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FUNERAIS DE AVERRÓIS

HCIA

Ibn Arabi nasceu em Múrcia, no sudeste da Espanha, em 28 de julho de 1165, data que coincide com o primeiro aniversário lunar da proclamação da “Grande Ressurreição” em Alamut, no Irã.

  • O nome completo era Abu Bakr Muhammad ibn al-Arabi, abreviado como Ibn Arabi.
  • Os sobrenomes mais conhecidos eram Muhyi'd-Din (“Animador da Religião”), al-Shaikh al-Akbar (“Doutor Máximo”) e Ibn Aflaton (“O Filho de Platão” ou “O Platônico”).
  • O Imã Hasan havia proclamado o islã espiritual puro do ismaelismo iraniano reformado em 17 de Ramadã, A.H. 559 (8 de agosto de 1164).
  • Aos oito anos foi para Sevilha, onde estudou, contraiu um primeiro casamento e iniciou sua orientação para o sufismo.

A primeira experiência visionária de Ibn Arabi manifestou-se durante uma grave enfermidade na juventude, quando, em estado de letargia profunda, foi salvo de figuras demoníacas por um ser luminoso que se identificou como a Sura Yasim.

  • O pai de Ibn Arabi recitava à sua cabeceira a trigésima sexta sura do Corão, destinada aos moribundos.
  • A energia liberada pela Palavra falada deu forma, no mundo intermediário sutil, ao ser correspondente à sura — fenômeno não raro na experiência religiosa.
  • Esse episódio constituiu uma das primeiras entradas de Ibn Arabi no alám al-mithal, o mundo das Imagens reais e subsistentes.

Duas veneráveis mestras sufis marcaram profundamente a juventude de Ibn Arabi — Yasmin de Marchena e Fatima de Córdoba —, sendo a segunda uma mãe espiritual cujo ensinamento estava orientado para uma vida de intimidade com Deus.

  • Apesar da idade avançada, Fatima de Córdoba possuía tal beleza e graça que poderia ser tomada por uma jovem de quatorze anos, fazendo o jovem Ibn Arabi corar ao olhá-la de frente.
  • Durante dois anos Ibn Arabi foi discípulo de Fatima, que tinha “a seu serviço” a Surat al-Fatiha, a sura de abertura do Corão.
  • Numa ocasião, recitaram juntos a Fatiha para socorrer uma mulher em aperto, conferindo à sura sua forma pessoal, corpórea, ainda que sutil e etérea.
  • A shaikha dizia frequentemente ao jovem discípulo: “Sou tua mãe divina e a luz de tua mãe terrena.”
  • Quando a mãe de Ibn Arabi a visitou, Fatima disse-lhe: “Ó luz! este é meu filho, e ele é teu pai. Trata-o com piedade filial, nunca te afastes dele.”
  • O título “mãe de seu pai” (umm abiha) era o mesmo dado pelo Profeta à sua filha Fatima a Radiante, sugerindo que a shaikha de Córdoba pressentiu o destino espiritual único reservado ao jovem discípulo.

O encontro de Ibn Arabi com Averróis em Córdoba, narrado pelo próprio Ibn Arabi, revelou o abismo entre o conhecimento racional do grande peripatético e o conhecimento espiritual adquirido por iluminação direta.

  • O pai de Ibn Arabi era amigo íntimo do filósofo Abu'l Walid Ibn Rushd (Averróis), o que tornou possível o encontro.
  • Averróis recebeu o jovem — ainda imberbe — com marcas de amizade e consideração, e ao abraçá-lo disse: “Sim”, ao que Ibn Arabi respondeu também “Sim” e em seguida “Não”, fazendo o filósofo empalidecer.
  • Averróis perguntou: “Que solução encontrastes por meio da iluminação e inspiração divinas? É idêntica à que obtemos pela reflexão especulativa?”
  • Ibn Arabi respondeu: “Sim e não. Entre o sim e o não, os espíritos alçam voo de sua matéria, e as cabeças se separam dos corpos.”
  • Averróis murmurou a frase ritual “Não há poder senão em Deus” — pois havia compreendido a alusão.
  • Após o encontro, Averróis declarou ao pai de Ibn Arabi: “Eu mesmo havia dito que tal coisa era possível, mas nunca havia encontrado alguém que a tivesse realmente experimentado. Glória a Deus, que me permitiu viver numa época distinguida por um dos mestres dessa experiência.”

A segunda cena do encontro triplo com Averróis deu-se numa êxtase em que Ibn Arabi viu o filósofo através de um véu luminoso, absorto em sua meditação, sem perceber a presença do místico.

  • Ibn Arabi concluiu: “Seu pensamento não o guia até o lugar onde eu mesmo me encontro.”
  • Não houve novo encontro sensível entre os dois até a morte de Averróis em 595 da Hégira (1198), em Marrakech.

O retorno dos restos mortais de Averróis a Córdoba — com o caixão de um lado e suas obras do outro, equilibrando-se sobre o animal de carga — tornou-se para Ibn Arabi um símbolo carregado de significado meditativo.

  • Abu'l-Hakam Amr ibn al-Sarraj, o copista, e o jurista Abu'l-Husayn Muhammad ibn Jubayr estavam presentes à cena.
  • Abu'l-Hakam observou: “De um lado o mestre (imam), do outro suas obras, os livros que escreveu.”
  • Ibn Jubayr respondeu: “E bendita seja tua língua!”
  • Ibn Arabi guardou essas palavras como tema de meditação e, único sobrevivente do pequeno grupo de amigos, concluiu: “De um lado o mestre, do outro suas obras. Ah! como eu gostaria de saber se suas esperanças se realizaram.”

O episódio triplo com Averróis condensa em si mesmo a totalidade da figura de Ibn Arabi — o discípulo de Khidr que não deve seu conhecimento ao ensino humano, o autor do Livro das Teofanias com acesso pleno ao mundo intermediário suprassensorial, e o herdeiro espiritual dos platônicos persas.

  • Ibn Arabi é apresentado como contemporâneo dos ishraqiyun de Suhrawardi no islã oriental, que inauguraram um desenvolvimento que antecipou e superou os projetos de um Gemistos Pletho ou de um Marsilio Ficino, sem que o Ocidente soubesse.
  • O triunfo espiritual não é obtido pelo esforço da filosofia racional nem pela conversão ao que Ibn Arabi chamaria de “Deus criado nos dogmas.”
  • Se o triunfo espiritual fracassasse, os sobreviventes não contemplariam mais do que o espetáculo irrisório de um fardo de livros equilibrando um cadáver.

O mesmo desejo — “como eu gostaria de saber” — ressurgiu em Ibn Arabi numa noite de melancolia pensativa durante a circumambulação da Caaba, quando recebeu a resposta dos lábios daquela que seria para ele, por toda a vida, a figura teofrânica da Sophia aeterna.

  • O segredo revelado naquela noite determinava que a aurora da ressurreição erguida sobre a alma mística não se reverteria no crepúsculo sombrio da dúvida.
  • Esse segredo condiciona o fato de que, tão logo o místico consente com seu Deus, torna-se penhor desse Deus que partilha seu destino.

Ibn Arabi sabia que o triunfo espiritual não depende da filosofia racional nem de mudanças externas de pertencimento social ou religioso, mas de um encontro decisivo, pessoal e intransferível, fruto de uma longa busca que ocupou toda a sua vida.

  • Esse encontro decisivo se renovou para Ibn Arabi por meio de Figuras cujas variantes sempre remetiam à mesma Pessoa.
  • Inventariar as “fontes” de Ibn Arabi é tarefa quase sem esperança, pois ele aceitava apenas o que era consonante com seu “céu interior” e é, antes de tudo, sua própria “explicação.”
  • Além das fontes literárias, há o segredo de uma estrutura que relacionava sua obra à que brotou no islã oriental, onde o xiismo observava o preceito “Não firas o rosto” — isto é, preserva a face exterior do islã literal como suporte indispensável dos símbolos e salvaguarda contra a tirania dos ignorantes.

Há ainda, na obra de Ibn Arabi, os fatores invisíveis e inaudíveis — as visitações de membros da hierarquia esotérica e invisível, as confrarias de seres espirituais que fazem a mediação entre cada existência e outros universos.

  • Esses seres dominam o paralelismo das hierarquias cósmicas no ismaelismo e sobrevivem no shaikhismo contemporâneo.
  • Esses elementos formam o Diário Espiritual disperso pela obra de Ibn Arabi — assim como na obra de Swedenborg.
  • Tais elementos estão além do domínio da filologia ou mesmo da psicologia, mas constituem o objeto por excelência da psicologia profética que reteve a atenção de todo filósofo no islã.

A probidade científica de Ibn Arabi manifestou-se em seu princípio de não falar jamais de opinião ou doutrina sem construir sobre declarações diretas de pessoas que fossem seus adeptos.

  • Ibn Arabi deixou um diário de seus encontros com mestres sufis contemporâneos na Risalat al-Quds.
  • Sua liberdade interior o tornava indiferente ao temor das chamadas associações “perigosas.”
  • Ibn Arabi declarou: “Não conheço nenhum grau de vida mística, nenhuma religião ou seita, sem que eu mesmo tenha encontrado alguém que a professasse, nela acreditasse e a praticasse como sua religião pessoal.”
  • Todo estudioso das religiões e todo teólogo poderia adotar sua máxima, mesmo quando seu objetivo não coincide com o objetivo específico da busca de Ibn Arabi.
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