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AMOR
Le Livre des Secrets (Asrar Nama). Tradução de Christiane Tortel. Paris: Les Deux Océans, 1985.
- O coração deve deixar a veste de limo e água e ser, para as Gentes do Coração, o arauto do amor; a alma se acende à Luz do amor do Bem-Amado e aprende-se o hino de amor.
- Como a corda do alaúde, canta-se o segredo dos segredos; como o rouxinol, sem desatar a língua, contam-se os mistérios; como Davi, cantam-se as estrofes dos Extraviados e salmodiam-se os salmos de amor para os corações exaltados.
A contraposição entre a razão e o amor
- Quando o Amor aparece, a razão se torna cega; a razão é semelhante à água e o amor ao fogo, sendo incompatíveis; dos dois mundos, a razão só vê o aparente, enquanto o amor só vê o Amante.
- A razão é o isca de uma armadilha inacabada, ao passo que o amor é o Simorgh da Realidade; a razão é o prólogo do Divã do canteiro florido, e o amor é a pérola que cintila na noite.
- A razão é o asceta que se exibe aos quatro ventos, e o amor é um jovem despreocupado; a razão educa a inteligência, que se afirma, mas o amor é um fogo que brinca com a alma.
A unidade entre coração e amor
- O amor e o coração são dois espelhos frente a frente, que se olham ambos desde sempre; entre os dois há um véu, mas quando o véu é levantado, os dois não são mais que um.
- Do coração ao amor, o caminho não é difícil; a distância entre o coração e o amor é de um cabelo; o mundo do amor é um oceano sem fundo.
- Quando os campeões do amor saem da emboscada, para a razão não há mais escapada; quando o amor entra pela porta, ela foge pela chaminé.
A natureza exigente e transformadora do amor
- Todo ser impotente não pode ser digno do Amor; ele deve ser Bravo e belo jogador, para que de cada tormento nasça uma felicidade.
- Naquele que mergulhou no mar do amor, um mundo sem amigos se fechou; ele bebeu sem pestanejar o veneno que em mil copos se havia vertido.
- Com no coração mil flechas bem fincadas, ele galopa com os cascos na lama como uma antílope; se encontra um sinal da União, inevitavelmente corre para a Separação.
A criação e nomeação do Amor
- Foram acumulados os arquétipos, e nomeou-se isto o mundo; feito isto, escolheu-se uma coisa que foi nomeada e conhecida sob o nome de Amor.
- As lágrimas e a constância são o remédio do amor; a flor, por mais fresca que seja, precisa da nuvem; nas lágrimas e na constância se encontra a beatitude dos amantes.
- Se o amante não se refugiasse na separação, o Amor jamais seria permitido; se o Bem-Amado fosse facilmente conquistado, como gozar-se-ia da União?
A perfeição do amor em todos os seres
- Do Sol do amor, o universo é a sombra; o senhor do universo é o Amor eterno; no cosmos, nenhum átomo gravitaria se não houvesse a perfeição do amor do Bem-Amado.
- Pela mão de sabedoria de Deus, foi atribuída a cada coisa uma perfeição: para o animal, reproduzir-se e nutrir-se; para o homem, a perfeição do amor está no posto e na força.
- Para cada átomo, a perfeição é a Evocação e a Glorificação, que o gnóstico percebe distintamente; a perfeição dos gnósticos se atualiza no “fana”; a perfeição para os Amantes é estar ébrio no aniquilamento.
A busca universal do amor e a situação do sufi
- Todos, do zênite ao nadir, estão em busca do amor; nesta vala, vão buscando a perfeição do amor; aquele que no coração não tem o desejo desse amor, como encontraria o gosto desse amor?
- Ó sufi do hábito cor de céu, no cenáculo vais andando tranquilamente; por causa do inesgotável amor, até o dia da Ressurreição se torneará.
- Quando se está liberto da dura reclusão, chega-se à corte dançando; lança-se a khirqa ao cantor, do anel se faz a gema; mergulha-se além desse mar que se vê, sendo o profano e eis o iniciado.
O símbolo do amor e a transformação através dos véus
- Nesta vala que se chama amor, o véu do mundo é para ti um símbolo perfeito; se o olho do coração está aberto, em cada átomo ele haurirá cem segredos.
- Todos os átomos que existem neste universo, só se os vê em seu movimento giratório; todos estão em estado de embriaguez e em movimento.
- Na amor, faz-se do coração um oceano de segredos cujos abismos sejam pérolas finas e as ondas inteiramente luz; quando se tiver chegado, esse oceano de espiritualidade se espalhará a seus pés.
História do dervixe e Nizam ol Molk
- Um dervixe depositou uma vasilha diante de Nizam ol Molk, pedindo que a enchesse de ouro sem ser avaro; Nizam respondeu que a vasilha era muito grande.
- O ministro fez verter dez vezes mais ouro, mas a vasilha não estava cheia e o dervixe não partia; finalmente, ele encheu sua vasilha de ouro e fez sinal para que se afastasse.
- O dervixe, então, fez escorrer o ouro sobre a própria cabeça e, quando a vasilha ficou vazia, jogou-a fora, dizendo que aceitava o ouro para o restituir, tendo tomado o ouro e nada mais a reclamar.
A conclusão sobre o amor e a necessidade de discrição
- Aquele que não é amoroso não é homem; para ele não há instante com tal Amigo; se na origem da Obra não houvesse este expir, nem o homem nem o mundo teriam conhecido a existência.
- Ó Attar, ao contar os segredos, sabe-se muito bem que se derramam joias; da via dos Segredos, seguram-se as rédeas, pois longa é a rota e a montaria não anda à andadura.
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