel e seus filhos protegiam a França da invasão islâmica vinda da Ibéria, conservando-se a cultura clássica e cristã no extremo noroeste da Europa, em mosteiros anglo-saxões, sobretudo na Nortúmbria, que, como os hobbits alheios aos males do mundo antes da Guerra do Anel, guardaram em quase isolamento o melhor dos mundos clássico e cristão primitivo, e cuja obra lançou mais que qualquer outro fator os alicerces da cristandade medieval, pois a missão na Alemanha não foi aventura espiritual isolada como as dos predecessores celtas, mas parte de um programa clarividente de construção e reforma planejado com o método e a arte de governar da tradição romana, envolvendo uma tríplice aliança entre os missionários anglo-saxões, o papado e a família de Carlos Martel, da qual nasceram o Império e a cultura carolíngios.
29. São Bonifácio exerceu sobre a história da Europa influência mais profunda do que qualquer outro inglês que já viveu, conforme a afirmação de Dawson em A Formação da Europa.
30. São Bonifácio parece fonte tão provável quanto Odin para Gandalf, dado o gosto de misturar o pagão e o cristão, pois, como o intrépido santo, Gandalf forma uma tríplice aliança entre povos distintos, hobbits, Elfos e homens de ascendência númenoriana, e, como ele, recusa operar a partir de uma única base de poder, preferindo a vida de peregrino errante.
31. Há outros paralelos entre a Europa da alta Idade Média e a Terceira Era da Terra-média, já que os hobbits correspondem ao melhor da sociedade comum anglo-saxã e os Elfos de Valfenda e Lothlórien se assemelham aos beneditinos da Alta e da Plena Idade Média, preservando a tradição, criando arte, vivendo como cidadãos do Reino Abençoado e cientes da própria imortalidade, como os monges que viviam metade na terra e metade no reino celeste, e cantando na atemporalidade de seus domínios ao modo do canto gregoriano, a língua pura do beneditino São Gregório.
32. Os homens do norte de ascendência númenoriana lembram as tribos germânicas cristianizadas, como os anglo-saxões, mescladas a uma nobreza romanizada, pois, assim como os francos tentaram proteger as fronteiras após a queda do Império Romano, os Guardiões liderados por Aragorn protegem as fronteiras do Condado e de outros reinos do bem, enquanto os dois reinos númenorianos se encontram em grave situação, como Roma após a destruição do império, com Arnor desaparecido e reduzido a ruínas como o Topo do Vento e as Colinas dos Túmulos e Gondor muito decaído e à beira da destruição, e Denethor e Boromir assemelham-se estranhamente a Carlos Martel e seus filhos, mais atentos aos ornamentos e ao prestígio do império romano do que ao cristianismo capaz de animá-lo.
33. O mito devia terminar em algo semelhante ao restabelecimento de um Sacro Império Romano efetivo com sede em Roma, e Gandalf, como São Bonifácio, inspira toda a Terra-média a deter a invasão vinda do sul e do sudeste, sendo os orcs os grandes exércitos do mal nas fronteiras, tentando penetrar o coração do noroeste da Terra-média como os muçulmanos tentaram penetrar a Europa ocidental nos séculos VII e VIII, enquanto Gandalf pensava apenas na defesa do Oeste contra a Sombra, concepção mitológica certamente informada pelo conhecimento especial da Alta e da Plena Idade Média e pela idealização católica desse período como o ponto mais alto da cristandade.
34. Pretendido ou não como figura de São Bonifácio, Gandalf mostra-se indispensável na luta contra Sauron, cuja derrota só se deve à sua imaginação moral e fortaleza, e, como verdadeiro profeta e servo da Chama Imperecível, inspira os homens a usar seus dons para o bem maior da sociedade, a viver à altura do melhor do passado e a transmitir essa tradição às gerações futuras.
35. Perto do fim da Guerra do Anel, Legolas reflete sobre quão grande e terrível senhor Aragorn poderia ter se tornado pela força de sua vontade se tomasse o Anel, e não é à toa que Mordor o teme, pois desde a apresentação sombria e misteriosa como Passolargo na taverna de Bri ele emerge como o homem mais poderoso da Terra-média, líder dos Guardiões do norte, homens dedicados a vigiar fronteiras e impedir a penetração do Condado pelas forças do Senhor Sombrio, homens solitários, caçadores dos servos do Inimigo encontrados em muitos lugares além de Mordor, que carregam também o fardo da desconfiança dos habitantes do norte, que tomam seu segredo por arte maligna, sendo Aragorn apenas Passolargo para um homem gordo que vive a um dia de marcha de forças capazes de lhe congelar o coração ou arruinar sua pequena cidade se não fosse vigiada sem cessar, papel aceito por gerações de antepassados à espera do tempo próprio para o surgimento do rei que, segundo a profecia, reinará sobre Arnor e Gondor recriados.
36. Do encontro com os hobbits em Bri à busca de Merry e Pippin raptados pelos orcs e ao desafio a Sauron pelo Palantír, Aragorn prova sua capacidade de liderança, fortaleza e bravura, mas só se revela plenamente como o rei profetizado ao atuar como curador, segundo a antiga tradição de que as mãos do rei são mãos de curador, curando Faramir e Éowyn, feridos pela treva mais profunda do Inimigo, e espalhando por Gondor sitiada a esperança de que o rei voltou, com força e amor que fluem por todo o reino e que seus amigos sentem com mais intensidade, como Gimli, que só pela vontade de Aragorn suportou as provações, e Legolas, para quem todos que o conhecem passam a amá-lo à sua maneira, a ponto de até os mortos o seguirem.
37. Gandalf, o profeta, e Aragorn, o rei designado por Deus, concebem e executam o último plano da Guerra do Anel, atacar os próprios portões de Mordor, ato ao mesmo tempo brilhante e desesperado, sob o lema de que vacilar é cair, para distrair Sauron e atenuar sua vigilância enquanto o Portador do Anel e Sam sobem a Montanha da Perdição, fazendo o que a Providência exige ao colocar-se voluntariamente, com suas forças, numa posição que pode significar ruína e morte, como verdadeiros servos de Ilúvatar dispostos a sacrificar-se pelo bem maior.
38. Aragorn assemelha-se aos melhores reis da Plena Idade Média, historicamente próximo de Pepino e Carlos Magno, mas em espírito mais afim a um rei não franco, um anglo-saxão cristão ou um rei escandinavo pagão virtuoso como Beowulf, sendo, numa leitura erudita, o bom rei cristão em contraste com Denethor, mau rei bárbaro, e Théoden, bom rei bárbaro, e reunindo elementos pagãos e cristãos porque a própria realeza medieval sintetizava as virtudes bárbaras e as virtudes clássicas e cristãs, representando tribos e etnias inteiras, mas devendo contas a Deus e aos súditos, revogável quando o rei se recusava a agir como Cristo e reconhecida como escolha divina quando agia como ele, por direito divino, já que a realeza e o verdadeiro poder só podem ser conferidos por Deus, de modo que, se Manwë é o regente de Ilúvatar sobre toda a terra, Aragorn é seu regente na Terra-média, administrador de homens, hobbits, Anões e Elfos.
39. A coroação de Aragorn tem forma medieval, com o consentimento do povo, Frodo, o sacerdote, levando a coroa a Gandalf, o profeta, que a coloca sobre a cabeça do rei como os profetas Samuel e Natã fizeram com os reis Saul e Davi, sendo Gandalf, segundo Aragorn, o motor de tudo o que se realizou e dono da vitória, e, assim como São Bonifácio coroou Pepino em 752 e uniu a cristandade contra forças externas, sobretudo o islã, a coroação une toda a Terra-média contra os remanescentes de Sauron, enquanto Gandalf associa o rei aos Valar ao proclamar que chegam os dias do Rei, abençoados enquanto durarem os tronos dos Valar, e todos reconhecem em Aragorn, ao erguer-se, um homem renascido como rei escolhido por Ilúvatar.
40. Como rei, Aragorn age como um monarca medieval virtuoso, perdoando muitas nações e povos que tomaram o partido de Sauron e deixando-os partir sem punição, libertando os escravos de Sauron e redistribuindo-lhes terras aráveis como reparação, recompensando os aliados com palavras justas e presentes, agindo com misericórdia e justiça, os maiores elogios cabíveis a um rei medieval, e, sobretudo, unindo toda a Terra-média, restabelecendo Arnor e Gondor e extirpando os redutos restantes do mal, numa reunificação mitológica da cristandade com o isolamento de seus inimigos, tornando-se ainda, pelo casamento com Arwen, rei também dos Elfos.
41. Consciente de seu grande fardo, Aragorn não governa arbitrariamente, mas por meio da mais cristã e medieval das instituições, o Conselho, chamado Grande Conselho de Gondor, regendo o reino dentro do quadro da lei antiga, da qual era administrador e intérprete, mas não autor, e, como prova adicional de sua realeza legítima, o rebento descendente da mais antiga das árvores de Valinor volta a florescer na Terra-média.
42. Como a Virgem Maria na teologia católica, Aragorn morre por livre vontade, não por suicídio, mas decidindo quando encerrar a jornada terrena e iniciar a jornada eterna com Deus, já que o homem deveria morrer voluntariamente, entregando-se com confiança antes de ser compelido, morte que glorifica a Deus e reconhece ainda mais sua soberania, e, quando Arwen lamenta a decisão de Ilúvatar de permitir tal morte, Aragorn a consola dizendo que partem em tristeza, mas não em desespero, pois não estão presos para sempre aos círculos do mundo e além deles há mais do que memória, porque a Morte não é uma Inimiga.
43. Para compreender plenamente Aragorn é preciso compreender seu segundo, Faramir, cuja aparição surpreendeu Tolkien em 1944, por não tê-lo inventado nem sequer desejado, embora gostasse dele, simplesmente chegando a caminhar pelos bosques de Ithilien, personagem logo apreciada por C. S. Lewis e Charles Williams e tida como a mais próxima do próprio Tolkien em O Senhor dos Anéis, com quem partilhava o recorrente Sonho da Grande Onda, em que uma onda monstruosa destrói uma civilização, sonho que acompanhou Tolkien por toda a vida.
44. Faramir surge em As Duas Torres como farol de esperança para Frodo e Sam, filho de Denethor e irmão de Boromir, de ascendência númenoriana, num capítulo intitulado “Uma Janela para o Oeste” para indicar que oferece um vislumbre do melhor de Númenor, recusando-se a mentir ou enganar mesmo ao lidar com o inimigo, honrado até o excesso, muito inteligente e relutante em matar até os inimigos.
45. Ao contrário do pai e do irmão, Faramir não se ressente de a família ocupar a regência, e não a realeza, sendo homem de integridade e grande coragem, não um buscador de poder, enquanto Boromir indagava quantas centenas de anos seriam necessárias para fazer de um regente um rei se o rei não voltasse e, diante da resposta do pai, concluía frustrado que em Gondor dez mil anos não bastariam, e, como Sam, Faramir faz o que é certo, e não o que é lucrativo, conveniente ou político, desconfiado pelo pai, ele próprio contaminado pela mera política, para quem Sauron e Mordor tinham se tornado apenas uma potência rival de seu Estado, e não do mundo, da humanidade ou de Deus, ao passo que Faramir conhece seu lugar na criação, nada deseja além de cumprir o papel que Ilúvatar lhe destinou e, embora homem, assemelha-se sobretudo aos Elfos, que aceitaram o sacrifício de seus santuários de beleza sublime pelo bem maior e comum com a destruição do Um Anel.
46. Faramir encarna a graça em vários níveis, primeiro por sua aparição não planejada, criada por Deus e inspirada ao autor, segundo por ter sido sua cura, ao lado das de Éowyn e Merry, que revelou a verdadeira natureza e realeza de Aragorn, e terceiro, e talvez mais importante, por oferecer uma das raríssimas alusões evidentes à religião em O Senhor dos Anéis, quando, antes do jantar com Frodo, ele e seus homens se voltam para o oeste num momento de silêncio, cumprindo as formas piedosas herdadas da tradição mesmo sem estar seguro de seu significado.
47. Cada uma dessas figuras representa um ato heroico distinto, sendo Gandalf o profeta, Aragorn o rei cristão, Frodo o sacerdote sacrificial, Sam o homem comum e Faramir o homem que conhece e respeita seu lugar na criação de Deus, e, embora o legendário esteja repleto de outros heróis dignos de capítulos próprios, como Túrin Turambar, Lúthien, Beren, Eärendil e Tom Bombadil, são esses cinco que melhor representam os heróis santificados de uma mitologia centrada no cristianismo, cumprindo, separadamente e em conjunto, a visão agostiniana pós-romana do heroísmo, síntese de realismo estoico e esperança cristã, e sobretudo a noção paulina de que cada indivíduo é membro do Corpo de Cristo, maior e eterno.
48. Esses heróis lutaram conscientemente pelo bem contra o mal, numa história construída em termos de um lado bom e um lado mau, a beleza contra a fealdade implacável, a tirania contra a realeza, a liberdade moderada com consentimento contra a coerção que há muito perdeu qualquer objetivo além do mero poder, e, embora a sobrevivência humana se deva à coragem indomável de gente bem pequena contra probabilidades impossíveis, selvas, vulcões e feras, lutando quase às cegas, o verdadeiro heroísmo provém da graça, e não da vontade humana, já que o plano de Sauron destruiria o homem como filho de Deus e aboliria a liberdade moral que distingue os homens dos brutos, degradação da qual só o sacrifício dos heróis pode salvar, num apelo à galhardia ainda latente na juventude do século XX.
49. Há tempos de renovação em que os homens acolhem a graça de Deus e usam sabiamente seus dons, atendendo às necessidades da Igreja, mas há também tempos maus que precisam ser renovados e redimidos, tempos em que, segundo a expressão certeira de Tolkien, os homens dormiam.
