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RELATO DE HAYY IBN YAQZAN

HCARV

Composição e Autenticidade do Relato; Comentários e Manuscritos

A ordenação metódica do ciclo avicênico estabelece o Relato de Hayy ibn Yaqzan como a peça inaugural da trilogia.

  • O sentido do Oriente é anunciado por um mensageiro proveniente dessa mesma região, que descreve as etapas difíceis da jornada e convida à iniciação.
  • A dramaturgia mental da obra atua como antecipação e preparação para a ascensão celestial que será recordada no Relato da Ave.
  • A filosofia oriental é definida como o conhecimento das Ideias em si mesmas, abrangendo o mundo angélico em seus graus espiritual, celestial e terrestre.
  • O programa avicênico para essa sabedoria encontra sua fonte primordial neste relato, devendo ser associado às glosas da Teologia de Aristóteles mencionadas por Vajda.

A cronologia da composição do relato é preservada pela biografia escrita por Juzjani, discípulo fiel que acompanhou a trajetória do mestre por Ray, Qazwin e Hamadan.

  • Avicenna serviu ao príncipe Shamsuddawla como médico e vizir, enfrentando dificuldades políticas e sedições militares.
  • Durante o segundo vizirato em Hamadan, Juzjani solicitou ao mestre a composição de um comentário sobre as obras de Aristóteles.
  • A rotina de trabalho dividia—se entre os compromissos políticos diurnos e o estudo noturno da física do Shifa e do Qanun, seguidos por breves momentos de música e conversação.
  • Após a morte do príncipe Shamsuddawla e a ascensão de seu filho, o filósofo buscou secretamente transferir—se para o serviço de Alauddawla em Ispahan.
  • A correspondência secreta foi descoberta pelo vizir de Hamadan, resultando na denúncia e prisão de Avicenna.

Composição e Autenticidade do Relato

O confinamento forçado na fortaleza de Fardajan, que durou quatro meses, constituiu o cenário dramático para a escrita do Relato de Hayy ibn Yaqzan.

  • A libertação ocorreu apenas quando Alauddawla de Ispahan atacou Hamadan, forçando os captores a buscarem refúgio na própria fortaleza onde o filósofo estava detido.
  • Após a reconciliação e posterior fuga disfarçada de Sufis, Avicenna e seus companheiros, incluindo seu irmão Mahmud e Juzjani, entraram triunfalmente em Ispahan.
  • A experiência do cárcere e da profundidade da alma é traduzida na narrativa como o momento em que a alma reconhece sua cidade oculta.
  • A catividade na cripta cósmica e o poço escuro mencionados no Relato do Exílio Ocidental de Suhrawardi adquirem um sentido literalmente trágico.
  • A solidão do cárcere convocou a visão de Hayy ibn Yaqzan, preparando a aceitação do convite para abandonar a prisão dos sentidos.
  • A angelologia surge como resposta a questões secretamente postas pela consciência muito antes de sua formulação.

A complexidade do estilo original árabe encontra no tradutor e comentarista persa um auxílio indispensável para a compreensão das intenções secretas da obra.

  • A língua persa demonstra—se valiosa para sugerir intuições poéticas e delimitar conceitos, oferecendo archaismos de interesse filológico.
  • O estudo dos relatos místicos de Suhrawardi motivou a investigação da inspiração avicênica, dada a relação positiva entre os dois mestres.
  • O Relato de Hayy ibn Yaqzan é documento de primeira importância, pois seu epílogo serve de ponto de partida para o Relato do Exílio Ocidental.
  • A descoberta fortuita de um manuscrito na Biblioteca de Santa Sofia em Istambul permitiu a identificação de uma tradução persa com comentário anônimo.
  • A existência de outras cópias no Irã possibilitou a realização de uma edição crítica da amplificação persa do relato.

A carência de documentação bibliográfica completa dificulta a distribuição precisa dos diversos comentários árabes entre os manuscritos existentes.

  • O interesse primordial reside na contribuição ao avicennismo em persa, apesar do anonimato do comentarista iraniano.
  • Autores como Bahar e Mahdi Bayani registraram a existência do comentário persa, atribuindo—no possivelmente a Juzjani, conforme Shahrazuri e Baihaqi.
  • Brockelmann e Anawati fornecem censos de manuscritos, mas sem distinguir claramente entre o texto simples e as versões comentadas.
  • O manuscrito Ashir 441, anteriormente confundido, pertence na verdade ao Relato do Exílio Ocidental de Suhrawardi.

A metodologia do comentarista iraniano difere das abordagens adotadas nos comentários árabes de Ibn Zayla e al—Munawi.

  • Ibn Zayla, contemporâneo e discípulo de Avicenna, produziu um comentário em árabe que já era conhecido desde a edição de Mehren.
  • Abdurraul al—Munawi, escritor egípcio posterior, também comentou o texto árabe seguindo a mesma tradição de Sufismo.
  • A figura de Hayy ibn Yaqzan estabeleceu—se como um arquétipo pessoal do Shaikh al—Rais dentro de uma longa tradição espiritual.
  • Mir Damad também contribuiu para essa tradição ao comentar os símbolos do relato em resposta a consultas de seus contemporâneos.

A autoria do comentário persa é atribuída com alta probabilidade a Juzjani, excluindo—se outros discípulos como Bahmanyar ibn Marzuban ou o próprio irmão de Avicenna.

  • O irmão do filósofo, professando o ismailismo precocemente, contrasta com o viés anti—ismailita demonstrado pelo comentarista anônimo.
  • A obra foi realizada a pedido do príncipe Alauddawla de Ispahan, fixando sua composição entre o tempo de vida de Avicenna e os cinco anos seguintes à sua morte.
  • Baihaqi confirma em sua História dos Filósofos que Juzjani compôs um comentário sobre Hayy ibn Yaqzan.
  • O comentário provavelmente preserva as conversas e explicações do próprio mestre em seu círculo íntimo de discípulos.
  • Said Naficy incorre em erro ao sugerir que a obra persa seria de Ibn Zayla, ignorando as diferenças linguísticas e textuais apontadas por Baihaqi.

A tradição iraniana que remonta ao círculo imediato de Avicenna é suficiente para dissipar as dúvidas sobre a autenticidade do relato.

  • As objeções baseadas em uma passagem do Prolegômenos de Ibn Khaldun sugeriam a existência de uma terceira obra homônima sobre geração espontânea.
  • Ibn Khaldun cometeu um lapso ao atribuir a Avicenna a obra de Ibn Tufayl, confusão refutada pelos argumentos de Leon Gauthier.
  • A autoridade do historiador magrebino do século XIV não prevalece sobre a evidência histórica e os comentários de Ibn Zayla e Suhrawardi.
  • O texto publicado por Mehren é indubitavelmente o relato composto por Avicenna durante sua detenção em Fardajan.

A estrutura do comentário persa organiza o relato em vinte e cinco capítulos, proporcionando um desenvolvimento orgânico e coerente de cada seção.

  • O termo tafsir é utilizado para a tradução persa, enquanto sharh designa o comentário propriamente dito.
  • A tradução persa mantém fidelidade ao original árabe, substituindo fórmulas complexas por expressões mais claras.
  • O manuscrito de Santa Sofia (A), datado do século VII da Hégira, oferece leituras cruciais para trechos omitidos em outras cópias, especialmente sobre o tema do tawil.
  • Manuscritos das bibliotecas Malek e Sepahsalar em Teerã serviram como fontes principais para o estabelecimento do texto.
  • Versões em hebraico, atribuídas a Ibn Ezra e a um tradutor anônimo que seguiu Ibn Zayla, atestam a difusão da obra.

O objetivo essencial da presente investigação é contribuir para o corpus avicênico em língua persa, priorizando a tradução e o comentário.

  • A Weltanschauung avicênica é apresentada enfatizando a angelologia fundamental como guia para a compreensão dos relatos.
  • A leitura direta do texto deve preceder o esforço de compreensão racional para que o impacto da estranheza oriente o peregrino rumo ao Oriente.
  • As traduções anteriores, como o resumo de Mehren, são criticadas por sua palidez e por reduzirem o relato a uma alegoria seca.
  • Brockelmann erra ao considerar a obra uma alegoria sem substância, ignorando a distinção entre símbolo e alegoria.
  • Diferente de Ibn Tufayl, Avicenna utiliza os personagens Hayy ibn Yaqzan, Salaman e Absal em uma estrutura simbólica inteiramente distinta.
  • As glosas visam coordenar os problemas do relato com a pesquisa contemporânea e a análise de arquétipos da alma iraniana.

12. Tradução do Relato de Hayy ibn Yaqzan

A persistência dos irmãos em exigir a exposição do relato triunfou sobre a determinação inicial de adiar tal tarefa.

  • Se vós persistirdes, meus irmãos, em demandar que eu exponha o Relato de Hayy ibn Yaqzan para vós, finalmente triunfareis sobre minha teimosa determinação de não o fazer.
  • Buscou—se o auxílio e suporte divino para a realização desta empresa.

O encontro com o sábio ocorreu durante uma excursão aos arredores da cidade, onde a figura de um ancião dotado de juventude eterna se manifestou.

  • Certa vez, quando eu havia fixado residência em minha cidade, aconteceu de eu sair com meus companheiros para um dos lugares de prazer que ficam ao redor da mesma cidade.
  • O sábio brilhava com uma glória divina, possuindo a frescura dos jovens e a gravidade imponente dos antigos mestres.

O desejo de intimidade e conversação levou o narrador a aproximar—se do sábio, que o saudou com palavras doces ao coração.

  • Quando eu vi este Sábio, senti um desejo de conversar com ele.
  • O iniciado tomou a iniciativa da saudação, demonstrando benevolência para com o grupo.

A revelação do nome Vivens filius Vigilantis e da origem na Jerusalém Celestial define a profissão do sábio como a de um viajante universal.

  • Meu nome é Vivens; minha linhagem, filius Vigilantis; quanto ao meu país, é a Jerusalém Celestial.
  • O sábio possui as chaves de todo conhecimento, percorrendo os confins do universo por instrução de seu pai, Vigilans.

A conversação avançou para as ciências difíceis e a fisiognomia, revelando a sagacidade do sábio em desvelar a natureza oculta dos homens.

  • A ciência da fisiognomia está entre as ciências cujo lucro é pago à vista e cujo benefício é imediato.
  • Tal conhecimento permite ajustar a atitude de liberdade ou reserva conforme a natureza que cada homem oculta.

A análise fisiognômica revela o narrador como um misto de argila e naturezas inanimadas, cercado por companheiros malignos que ameaçam sua integridade.

  • Em ti, a fisiognomia revela ao mesmo tempo o mais excelente dos tipos de criaturas e uma mistura de argila e de naturezas inanimadas que recebem toda impressão.
  • O perigo reside na submissão ao erro caso não ocorra a salvaguarda divina contra a malícia desses companheiros.

O primeiro companheiro é descrito como um mentiroso e forjador de ficções, atuando como o canal de informações sensoriais que mistura verdade e erro.

  • Aquele companheiro que caminha sempre diante de ti, exortando—te, é um mentiroso, um tagarela frívolo, que embeleza o que é falso, forja ficções.
  • Cabe ao indivíduo separar a boa moeda entre os falsos testemunhos, utilizando—o como olho secreto sem sucumbir às suas mentiras.

O companheiro à direita representa a violência irascível e indomável, assemelhando—se a um fogo devorador ou a uma fera enfurecida.

  • Quanto ao companheiro à tua direita, ele é grandemente violento; quando é despertado pela ira, nenhum conselho pode contê—lo.
  • Ele é comparado a uma leoa cujo filhote foi morto ou a um camelo embriagado.

O companheiro à esquerda é identificado com a concupiscência e o apetite insaciável por matéria, assemelhando—se a um animal imundo.

  • Por último, aquele companheiro à tua esquerda é um desleixado, um glutão, um libertino; nada pode encher sua barriga senão a terra.
  • A libertação desses vínculos exige uma expatriação para um solo onde tais naturezas não podem pisar.
  • Enquanto a hora da partida não chega, deve—se agir como um mestre experiente, dominando as feras para que sirvam de montaria em vez de serem os cavaleiros.

A estratégia para lidar com os companheiros consiste em equilibrar suas forças opostas e manter uma vigilância cética sobre o imaginativo.

  • Um dos estratagemas consiste em subjugar o companheiro glutão com a ajuda daquele que é violento e malicioso.
  • Inversamente, a paixão do irado deve ser moderada pela sedução do companheiro gentil.
  • Não se deve confiar no falante habilidoso em ficções, a menos que ele traga um testemunho de peso proveniente de Deus.
  • O narrador reconhece a veracidade dessas descrições através da experiência e busca curar a influência desses companheiros até a separação final.

O desejo de empreender a mesma jornada do sábio é confrontado com a proibição imposta pela permanência junto aos companheiros.

  • Vós, e todos aqueles cuja condição é como a vossa — vós não podeis partir na jornada que eu estou fazendo.
  • O caminho está fechado a menos que o destino auxilie na separação dos companheiros mundanos.
  • A jornada é interrompida por haltas, onde a solidão permite a companhia do sábio e o retorno aos companheiros provoca a separação dele.

A descrição das três circunscrições da terra revela a existência de regiões estranhas além do Oriente e do Ocidente conhecidos.

  • As circunscrições da terra são três: uma é intermediária entre o Oriente e o Ocidente.
  • O acesso às outras duas regiões é vedado à massa dos homens, sendo reservado apenas aos Eleitos que ganharam força além da natureza humana.

A imersão na fonte de água que flui perto da Primavera da Vida concede ao peregrino a força necessária para cruzar desertos e escalar montanhas místicas.

  • O que auxilia no ganho desta força é mergulhar na fonte de água que flui perto da permanente Primavera da Vida.
  • Purificado por essa água doce, o iniciado torna—se capaz de caminhar sobre o oceano e subir o Monte Qaf sem ser lançado ao abismo.

A localização da fonte está relacionada à Escuridão polar, onde o sol brilha apenas em tempos fixos e a luz é descoberta após o mergulho nas trevas.

  • Tu ouviste da Escuridão que para sempre reina sobre o polo.
  • Aquele que mergulha na Escuridão encontra um espaço vasto e cheio de luz, onde uma fonte viva se espalha sobre o barzakh.
  • O banho nesta fonte torna o corpo leve, permitindo o acesso às circunscrições que intersectam o mundo.

A circunscrição do Ocidente extremo é caracterizada pelo Mar Quente e Lamacento, onde o sol se põe e a desolação prevalece.

  • No extremo limite do Ocidente há um mar vasto, que no Livro de Deus é chamado de Mar Quente (e Lamacento).
  • O solo é um deserto de sal que rejeita o cultivo e as edificações, sendo habitado por estranhos em perpétua batalha e pilhagem.

A vida vegetal e animal no extremo ocidente sofre mutações monstruosas, onde formas humanas são cobertas por peles de quadrúpedes.

  • Toda sorte de animais e plantas aparecem naquele país; mas quando eles se estabelecem lá, alimentam—se de sua erva e bebem de sua água, subitamente são cobertos por exteriores estranhos à sua Forma.
  • O clime é um lugar de devastação onde a alegria e a beleza são apenas emprestadas de lugares distantes.

Entre o mundo conhecido e o limite ocidental existem climes que servem de base para os céus, habitados por sedentários perpétuos sem guerras.

  • Além deste vosso clime, começando na região em que os Pilares dos Céus estão fixados, há um clime que é como o vosso em vários sentidos.
  • Os habitantes têm domínios fixos e não infligem violência uns aos outros, recebendo luz de uma fonte estrangeira próxima à Janela de Luz.

A geografia celestial do Ocidente divide—se em diversos reinos com características morfológicas e sociais distintas conforme a natureza de seus habitantes.

  • A região mais próxima é habitada por seres de pequena estatura e movimentos céleres, distribuídos em nove cidades.
  • O reino seguinte é devotado às artes da escrita, astronomia, teurgia e magia, com dez cidades.
  • Existe um reino de extrema beleza e música regido por uma soberana, onde o bem e o belo são inclinações naturais.
  • Outras regiões abrigam seres benéficos à distância mas calamitosos na proximidade, ou seres destrutivos regidos por uma figura vermelha inclinada ao abate.
  • Um vasto reino é habitado por povos de temperança e justiça suprema, que estendem bondade a todo o universo.
  • Há também um reino de solitários em um deserto sem vegetação, dividido em doze regiões e vinte e oito estações.
  • O limite extremo é o reino dos Anjos espirituais, invisível aos olhos do corpo, de onde descem o Imperativo e o Destino.

O Oriente manifesta—se inicialmente como um deserto de elementos puros, desprovido de vida mineral, vegetal ou animal.

  • Quando tu procedes em direção ao Oriente, primeiro aparece a ti um clime no qual não há habitante: nem seres humanos, nem plantas, nem minerais.
  • A travessia revela sucessivamente montanhas de águas vivas e minerais, seguidas por vegetação exuberante e, por fim, animais de todas as espécies que não possuem o logos.

Ao cruzar o Oriente, depara—se com o sol nascendo entre as duas tropas do Demônio, que se dividem em seres terrestres e voadores.

  • Tu virás sobre o sol nascendo entre as duas tropas [lit., os dois “chifres”] do Demônio.
  • A tropa terrestre divide—se entre a ferocidade das feras de rapina e a bestialidade dos quadrúpedes, vivendo em guerra perpétua.
  • Os demônios voadores possuem constituições híbridas e fragmentadas, lembrando as figuras compostas criadas por pintores.
  • Cinco grandes estradas fortificadas são vigiadas por homens de armas que capturam os habitantes deste mundo, inspecionando suas bagagens e enviando informações seladas ao Rei.

As tropas demoníacas infiltram—se nos corações humanos para incitar o mal, a opressão e a negação das realidades espirituais.

  • Às vezes um grupo destas duas tropas de demônios parte para o vosso clime; lá eles surpreendem os seres humanos, insinuam—se em seus corações mais íntimos com seu hálito.
  • O grupo terrestre incita ao ódio, à destruição e ao desejo por atos indignos através da obstinação.
  • A tropa voadora persuade o homem a crer apenas no que vê, sugerindo que não há vida após a morte nem um reino celestial eterno.

Alguns grupos se separam das tropas demoníacas e, guiados pelos anjos terrestres, tornam—se gênios benéficos que auxiliam na purificação humana.

  • Estes são as “fadas” ou “gênios” [peri], aqueles que em árabe são chamados jinn e hinn.
  • Eles escolhem o caminho dos Anjos espirituais em vez da aberrância dos demônios.

O clime dos anjos terrestres é habitado por dois grupos: os que conhecem e ordenam à direita, e os que obedecem e agem à esquerda.

  • Entre seu número estão os dois anjos aos quais o ser humano é confiado, chamados “Guardiões e Nobres Escribas”.
  • O da direita dita as ordens, enquanto o da esquerda escreve as ações, alternando entre a descida ao mundo dos homens e a subida ao céu.

A saída deste clime conduz ao que está além das esferas celestiais, onde se descobre a Criação Primordial sob o governo do Rei Único e Obedecido.

  • Lá, a primeira delimitação é habitada por íntimos do Rei sublime, pessoas puras isentas de glotonaria, luxúria ou violência.
  • Habitam cidades de castelos magníficos feitos de material que não se assemelha à argila, sendo mais sólidos que o diamante.
  • São isentos da data devida da morte, vivendo vidas imensamente longas dedicadas à preservação das muralhas do império.

Acima dos guardiões das muralhas reside um povo de íntimos que contemplam a face do Rei em continuidade ininterrupta, dotados de sabedoria penetrante.

  • Eles receberam como adorno a doçura de uma graça sutil em sua natureza, bondade e sabedoria penetrante em seus pensamentos.
  • Cada um possui um posto fixo e ordenado divinamente, sendo o mais próximo do Rei chamado de “pai” de todos eles.
  • Através dele emanam a palavra e a ordem real; sua natureza é imune ao envelhecimento, tornando—se mais vigorosa com o passar do tempo.

O Rei habita em extrema solidão, sendo inatingível por definições, comparações ou louvores proporcionais à Sua grandeza.

  • Ele não tem membros que O dividam: Ele é todo uma face por Sua beleza, todo uma mão por Sua generosidade.
  • Sua beleza é o véu de Sua própria beleza, e Sua manifestação absoluta é a causa de Sua ocultação, tal como o sol cega quem o fita diretamente.
  • Ele é magnânimo e misericordioso, e quem percebe um traço de Sua beleza fixa sua contemplação nela para sempre.

Alguns solitários entre os homens emigram em direção ao Rei e recebem graças que revelam a miséria das vantagens terrestres.

  • Quando eles retornam de Seu palácio, retornam carregados de dons místicos.

O relato encerra—se com o convite final de Hayy ibn Yaqzan ao despertar e à jornada em direção ao Rei.

  • Agora, se tu queres, segue—me, vem comigo em direção a Ele. Paz.

13. Orientação

A palavra orientação define a intenção primordial do relato: revelar o Oriente místico e direcionar o peregrino em sua direção.

  • A exploração mental do cosmos em companhia de Hayy ibn Yaqzan resiste a esquematizações diagramáticas simples, como as feitas para a Divina Comédia.
  • Os comentadores frequentemente falham ao reduzir os símbolos a um código racional, degradando—nos a meras alegorias didáticas.
  • A transmutação noética exige uma percepção que apreenda dados sensíveis e os transforme em símbolos vivos.

O primeiro episódio compreende o encontro com o Anjo, estabelecendo as condições preliminares para a visão quando a alma está recolhida em si mesma.

  • O Anjo atua como o Angelus interpres, análogo a Gabriel nas visões de Daniel ou Rafael nas de Enoch.
  • Hayy ibn Yaqzan é a individuação da Inteligência Ativa, assumindo a forma de uma beleza jovem combinada com a gravidade da velhice.
  • O símbolo do Puer aeternus representa a totalidade do ser, onde a perfeição consumada coexiste com a juventude eterna.
  • A alma atua como um espelho para este ser celestial através do intelecto contemplativo, despertando para o mundo invisível.
  • Philo descreve esta situação como “Deus se mostrando no lugar de Deus”, onde a alma contempla o arquétipo em vez de uma imitação.
  • A visão postula a individuação mútua entre a alma e o anjo, integrando a figura de Hayy ibn Yaqzan à vida espiritual do filósofo.
  • No Tratado sobre o Destino, Avicenna descreve a aparição da silhueta de Hayy ibn Yaqzan quando o discurso dialético silencia diante do impasse.

A iniciação parte da ciência da fisiognomia para desvelar o batin ou profundidade oculta do homem, reduzindo a aparência do zahir.

  • Trata—se de descobrir o Estrangeiro ou o Oriental escondido sob o disfarce ocidental da condição comum.
  • A fisiognomia justifica—se como o initium da transmutação da alma, transformando faculdades psicológicas em dramatis personae.
  • Os apetites concupiscível e irascível tornam—se demônios da alma, representando as energias demoníacas que tentam destruir a virtualidade paradisíaca.
  • No Relato de Salaman e Absal, esses companheiros reaparecem como figuras mundanas que perseguem o gnóstico.
  • A imaginação ativa é reconhecida por Suhrawardi como uma faculdade que pode ser anjo ou demônio, dependendo de sua conversão ao símbolo.

A busca pelo Oriente exige que o gnóstico se separe de seus companheiros terrestres para que o Anjo caminhe ao seu lado.

  • A iniciação antecipa a morte natural, abolindo a solidão através do êxodo do cripta cósmica.
  • A orientação dada pelo gesto do Anjo conecta o gnóstico avicênico a uma linhagem que inclui o orfismo, Parmênides e o gnosticismo valentiniano.
  • O Hino da Alma nos Atos de Tomé prefigura a jornada do príncipe que esquece sua origem no Egito e é despertado por uma mensagem do Oriente.
  • O Oriente não é uma inovação absoluta, mas uma representação comum entre os que buscam a segunda birth através da Gnose.

A regeneração pela Água da Vida é um tema central que conecta a mensagem do Oriente à transformação do iniciado.

  • O Corpus Hermeticum menciona o batismo na bacia da mente para que os homens recebam o gnosis e se tornem completos.
  • A Primavera da Vida situa—se no ponto ideal de inserção da Forma na Matéria, na fronteira entre o Oriente e o Ocidente.
  • O polo, cercado por escuridão perpétua, representa a inconsciência da ignorância que o homem natural deve atravessar.
  • A descida ao inferno do inconsciente é uma experiência necessária para a descoberta da luz verdadeira.
  • A lógica é elevada a um plano iniciático, sendo o istikshaf ou busca pela revelação, análogo ao istishraq ou busca pelo Oriente.
  • Mir Damad e Qutbaddin Shirazi conectam a lógica ao Relato de Hayy ibn Yaqzan como um derivado da ciência divina.
  • A água que flui sobre o barzakh representa o mundo do imaginável onde os espíritos se corporificam e os corpos se espiritualizam.

A região do Ocidente abrange tudo o que está conectado à matéria, dividindo—se em planos de privação, exílio terrestre e esferas celestiais.

  • O Ocidente extremo é o Mar Quente de não—ser relativo, enquanto o Ocidente celestial possui matéria diáfana e incorruptível.
  • A matéria celestial procede da meditação do Anjo sobre sua própria virtualidade, sendo descrita por Suhrawardi como o pesar do Anjo.
  • A antropologia planetária e a astrologia mencionadas no relato são objeto de crítica por sua natureza utilitária e dados insuficientes.
  • Avicenna propõe uma relação entre céus e terra baseada em atos de inteligência, vontade e amor das Almas celestiais.
  • Uma astrologia oriental consideraria as moções celestiais no lado do Oriente, em vez de mecanismos automáticos e materiais.

A ascensão final em direção ao Oriente atravessa o reino da alma onde as tropas demoníacas tentam impedir a passagem.

  • Ao ultrapassar os demônios, o viajante encontra gênios, anjos terrestres, querubins e, finalmente, o Rei em sua solidão extrema.
  • O epílogo estabelece o ponto de partida para o Exílio Ocidental de Suhrawardi e o convite decisivo de Hayy ibn Yaqzan.
  • O relato funciona como uma exploração mental e iniciação que prepara o peregrino para a jornada real que será detalhada nos outros relatos da trilogia.
  • A jornada em companhia do Anjo é a exaltação da jornada de Tobias ao plano místico, em direção a Ecbatana ou Hamadan.
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