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3 Eucatástrofe

FLIEGER, Verlyn. Splintered Light: Logos and Language in Tolkien's World. Grand Rapids: Eerdmans, 1983. (Edição revista e ampliada: Kent: Kent State University Press, 2002).

1. A felicidade duradoura constitui o horizonte tradicional de realização dos contos de fadas.

2. A passagem do ensaio sobre Beowulf a Sobre contos de fadas corresponde a uma mudança da escuridão para a luz, pois a esperança e o desfecho feliz substituem a derrota inevitável, revelando na atração de Tolkien por perspectivas tão distintas a tensão de sua própria natureza.

3. Enquanto a leitura de Beowulf valoriza a coragem diante da derrota, a reflexão sobre os contos de fadas privilegia o encantamento e a necessidade humana de beleza e maravilhamento, apresentando o Reino Encantado como um domínio perigoso no qual perder-se pode permitir reencontrar-se numa condição superior.

4. O estudo de Beowulf concentra-se na interpretação de um único poema, enquanto Sobre contos de fadas articula história do gênero, análise crítica, teoria da fantasia e filosofia da criação, dialogando com os estudos folclóricos e com a concepção romântica da imaginação, especialmente a de Coleridge.

5. Os dois ensaios defendem a autonomia literária de obras frequentemente reduzidas a fontes de informação externa e, ao mesmo tempo, revelam princípios imaginativos de Tolkien que se tornam reconhecíveis quando relacionados à sua própria ficção.

6. A conferência de 1939 foi elaborada durante o início da composição de O Senhor dos Anéis, quando a continuação de O Hobbit começava a integrar-se ao passado mítico de O Silmarillion, circunstância que esclarece a importância atribuída às relações entre conto de fadas, mito e fantasia.

7. A investigação sobre a natureza, a origem e a utilidade dos contos de fadas começa pela rejeição de sua identificação com narrativas sobre seres diminutos, pois sua característica decisiva é o encantamento de Faërie, domínio no qual seres humanos entram e se relacionam com poderes extraordinários.

8. A origem dos contos de fadas não pode ser separada da história da linguagem e da mente, cuja formação conjunta constitui tanto o fundamento da teoria da fantasia quanto a base efetiva da criação mitológica de Tolkien.

9. A natureza e os efeitos da narrativa recebida importam mais do que a determinação isolada de suas fontes, pois história, folclore, lenda e mito se misturam continuamente no Caldeirão das Histórias, do qual cada autor ou narrador oferece uma composição singular.

10. A função dos contos de fadas constitui sua questão mais importante porque a permanência da obra depende de seus efeitos, organizados em Fantasia, Recuperação, Escape e Consolação, sendo a Fantasia o princípio criador do qual derivam as demais experiências.

11. A teoria romântica de Coleridge distingue a Imaginação Primária, participação finita no ato criador divino, a Imaginação Secundária, sua expressão associada à vontade consciente, e a faculdade de formar imagens, reduzida a uma modalidade de memória sem verdadeiro poder de criação.

12. A formação de imagens integra, porém, a própria imaginação e dela difere em intensidade, não em natureza, permitindo reunir sob o conceito de Fantasia a criação imaginativa e sua realização artística, denominada subcriação.

13. A Fantasia consiste em criar ou entrever outros mundos com liberdade diante dos fatos observados, realizando conscientemente um Mundo Secundário por meio da capacidade humana de imitar, em sua própria medida, a atividade do Criador.

14. A Recuperação restitui uma percepção clara das coisas familiares, permitindo que a experiência do fantástico renove o olhar sobre a realidade cotidiana e revele novamente seu caráter extraordinário.

15. A Recuperação aproxima-se da reminiscência platônica ao devolver aquilo que já era conhecido, mas deixara de ser percebido, de modo que o Mundo Secundário deve reconduzir a atenção ao Mundo Primário e, por intermédio dele, ao seu Criador.

16. O Escape constitui uma necessidade legítima quando permite afastar-se da fealdade industrial, da degradação urbana e da substituição incessante dos produtos tecnológicos, encontrando na beleza e na permanência do mito uma alternativa à transitoriedade das realizações modernas.

17. O desejo de escapar da destruição moderna associa-se à lembrança do ambiente rural da infância de Tolkien e impregna o Condado, Lórien e Fangorn de nostalgia, contrapondo-os às máquinas, à fumaça e à devastação de Saruman, Mordor e do próprio Condado corrompido.

18. Essa nostalgia remete a desejos mais antigos e profundos, como a liberdade de explorar o mar, voar como as aves e conversar com outros seres vivos, para os quais a fantasia oferece uma satisfação e uma consolação temporárias.

19. O desejo de compreender a linguagem dos animais exprime uma nostalgia da condição anterior à Queda e uma consciência da separação entre a humanidade e o restante da criação, acompanhadas pela aspiração de restabelecer a união perdida.

20. A compreensão dessa separação como ruptura culpável transforma a reflexão literária em questão teológica, identificando a Queda com o rompimento da relação humana com Deus e com o restante da criação.

21. A Consolação do Final Feliz culmina na eucatástrofe, termo formado para designar a reviravolta benéfica em que o mal é vencido e o bem triunfa, invertendo o sentido trágico da catástrofe.

22. A alegria súbita da eucatástrofe depende da possibilidade efetiva de sofrimento e fracasso, pois somente a ameaça da discatástrofe torna pungente a libertação e permite recusar a derrota universal e definitiva.

23. O desejo mais profundo de escape dirige-se à morte e organiza a investigação de Tolkien sobre mortalidade e imortalidade, distinguindo a duração indefinida da vida, que pode aprisionar ao mundo, da vida eterna que transcende a morte e conduz a Deus.

24. Os seres humanos desejam escapar da morte e os elfos poderiam desejar escapar da ausência de morte, mas a verdadeira libertação não consiste na simples perpetuação da existência e sim na passagem pela morte à vida eterna, fundamento da consolação evangélica.

25. A escolha dos termos evangelho e alegria recupera seus sentidos de boa-nova, regozijo e temor reverente, evidenciando a direção religiosa da compreensão tolkieniana da consolação.

26. Os Evangelhos realizam no Mundo Primário a essência dos contos de fadas, pois o nascimento de Cristo constitui a eucatástrofe da história humana e a Ressurreição completa a narrativa da Encarnação, elevando a aspiração da subcriação ao cumprimento na criação.

27. A aproximação entre narrativa cristã e conto de fadas encontra afinidade com a análise de Auerbach sobre a influência da história de Cristo na literatura ocidental, mas acrescenta a passagem da crença secundária própria da ficção à crença primária numa realidade histórica.

28. A história de Cristo constitui, para Tolkien, a realização suprema do conto de fadas porque sua condição histórica satisfaz na própria criação os desejos humanos de libertação, perdão, reencontro e felicidade final.

29. A reviravolta que conduz do desespero à alegria produz uma mudança de orientação da mente, uma metanoia que aproxima a experiência da eucatástrofe de uma conversão, ainda que em grau reduzido.

30. A descoberta de que um conto vivido como verdadeiro no Mundo Secundário também corresponde à realidade primária produziria uma alegria da mesma natureza daquela experimentada na reviravolta feliz, reunindo Fantasia, Recuperação, Escape e Consolação numa experiência de verdade.

31. As perspectivas de derrota e salvação presentes nos dois ensaios não se excluem, pois ambas reconhecem a necessidade de luz e escuridão, enquanto a fé cristã resiste ao desespero e afirma uma esperança que ultrapassa o horizonte visível da existência terrena.

32. A esperança apenas pressentida em Beowulf recebe, na reflexão sobre os contos de fadas, sua confirmação na realidade histórica da Ressurreição, mas a possibilidade da reviravolta exige que a ameaça do fracasso e a dúvida sobre o desfecho permaneçam autênticas.

33. A dúvida constitui um elemento necessário dos dois ensaios e também de sua perspectiva religiosa, manifestando-se no reconhecimento de que a narrativa evangélica corresponde ao desejo humano mais intenso de encontrar uma história verdadeira.

34. A cautela de certas formulações combina o desejo de acreditar com a aceitação da verdade dos Evangelhos, e, embora a afirmação explícita de sua veracidade revele convicção, esperança, dúvida e crença permanecem entrelaçadas.

35. A experiência de abandono de Cristo legitima a presença da dúvida na fé, e a capacidade de manter conceitos contraditórios em tensão equilibrada constitui um princípio criador da filosofia e da ficção de Tolkien, nas quais luz e escuridão geram a percepção, a linguagem e a ação de seu universo mitológico.

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