PEREGRINO DO ORIENTE
HCIA
A vida errante de Ibn Arabi começou por volta de seus trinta anos, quando entre 1193 e 1200 percorreu diversas regiões da Andaluzia e realizou várias viagens ao norte da África, numa inquietação que era apenas o prelúdio de uma chamada interior que o levaria para sempre ao Oriente.
- Os itinerários sucessivos incluíam Fez, Tlemcen, Bugia, Túnis e outras cidades.
- Ibn Arabi estava fisicamente em Córdoba quando lhe veio a visão dos polos espirituais de todos os povos anteriores ao islã — mas a contemplação desses seres se deu no alám al-mithal, o mundo intermediário entre o estado corpóreo e o espiritual.
- Essa visão interior confirmava sua preocupação secreta e fundamental com uma religião eterna que, desde a origem das origens, reúne os Espirituais da humanidade num único corpus mysticum.
Em Túnis, numa tarde recolhido numa alheta de oração da Grande Mesquita, Ibn Arabi compôs um poema que não comunicou a ninguém e sequer pôs por escrito, conservando apenas na memória o dia e a hora da inspiração.
- Meses depois, em Sevilha, um jovem desconhecido aproximou-se de Ibn Arabi e recitou os próprios versos.
- Na data e hora exatas da inspiração em Túnis, um peregrino desconhecido havia recitado o poema a um grupo de jovens em Sevilha, pedindo-lhes que o decorassem, e depois desaparecera sem deixar rastro.
- O grande shaikh iraniano Ala'uddawla Semnani, do século XIV, também registrou experiências análogas.
- A parapsicologia moderna registra tais fenômenos com cuidado, mas não ousa extrair conclusões sobre essa suspensão — ou superação — das condições espaçotemporais da percepção sensível.
- A cosmologia do sufismo possui uma dimensão ausente na visão de mundo moderna, que garante a realidade “objetiva” do mundo suprassensorial onde se manifestam os efeitos de uma energia espiritual cujas fonte é o coração e cujo órgão é a Imaginação ativa.
Nas peregrinações andaluzas, Ibn Arabi travou uma longa discussão com um escolástico mutazilita em Ronda, e em Túnis iniciou o estudo de uma obra de teosofia mística de excepcional importância.
- O mutazilita capitulou ao final do debate sobre a doutrina dos Nomes Divinos — pilar central do edifício teofânico de Ibn Arabi.
- A obra estudada em Túnis foi o Khal al-na'layn (“Remoção das sandálias”), cujo título alude ao versículo XX:12 do Corão — a ordem ouvida por Moisés ao aproximar-se da sarça ardente.
- Essa é a única obra sobrevivente de Ibn Qasi, fundador na primeira metade do século XII, no sul de Portugal (Algarves), do movimento insurrecional dos Muridin contra os Almorávidas.
- O movimento dos Muridin tinha inspiração ismailita xiita em suas doutrinas esotéricas.
- Ibn Arabi escreveu um comentário ao Khal al-na'layn, obra que lança luz sobre as afinidades entre sua doutrina e a teosofia xiita, afinidades que explicam sua rápida assimilação pelo sufismo xiita do Irã.
O movimento dos Muridin de Ibn Qasi tinha como fonte original a escola de Almeria, à qual Asín Palacios inclinava-se a relacionar a iniciação esotérica de Ibn Arabi, escola essa que por sua vez remontava, através do mestre sufi Ibn al-Arif, a Ibn Masarra (falecido em 319/931) e suas doutrinas neoempedocleanas.
- Certas doutrinas de Ibn Masarra apresentam traços comuns com a cosmologia ismailita e com a do Ishraq de Suhrawardi.
- A amizade de Ibn Arabi com Abu Abdallah al-Ghazzal — discípulo de Ibn al-Arif e continuador de seu ensinamento — sugere também um vínculo profundo com essa linhagem.
Em 1198 — ano do funeral de Averróis — Ibn Arabi estava em Almeria, onde aproveitou o mês de Ramadã para redigir em onze dias um opúsculo anunciador de suas grandes obras, intitulado Mawaqih al-nujum (“As órbitas das estrelas”).
- O livro foi escrito sob impulso de uma inspiração confirmada por um sonho que lhe ordenava redigir uma introdução à vida espiritual.
- Ibn Arabi escreveu sobre a obra: “É um livro que permite a um principiante prescindir de um mestre, ou melhor: é indispensável ao mestre. Pois há mestres eminentes, sumamente eminentes, e este livro os ajudará a atingir o mais alto grau místico a que um mestre pode aspirar.”
- Sob o véu de símbolos astronômicos, o livro descreve a Luz que Deus concede ao sufi nas três etapas do Caminho.
- A primeira etapa, puramente exotérica, consiste na prática exterior da sharia — simbolizada pelas estrelas cujo brilho se apaga ao surgir a lua cheia das outras duas etapas.
- Nas etapas superiores, o sufi é iniciado no ta'wil — a exegese simbólica que “reconduz” os enunciados literais ao que simbolizam.
- Pronunciar a palavra ta'wil implica necessariamente evocar o xiismo, cujo princípio escriturístico fundamental é que todo sentido exotérico (zahir) possui uma contrapartida esotérica (batin) — o que bastava para alarmar as autoridades do islã ocidental.
Ibn Arabi presentiu que a vida na Andaluzia logo se tornaria impossível para ele, pois qualquer desvio do literalismo era suspeito de fomentar desordem política, e seu destaque tornava difícil passar despercebido.
- Havia precedentes trágicos como os de Ibn Qasi e Ibn Barrajan.
- Ibn Arabi relata discussões religiosas violentas com o sultão Yaqub al-Mansur.
- Sua única esperança de encontrar um público mais amplo e maior tolerância estava em deixar a Andaluzia, o Magrebe e a atmosfera criada pelos sultões almóadas, em direção ao mundo islâmico oriental — onde de fato tantos de seus discípulos prosperariam ao longo dos séculos.
A decisão de partir para o Oriente foi tomada em consequência de uma visão teofânica: Ibn Arabi contemplou o Trono de Deus sustentado por incontáveis colunas de fogo, cuja concavidade projetava uma sombra que tornava suportável e contemplável a luz do Entronizado, reinando nessa sombra uma paz inefável.
- A visão configura com precisão o mistério da antropomorfose divina no mundo celeste — fundamento da ideia teofânica, da dialética do amor e do segredo central da imamologia xiita.
- Um pássaro de beleza maravilhosa circulava em torno do Trono e comunicou ao visionário a ordem de partir para o Oriente, anunciando-se como seu companheiro e guia celeste.
- O pássaro revelou também o nome de um companheiro terrestre que o aguardava em Fez, homem que desejava partir para o Oriente mas recebera uma premonição divina de que devia esperar pelo companheiro reservado para ele.
- Nesse pássaro de beleza celeste reconhece-se sem dificuldade uma figuração do Espírito Santo — isto é, do Anjo Gabriel, Anjo do Conhecimento e da Revelação, ao qual os filósofos “remetiam” sua Inteligência ativa.
- Ibn Arabi peregrino ao Oriente surge aqui como personificação do herói do “Recital do Exílio Ocidental” de Suhrawardi.
A segunda fase da vida errante de Ibn Arabi iniciou-se em 597/1200 e, entre viagens por diversas regiões do Oriente Próximo, culminou em sua instalação em Damasco, onde passaria os últimos dezessete anos de vida em paz e laboriosas obras.
- Em 598/1201, aos trinta e seis anos, Ibn Arabi chegou a Meca — primeira meta de sua peregrinação.
- Recebeu hospitalidade de uma nobre família iraniana de Ispahan, cujo chefe ocupava um alto posto em Meca.
- A filha desse shaikh reunia beleza física extraordinária a grande sabedoria espiritual, e foi para Ibn Arabi o que Beatriz foi para Dante — a manifestação terrena, a figura teofânica, da Sophia aeterna.
- Foi a ela que Ibn Arabi devia sua iniciação nos Fedeli d'amore.
- Não compreender, ou fingir não levar a sério, a intenção consciente de Ibn Arabi ao dirigir-se à jovem Sophia expressando um amor divino seria fechar os olhos ao teofonismo — fundamento de toda a sua doutrina e chave de seu sentimento do universo, de Deus e do homem.
- Para o teofonismo não há dilema entre simbolismo e literalismo, pois ele pressupõe a existência da pessoa concreta mas investe essa pessoa de uma função transfiguradora, percebida à luz de outro mundo.
A estada em Meca marcou o início da extraordinária produtividade de Ibn Arabi, cuja vida mística se intensificou nas circumambulações — reais ou imaginárias — da Caaba interiorizada como “centro cósmico.”
- Ibn Arabi foi recebido na irmandade sufi em Meca, como já o havia sido anos antes em Sevilha — mas esse era apenas um sinal exterior.
- O evento real e decisivo foi semelhante ao que estivera na origem de sua partida para o Oriente: reencontrou seu Espírito Santo pessoal “em torno da Caaba.”
- A Caaba é o “centro do mundo” — e tais eventos ocorrem apenas no polo do microcosmo interno, no “centro do mundo.”
- Esse reencontro teofânico está na origem do imenso livro das Futuhat — o livro das revelações divinas recebidas em Meca.
- Os momentos teofânicos privilegiados cortam transversalmente a continuidade do tempo profano, quantificado e irreversível, mas seu tempus discretum — o tempo da angelologia — não entra nessa continuidade.
- O encontro com pessoas teofânicas postula sempre um retorno ao “centro do mundo”, pois a comunicação com o alám al-mithal só é possível nesse “centro.”
- O traço dominante do caráter de Ibn Arabi — que o tornava não apenas discípulo de mestres humanos como a maioria dos sufis, mas acima de tudo e essencialmente o “discípulo de Khidr” — pertence à ordem das coisas implicadas pelas teofanias.
