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Farīd al-Dīn ’Aṭṭār. Il Poema celeste. A cura di MARIA TERESA GRANATA. Biblioteca Universale Rizzoli.
Resposta do pai
* a necessidade biológica do desejo carnal é apresentada pelo filho como o fundamento da continuidade da espécie humana e da estabilidade das estruturas sociais e regais.
- a existência de todas as coisas é justificada por sua utilidade intrínseca, sendo a luxúria o motor que permite o surgimento de novas vidas no mundo.
- a organização complexa do trabalho humano e a manutenção da ordem pelos governantes dependem, em última instância, dessa sabedoria natural que rege o instinto.
* a superação do desejo efêmero é defendida pelo califa como o caminho para atingir a intimidade eterna e a união mística com o amado.
- o desapego das paixões luxuriosas é descrito como o estágio necessário para que a alma se anule na divindade, partindo do amor sensível para o amor espiritual intenso.
- a busca pela solidão e pela perfeição exige que o homem deixe o efêmero em favor do que permanece, comparando a companhia da luxúria à de um asno em contraste com a proximidade de jesus.
- o sacrifício da própria vida na via espiritual é considerado superior à sujeição pelas inclinações da carne.
A mulher e o príncipe
* a beleza arrebatadora de um príncipe é descrita como uma força que cativa a terra inteira e subjuga o coração de todos os que contemplam seu rosto.
- as feições do jovem, comparadas a rubis e gemas, exercem um domínio absoluto sobre os apaixonados, transformando o olhar em uma oferenda de sacrifício.
- a lanugine do rosto e o desenho das sobrancelhas funcionam como sentenças e guardas que protegem a alma do sultão interno.
* a obsessão amorosa de uma mulher pobre a conduz ao desespero absoluto, manifestado em lamentos noturnos e na disposição de sofrer qualquer castigo para seguir o amado.
- a mulher, em sua aflição, dispõe—se a correr como uma bola diante do cavalo do príncipe, suportando a zombaria da multidão e os açoites das guardas.
- o ardor do sentimento é tal que ela transforma a própria vida em cinzas, habitando no fogo da paixão sem se queixar do fardo penoso.
* a sentença de morte por despedaçamento é proferida pelo rei para livrar o filho do incômodo causado pela mendicante.
- o monarca ordena que os cabelos da mulher sejam atados às patas de um cavalo para que ela seja reduzida a farrapos em praça pública.
- a multidão presente no local da execução verte lágrimas de sangue diante da crueldade do destino imposto à mulher desamparada.
* a súplica final da condenada revela a profundidade do seu amor ao solicitar que o carrasco seja o próprio objeto de seu desejo.
- a mulher renuncia à vida e à graça, pedindo apenas que seus cabelos sejam atados ao cavalo do príncipe para que a morte lhe seja concedida pela mão do amado.
- a sinceridade da petição comove o coração do rei, que a perdoa e a envia ao palácio para viver junto ao apaixonado como uma alma devolvida à vida.
O descendente de Ali, o discípulo e o eunuco
* o dilema entre a apostasia forçada e a morte é enfrentado por três prisioneiros capturados por infiéis em direção a bizâncio.
- o descendente de Alī e seu discípulo optam por fingir a adoração ao ídolo, confiando na intercessão futura de seus antepassados e mestres para validar sua fé oculta.
- a preservação da vida física é colocada acima da integridade religiosa pelos dois homens, que buscam justificativas teológicas para ceder à idolatria.
* a firmeza espiritual de um eunuco destaca—se como o verdadeiro exemplo de coragem masculina diante da ameaça de decapitação.
- o eunuco recusa—se a inclinar a cabeça diante do ídolo, alegando que, por não possuir intercessores, sua fidelidade deve ser absoluta e irrepreensível.
- a narrativa exalta o comportamento do eunuco, que se porta como um leão enquanto os outros, outrora considerados superiores, buscam refúgio em concessões vís.
Salomão e a formiga
* a determinação de uma formiga em remover uma colina de terra é apresentada como um modelo de firmeza e fidelidade ao amor.
- Salomão questiona a fraqueza do inseto diante de uma tarefa que exigiria a paciência de Jó e a longevidade de Noé, julgando o esforço desproporcional à sua força.
- a formiga justifica seu trabalho como uma prova de devoção a um par amoroso, preferindo morrer no esforço a falhar em seu propósito ou mentir sobre sua resolução.
- o exemplo do pequeno ser serve para instruir os homens sobre a intensidade da paixão que deve habitar o coração dos servidores da via.
O Príncipe dos Crentes, ’Alī, e a formiga
* o remorso de Alī por ferir acidentalmente uma formiga sob o sol intenso ilustra a sensibilidade que o fiel deve ter para com todas as criaturas de deus.
- o leão de deus é tomado pelo pânico e pelo pranto ao perceber o sofrimento do inseto, buscando meios de curá—lo e aplacar sua própria angústia.
- uma visão profética de Maomé adverte Alī de que os céus se encheram de repreensão por sua falta de cuidado com um ser que glorifica constantemente o criador.
- a formiga é apresentada como futura intercessora daquele que a molestou, demonstrando que a magnanimidade divina se manifesta mesmo através dos seres mais humildes.
* a necessidade de vigilância constante em cada passo na via espiritual é enfatizada como garantia contra a ruína e o sofrimento na tumba.
- a caminhada justa neste mundo multiplica—se em benefícios na eternidade, enquanto a inércia e a ignorância levam o homem à condição de mendicante.
- o intelecto deve guiar o movimento do caminhante, pois cada suspiro e cada ação são contados desde a lua até o peixe.
Anūshīrvān e o velho agricultor
* a sabedoria de um velho agricultor ao plantar árvores cujos frutos não colherá é louvada pelo rei Anūshīrvān como um ato de responsabilidade geracional.
- o ancião explica que sua dedicação é uma retribuição ao trabalho daqueles que plantaram no passado para o seu proveito atual.
- a resposta imediata da terra, através da recompensa em ouro dada pelo rei, simboliza que o trabalho dedicado à fé e ao próximo nunca é desprovido de frutos.
O cachorro está com dor de barriga.
* a recusa de Khwāja Jandī em considerar—se superior a um cão demonstra a humildade radical necessária diante das incertezas do destino e da fé.
- o sábio impede que seus discípulos ataquem um provocador, afirmando que sua verdadeira condição só será clara se ele superar o povo da rua na firmeza de sua crença.
- a origem comum entre o homem e o animal na poltrona da terra impede qualquer sentimento de vaidade ou pretensão de superioridade espiritual.
Ma’shūq de Tūs, o cão e o cavaleiro
* a repreensão de um cavaleiro a Ma’shūq de Tūs após este apedrejar um cão reforça a ideia de que todas as criaturas derivam do mesmo modelo divino.
- o cavaleiro adverte que o homem e o animal compartilham a mesma natureza primordial e que o desprezo pela criatura é uma afronta ao criador.
- as qualidades ocultas do cão e seu conhecimento de segredos divinos são destacados como motivos para que se olhe além das aparências desagradáveis.
Abū Sa’īd, o sufi e o cão
* a queixa de um cão ferido perante Abū Sa’īd revela que a aparência de piedade em um homem pode mascarar uma natureza maligna e violenta.
- o cão afirma que confiou no saio de ṣūfī como um símbolo de paz e segurança, sendo traído pela agressividade do homem que o agrediu por um motivo fútil.
- a punição sugerida pelo animal é a privação da veste religiosa, punição considerada adequada para quem desonra o caminho dos homens de paz.
- a natureza canina é atribuída àqueles que, por vaidade, se exaltam acima das outras criaturas, esquecendo—se de sua origem comum no pó.
Abū’l Faḍl Hasan em agonia
* o desejo de Abū’l Faḍl ḥAsan de ser sepultado entre pecadores e taverneiros exemplifica a esperança na misericórdia divina que se volta para os abandonados.
- o sábio recusa o repouso ao lado dos pios e perfeitos, identificando—se com os ladrões e os marginalizados que habitam na obscuridade.
- a proximidade com a luz divina é atribuída àqueles que reconhecem sua sede e seu desamparo, atraindo sobre si o olhar intenso da compaixão.
