AVICENISMO E ANGELOLOGIA
HCARV
5. O Anjo, o Espírito e a Inteligência
A ideia da viagem ao Oriente implica uma pedagogia angélica que torna a noção de alma convergente com uma angelologia.
- A angelologia aviceniana propõe uma tripla hierarquia: os Arcanjos ou Inteligências puras (Querubins), os Anjos que emanam deles como Almas das esferas celestes, e as almas humanas como “anjos terrestres”.
- As almas humanas mantêm a mesma relação com o Anjo do qual emanam (o décimo dos Querubins) que cada Alma celeste mantém com a Inteligência de cujo pensamento sua emanação procede.
- Diferentemente da Alma celeste, a alma humana pode ser infiel ao seu ser, transgredir seus limites e desenvolver a virtualidade demoníaca em si mesma.
- A função cosmológica do Anjo-Inteligência aparece também como uma soteriologia, que é o consumo da pedagogia angélica.
- As almas humanas são uma multidão em relação a uma única e mesma Inteligência, o que coloca o problema de saber como conceber a homologia de estrutura e comportamento com as Almas celestes.
- A resposta a esse problema será menos uma solução teórica do que uma visão — a de Hayy ibn Yaqzan — da qual emerge um problema fundamental da angelologia: o da individualidade específica, que é sua própria espécie e seu arquétipo.
- O Avicenismo teve de confrontar outros sistemas de angelologia, como a angelologia corânica (cuja verdade filosófica é acessível por um ta’wil feliz) e a angelologia averroísta, além de ter gerado inquietação na cristandade.
- É despertando para a consciência de si que a alma pode conhecer o Anjo e o mundo do Anjo, realizando assim seu êxodo do cosmos que é o Ocidente.
- A transcendência comum à alma e ao Anjo em relação ao espaço cósmico implica que as Formas puras possuem um “espaço” inteligível próprio.
- A angelologia é o segundo dos cinco artigos de fé islâmicos, mas a concepção aviceniana do anjo provocou desconforto e hostilidade tanto no Islã quanto na Cristandade.
- A raiz árabe ‘aql foi usada para traduzir intelecto ou inteligência, e o ato de pensamento assim designado foi descrito como gerador de ser e substância até a Décima Inteligência (Inteligência Agente).
- Abu’l-Barakat observou que o termo árabe ‘aql designaria mais propriamente o intelecto prático, ligado à ideia de “impedir”, “atar”, enquanto o termo persa kharad evoca diretamente conhecimento e substancialidade imaterial.
- A exposição de Taftazani distingue três concepções de angelologia: a da ortodoxia islâmica, a dos filósofos (falsafa) e a dos Ashab al-Tilimsat (sábios teúrgicos), que enfatizam o Ruh em vez do ‘aql.
- A exposição de Fakhraddin Razi define um princípio de sistematização: todos concordam sobre a existência dos Anjos como essências pessoais, mas divergem sobre se eles ocupam espaço.
- Para os filósofos e os gnósticos, o Anjo não é mais localizável no espaço dos corpos, e não há ruptura de continuidade entre o ser do Anjo em ato e o da alma humana como anjo potencial.
- A concepção do ser do Anjo e a concepção da alma humana dependem de uma doutrina prévia do Espírito (pneumatologia).
- Suhrawardi motivou a transespacialidade do Espírito (Ruh) distinguindo, de um lado, um pneuma vital que mantém o corpo vivo e, de outro, a alma pensante (espírito divino no homem), que não está no mundo dos corpos.
- “Se ela estivesse no mundo que é o mundo — isto é, se por natureza ela fosse incluída no espaço da cripta cósmica — como ainda seria possível experimentar aqueles estados de êxtase nos quais a alma se encontra além deste mundo no qual ela é estrangeira, encontra-se no mundo que é o seu próprio?”
- A Teologia de Aristóteles afirma que cada entidade espiritual reside em todo o céu de sua esfera, mas possui um lugar particular, diferente do de sua companheira.
- “Não é verdade, como alguns afirmam, que não há ali multiplicidade acima. Mas essa multiplicidade não deve ser entendida como se consistisse em partes de essência; é nos concomitantes da essência que ela consiste.”
- A ideia do Anjo como “hermeneuta do silêncio divino” substitui a ideia do Anjo como servo de Deus e mensageiro das comunicações aos Profetas.
- Conhecendo a si mesma, a Alma conhece o Anjo e o mundo do Anjo, e a relação não constitui um simples “intelectual” no sentido moderno; o Anjo do Conhecimento é eminentemente um Anjo da Revelação.
6. Os Arcanjos-Querubins ou Inteligências
A processão corresponde ao procedimento que o pensamento especulativo se impõe para passar da Unidade do Uno absoluto à multiplicação do ser e à multiplicidade dos seres.
- A ideia exotérica da Criação é excluída, pois supõe uma decisão voluntária e situa todas as criaturas no mesmo plano criatural; trata-se de um estabelecimento eterno, necessitado pela própria necessidade do Ser necessário.
- O ser assim existencializado é eternamente necessitado pelo Ser necessário, embora em si mesmo seja apenas possibilidade-de-ser, declarando um elemento de negatividade e trevas.
- O Primeiro Consequente (Primeiro Causado, al-mubda‘ al-awwal) é, em seu ser, a intelecção que o Primeiro Princípio tem de si mesmo, sendo o Pensamento eternamente pensado pelo Pensamento que pensa a si mesmo.
- O Primeiro Causado é a Primeira Inteligência (al-‘Aql al-awwal), que no Recital de Hayy ibn Yaqzan é o primeiro dos Querubins (Karaban, Karabiyan).
- Na teosofia ismailiana ele é chamado de Arcanjo Sacrossanto, e na teosofia suhrawardiana de Ishraq ele retoma o nome de Bahman (Vohu Manah).
- O comentador Sayyed Ahmad ‘Alawi estabelece analogias com a filosofia dualista antiga do Irã: quando do Primeiro Ser emanou um Anjo chamado Yazdan, de sua Sombra um demônio chamado Ahriman foi inovado no ser.
- “O Anjo se refere às dimensões superiores, Ahriman ao seu oposto. Sombra é uma alusão ao fato de que esta consequência é inerente (à emanação de Yazdan), como a sombra é inerente ao que está obumbrando.”
- A Sombra que procede do Primeiro Anjo é a matéria celeste da Primeira Esfera, uma matéria muito superior à matéria terrestre.
- A cosmologia dos filósofos não menciona a dramaturgia pré-cósmica, mas seu lugar é precisamente tomado pelo processo angelológico da própria cosmogonia, onde a Escuridão contrabalança a Luz, simbolizada pelas duas asas do Anjo Gabriel (nossa Inteligência Agente).
- A processão do pleroma obedece a um ritmo ternário que reproduz a tripla intelecção de si mesma da Primeira Inteligência: (a) uma segunda Inteligência, (b) um Anjo que é a primeira das Almas celestes, © o mais alto dos orbes celestes (Nona Esfera “sem estrelas”).
- Cada Inteligência-Arcanjo é constituída por esta quaternidade: sua própria essência pessoal, donde procedem outro Arcanjo, uma Alma e um céu.
- A Décima Inteligência (Inteligência Agente), no ponto mais distante da processão cósmica onde a Sombra atinge seu máximo, não tem mais energia suficiente para gerar uma outra Inteligência, uma Alma e um céu; seu ato de intelecção se fragmenta na multidão de nossas almas humanas.
- A teoria das Inteligências é exposta na Risala fi’l-Mala’ika (Epístola sobre os Anjos), onde os Querubins e as Almas celestes recebem nomes próprios formados com al-Quds (“Santidade”) e al-‘Izza (“Magnificência” ou “Poder”).
- O pai de Hayy ibn Yaqzan é chamado “Yaqzan” (Vigilans, Vigia), mostrando parentesco com os “Vigias” dos livros de Enoch, entre os quais figuram precisamente os Querubins.
- Nos livros de Enoch, o pleroma dos oito grandes Anjos-Príncipes tem seus nomes compostos com o Tetragrama, exaltando-os acima de todos os outros, semelhante aos nomes formados com Quds e ‘Izza na Epístola de Avicena.
- Metatron como Anjo-Príncipe do mundo divino é o primeiro dos Arcanjos, chamado “Príncipe da Face” e “Filho de Deus”, identificado com Enoch após sua ascensão.
- Metatron como Espírito Primeiro, do qual todos os Espíritos individuais emanaram, está presente nestes e em todos os homens enquanto permanecem em contato com a fonte espiritual divina, representando a peregrinação do Espírito, sua descida e ascensão.
7. Os Anjos Celestiais ou Almas
A eliminação da Alma celeste no esquema binário (apenas duas “dimensões” em cada Consequente) abole a relação da Alma com o Arcanjo-Inteligência, minando toda a angelologia e a psicologia correspondente.
- O Averroísmo desferiu o golpe mais duro à angelologia aviceniana, criticando o esquema triádico que interpõe a Anima coelestis entre a Inteligência separada e o corpo da esfera celeste.
- Para Averroés, o motor de um orbe celeste é uma virtude, uma energia finita que adquire poder infinito através de seu desejo por um ser que é uma Inteligência separada.
- “O erro de um principiante em filosofia” (error incipientis in philosophia) é, segundo Averroés, aceitar a concepção aviceniana da Anima coelestis.
- A crítica averroísta postula que a intervenção do princípio ex uno non fit nisi unum é tão inoportuna quanto a concepção dos Anjos celestiais como Almas motoras das esferas.
- Para Averroés, o motor de cada esfera celeste deseja igualmente a Inteligência motora da esfera mais alta, revertendo a ordem descendente da processão aviceniana.
- “O que é compreendido é causa do que compreende”: uma mesma substância, inteligente e inteligível, pode ser causa de vários seres ao mesmo tempo, pois estes a compreendem, cada qual à sua maneira.
- A eliminação da Anima coelestis como Anjo celestial acarretaria a eliminação da alma humana entendida como “anjo terrestre”, pondo em questão todo o destino da Alma.
- Quando a alma humana, devido ao seu duplo poder intelectivo (especulativo e prático), é considerada como tendo o status de angelicidade virtual (ferehtagt), ela é vista como chamada, pela razão de sua essência, a tornar-se Forma pura.
- A questão é se a individualidade da alma resulta apenas da individuação da qual a Matéria é o princípio, ou se não é necessário conceber para ela uma individuação conforme a condição angélica.
- A alma se comporta em relação à Inteligência Agente como cada Nafs se comporta em relação ao seu ‘Aql, e é nessa relação que reside a garantia da existência continuada.
- A Alma (Anima coelestis) hipostatiza uma “dimensão” média da Inteligência (sua intelecção de seu próprio ser como necessitado pela necessidade de seu Princípio) e é assaltada pelo desejo, o amor (‘ishq) que a carrega em direção ao que ainda não está realizado nela.
- As Almas celestiais e as almas humanas compartilham a modalidade de não serem puramente inteligentes na primeira constituição de sua essência e têm em comum a função de governar corpos físicos, devendo imaginar.
- “A Alma move sua esfera com um movimento natural, perpétuo e circular, mas cuja força motriz é a vontade da Alma e seu desejo amoroso de assimilar-se com a Inteligência perfeitamente feliz da qual ela emana.”
- “A imaginação da beleza causa ardor de amor, o amor causa desejo (inquisitio), e o desejo causa movimento.”
- As Almas celestiais são também chamadas de “Mães”, “Senhoras” e “Anjos que escrevem” (que, no Recital de Hayy ibn Yaqzan, tipificam o intelecto prático da alma humana).
- É a relação da Inteligência Agente com a alma humana que é expressa como a relação de filho para com os pais, ou como o amor recíproco dos amantes.
8. Pedagogia Angélica e Individuação
A relação de filiação que faz da alma humana o filho da Inteligência Agente ilumina esta última figura com uma luz que realça os traços pessoais que os filósofos constantemente identificaram nela.
- A Inteligência Agente é identificada com o Arcanjo Gabriel, sendo o Anjo do Conhecimento e, ipso facto, o Anjo da Revelação, exemplificando respectivamente o caso do Sábio místico e o caso do Profeta.
- “Ou bem a Inteligência Agente é una, excluindo a multiplicidade, ou bem compreende partes.” Se é una, a alma, ao unir-se a ela para uma única intelecção, deve necessariamente inteligizar todos os inteligíveis.
- Se a alma se une apenas a uma certa parte, segue-se que para cada intelecção que pode surgir no homem há uma parte correspondente na Inteligência Agente, mas as intelecções são infinitas, exigindo uma Inteligência Agente de poder infinito.
- A relação da Inteligência Agente com a multidão de almas que emanaram dela não responde à questão da individuação específica, apenas a coloca em um novo plano.
- “O que impede que a Inteligência Agente se relacione com uma alma de uma certa maneira e com outra alma de outra maneira, de modo que sua relação com cada uma seja uma relação específica, como é sua relação com cada corpo celeste?”
- A Inteligência Agente é uma em sua substância, mas múltipla em sua relação, pois o Uno se relaciona com as coisas de diferentes maneiras devido às diferentes disposições que encontra nos receptáculos.
- “O ser que está além do Uno, o Ser puro, é uno, mas a ele estão vinculadas as relações múltiplas, de modo que dele procede o múltiplo na medida em que ele tem múltiplas relações.”
- O Décimo Anjo (nossa Inteligência Agente) produz em seu lugar a multidão de almas humanas que representam a Inteligência e a Alma que o Anjo não teve mais força para dar à luz e que se fragmentou em uma multidão.
- A condição da anima humana é análoga à das Animae coelestes, e seu caminho para a perfeição é conduzir-se de acordo com seu exemplo, mas como pode sua relação com a Inteligência Agente exemplificar a relação individuada de cada Alma celestial com o Anjo-Querubim?
- A alma humana recebe sua individualidade apenas através do fato de sua união com o corpo, e esta individuação é o “serviço” que o corpo presta à alma.
- O destino futuro das almas como substâncias separadas depende do grau de iluminação que terão atingido na terra, da maior ou menor aptidão que terão adquirido para se voltar com espontaneidade para o Anjo-Inteligência iluminador.
- “O ser humano no sentido verdadeiro é aquele que acede ao Anjo — isto é, aquele no qual a condição angélica predomina e que se afasta cada vez mais da condição demoníaca.”
- Se a condição angélica predomina, seria difícil conceber que a individualidade resultasse da matéria terrestre ou da união com essa matéria.
- A preexistência da alma em relação ao seu corpo terrestre é suposta tanto pelo Recital do Pássaro quanto pela célebre qasida sobre a alma, só podendo ser expressa em símbolos.
- No momento da visão mental, enquanto a alma se retirou para “casa”, a Imago mundi aparece em um relâmpago, refletida na Imagem que a alma tem de si mesma.
- A Imagem através da qual a alma se conhece reflete para ela a estrutura e as relações do mundo angélico, e é verdadeiro dizer que, conhecendo a si mesma, a alma atinge o mundo do Anjo.
- Os dois poderes intelectivos da alma (teórico e prático) tipificam o anjo que contempla e dita e o anjo que age e escreve, sendo sua relação análoga à relação entre cada Alma-Anjo e a Inteligência-Anjo.
- “Eu o vi como fui capaz de recebê-lo” (Talem eum vidi qualem capere potui): o evento da Transfiguração era visível apenas para alguns e não para seus olhos corporais, e cada um viu uma figura diferente (um menino, um jovem, um velho).
- Tobias “saiu e encontrou Rafael, o Anjo, diante dele”, e assim também um Suhrawardi viu o Anjo como seu guia.
9. O Número das Esferas Celestes
A física celeste e a astronomia definem as etapas do itinerário, e a peregrinação mística progride em virtude de uma transmutação desses dados em símbolos, que realiza a interiorização progressiva do cosmos.
- Os problemas são quatro e concernem: (1) a pluralidade dos corpos superiores, (2) a pluralidade de suas Almas motoras, (3) a pluralidade dos objetos de seu desejo (ma’shuqat), isto é, suas Inteligências, (4) suas diferenças essenciais e suas modalidades comuns.
- Os Peripatéticos admitiam oito esferas homocêntricas com centro no centro da Terra; os “Modernos” (seguidores de Ptolomeu) acrescentaram uma nona esfera sem estrelas, que comunicava o movimento diurno a todo o conjunto.
- A natureza da quinta essência (substância celeste), que não está sujeita nem à geração nem à corrupção, exigia que todo corpo formado por essa essência se movesse com um movimento circular e uniforme.
- Cada motor só pode comunicar à mesma Matéria um único tipo de movimento, e cada movimento deve proceder de um Motor imóvel, sendo necessário supor tantas substâncias imóveis e eternas quantas forem as esferas postas em movimento.
- Aristóteles chegou a um total de cinquenta e cinco esferas (ou cinquenta e seis incluindo o Orbe das Estrelas Fixas), o que pressupunha um número igual de Inteligências.
- Avicena reflete que pode ser que os vários círculos de um dado planeta admitam como princípio de seu movimento uma certa virtude (energia) emanando do próprio planeta, caso em que o número de Inteligências separadas pouco ultrapassará o número dos planetas (apenas dez Inteligências).
- Se não for assim, e se cada um dos círculos se move em direção às Inteligências, sendo ele próprio o juiz de seu movimento, então as Inteligências separadas serão mais numerosas (cerca de cinquenta).
- “Não há dúvida de que o Primeiro Causado ou bem faz parte de sua série ou está em seu espaço inteligível” (al-hayyiz al-‘aqli).
- A doutrina aviceniana apenas decide que há simultaneidade entre a ordem das Inteligências e a ordem das esferas celestes, e que o número daquelas não é menor do que o número destas.
- “Tudo isso é uma exposição geral a respeito do conhecimento dos Espíritos, Anjos e substâncias ativas que transcendem os corpos sensíveis. Quanto a investigar os detalhes, essa é uma tarefa para o conhecimento místico e intuitivo, não para o conhecimento demonstrativo.”
10. O Avicenismo Latino e o Avicenismo Iraniano
A crítica e os sarcasmos de Guilherme de Auvergne mostram que o que tanto perturbava a teologia oficial era essencialmente toda a teoria das Inteligências e sua conclusão: a doutrina da Inteligência Agente como iluminadora das almas dos homens — em suma, toda a angelologia.
- A teologia combatia todo emanacionismo, reivindicava o ato criativo como prerrogativa exclusiva de Deus e interrompia o solilóquio da alma humana com o Anjo Inteligência Agente.
- A aliança entre a teologia cristã e a ciência positiva serviu para aniquilar as prerrogativas do Anjo e do mundo do Anjo na demiurgia do cosmos, “laicizando” os céus e despovoando-os de suas presenças angélicas.
- A interpretação agostiniana transfere a Deus “em pessoa” as prerrogativas e a função iluminadora da Inteligência Agente, eliminando as prerrogativas do Arcanjo Espírito Santo e Inteligência Agente.
- “Eles são os teólogos que, sob a influência de Avicena, tomam emprestada a terminologia de Aristóteles para formular a teoria agostiniana da iluminação.”
- Santo Agostinho nunca ensinou que o Deus iluminador era nossa Inteligência Agente, pois ele não conhecia o problema, nem a terminologia, nem o esquema das Inteligências (‘Uqal).
- A doutrina agostiniana da iluminação recai sobre a verdade dos juízos, enquanto a iluminação segundo Avicena confere ao intelecto humano as Formas inteligíveis, ou seja, conceitos.
- O puro Avicenismo latino (De causis primis et secundis, De anima atribuído a Gundissalino, e um anônimo publicado por d’Alverny) mantém a angelologia, identificando os Anjos da Revelação cristã com as Inteligências avicenianas.
- “Digo, portanto, que o intelecto em potência são as próprias trevas; quando a inteligência agente se aproxima dele e se une a ele do modo de sua união, ela o ilumina para que, segundo a quantidade de sua luz, receba da inteligência agente a forma na qual está a multidão das formas.”
- A doutrina das Almas celestiais (Anjos da segunda hierarquia aviceniana) é também mantida e valorizada, afirmando que a faculdade de apreender e desejar e a faculdade de mover são separadas, enquanto nas Inteligências puras a vida coincide com a vontade.
- “Só resta, portanto, a inteligência que, de todas as suas forças, permanece na alma purificada após a morte, se por acaso nela se exerceu continuamente antes da morte.”
- A sobrevivência pessoal não pode ser pensada como simples prolongamento do status da condição humana; a khodt-e khod, a mesmidade do self, a pessoa essencial, em seu devir póstumo e em sua imortalidade talvez transcenda imensamente a “personalidade” de fulano filho de sicrano.
- No Islã, os doutores ortodoxos não estavam iludidos em relação às intenções da angelologia filosófica, e os filósofos e teosofistas realizaram um ta’wil dos dados corânicos.
- A visão das altas montanhas do Irã preparou o “intelecto contemplativo” da alma iraniana para receber novamente do Anjo Inteligência Agente uma iluminação que coloca novamente “no presente” a memória de suas hierofanias.
- “Não, não é certo que só Deus basta” (No, no es cierto que solo Dios basta): esta frase de Eugenio d’Ors poderia ter sido usada por um aviceniano preocupado com seu sistema filosófico em resposta a Guilherme de Auvergne.
