Moralidade
ZIPES, Jack. Breaking the magic spell: radical theories of folk and fairy tales. Rev. and expanded ed ed. Lexington: University Press of Kentucky, 2010.
O CONTEXTO DOS DEBATES SOBRE LITERATURA INFANTIL
- A comoção em torno dos livros de J.K. Rowling é perturbadora porque muitas pessoas são enganadas por mitos sobre a literatura infantil e sobre como as crianças aprendem a ler e a ler o mundo.
- A presente discussão crítica já apontou esse dilema ao tratar dos mitos criados por Bruno Bettelheim sobre contos de fadas, assim como fazem muitos críticos que usam crianças e suas leituras como peças em conflitos políticos e sociais.
- O contexto da discussão sobre crianças e literatura infantil é tão importante quanto as próprias crianças, seus hábitos de leitura e seus costumes.
- Pretende-se abordar problemas encontrados ao falar sobre literatura infantil, sem oferecer soluções, mas com o propósito de descrever sua natureza problemática.
- Sem reconhecer a natureza problemática da literatura infantil, não é possível levá-la a sério nem apreciar a moralidade radical de alguns contos de fadas e obras de fantasia que foram massivamente divulgados para jovens leitores.
AS TESES SOBRE A NATUREZA PROBLEMÁTICA DA LITERATURA INFANTIL
- A literatura infantil propriamente dita não existe, pois a literatura destinada a jovens leitores é sempre escrita para o próprio autor e para editores, cujos interesses estão investidos nos textos e na distribuição desse material comercializado.
- A maior parte da literatura infantil é lida principalmente por adultos, especialmente bibliotecários, professores e mães.
- Nunca é claro o que se entende por “crianças” ou por “literatura” ao usar o termo “literatura infantil”, o que levanta questões sobre faixas etárias, a introdução do termo “literatura jovem adulta” e se os quadrinhos, piadas, anúncios, jogos de bonecas e hipertextos de computador fazem parte dela.
- A literatura infantil é frequentemente específica em termos de classe, gênero e raça, mesmo quando não é essa a intenção, sendo os chamados clássicos lidos principalmente por crianças de famílias brancas de classe média nos Estados Unidos.
- A ênfase em testes e no comercialismo nas escolas é um obstáculo para professores que gostariam de induzir as crianças a ler de maneira crítica e criativa.
- Aprender a ler de forma crítica e imaginativa é um processo longo e árduo, e um bom leitor é alguém que aprende a questionar o que lê, em vez de aceitar sem refletir.
- A literatura infantil é avaliada principalmente por especialistas da área, que supostamente têm padrões, ou por não especialistas cujos padrões são arbitrários, sendo que as listas e prêmios de best-sellers indicam apenas que certos mercados e grupos de elite determinaram que determinados livros valem a pena ser lidos.
- A literatura infantil não é um texto ou um livro, mas um texto ou livro como mercadoria, cujo valor depende de seu valor de troca em um campo de produção cultural dominado por grandes conglomerados em busca de lucro máximo.
- Deve-se às crianças o dever de avaliar a literatura infantil em seu estado atual da maneira mais crítica possível.
- Nunca antes na história houve tantos escritores e ilustradores talentosos de livros e textos para jovens, nem tantos materiais questionáveis e padrões duvidosos em testes criados para crianças.
A REPERCUSSÃO DOS LIVROS DE HARRY POTTER
- É preciso perguntar por que livros isolados ou coleções como as novelas de Harry Potter ou “As Crônicas de Nárnia” são tratados como uma panaceia para todos os problemas de leitura e como se fossem altamente originais e exemplares.
- Muito antes do primeiro romance de Harry Potter ser publicado, a literatura infantil já havia se tornado o ramo mais lucrativo e bem-sucedido da indústria editorial de livros.
- Os livros de Harry Potter não colocaram a literatura infantil no mapa cultural onde deveria estar, mas fortaleceram seu status e tornaram os leitores comuns mais conscientes de que a literatura infantil é a mais popular das literaturas populares.
- Os livros de Harry Potter não são verdadeiramente originais e não são uma panaceia para os supostos problemas de leitura das crianças, embora possam ajudar alguns leitores, mas não no grau que a mídia e alguns professores gostariam que se acreditasse.
A DISTINÇÃO ENTRE LETRAMENTO FUNCIONAL E LETRAMENTO CRÍTICO
- Se há um problema na educação, não é um problema de leitura, mas a comercialização e degradação da educação pública por líderes corporativos e políticos.
- Crianças, especialmente as brancas de classe média, não enfrentam grandes dificuldades para aprender a ler, mas são frequentemente forçadas a ler para testes e para cumprir expectativas que não são delas.
- Há uma grande diferença entre aprender a ler funcionalmente (letramento funcional) e aprender a ler criticamente (letramento crítico).
- Qualquer criança pode ser ensinada a ler o alfabeto, folhas de exercícios, cartilhas, textos canônicos e testes, mas nem toda criança pode aprender a ler para questionar essas coisas e pensar por si mesma.
O PAPEL DA LITERATURA INFANTIL E A QUALIDADE DO DIVERTIMENTO
- Deve-se avaliar o papel da literatura infantil, filmes e programas de TV para jovens no contexto do conflito entre letramento funcional e letramento crítico.
- Se um texto não estimula o leitor/espectador a refletir criativa e criticamente sobre seu ambiente e a questionar a si mesmo e ao mundo, ele tem muito pouco valor para o desenvolvimento social, moral e psicológico dos jovens.
- Muitos livros são simplesmente prazerosos, proporcionam fuga e ajudam a passar o tempo de forma divertida, como o conceito francês de “divertissement”.
- O divertissement funciona na sociedade de maneira política para distrair do prazer que se pode criar a si mesmo e da atenção crítica que deve ser direcionada, de forma prazerosa, para problemas que precisam ser resolvidos.
A NATUREZA E O VALOR DOS CONTOS DE FADAS E DA LITERATURA FANTÁSTICA
- Contos de fadas e literatura fantástica podem tanto divertir de maneira significativa quanto servir como fuga, desempenhando um papel crucial no avanço da consciência crítica dos jovens.
- A diferença entre ficção realista e literatura fantástica não é tão grande quanto se acredita geralmente, sendo difícil distinguir conto de fadas de literatura fantástica.
- A literatura fantástica contemporânea, como parte da cultura popular, muitas vezes carece do potencial socialmente subversivo que continha no passado, embora um núcleo de esperança fantástica e moralidade radical permaneça na maioria das fantasias e contos de fadas.
- No passado, havia uma visão pejorativa ou condescendente em relação aos contos de fadas e à literatura fantástica, sendo eles frequentemente associados à literatura frívola e escapista, ou à literatura erótica e imoral perigosa para as crianças.
- A literatura fantástica não é menos realista do que a ficção realista, pois suas narrativas metafóricas são projeções imaginativas e comentários sobre a realidade imediata do autor e de seus leitores.
- Os livros de Harry Potter tocaram uma fibra profunda na sociedade americana e britânica, assim como muitos outros escritores de fantasia para jovens leitores que lidam com bruxos, fadas, ratos e ogros.
A MORALIDADE RADICAL DA NARRATIVA
- De acordo com o psicólogo Jerome Bruner, o dramatismo foca em derivações do canônico que têm consequências morais, e as histórias são explorações dos limites da legitimidade, sendo inevitável tomar uma posição moral ao contar uma história.
- O propósito é questionar o valor social e moral de obras como os livros de Harry Potter e introduzir escritores cujas obras exigem mais atenção do que a literatura convencional para jovens leitores.
- A crítica à literatura infantil, especialmente aos contos de fadas, é um apelo por mudanças radicais compatíveis com as transformações nos sistemas sociais e políticos dos últimos quatro séculos.
MUDANÇAS RADICAIS NA ERA DIGITAL E A POSIÇÃO DE ELIZA DRESANG
- Segundo Eliza Dresang, a literatura para jovens tem sido tradicionalmente linear e sequencial, mas os livros da era digital são projetados de forma diferente, sendo não lineares e não sequenciais, exigindo que os jovens leitores criem seu próprio caminho.
- Dresang entende que não é necessário que os jovens tenham acesso direto à internet para encontrar os tópicos quentes do mundo digital, sendo melhor equipá-los com informações e habilidades do que restringir o acesso.
- As crianças sempre leram livros escritos para adultos, e o que elas não precisam é de uma literatura empobrecida (“dumbed down”) sob a suposição de que não conseguem lidar com complexidades.
- Zygmunt Bauman argumenta que a “interatividade” das novas mídias é um grande exagero, tratando-se de uma “mídia interativa de mão única”, na qual mesmo aqueles com acesso fazem escolhas dentro do quadro definido pelos fornecedores.
- Dresang não investiga suficientemente os problemas do déficit de atenção e da distração causados por “fragmentos sonoros” e “imagens fragmentadas”, nem como os processos cognitivos são afetados pela exposição a textos multidimensionais.
A CONVENCIONALIDADE E O CONSERVADORISMO DOS LIVROS DE HARRY POTTER
- Os livros de Harry Potter são convencionais, previsíveis e ideologicamente conservadores, com um forte investimento na restituição da hegemonia masculina.
- A trama de esperança (um órfão que supera um vilão) se repete em cada romance, com os personagens permanecendo basicamente os mesmos, assemelhando-se ao conto de fadas tradicional do filho mais novo que celebra o poder fálico masculino.
- O mal nos romances é retratado de forma simplista como um grande opressor sanguinário, e a moralidade preto e branca, embora não haja nada de errado nela, pinta o mundo de forma convencional.
- O fato de Harry ser o escolhido que nunca pode ser derrotado mina a mensagem moral, e o processo cognitivo de resolver o mistério é falso porque Harry nunca pode compreender o que constitui o mal.
- Rowling parece propor que se deve lutar e provar que se é bom por meio da ação justa, de maneira reminiscente do credo calvinista, onde quem tem o poder mágico determina os padrões morais.
O CONCEITO DE MAL NA OBRA DE PHILIP PULLMAN
- O conceito de mal de Philip Pullman em sua trilogia “Fronteiras do Universo” é muito mais sofisticado e desafiador, fazendo conexões que permitem aos leitores entender as forças que dificultam seu desenvolvimento.
- A escrita de Pullman é edificante e luminosa, lançando luz sobre o que constitui o mal e refletindo sobre modos alternativos de viver, com múltiplas perspectivas, mudanças de tempo e enredos não sequenciais.
- Pullman critica francamente a religião organizada e as instituições governamentais que promovem a política de poder e moldam a natureza do mal no mundo contemporâneo.
- A qualidade moral das novelas reside na percepção profunda dos dilemas enfrentados pelas crianças em todo o mundo e na fé sincera na capacidade delas de sobreviver e fazer as escolhas morais certas para salvar o mundo.
- No romance “I Was a Rat”, Pullman usa uma paródia de Cinderela para refletir sobre a mídia de massa que informa para desinformar, mostrando como relatos objetivamente ostensivos criam histeria em massa ao retratar Roger como um monstro.
- O problema de Casper Hauser (um “jovem selvagem”) permeia as obras de Pullman, que não demoniza adultos ou sociedade, mas apresenta figuras exemplares que buscam desvencilhar os jovens dos danos que os adultos tendem a causar.
A DEFESA DAS CRIANÇAS NA OBRA DE FRANCESCA LIA BLOCK
- Francesca Lia Block defende as crianças ao retratar suas vidas desesperadas de forma franca, revelando como são vitimizadas no processo de civilização, usando técnicas narrativas e uma concepção de mundo radicalmente diferentes das de Pullman.
- Seus livros para jovens adultos lidam com homossexualidade, drogas, abuso infantil, racismo, antissemitismo, exploração comercial dos jovens e seitas, com Los Angeles pintada tanto como um pesadelo quanto como um mundo de conto de fadas.
- Não há final feliz nas relações formadas em Los Angeles e Nova York, apenas percepções cruéis de que os personagens não podem se enganar escapando por meio de espetáculos.
- Block valoriza muito a natureza moral e terapêutica da expressão artística e pessoal, e suas releituras de contos de fadas de Andersen e dos Irmãos Grimm lançam luz sobre o abuso infantil.
AS REVISÕES DOS CONTOS DOS IRMÃOS GRIMM POR DONNA JO NAPOLI
- Donna Jo Napoli escreve novelas que focam nas psiques dos personagens centrais, podendo ser consideradas estudos de caso psicológicos, como em “The Prince of the Pond”, “The Magic Circle”, “Zel” e “Spinners”.
- Suas releituras revelam que a felicidade vem ao final de longas e dolorosas jornadas interiores, explorando os motivos internos dos personagens e acrescentando ingredientes que tornam a releitura dos contos dos Irmãos Grimm mais perturbadora do que agradável.
- Em “Beast”, o príncipe Orasmyn é amaldiçoado e transformado em leão, e a mensagem contra o mal do estupro e da violação, falada por um narrador masculino, é raramente ouvida na cultura popular onde os hormônios masculinos correm soltos.
A MORALIDADE OTIMISTA E A IRONIA NAS OBRAS DE WILLIAM STEIG
- William Steig escreve e ilustra livros para crianças entre cinco e dez anos, repletos de otimismo, acreditando que a criança é a esperança da humanidade e recusando-se a escrever um livro deprimente para crianças.
- Sua obra é marcada por cenas pastelão, personagens de vaudeville e enredos imprevisíveis, como visto em “Shrek!”.
- O conto de fadas satírico “Shrek!” brinca com todas as convenções dos contos folclóricos tradicionais para provocar os leitores a considerar a natureza relativa do mal e da beleza.
- Shrek representa o outsider, o marginalizado, o Outro, e a esperança utópica por tolerância e diferença é afirmada em um casamento improvável santificado por um dragão.
A VERSÃO CINEMATOGRÁFICA DE SHREK E A DISPUTA NA INDÚSTRIA CULTURAL
- O filme “Shrek” é radical em enredo e técnica, abrindo questões sobre o conflito dentro da indústria cultural em relação a quem controlará o reino da animação e do entretenimento para os jovens.
- O filme contrasta o mundo artificial de Duloc (Disney) com a beleza natural do pântano, conformistas versus outsiders, convencionalidade versus não convencionalidade, e a tirania da simetria versus a liberdade da assimetria.
- O filme vai além da Disney e do próprio Steig para mostrar, por meio de animação digital impressionante, como o mundo, a arte e as instituições podem ser representados de forma diferente e dirigidos de maneira mais humana.
A GRANDE TRADIÇÃO DE RECUSA NA LITERATURA FANTÁSTICA
- Com exceção dos livros de J.K. Rowling, as obras de Steig, Pullman, Block e Napoli não induzem os leitores a acreditar que o mal pode ser conquistado de acordo com um roteiro convencional ou que pode ser facilmente dominado.
- Essas obras revelam conexões com processos sociais que geram o mal e questionam radicalmente o comportamento “normal” e os padrões tradicionais de moralidade.
- As obras fantásticas de Steig, Pullman, Block e Napoli pertencem à grande tradição de recusa, na qual escritores e artistas se recusam a permitir que suas imaginações sejam cooptadas por forças que buscam instrumentalizar a fantasia em prol do lucro ou do poder.
- A qualidade essencial de todas as grandes obras fantásticas está ligada à sua capacidade de subverter padrões aceitos e provocar os leitores a repensar seu estado de ser e as instituições que determinam a natureza da existência.
- A boa literatura para crianças as provoca a pensar séria e criticamente por si mesmas, contra a corrente, e oferece a esperança de que possam encontrar o vigor moral e ético não apenas para sobreviver, mas para viver felizes com códigos e arranjos sociais que elas mesmas criam.
