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UNIDADE

Le Livre des Secrets (Asrar Nama). Tradução de Christiane Tortel. Paris: Les Deux Océans, 1985.

  • Um Deus, ao qual o mundo deve sua magnificência, atribuiu ao céu e à terra suas posições de dominante e dominado; os dois mundos devem a ele o ornamento da existência.
  • Do KAF e do NUN Ele criou o céu e a terra; de uma fumaça criou a cúpula azulada; com uma bola de sebo deu a visão ao narciso; tornou o dardo de um inseto semelhante à espada do Emir dos Crentes; fez de uma aranha um camareiro.
  • De um pouco de terra suscitou a realidade adâmica; de um sopro fez nascer Jesus filho de Maria; do sangue faz vir o almíscar e da cana anelada o açúcar; da chuva faz vir as pérolas finas e da mina as belas gemas.

A natureza incognoscível da Essência divina

  • Ele é o Primeiro sem precedente e o Último sem fim; Aparente que é Escondido por sua manifestação, escondido que é mais manifesto que a luz.
  • Jamais sua Senhoria conheceu início; seu reino não conhece limite nem fim; ninguém tem indício sobre a essência de sua ipseidade, pois Ele é e não é tudo o que se diz.
  • Ainda que a alma penetrasse a Via, jamais poderá alcançar sua Essência Incondicionada; se não se pode compreender o que é a própria alma, como saber o que é a Essência divina.

A exortação à contemplação da criação e à busca do Deus único

  • Já que não é possível aceder à Essência, consola-se contemplando a beleza da criação; escapa-se do carcanz dos quatro humores.
  • O Senhor não faltou a nenhuma obra; como de um elemento se pode fazer um deus? A água priva-se do elemento úmido, a terra se pisa, o vento se deixa apaziguar, o fogo se asperge com água.
  • Já que nas Duas Moradas há um só Deus, invoca-se o Único, deseja-se o Único, busca-se o Único, vê-se o Único, conhece-se o Único e afirma-se que Ele é Único.

O estado do sufismo e a visão da unicidade divina em cada átomo

  • Qushayri: “o soufi é como uma pleurisia que começa pelo delírio e se termina no silêncio, pois quando se alcançou a fixidez, torna-se mudo.”
  • Cada átomo não cessa de girar para a glória dEle, recitando seus louvores; cada átomo tem um laço secreto com Ele; não se vê no mundo o menor segmento de cabelo que não esteja com Ele face a face.
  • Se a face não estivesse voltada para Ele, um único cabelo aniquilaria; se a Graça não viesse em socorro, nenhum átomo subsistiria; por Ele toda coisa perdura e Ele é escondido.

A imanência divina e o espanto das almas

  • Ele está no coração da alma e fora do mundo; todas as almas por causa dEle estão desconcertadas; o mundo está cheio dEle e Ele não está no mundo; tudo se infunde nEle e Ele não está no centro.
  • Imutavelmente é escondido e manifesto; jamais está dentro, jamais está fora; seu silêncio é causado por sua Loquacidade; sua abscondidade é causada por sua visibilidade.
  • Em cada átomo vê-se sua Presença; vê-se os dois mundos ao mesmo tempo que a Face de Alá; numerosos são aqueles que por causa dEle perderam consciência de si mesmos.

Os limites da razão e da imaginação diante do divino

  • O mundo da razão e o espírito estão desconcertados; Ele é assim ocultado pelo véu; sua Renomeada enche o mundo, mas dEle não há traço; a razão o concebe, mas não é visível; concebível para o intelecto, inconcebível para a imaginação.
  • Fora de Ti não se vê outra coisa; a redução à Unidade é o rejeição das causas segundas; nesta Unidade, por que buscar a União? Tu és aquele que é buscado e aquele que busca.

A criação a partir da gota e a ignorância geral das criaturas

  • As formas de argila moldada aparecem por milhares; quando se reabsorvem em Ti, por Ti são purificadas; um mundo de criaturas veio e se foi, sem compreender por que veio ao mundo e por que o deixou.
  • Nem a alma sabe o que é a alma, nem o corpo sabe o que é o corpo; nem o ouvido sabe o que é a audição, nem o olho sabe o que é a visão; a língua não pode compreender como fala, e o corpo não tem consciência de suas capacidades.
  • Numerosos são aqueles que penetraram nesta morada e numerosos os que saíram; nem o que se vai nem o que chega soube deste mistério; o segredo foi selado de modo que ninguém sabe dele desvendar um fio.

A submissão e o silêncio diante da ordem divina

  • Sob a Ordem, é preciso curvar a espinha; não há outro remédio senão a paciência e o silêncio; todos é preciso calar-se, ninguém é bastante ousado para soltar um suspiro.
  • Da gota recolhida dos lombos de Adão, dessa gota única Ele criou todo um povo; numerosos especularam sobre essa gota, diante de sua especificidade foram tomados de vertigem.
  • Nessa gota d’água os argumentos foram engolidos; dessa vala chegam aos milhares sedentos, é de joelhos que chegam a esta Corte; confessa-se a própria fraqueza e diz-se “Tu és Puro”.

A distância entre a criatura e o Criador e a suficiência divina

  • Deus é Puro e fora de alcance de toda mancha; tu és a poeira do caminho; que afinidade há entre a poeira e a pureza?
  • Se uma formiga do mundo vem a desaparecer, que terá ganhado ou perdido o mundo? Contra esta Porta, como o badalo, se bate a cabeça; tal cabeça nada tirará a esta Porta.
  • Ninguém é mais próximo de Deus do que Deus mesmo; digno de Deus, com efeito, ninguém o é senão Ele.
  • A Suficiência de Deus não necessita de nada; tu és “nada”, que significa esta parada? Com o rosário e a oração, tu quererias que Aquele que não necessita de nada ficasse satisfeito contigo.

A assistência divina e a impotência humana

  • Se a Assistência de Deus não viesse nos socorrer, ninguém jamais teria para Deus o ímpeto para servi-lO; Ele te prescreveu um dever e te outorgou a Assistência.
  • Tal é sua Potência que, para mostrar seu poder, de um só cabelo faz ver mil facetas; diante de sua Magnificência soberana, a razão e a inteligência não passam de faribolas.
  • Tal é sua Unidade que um só cabelo não pode nela se inserir e, absorvido nessa Unidade, o mundo não tem sequer o peso de um cabelo.

O terror da tumba e o interrogatório dos Dois Negros

  • Quando se é lançado no berço da tumba, nasce-se no outro mundo como recém-nascidos; a tumba é um berço estreito e a mortalha oprime como uma pedra; os Dois Negros inquisidores aí penetram e balançam o berço sepulcral.
  • Como crianças que nada conhecem neste mundo, vê-se de que terror se está gelado; já que é preciso permanecer algum tempo na tumba, que é Puro, guarda os dos Negros.
  • Eles perguntam “qual é teu Senhor e qual é tua religião”; ó Deus, inspire a resposta esperada; se não se ensina a fórmula, longa será a etapa e dura a prova.

A súplica final e o reconhecimento da ignorância

  • Ó Deus, todos estamos extraviados, sofremos e nosso coração se obscureceu; da cabeça aos pés somos nó sobre nó, não passamos de nada sobre nada.
  • Tu és o segredo íntimo da inteligência e do espírito; por causa disso a língua derrama pérolas; do mundo certamente não tens nenhuma necessidade, não se dirá mais, “wa Allâhu ’alam” e Deus é mais sabedor.
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