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ASCETAS

ARBERRY, A. J. Le soufisme: La mystique de l’Islam. Jean Gouillard. Paris: Editions Le Mail, 1988. ENSAIO ORIGINAL

  • Ahmad b. 'Asim al-Antâkî de Antioquia — nascido em Wasit, Iraque, em 140/757, morto em Damasco em 215/830 — reflete em seus versos o estado de espírito dos devotos no início do califado abássida, descrevendo o declínio da fé desde sua plenitude até assemelhar-se a uma veste descorada.
    • As prodigiosas conquistas do primeiro século do islã enriqueceram e deram imenso poder a pessoas estranhas à Casa do Profeta, que reinavam sobre vastos territórios e levavam uma existência de ociosidade e preguiça escandalosa para as almas simples
    • A lenda piedosa isenta os primeiros companheiros e discípulos de Maomé desses excessos: Abu Bakr usava um único vestido preso com dois alfinetes; 'Umar alimentava-se de pão e azeite com vestes remendadas em doze lugares; 'Uthmân não se distinguia de seus escravos pelo traje; 'Alî comprou um cinto por quatro dirhams e uma camisa por cinco
  • Com o advento de Mu'âwiya — 661-680 — tudo mudou e a política subordinou os cálculos temporais às inspirações do ideal espiritual, sendo seu filho e herdeiro Yazîd — 680-683 — um inveterado beberrão.
    • A transferência da capital de Meca a Damasco ilustra por si só o declínio da piedade: a moleza síria suplanta o ascetismo viril da Arábia
    • Diante dessa situação, a solução para as almas religiosas era retirar-se cada vez mais de uma sociedade visivelmente engajada na via da danação
  • 'Umar b. 'Abd al-Azîz — 717-720 — constitui uma exceção honrosa à impiedade califal, celebrado por sua virtude e por sua correspondência com al-Hasan al-Basrî — morto em 110/728 —, eminente teólogo renomado por sua piedade e ascetismo, reivindicado pelos sufis como um de seus mais antigos e distintos adeptos.
    • A carta de al-Hasan a seu protetor augusto ilustra tipicamente o ascetismo dos inícios sem nada prenunciar da teosofia que se desenvolverá posteriormente
    • Passagem traduzida: “Guarda-te deste mundo com toda a tua prudência; ele se assemelha à serpente, suave ao tato mas cujo veneno é mortal… O Todo-Poderoso criou algo que lhe é mais odioso que este mundo e, desde o dia em que o criou, não o olhou mais, tamanho é seu ódio… Maomé, quando tinha fome, amarrava uma pedra ao ventre”
    • Al-Hasan atribui a Jesus e a Davi as práticas de austidade que distinguiam os ascetas sufis contemporâneos, incluindo o uso do hábito de lã — sûf —, o que levou Ibn Sîrîn — morto em 110/728 — a condenar tal prática por preferir seguir o exemplo do Profeta, que se vestia de algodão
    • O apelido de sufi, derivado incontestablemente da palavra árabe que significa “lã”, parece ter sido estreado por Abu Hâshim 'Uthmân b. Sharîk de Kufa — morto por volta de 160/776
  • Ibrâhîm b. Adham, príncipe de Balkh — morto em 160/777 —, natural do Khorassã, teve sua lenda de conversão ao ascetismo frequentemente comparada ao romance de Gautama Buda, tornando-se tema favorito dos sufis posteriores.
    • Passagem traduzida de sua conversão: “Um dia que eu saíra a cavalo com meus cães, ouvi uma voz: Não é para isso que foste criado, não é isso que te ordenei fazer… Ouvi uma voz sair do arção de minha sela: O Ibrâhîm, não é para isso que foste criado. Parei e disse: Fui acordado! Retornei à minha escolta, abandonei meu cavalo e parti para o Iraque, errando de país em país”
    • Em sua vida errante, encontrou anacoretas cristãos que lhe ensinaram o verdadeiro conhecimento de Deus; aprendeu a gnose — ma'rifa — de um monge chamado Abade Simeão, que vivia há 70 anos em sua cela alimentando-se de um grão-de-bico por noite
    • Definiu o início do serviço como “a meditação e o silêncio, salvo para a menção — dhikr — de Deus”
    • Oração traduzida: “Ó Deus, tu sabes que o paraíso não pesa para mim sequer tanto quanto a asa de um mosquito. Se me vieres em auxílio com teu dhikr, se me sustentares com teu amor, se me facilitares a obediência, dá o paraíso a quem quiseres”
  • Shaqîq de Balkh — morto em 194/810 —, discípulo de Ibrâhîm b. Adham, é considerado por diversos autores o primeiro a fazer do abandono a Deus — tawakkul — um estado místico — hâl.
    • A narrativa de sua conversão ilumina os contatos entre o islã e outras religiões contemporâneas: um sacerdote turco de ídolos desafiou-o dizendo que suas palavras não concordavam com seus atos, pois se afirmava ter um Criador Providente, por que saíra de seu país em busca de subsistência?
    • Shaqîq declarou: “A origem de meu renunciamento — zhud — foi a observação desse turco”; voltou para casa, distribuiu todos seus bens aos pobres e se lançou à busca do conhecimento
    • Seu discípulo Hâtim al-Asamm — morto em 237/852 — sistematizou quatro conhecimentos indispensáveis: o conhecimento de Deus, o conhecimento de si mesmo, o conhecimento do mandamento e da proibição de Deus, e o conhecimento do adversário de Deus
  • 'Abd Allâh al-Mubârak de Merv — morto em 181/797 — é reivindicado pelos sufis como um dos seus e escreveu um Kitâb al-Zudh — livro sobre o renunciamento — que chegou até nós, sendo a mais antiga dessas coleções especializadas.
    • Bishr b. al-Hârith al-Hâfî — o descalço —, nascido em Merv e morto em 227/841, que declarava ter sido “um patife e um bandido” antes de ouvir o chamado de Deus, ensinou uma doutrina de indiferença à opinião alheia que anuncia uma futura bifurcação do sufismo — a seita dos Malâmatîya
    • Ensinamentos de Bishr traduzidos: “Esconde teus atos de virtude como escondes tuas más ações”; e ainda: “Retoma o caminho mais próximo: agradar a teu Senhor; não deixes teu coração tornar-se atento aos aplausos ou reprovações de teus contemporâneos”
    • Versos traduzidos de Bishr: “O desespero é belo e honroso; / o temor de Deus, eis a verdadeira nobreza / O desejo leva à infâmia; / pois o mundo pode ser belo hoje, / mas sempre acabará por assaltar e matar”
  • Al-Fudail b. 'Iyâd — morto em 187/803 —, filho do Khorassã que passou muitos anos em Kufa e morreu em Meca, compartilha a violenta reação de Bishr contra a sociedade.
    • Um discípulo observa que o acompanhou durante vinte anos sem vê-lo rir ou sorrir senão uma única vez — no dia em que perdeu seu filho 'Alî —, respondendo: “O Todo-Poderoso amou uma coisa e eu a amei também”
  • Râbi'a de Basra — morta em 185/801 — é a célebre mística cujo nome ficou ligado à primeira enunciação sufi da doutrina do Amor Divino, destinada a tornar-se um dos traços mais característicos do movimento.
    • Recusou todos os pedidos de casamento declarando: “Cessou de existir e morri ao eu. Existo em Deus e sou inteiramente sua”
    • Sua célebre oração traduzida: “Se Te adoro por temor do Inferno, queima-me no Inferno; se Te adoro na esperança do Paraíso, exclui-me do Paraíso. Mas se Te adoro por Ti mesmo, não me prives de tua Beleza eterna”
    • Poema traduzido: “Te amo de dois amores: amor visando meu próprio bem-estar, e amor verdadeiramente digno de Ti. / Quanto a esse amor de meu bem-estar, é que me ocupo em não pensar senão em Ti e em nenhum outro. / E quanto a esse amor digno de Ti, é que teus véus caem e que eu Te vejo”
  • Ahmad b. 'Asim al-Antâkî anuncia, com seu diálogo com um discípulo, a grande transformação do sufismo de modo de vida em teoria da existência e sistema de teosofia.
    • Sobre as faltas interiores: “Evitando as faltas interiores, tuas faltas exteriores serão também nulas como tuas faltas interiores”
    • Sobre a falta mais perniciosa: “Aquela de que ignoras que é uma falta. Mais perniciosa ainda, a que se toma por um ato de virtude quando não é senão uma falta”
    • Sobre a graça mais proveitosa: “Quando Deus te assiste com três coisas: uma razão que desarma tuas paixões, um conhecimento que supre tua ignorância e uma independência que afasta de ti o temor da pobreza”
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