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A ORAÇÃO DO HELIOTROPO

HCIA

O texto de Proclo sobre a arte hierática dos gregos — em que o heliotropo segue o movimento do sol como uma prece — anuncia os temas centrais da meditação: a comunidade essencial entre seres visíveis e invisíveis, e a conexão entre a “dialética do amor” e a arte hierática.

  • Proclo escreve: “Cada coisa ora segundo o grau que ocupa na natureza e canta o louvor do condutor da série divina à qual pertence — louvor espiritual, racional, físico ou sensorial.”
  • “No céu, as coisas terrestres segundo um modo causal e celeste; na terra, as coisas celestes em estado terrestre.”
  • A comunidade de essência distribuída entre vários seres não é percebida por argumento de efeito a causa, mas como percepção de uma simpatia — atração recíproca e simultânea entre o ser manifesto e seu príncipe celeste.
  • O tropismo do heliotropo é ao mesmo tempo ação e paixão: sua “conversão” em direção ao príncipe celeste é uma heliopatia — a paixão que experimenta por ele —, e essa paixão se revela numa prece que é o ato dessa paixão pelo qual o anjo invisível atrai a flor em direção a si.
  • A simpatia é também condição e modo de percepção — pois não é qualquer um que percebe essa prece silenciosa oferecida por uma planta — e abre uma nova dimensão nos seres: a dimensão de seus “eus invisíveis.”

Os termos tropos e simpatia, associados a partir do texto de Proclo, foram empregados com proveito numa investigação original sobre a fenomenologia da religião profética, que introduz a noção de um Deus patético — um Deus que sofre e que tem paixões.

  • Em contraste com o Deus deísta esvaziado em conceito abstrato ou com o Deus ético guardião da lei moral, essa investigação apresenta com vigor penetrante a noção de um Deus afetado pelos acontecimentos e sentimentos humanos, ao qual reage de modo muito pessoal.
  • O pathos divino foi proposto como categoria especial — não como atributo de uma essência independente, mas como paixão transitiva, isto é, uma relação: a relação entre o homem e seu Deus numa sympatheia.
  • Dessa categoria de pathos nasceu espontaneamente a categoria do tropos: a revelação de Deus ao homem como “conversão” de um Deus que se volta para o homem — um antropotropismo divino — em contraste com qualquer “conversão” do homem em direção a Deus (teotropismo de iniciativa humana).
  • A investigação desenvolveu uma série de antíteses entre religião profética e religião mística: no profeta, relação dialogal e teofania; na religião mística, êxtase em que a personalidade humana se dissolve na Unidade divina infinita, eliminando toda base de simpatia.
  • A antítese foi também desdobrada em tonalidades emocionais: no profeta de Israel, apoio militante à causa divina no mundo; no místico, nostalgia, entusiasmo, aspiração ao êxtase e indiferença às coisas terrenas.

A questão decisiva é se, na vasta diversidade da experiência mística, não existe uma região onde a religião mística se revela precisamente como religião simpática — longe de fornecer antítese às categorias da religião profética, assimilando-as e superando a oposição entre os dois tipos.

  • O versículo corânico “Todo ser tem seu próprio modo apropriado de prece e glorificação” (XXIV:41) sugere que o heliotropismo da flor — sua heliopatia — pode colocar na trilha certa quem lhe emprestar ouvido.
  • A pergunta central é: a unio mystica, longe de ser antítese da unio sympathetica, não seria seu modo privilegiado? E a metafísica do êxtase não estaria fundada precisamente num teofonismo?
  • O teofonismo se opõe fundamentalmente à ideia de Encarnação em sua forma dogmática corrente — mas a possibilidade de que os dois tipos de experiência se impliquem mutuamente pressupõe um ambiente religioso edificado sobre uma profetologia concebida ela própria como protótipo de experiência mística.
  • O sufismo islâmico satisfaz essa condição — não o islã oficial e ortodoxo, do qual o separa um abismo, mas precisamente todos aqueles agrupados como Fedeli d'amore.

O sufismo islâmico é dominado por duas grandes figuras — Ibn Arabi, mestre incomparável da teosofia mística, e Jalaluddin Rumi, o trovador iraniano da religião do amor — e o nome Fedeli d'amore traduz para o Ocidente os nomes pelos quais esses místicos se designavam em árabe ou persa.

  • O nome é o mesmo que Dante e seus companheiros usavam para se designar, sugerindo os traços comuns a ambos os grupos.
  • A experiência dos neoplatônicos muçulmanos — seguidores de Avicena e ishraqiyun de Suhrawardi — e a dos discípulos de Ibn Arabi e Rumi convergem para o símbolo de um arquétipo idêntico.
  • O ensinamento comum a todos eles sugere que o único fato da experiência que justifica falar de um pathos divino — de uma paixão divina pelo homem (uma “antropopatia divina”) — é um estado correspondente e complementar no homem: um estado em que o pathos divino se revela, e que o homem experimenta como teopatia e teotropismo.
  • O homem não pode apreender diretamente uma questão que lhe é colocada de fora — apreende-a por meio de sua resposta, e essa resposta é seu próprio ser, seu modo próprio de ser, assim como o tropismo do heliotropo exprime o ser próprio dessa flor.
  • Essa resposta depende do grau em que o homem se torna “capaz de Deus” — pois é essa capacidade que define e mede a simpatia como meio necessário de toda experiência religiosa.

O caminho a seguir passa por duas etapas: reconhecer a presença do Deus patético numa teosofia mística que mantém a dupla noção de Theos agnostos (Deus incognoscível) e de Deus revelatus; e compreender como, sendo o mistério da origem dos seres expresso como uma com-paixão divina que liberta os seres do não-ser, dessa sympathesis surge um simpatetismo humano-divino que une o senhor divino e seu fedele d'amore em seu próprio ser.

  • A constante reciprocidade entre a antropopatia divina e a teopatia humana implica que a unio mystica não se opõe à unio sympathetica — mas deve ser identificada com ela.
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