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JUVENILIDADE E CAVALARIA NO ISLÃ IRANIANO

HCHA

I

A escolha do tema foi motivada por três razões: familiaridade com o universo espiritual em questão, adequação ao tema geral das sessões de Eranos do ano em curso e o fato de os dois conceitos do título serem designados por um único termo tanto em árabe (fotowwat) quanto em persa (javânmardî).

  • A palavra javânmardî/fotowwat implica simultaneamente as ideias de juvenilitas e cavalaria.
  • A fotowwat é considerada a categoria ética por excelência no mundo islâmico, conferindo sentido espiritual a toda associação humana e ao compagnonnage.
  • Ela inspirou a organização das corporações de ofícios que se multiplicaram no mundo islâmico.
  • Os estudos mais aprofundados sobre a fotowwat concentraram-se, paradoxalmente, no mundo turco-otomano, embora suas origens sejam buscadas no Irã pré-islâmico zoroastriano.
  • No Irã, a fotowwat nasceu no seio do sufismo e impregnou todas as atividades da vida com um sentimento de serviço cavaleiresco que implicava comportamento ritual, iniciação, grau, pacto de fraternidade e segredo.
  • Um tratado de iniciação dos estampadores de tecidos (tchîtsâzân), em persa muito belo, demonstra como todos os gestos e objetos do ofício se tornavam atos litúrgicos.
  • O decano da Faculdade de Letras da Universidade de Isfahan afirmou que a grande mesquita real só era concebível como obra dos cavaleiros construtores — tal como as catedrais ocidentais.
  • Pode-se estabelecer comparação com a Ordem dos Companheiros do Santo Dever de Deus e com os Compagnons du Tour de France na França.
  • Diante do impacto ocidental, essas tradições tendem a um esoterismo cada vez mais fechado, e os arquitetos tradicionais do Irã preservam seus segredos com rigorosa discrição.

A palavra fotowwat designa uma juventude sobre a qual o tempo não tem poder, pois ela representa uma vitória sobre o tempo e suas escleroses — sendo a juvenilitas própria dos seres espirituais.

  • O árabe fatâ tem como equivalente persa javân, palavra indo-europeia da mesma raiz que o latim juvenis.
  • Em sentido técnico-espiritual, a palavra aponta para uma juventude inalterável pelo tempo, encontrada ao final do caminho do místico, o sâlik — equivalente do homo viator ocidental.
  • O peregrino, após libertar-se progressivamente das paixões da alma carnal, chega à estação do coração, o homem interior, e acede à morada da juventude (manzal-e javânî).
  • O javânmard é aquele em quem estão atualizadas as perfeições humanas e as energias espirituais, distinguindo-se do comum dos homens por qualidades deslumbrantes e costumes exemplares.
  • O javânmardî designa a manifestação da Luz, da natureza inicial do homem (fitrat), e a vitória dessa Luz sobre as Trevas da alma carnal.

O conceito de cavalaria espiritual está ligado à natureza inicial do homem (fitrat) e ao conceito especificamente xiita de walâyat, traduzida como dilecção divina — o aspecto esotérico da profecia.

  • A fitrat é o homem tal como, na origem, sua dimensão de luz aflorou do ato criador, determinada pela resposta ao versículo corânico 7,171: “Não sou eu vosso Senhor?” — ao qual toda a humanidade presente em Adão respondeu “Sim”.
  • Os xiitas reconhecem que há várias formas de responder afirmativamente a essa pergunta.
  • A profissão de fé xiita acrescenta à shahâdat sunnita uma terceira cláusula: a walâyat, a missão esotérica dos santos Imames.
  • Não há verdadeiro creyente (mu'min) no sentido xiita senão aquele que professa essa tripla atestação e reconhece o Islã esotérico.
  • A pureza da alma é o sinal do retorno à natureza inicial — concepção que o autor Hosayn Kâshefî encontra também na Bíblia, em Moisés: “A fotowwat é pôr em Deus a alma pura e imaculada, tal como o homem a recebeu em depósito.”
  • A ética do legado confiado domina toda a ética da fotowwat e do xiismo: o conhecimento deve ser transmitido apenas àquele que se reconhece digno de recebê-lo.
  • A fotowwat é uma luz que emana do mundo espiritual, manifestando as modalidades angélicas, as características do Malakût.

A principal fonte utilizada é uma obra de Hosayn Kâshefî, personagem do final do século XV, que escreveu em persa um volumoso tratado sobre o tema — o fotowwat-Nâmeh — transmitindo textos e citações de autores anteriores que remontam ao século IX.

  • Kâshefî considera a ciência da fotowwat uma rama da ciência do sufismo e do tawhîd, a atestação do Único.
  • A obra é tardia, mas seu valor reside na preservação de fontes mais antigas.

Os ciclos da profecia (nobowwat), da walâyat e da fotowwat organizam-se em torno de figuras-chave que estruturam a periodização espiritual da história sagrada.

  • O ciclo da profecía tem Adão como primeira manifestação, Abraão como polo e Mohammad como Selo dos profetas.
  • O ciclo da fotowwat tem sua origem em Abraão, seu polo no I Imam e seu Selo no XII Imam — o Imam esperado, presente mas invisível.
  • O ciclo da walâyat começa com Sete, primeiro Imam de Adão, a quem foi confiado o aspecto esotérico da profecia.
  • Adão desdobrou o tapete da sharî'at (Lei), enquanto Sete desdobrou o tapete da tarîqat (via mística) — dedicando-se inteiramente ao serviço divino, vestido com a túnica de lã verde trazida por Gabriel do paraíso.
  • Os gramáticos árabes associam a palavra “sufí” ao árabe sûf (lã), remetendo precisamente a essa imagem de Sete.

No tempo de Abraão, os homens não tinham mais força para carregar o manto (khirqa) do sufismo, e um grupo foi até ele pedir uma nova via — episódio presente em todos os tratados de fotowwat.

  • A fotowwat emerge como chamado a um estado espiritual que não é o do leigo nem o do monástico.
  • A denominação “Amigos de Deus” (Awliyâ' Allâh) corresponde literalmente à dos místicos renanos do século XIV — die Gottesfreunde, die Gottesfreundschaft.
  • Rulman Merswin mantinha correspondência com o misterioso “Amigo de Deus do País Alto” e constatava que o tempo dos claustros havia passado — assim como os homens haviam dito a Abraão.
  • Wolfram von Eschenbach propõe em seus grandes poemas o mesmo ideal: um estado que não é o do clérigo nem o do leigo.
  • Abraão fez o grupo subir no navio da tarîqat, dirigiu-o ao mar da haqîqat e atracou na ilha da fotowwat — metáfora da navegação espiritual.
  • O VI Imam Ja'far al-Sadiq declarou: “O Islã começou expatriado e voltará a estar expatriado como o estava no princípio. Bem-aventurados aqueles que se expatriam pela fé.”
  • Abraão foi o primeiro a optar por separar-se do mundo e de suas vaidades, emprendendo o combate contra os ídolos — a tal ponto que seus próprios inimigos prestaram homenagem à sua fotowwat, conforme o versículo corânico 21,61: “Vimos um jovem (fatâ, um cavaleiro) falar mal de nossos deuses; chama-se Abraão.”

A transmissão da fotowwat segue o mesmo esquema da transmissão da Luz mohammadiana metafísica (Nûr mohammadî) — passando de profeta em profeta até o último deles.

  • Abraão transmitiu a fotowwat a Ismael e Isaque; de Isaque passou a Jacó, a Josué, José e outros personagens comuns à Bíblia e ao Corão.
  • Passa pelo cristianismo, especialmente pelos Sete Adormecidos mencionados no Corão.
  • A ideia xiita da fotowwat engloba numa mesma cavalaria judeus, cristãos e muçulmanos.
  • Quando se manifesta num profeta, este a transmite ao seu Imam — assim como Mohammad a transmitiu ao Imam Ali.
  • A fotowwat nunca fica privada de um suporte neste mundo, podendo residir tanto num profeta quanto num Amigo de Deus (walî).

A relação entre os cavaleiros espirituais (javânmardân) e o XII Imam define o ethos da fotowwat como preparação interior da parusia.

  • A fotowwat consiste em que cada um, no lugar em que está, seja cavaleiro do Imam, companheiro do XII Imam.
  • Essa ética torna cada um responsável pelo porvir da parusia — que não virá do exterior, mas se realiza no interior de cada cavaleiro.
  • O ciclo da walâyat se realiza primeiramente no interior de cada crente.
  • Entrar na linhagem da fotowwat exige um novo nascimento — citando o Evangelho de João: “Não pode entrar no Malakût quem não houver nascido pela segunda vez.”
  • Se a humanidade persevera no ser é precisamente por esses Amigos de Deus, por meio dos quais o mundo terrestre comunica ainda com o mundo superior invisível.

II

A expressão “Amigos de Deus” (Gottesfreunde) é o equivalente literal da expressão árabe Awliyâ' Allâh, e o vínculo que essa noção estabelece com o ideal da cavalaria é central tanto no Oriente islâmico quanto no Ocidente cristão.

  • O versículo do Evangelho de João — “Jam non dicam vos servos, sed amicos” (“Já não vos chamarei servos, mas amigos”) — marca a passagem do servus Dei ao amicus Dei, característica da relação de cavalaria.
  • Em árabe a mesma transição existe entre 'Abd-Allâh (servus Dei, servidor de Deus — nome atribuído ao Profeta na dimensão exotérica) e Walî-Allâh (amicus Dei — nome atribuído ao Imam investido do esotérico).
  • A tripla shahâdat xiita — unicidade divina, missão exotérica dos profetas, missão esotérica dos Imames — é a condição de fé integral (îmân).
  • O crente sunnita detém-se no servus Dei; o crente xiita avança até o amicus Dei.
  • Aquele que professa a walâyat do Imam encontra-se ao serviço cavaleiresco de um Nome divino — daí a pluralidade de nomes compostos no mundo islâmico, como 'Abdol-Karîm ou 'Abdol-Nâsir.
  • Abreviar 'Abdol-Nâsir para simplesmente Nâsir é uma secularização que constitui, de fato, uma profanação.

A relação de cavalaria entre o homem e seu Deus questiona a bipolaridade habitual entre monoteísmo e politeísmo, insuficiente para abranger todos os matizes da experiência religiosa.

  • O monoteísmo exotérico — o monoteísmo abstrato, como o designava Hegel — postula a existência de um Deus único, Ser supremo, Todo-Poderoso, com quem uma relação cavaleiresca parece fora de lugar.
  • A Pérsia zoroastriana e a Pérsia xiita introduzem matizes que modificam profundamente essa bipolaridade.

A grande figura que domina o horizonte religioso da Pérsia zoroastriana é Ohrmuzd (Ahura Mazda), o Senhor Sabedoria — não o Todo-Poderoso, mas o Sapientíssimo, que necessita da ajuda das fravartis.

  • As fravartis são o polo celestial, o Eu celestial de cada ser — sua contrapartida superior que forma com a forma terrestre uma bi-unidade.
  • As fravartis são também as entidades metafísicas de todos os seres pertencentes à criação da Luz.
  • Ohrmuzd necessitou da ajuda das fravartis tanto para guardar os muros do céu contra o assalto de Ahrimân quanto para combater na terra.
  • As fravartis aceitaram livremente descer à terra para combater e auxiliar Ohrmuzd — o Senhor Sabedoria.
  • Ahrimân não é o não-ser como simples privatio boni, mas a negatividade pura: o não sem sim, a recusa, o informe e a morte.
  • A religião zoroastriana contemplou em toda a sua força o significado do Mal, do sofrimento, da morte e do combate que deve ser travado contra essas manifestações do não-ser.
  • O nome e a figura de Ahrimân persistem na obra de filósofos iranianos da Pérsia xiita, como Mîr Fendereskî (século XVII), Rajab 'Alî Tabrîzî (século XVII) e Ja'far Kashfî (1850).

O pensador xiita Ja'far Kashfî realiza o tipo perfeito do gnóstico xiita, aceitando integralmente o postulado da teologia apofática do xiismo — Deus é incognoscível precisamente porque não tem contrário.

  • O Antagonista não eclode no nível do Princípio supremo, mas no nível do ser que dele procede, ou de sua teofania — o nível em que Deus torna-se cognoscível.
  • O Absconditum revela-se por sua teofania primordial, chamada de diversas formas: primeira Inteligência ('Aql), Nous neoplatônico, Protoktistos dos gnósticos, Haqîqat mohammadîya, pleroma dos Catorze Eones de luz (os “Catorze Imaculados”).
  • Cada plano do mundo de Luz está simbolizado por uma letra do alfabeto árabe; cada plano do anti-mundo está simbolizado pela mesma letra escrita ao contrário.
  • Um ser de Luz não produz sombra — a sombra é sombra do muro, não do sol; a integridade de um ser de luz é esse ser mais sua fravarti, não esse ser mais sua sombra.

O combate das fravartis ao lado de Ohrmuzd é um combate de cavaleiros junto a seu soberano — e deve durar até o frashkart, a transfiguração ou rejuvenescimento do mundo.

  • O frashkart advém ao término de doze milênios — o que os historiadores das religiões designam como “teologia do Aiôn”.
  • O equivalente xiita é a teologia dos Doze Imames da Pérsia xiita.
  • Eugenio D'Ors afirmou que a ética do zoroastrismo conduzia a uma Ordem de cavalaria.
  • Os termos usados por Zoroastro para anunciar o Saoshyant — o Salvador do último milênio — coincidem plenamente com os usados pelo profeta Mohammad para anunciar a vinda do XII Imam.
  • O XII Imam, “invisível aos sentidos, mas presente no coração dos fiéis”, é uma espécie de Mohammad redivivus, assim como o Saoshyant é uma espécie de Zaratustra redivivus.

Há consonâncias entre as invocações zoroastrianas e xiitas em relação ao rejuvenescimento do mundo.

  • Uma estrofe do Avesta repetida pelos fiéis zoroastrianos: “Que possamos contar-nos entre os que operarão o rejuvenescimento do mundo.”
  • A saudação ritual xiita ao XII Imam: “Daquele que Deus nos conceda logo a Alegria.”
  • A antecipação dessa alegria para o xiita iraniano é o equivalente da antecipação do frashkart para o crente zoroastriano.
  • Os doze Imames são tipificados como doze milênios numa tradição que os representa também como doze Véus de luz pelos quais desce e sobe a Luz mohammadiana — cuja chegada ao duodécimo Véu é o sinal da parusia do Imam.

Qotboddîn Ashkevârî, espiritual xiita do século XVII, discípulo de Mîr Dâmâd — fundador da Escola de Isfahan —, identifica o XII Imam com o Saoshyant zoroastriano.

  • Vários autores xiitas identificam também o XII Imam com o Paráclito anunciado no Evangelho de João.
  • A conjunção Saoshyant — XII Imam — Paráclito aponta para a ideia de uma cavalaria comum desde as fronteiras do Irã até o Ocidente.
  • Um espiritual xiita do século passado identificou a mulher revestida de Sol (Apocalipse 12) com Fátima, filha do Profeta; e a criança levada ao deserto, com o XII Imam oculto.
  • Trata-se não de reunir peças comuns ao Islã e ao Cristianismo num processo histórico passado, mas de ler juntos o mesmo Livro e compreender juntos o que o Paráclito anuncia — como herança comum da tradição abraâmica.

A situação teológica própria do xiismo afirma que a divindade é incognoscível, insondável, impredicável — os nomes e atributos divinos referem-se às teofanias, em particular ao pleroma dos Catorze Imaculados.

  • Os Doze Imames, o profeta Mohammad e sua filha Fátima — correspondente à Sophia de outros sistemas de gnose — são os suportes dos nomes e atributos divinos.
  • Múltiplos hadîth nos quais vários Imames afirmam: “Nós somos os nomes; nós somos os atributos.”
  • Há uma antropomorfose divina — distinta do antropomorfismo — sem a qual nenhuma orientação seria possível.
  • Os heresiógrafos sunnitas acusaram frequentemente os xiitas de criptocristianismo — e de fato a imamologia xiita apresenta muitas correspondências com a cristologia da teologia cristã.
  • Os teólogos xiitas encontraram os mesmos problemas que seus colegas cristãos, mas os resolveram sempre no sentido rejeitado pelos Concílios.
  • O crente sunnita que refere à própria deidade os nomes e atributos cai, aos olhos dos xiitas, na pior das idolatrias metafísicas.

A relação cavaleiresca entre o fiel e o Imam estabelece-se precisamente no nível da imamologia e da teofania — pois o Deus incognoscível não necessita dos serviços do cavaleiro; são os Imames, teofanias frágeis, que necessitam da entrega total de seus fiéis.

  • Todos os Doze Imames são uma única e mesma essência; cada fiel pode eleger como eixo de sua devoção qualquer uma das figuras teofânicas, inclusive a própria Fátima.
  • Um termo possível para superar a bipolaridade monoteísmo/politeísmo seria “katenoteísmo” — o Todo, o Único, em cada um.
  • A walâyat, o amor e a entrega ao serviço dos Imames, reveste essencialmente a forma da dedicação cavaleiresca — tornando o xiismo por excelência a forma da religião do amor no Islã.
  • O grande preceito que domina a ética xiita: “tawallâ wa batarrâ” — associar-se a todos os amigos do Imam, romper com todos os seus inimigos.

A diferença radical entre o ethos zoroastriano e xiita, de um lado, e o ethos do budismo e do cristianismo exotérico, de outro, reside na recusa da resignação e da reabsorção.

  • No budismo hinayana, o ser como tal é em si mesmo o sofrimento (leben ist leiden) — e o caminho é encontrar o vau para escapar à roda infernal do samsâra.
  • Uma estrofe sânscrita estudada sob Alfred Foucher: “Lo ha aprendido todo, lo ha oído todo, lo ha experimentado todo, aquel que volviendo la espalda a la esperanza, ha encontrado el reposo en el abandono de toda esperanza” — à qual o autor opõe: “Non possum, non possum.”
  • No cristianismo oficial e exotérico, diante de um Deus todo-poderoso que pode servir-se do diabo para provar seus fiéis, a atitude fundamental é a resignação — levando ao escândalo de A resposta a Jó, de C.G. Jung.
  • Para a ética zoroastriana, não se trata de renunciar nem de resignar-se, mas de enfrentar: Ohrmuzd não se serve de Ahrimân para provar seus fiéis, assim como os Imames não se servem de quem os nega.
  • O exílio de Abraão não é fuga diante do mundo, mas saída para dar meia-volta e combater.
  • Nem o ser como tal nem a manifestação do ser são uma ferida infligida a um Absoluto no qual haveria que reabsorver-se — tal desejo de reabsorção contradiz o voto mais secreto do “Tesouro oculto”.
  • O hadîth: “Eu era um Tesouro oculto. Quis ser conhecido. Criei o mundo a fim de ser conhecido por minhas criaturas.”
  • Para a ética zoroastriana, o sofrimento, a velhice e a morte não são provas enviadas por Deus — são derrotas que o Deus de Luz sofre em cada um de seus membros de luz; enfrentá-las sem jamais resignar-se é o sentido profundo da cavalaria zoroastriana.

O objetivo não é buscar a reabsorção do mundo, mas conduzi-lo à apokatastasis — frashkart (rejuvenescimento) na terminologia zoroastriana; qiyâmat (ressurreição) na terminologia xiita — e somente os javânmardân podem cooperar nesse rejuvenescimento.

  • Há uma frase de Rûzbehân de Shîrâz, grande místico iraniano do século XII: “São os olhos pelos quais Deus não cessa de olhar para o mundo.”
  • Graças à comunidade incógnita dos Amigos de Deus e a seu polo místico que é o Imam, o mundo dos homens continua subsistindo.
  • Há uma função de salvação cósmica que tem alcance incomensuravelmente maior do que toda função social.
  • Na primeira fila desses cavaleiros estão os “filósofos” — entendidos como theosophos, o “Sábio de Deus”, no sentido etimológico.
  • Nossos filósofos identificam a Inteligência agente com o Espírito Santo, ou seja, com o anjo Gabriel — Anjo do Conhecimento e da Revelação — estabelecendo um elemento comum entre a vocação do filósofo e a do profeta.
  • Graças à união mística entre a alma humana do filósofo e a Inteligência agente, mantém-se a comunicação entre o Malakût (mundo do anjo) e o mundo humano.
  • Tal é a ideia do filósofo concebida pelos ishrâqîyûn, teósofos da Luz, discípulos de Sohravardî, e pelos teósofos xiitas.
  • Isso concorda também com o pensamento dos cabalistas judeus, que professam que “Deus necessita de que sua presença (a Shekhina) resida no Templo” — tema do exílio da Shekhina em ressonância com o motivo do exílio como forma de resistência a Ahrimân.
  • Para que cesse o exílio de Deus, é preciso que o homem exile-se do mundo do qual Deus está exilado — remetendo à tradução cabalista do versículo de Isaías 63,9: “Em todas as suas angústias, é ele (seu Deus) quem foi angustiado.”

A filosofia irania dos últimos quatro séculos, inaugurada por Mollâ Sadrâ Shîrâzî (1640), opera uma revolução metafísica que é inseparável da ideia de cavalaria espiritual.

  • Mollâ Sadrâ substitui a metafísica das essências por uma metafísica do existir — são o ato e o grau de existência que determinam o que um ser é.
  • Seu princípio do movimento intrassubstancial introduz a ideia de movimento até na categoria da substância — tornando-o o filósofo das metamorfoses, das transubstanciações, das palingenesias.
  • Inseparável dessa metafísica é toda uma metafísica da Imaginação ativa — faculdade transcendente e espiritual, não orgânica, que é o corpo sutil, o veículo sutil da alma.
  • Há três modos de existência correspondentes a três mundos: o sensível-físico, o inteligível e — entre ambos, de importância capital — o mundo imaginal (mundus imaginalis, 'âlam al-mithâl), o “oitavo clima”, mundo das visões e das ressurreições, onde toda carne é caro spiritualis.
  • Um corpo imaginal não é um corpo imaginário; um corpo sutil não é um corpo irreal — o corpo pode existir no nível sensível, imaginal, espiritual ou inteligível; há inclusive um corpo divino.
  • Todos os dilemas de espírito e corpo se desvanecem nessa metafísica da transubstanciação — e a possibilidade do rejuvenescimento do mundo pressupõe precisamente uma metafísica como a de Mollâ Sadrâ.
  • Sohravardî realizou um serviço de cavaleiro ao repatriar os Magos helenizados para a Pérsia islâmica e ao reconduzir os “profetas gregos” neoplatônicos ao “Nicho das luzes” da profecia.
  • A perda de memória e da visão interior é o “serviço” invertido, satânico, da filosofia profanada e secularizada.

A filosofia profética postula uma vocação comum ao filósofo e ao profeta — pois sobre o mesmo intellectus sanctus irradia a iluminação do Anjo do Conhecimento e da Revelação.

  • O maior fato lamentável na filosofia ocidental desde Descartes foi ficar impotente diante do dilema da res cogitans e da res extensa, perdendo o sentido do metafísico concreto.
  • A experiência teosófica do filósofo não se exprime apenas em doutrina teórica — a doutrina transforma-se em acontecimento da alma, acontecimento real.
  • O teósofo torna-se javânmard, cavaleiro da epopeia mística, e com ele a própria metafísica torna-se epopeia mística.
  • Esse é o segredo de toda a literatura mística persa — e o que permite compreender a obra de Sohravardî, cujos relatos místicos se inscrevem entre as epopeias de Hakîm Sanâ'î e de Farîdoddîn 'Attâr, obras-primas da literatura universal.

A epopeya de Wolfram von Eschenbach acolhe a cavalaria do Islã com o mesmo brilho que a cavalaria cristã — processo análogo ao de Sohravardî ao repatriar os heróis zoroastrianos para a Pérsia islâmica.

  • Os melhores representantes da cavalaria oriental são igualmente dignos de ocupar lugar na Mesa Redonda.
  • Na imensa epopeia de Albrecht von Scharfenberg — o Novo Titurel, cuja edição recente se deve a Werner Wolf — o serviço do cavaleiro eleva-se ao nível de uma ação sacramental.
  • Assim como a javânmardî nas corporações de ofícios eleva todos os atos do ofício a atos litúrgicos, conduzindo a ética do javânmard à sacralização de todas as atividades da vida.
  • A transfiguração é precisamente a javânmardî, o espírito de cavalaria que opera o rejuvenescimento dos seres e das coisas.

O ciclo da walâyat realiza-se em cada cavaleiro como retorno à juventude primordial dos seres e das coisas — e essa história interior é o próprio processo pelo qual se opera o rejuvenescimento, a parusia.

  • Um jovem amigo e discípulo iraniano do autor relatou um sonho admirável: em peregrinação a Qomm, após combater dragões, aproxima-se do santuário e percebe a cúpula dourada; chega a uma plataforma e lhe é indicada a casa do Imam esperado, com a porta escancarada, a apenas algumas centenas de passos — e nesse momento acorda.
  • O jovem interpretou assim: “Desde que tive esse sonho, tenho a sensação de que minha vida consiste em percorrer essa distância, de que essa distância é a medida exata de minha vida. Ela regula o tempo e a harmonia de toda a minha existência; ela é o tempo e o espaço reais que experimento nesta terra.”
  • A medida interior da vida é a realização em si mesmo do ciclo da walâyat, cujo percurso reconduz à fonte, à origem.

A oração de peregrinos ao XII Imam exprime o ethos tanto da cavalaria xiita quanto da cavalaria zoroastriana — e pode ser recitada tanto pelo crente ingênuo quanto pelo esoterista mais profundo.

  • “Salvação para ti, ó califa de Deus e califa de teus pais os bem-guiados. Salvação para ti, herdeiro dos herdeiros espirituais dos tempos passados (…), rebento da Família Imaculada, mina dos conhecimentos proféticos, umbral de Deus que é preciso cruzar para chegar a ele, via de Deus que não é possível abandonar sem extraviar-se (…). És o que conserva todo conhecimento, o que faz abrir tudo o que está selado (…). Ó meu soberano! Escolhi-te como Imam e como Guia, como protetor e preceptor, e não desejo a ninguém mais do que a ti.”
  • “Sou testemunha de que tu és a verdade constante na qual não há alteração alguma; certa é a promessa divina sobre ti; por longa que seja tua ocultação presente (ghaybat), por dilatado que seja o prazo, não sinto nenhuma dúvida (…). Aqui estou, à espera de teu Dia.”
  • “Dou testemunho de Deus! Dou testemunho de seus Anjos! Tomo-te a ti mesmo por testemunha de meu voto (…). Sê pois testemunha de minha promessa para contigo, do pacto de fidelidade entre tu e eu (…). Por mais que os tempos e os anos de minha vida se prolonguem, terei sobre ti cada vez mais certeza; por ti, mais amor; em ti, mais confiança. Não esperarei senão tua parusia, e sempre me encontrarei disposto a combater junto a ti (…).”
  • “Se minha vida se prolongar o bastante para que eu veja erguer-se resplandecente teu Dia e alçar-se brilhantes teus estandartes, então hei de ser teu cavaleiro. Que me seja concedido dar a teu lado o supremo Testemunho! Mas se a morte me alcançar antes que tenhas aparecido, então solicito tua intercessão, a tua e a de teus pais, os Imaculados Imames, para que Deus me inclua entre aqueles a quem fará regressar (raj'at) na hora de tua parusia, quando teu Dia se levantar, para que minha entrega a ti me conduza à satisfação de meu desejo.”
  • Mollâ Sadrâ Shîrâzî observava que o esoterista está muito mais próximo do crente ingênuo do que do teólogo racionalista — pois o esoterista decifra em todos os seus níveis de significação os símbolos que cativam a fé ingênua.
  • A divisa recapitulada por todos os sábios: “Quem se conhece a si mesmo, conhece a seu Senhor” — com a variante xiita: “Quem conhece seu Imam, conhece a seu Senhor.”
  • O Imam torna-se a figura por excelência do Si — não um Si abstrato ou impessoal, mas o Eu celestial, o “Gêmeo celeste” da gnose maniqueia, a fravarti zoroastriana.
  • Para o javânmard xiita só uma coisa importa — “Onde está o Imam oculto, invisível aos sentidos, mas visível ao coração de seus cavaleiros?” — assim como para Parsifal, penetrando no domínio do Graal, só uma coisa importava, pois dela dependia o rejuvenescimento do mundo: “Onde está o Graal?”
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