INTRODUÇÃO
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A VIDA E A OBRA DE GHAZALI, MESTRE ESPIRITUAL DA COMUNIDADE MUÇULMANA Abû Hâmid Muhammad al-Ghazâlî nasceu em Tûs, no Khorassan, em 1058 e faleceu na mesma cidade em 1111, deixando uma obra considerável e sendo honrado com os títulos de “restaurador da Religião” e “prova do Islã”.
- Ghazâlî combateu incansavelmente para fazer triunfar a Sunna e a fé sunita contra aqueles que ameaçavam a unidade, a paz e o equilíbrio da Comunidade muçulmana reunida atrás do califa abássida de Bagdá.
- O plano do seu livro autobiográfico Al-Munqidh min al-Dalâl (“Aquele que salva do extravio”) permite distinguir as principais períodos de sua atividade: a formação e o primeiro período de ensino (1058-1095), o período de retiro (1095-1105) e a retomada do ensino e da direção espiritual (1106-1111).
A FORMAÇÃO Ghazâlî estudou jurisprudência segundo a escola do Imâm Châfi’i, primeiro em Tûs e depois em Jurjân, iniciando-se também no sufismo sob a direção de um doutor chafiita.
- De 1082 a 1085, Ghazâlî foi discípulo de Juwaynî, famoso teólogo da escola de Ach’arî e teórico do direito, que era diretor da madrasa Nizâmiyya em Nishâpûr.
- Nessa instituição criada para o ensino do direito chafiita, Ghazâlî aperfeiçoou seu conhecimento da jurisprudência e da teologia dogmática (kalâm), além de produzir suas primeiras obras, incluindo um tratado sobre os fundamentos do direito.
O ENSINO Após a morte de Juwaynî em 1085, Ghazâlî juntou-se ao vizir seljóquida Nizâm al-Mulk, com quem aprendeu sobre o papel político dos teólogos e juristas.
- Ghazâlî compreendeu que a manutenção da autoridade do Estado sunita dependia da expansão do ensino da Religião e da Lei, baseado no acharismo e no chafiismo.
- O vizir confiou a Ghazâlî o ensino do direito chafiita na Nizâmiyya de Bagdad, onde ele exerceu suas funções por quatro anos (1091-1095), atraindo um auditório numeroso de mais de trezentos estudantes.
- Durante esse período, Ghazâlî foi tomado por uma necessidade imperiosa de “certeza” (yaqîn), combatendo filósofos e ismaelianos em obras magistrais que redigia nos raros momentos roubados ao seu ensino.
GHAZALI E A FILOSOFIA A transmissão da filosofia grega ao mundo muçulmano, através de centros culturais como Djundîshapûr e da “Casa da Sabedoria” em Bagdad, levou ao desenvolvimento da falsafa com pensadores como Al-Kindî, Al-Fârâbî e Ibn Sînâ (Avicena).
- Ghazâlî, antes de refutar as posições filosóficas contrárias ao Islã, expôs imparcialmente as Intenções dos filósofos (Maqâqid al-Falâsifa), com tanta fidelidade que foi considerado pelos teólogos cristãos do século XIII como um simples discípulo de Avicena.
- Sua refutação, A Autodestruição dos filósofos (Tahâfut al-Falâsifa), é uma condenação de vinte questões de metafísica, das quais três são consideradas “infidelidade” (kufr): a crença na eternidade do mundo, a negação do conhecimento por Deus dos singulares e a negação da ressurreição dos corpos.
- Ghazâlî não condena todas as “ciências filosóficas”, como matemática, lógica, política e ética, tendo composto obras sobre lógica e tentado aplicar a demonstração silogística na teologia dogmática.
- O papel atribuído por Ghazâlî ao Corão é o mesmo que o do Intelecto Agente, e sua teoria do “espelho da alma” é um bem comum à filosofia árabe e à espiritualidade islâmica, tendo ele sido influenciado por Fârâbî e Avicena no Michkât al-Anwâr.
GHAZALI E OS ISMAELIANOS Os ismaelianos, que reivindicavam para si a posse da certeza e da verdade, representavam outro perigo para a fé sunita, levando Ghazâlî a compor várias refutações de sua doutrina, incluindo o Mustazhhiri a pedido do califa.
- Para os chiitas em geral, apenas os descendentes de Ali e Fátima podem legitimamente dirigir a Comunidade muçulmana como “Imâns”, sendo os califas omíadas e abássidas usurpadores.
- Na época de Ghazâlî, Hasan Ibn al-Çabbâh fundou a seita dos “Assassinos” (organização de terrorismo político), da qual provavelmente foram vítimas Nizâm al-Mulk e o sultão seljóquida Malik Châh.
- Ghazâlî refutou a tese ismaeliana (Ta'limiyya) de que o homem deve seguir o ensino de um Imâm infalível, argumentando que a infalibilidade não é necessária em todos os ramos do saber e que o Imâm infalível a quem pedir ensino é o Profeta Muhammad.
- Ghazâlî também combateu os ismaelianos como “intérioristas” (Bâtiniyya), que submetem as Escrituras a uma interpretação esotérica (ta'wil) em detrimento do sentido literal, mostrando que, embora a interpretação esotérica possa ser exata, o sentido literal permanece sempre verdadeiro e vinculante.
O PERÍODO DE RETIRO (1095-1105) Ghazâlî deixou Bagdad, renunciando aos seus ensinamentos, honras e bens, impelido por uma crise interior que o levou a concluir que apenas o sufismo poderia saciar sua sede de certeza vivida interiormente.
- Foi “por uma luz que Deus lhe projetou no coração” que Ghazâlî recuperou a confiança nos dados dos sentidos e da razão, o que lhe permitiu refutar os erros dos filósofos e ismaelianos.
- Insatisfeito com a teologia dogmática (Kalâm), que considerava um mero sistema de defesa da verdade baseado em postulados, Ghazâlî voltou-se para os sufis, cujas leituras o convenceram de que o caminho não era questão de saber aprendido, mas de experiência íntima (dhawq), estado de consciência (hâl) e transformação do caráter.
- Superando uma crise moral que o impediu de falar e ensinar, Ghazâlî deixou Bagdad no final de 1095, iniciando uma retirada de dez anos que o levou a Damasco, Jerusalém, à peregrinação a Meca e finalmente a Tûs.
GHAZALI E “A REVIVIFICAÇÃO DAS CIÊNCIAS DA RELIGIÃO” (IHYÂ ULÛM AL-DÎN) A obra-prima desse período, a Revivificação das Ciências da Religião (Ihyâ), é uma verdadeira suma do saber religioso e um guia da vida espiritual, composta por quatro seções que tratam das obrigações cultuais, dos costumes tradicionais, das ações nocivas e das virtudes que salvam.
- O Ihyâ foi concebido sob o ângulo da ciência da ação (ilm al-mu'amala) em vez da ciência do desvelamento (ilm al-mukâchafa), pois esta última, de objeto divino, é do domínio da ma'rifa (conhecimento) e só pode ser tratada por alusão e linguagem simbólica.
- A ma'rifa, para Ghazâlî, opera-se por uma experiência íntima (dhawq) e começa como fé e crença, tornando-se uma certeza (yaqîn) que gera temor e esperança, levando às estações da constância, da luta espiritual, da evocação constante de Deus (dhikr) e, finalmente, ao amor (mahabba) de Deus.
- O objetivo das práticas rituais e da obediência é “polir o espelho do coração”, purificando-o da “ferrugem” que o impede de refletir a Verdade, havendo quatro graus de ação purificadora: o corpo, os órgãos da ação, o coração e o “íntimo” (sirr) da alma.
- Durante o retiro, Ghazâlî compôs também o Imlâ (para esclarecer dificuldades do Ihyâ), o Al-Arba'in fi Uçûl al-Dîn (resumo do Ihyâ), um comentário sobre os Nomes divinos (Al-Maççad al-Asnâ) e a obra de refutação aos ismaelianos intitulada A Balança Justa (Al-Qistâs al-Mustaqîm).
A RETOMADA DO ENSINO E A DIREÇÃO ESPIRITUAL (1106-1111) Diante de um Islã entregue a maus sábios, filósofos, ismaelianos e falsos sufis, Ghazâlî sentiu o dever sagrado de sair do retiro e aceitou o pedido do vizir Fakhr al-Mulk para retomar seu ensino na Nizâmiyya de Nishâpûr.
- Após a morte de Fakhr al-Mulk (assassinado por um bâtinita), Ghazâlî retornou definitivamente a Tûs, onde continuou a escrever e ensinar até sua morte em 1111, dirigindo a vida espiritual de seus discípulos em um ermitério (khânqâh) que fundou.
- As grandes obras desse período incluem o Munqidh, a Naçîhat al-Mulâk (“Conselhos aos príncipes”), o Mustacfâ (tratado sobre os fundamentos do direito) e o Michkât al-Anwâr.
- No capítulo sobre a “Profeita” (nubuwwa) do Munqidh, Ghazâlî explica que existe, além da razão, uma “fase” ou um “olho” que vê o mundo oculto (ghayb), e que a possibilidade do conhecimento profético se experimenta pelo conhecimento íntimo (dhawq) na via do sufismo.
- A Naçîhat, destinada ao sultão, recorda os deveres dos príncipes (obediência a Deus e justiça) e o papel do vizir, enquanto o Mustacfá define as fontes da Lei (Corão, Sunna, consenso comunitário e razão) e o papel do raciocínio analógico (qiyas) na interpretação jurídica.
O “MICHKÂT AL-ANWÂR” (O TABERNÁCULO DAS LUZES) E A ASCENSÃO DO ESPÍRITO O Michkât al-Anwâr foi escrito para explicar o verdadeiro significado do “Verso da Luz” (Corão, XXIV, 35) e a tradição do Profeta sobre “os véus de luz e de trevas”.
- O tratado articula-se em torno da ideia fundamental da ascensão espiritual, contendo uma metafísica da participação, a doutrina do homem criado à imagem de Deus e uma classificação das faculdades humanas de conhecimento.
- Ghazâlí reafirma sua posição sobre o fanâ (“extinção”), distinguindo-se dos “gnósticos” e “panteístas”, e classifica al-Hallâj entre os sufis vítimas da “ilusão”, pois a “extinção” é a perda da consciência individual na contemplação do Único Real, sendo a “identificação” um abuso de linguagem.
- Ghazâlî estabelece que a palavra “luz” (nûr) só pode ser entendida em sentido próprio para Deus, sendo que o homem possui um “olho do coração” (o intelecto) para ver as realidades suprassensíveis e ser iluminado pelas luzes celestiais e pela Luz divina.
- O segundo capítulo trata das leis do simbolismo, afirmando que “não há nenhuma coisa do mundo sensível que não seja um símbolo do mundo oculto” e que “o mundo visível é o ponto de apoio para elevar-se ao mundo do Reino celeste”.
- O terceiro capítulo descreve a ascensão espiritual como o afastamento dos “véus” que separam de Deus, traçando a evolução religiosa da humanidade do ateísmo à Santidade suprema, passando pelo culto aos ídolos e pelas formas imperfeitas de crença.
- Ghazâlî distingue aqueles que, como Abraão, alcançaram o termo da ascensão espiritual após percorrer todas as etapas, daqueles que, como o Profeta Muhammad, foram invadidos desde o início pela manifestação divina.
