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islamismo:corbin:ibn-arabi:1-1-3-unio-mystica

DA «UNIO MYSTICA» COMO «UNIO SYMPATHETICA»

HCIA

A antítese entre unio mystica e unio sympathetica dissolve-se quando se examina o esquema da experiência espiritual de Ibn Arabi: cada ser é uma forma epifânica (mazhar, majla) do Ser Divino, que nele se manifesta investido em um ou mais de Seus Nomes.

  • O universo é a totalidade dos Nomes pelos quais Deus é nomeado quando O nomeamos por Seus Nomes.
  • Cada Nome divino manifestado é o senhor (rabb) do ser que o manifesta — seu “senhor particular” (al-rabb al-khass).
  • Ibn Arabi afirma: “Cada ser tem como seu Deus apenas seu Senhor particular — não pode em hipótese alguma ter o Todo.”
  • Esse kathenotheism verificado no contexto da experiência mística não fragmenta o Ser Divino — Ele está inteiramente presente em cada caso, individualizado em cada teofania de Seus Nomes.

O “segredo da suserania divina” (sirr al-rububiya) é o motivo essencial da espiritualidade da escola de Ibn Arabi — e uma frase de Sahl Tustari citada por Ibn Arabi revela sua profundidade: “A suserania divina tem um segredo, e esse segredo és tu — esse tu é o ser a quem se fala; se (esse tu) desaparecesse, essa suserania também deixaria de ser.”

  • O ser-conhecido de Deus depende de ti — o que significa que quando Ele é conhecido por ti, é porque Ele Se conhece em ti — e aqui está uma situação dialogal essencial que nenhuma imputação de monismo pode comprometer.
  • A terminologia de Ibn Arabi distingue entre divindade (uluhiya) como atributo do Deus (Al-Lah) que adoramos e “suserania” (rububiya) como atributo do Senhor a quem apelamos.
  • Al-Lah designa a Essência divina qualificada e investida com a soma de Seus atributos; al-Rabb, o Senhor, é o Divino personalizado e particularizado num de Seus atributos.
  • Os “Nomes de divindade” têm origem nas relações da Essência divina com as individuações em seu estado de hexeidade eterna; os “Nomes de suserania” têm origem nas relações desses Nomes com os seres objetivados e atualizados in concreto.

O “senhor” é um Nome divino particular que postula a atualidade de um ser cujo Senhor Ele é — seu fedele ou “vassalo” (abd) — e o fenômeno da significatio passiva atinge aqui seu exemplo mais eminente.

  • O rabb não tem realidade essencial em si mesmo — torna-se realidade em relação a um ser designado na forma passiva correspondente (marbub).
  • O Nome divino Al-Lah postula a realidade positiva, ao menos latente em Sua Essência, de alguém cujo Deus Ele é — e esse ser é designado como ma'luh, o particípio passivo da raiz 'lh.
  • O ma'luh não é o Adorado, mas o adorador — aquele por meio de quem a realidade positiva da divindade se cumpre em ato.
  • Um comentador de Ibn Arabi, surpreendido com o uso incomum do termo quando o shaikh declara que “é por nossa teopatia que O constituímos como Deus”, associa essa afirmação ao shath — o “discurso teopático.”
  • O texto de Ibn Arabi exprime esse simpatetismo: “A divindade (uluhiya) busca um ser cujo Deus ela é; a suserania (rububiya) busca um ser cujo senhor ela é — sem esses dois, ambas são privadas de realidade atual ou mesmo virtual.”

A linha de um dos poemas de Ibn Arabi — “Conhecendo-O, dou-Lhe ser” — não significa que o homem existencia a Essência divina, que transcende todo nome e todo conhecimento, mas refere-se ao “Deus criado nas fés” — o Deus que em cada alma toma uma forma determinada pela crença, conhecimento e aptidão dessa alma.

  • Ibn Arabi declara: “Conheço Deus na proporção dos Nomes e atributos que são epifanizados em mim e por mim nas formas dos seres — pois Deus Se epifaniza a cada um de nós na forma do que amamos.”
  • Ibn Arabi afirma também: “Para quem compreende a alusão, Deus é uma designação significativa.”
  • A questão de quem é o sujeito ativo que cria o “Deus criado” revela o segundo aspecto do segredo: embora seja o vassalo que detém o “segredo da suserania”, sua ação em postular a Deus é a paixão de Deus nele — e o sujeito ativo é, na realidade, não o homem: “Sois o sujeito de um verbo no passivo; sois o ego de um cogitor.”
  • O “segredo do segredo” (sirr sirr al-rububiya) antecipa a objeção do psicologismo ou do sociologismo — a divindade como projeção da consciência —, demonstrando que não se trata de uma fabricação a posteriori mas de um fato a priori da experiência, posto junto com o próprio fato de nosso ser.

A correlação entre o senhor divino e seu fedele não se originou no tempo — se a ma'luhiya (teopatia) do fedele postula a existência do Deus que adora, é porque o Adorado faz de Si mesmo o Adorador, ato cumprido na pré-eternidade nas essências virtuais desses dois seres.

  • A pergunta que o Ser Divino dirigiu à massa primordial das existências arquetípicas — “Não sou vosso Senhor?” (a-lastu bi-rabbikum?) — é um diálogo do Ser Divino consigo mesmo, uma pergunta que Se fez em eles e respondeu por meio deles.
  • É impossível que o Ser Divino Se desapegue das formas do universo — dos seres que ao adorá-Lo O fazem Deus —, porque a adoração deles, sua teopatia, é a forma da Compaixão divina (sym-pathesis) que com eles simpatiza.
  • Ele se louva a Si mesmo em todos os Seus seres que são Suas teofanias — embora nem todos os appreendam como tais, pois muitos não percebem a prece do Silencioso (al-Samit), a prece do heliotropo da qual Proclo era tão consciente.

O serviço divino através do qual os Fedeli d'amore deram ser ao “Deus patético” — alimentando Sua paixão com todo o seu ser — prefigura-se na figura ideal de Abraão, cujo sobrenome Khalil Allah (“o íntimo de Deus”) Ibn Arabi relaciona etimologicamente à raiz que connota misturar, impregnar.

  • Ibn Arabi relaciona Khalil à quinta forma da raiz verbal (takhallala), connoting misturar-se — o que se mistura com uma coisa é velado por ela, e essa coisa em situação passiva corresponde ao Aparente (zahir), enquanto o agente ativo corresponde ao Oculto (batin).
  • A meditação que daí emerge pergunta: Deus é o Aparente, velando a criatura em Si? Ou a criatura é o Aparente, velando e ocultando Deus?
  • Essa meditação passa por três fases: experimentar a teopatia para descobrir como, por meio do culto, é Deus que Se faz Deus; descobrir que Ele, como fato a priori do ser, é Sua própria prova; e descobrir que o autoconhecimento como “lugar” dessa teopatia é cumprido nEle.
  • Por isso a máxima teopática dos discípulos de Ibn Arabi não era “Sou Deus” (Hallaj), mas “Sou o segredo de Deus” (Ana sirr al-Haqq) — o segredo do amor que faz Sua divindade depender de mim, pois o Tesouro oculto “desejou ser conhecido.”

O serviço divino tipificado pelo nome e pela hospitalidade de Abraão ilumina a noção de devotio sympathetica — cujo símbolo perfeito é a filoxenia de Abraão: o repasto oferecido aos três Anjos misteriosos mencionado no Corão (XI:72).

  • A iconografia mental de Ibn Arabi representa o serviço incumbente ao fedele d'amore na pessoa de Abraão servindo os três Anjos no banquete místico — alimentar Deus ou Seu Anjo com Suas criaturas é ao mesmo tempo alimentar as criaturas com Deus.
  • Alimentar as criaturas com o Ser Divino é reinvesti-las de Deus — fazer florescer nelas o esplendor teofânico, despertar a dimensão angélica de seu ser.
  • Esse é um serviço angélico, sugerido pela consociação de Abraão com o Arcanjo Miguel — o dos quatro Arcanjos que se ocupa da substanciação do universo do ser.
  • Criador e criaturas (haqq e khalq), Nomes divinos e formas teofânicas dos seres interpenetram-se e alimentam-se mutuamente sem necessidade de nenhuma Encarnação (hulul), pois a “união simpática” difere essencialmente da “união hipostática” — como a cor da água que toma a coloração do vaso que a contém.

A noção do Homem Perfeito (Anthropos teleios, Insan-i-kamil) exige cautela contra as pretensões ilusórias de uma concepção do universal que satisfaz o intelecto mas que, medida pelos limites da modalidade humana, revela uma soberba espiritual absurda.

  • A questão é se o místico realiza o tipo do Homem Perfeito ontologicamente — tornando-se em pessoa a teofania perfeita de todos os Nomes e atributos divinos — ou noeticamente — tendo realizado o significado dos Nomes em sua consciência mística.
  • A singularidade do vínculo entre cada fedele e seu Senhor particular é tão preciosa que o versículo corânico da escatologia individual a ela se refere: “Ó alma serena! Retorna a teu Senhor, alegre e agradável a Seus olhos” (LXXXIX:27).
  • A alma não é exortada a retornar a Deus em geral, a Al-Lah — mas ao seu próprio Senhor, que Se manifestou nela e ao qual ela respondeu: Labbayka, “Eis-me aqui!”
  • “Entra em Meu Paraíso” (LXXXIX:29) — esse Paraíso não é outro senão ti mesmo: a forma divina oculta em teu ser, a Imagem primordial secreta em que Ele Se conhece em ti e por ti.
  • A sabedoria mística autêntica (ma'rifa) é a da alma que se conhece como teofania — forma individual em que são epifanizados os Atributos divinos que ela não poderia conhecer se não os descobrisse e apreendesse em si mesma.

O kahtenotheism místico é a salvaguarda contra toda idolatria metafísica — a enfermidade espiritual de duas faces que consiste em amar um objeto sem transcendência, ou em desconhecer essa transcendência separando-a do objeto amado pelo qual ela se manifesta.

  • A dialética do amor de Ibn Arabi, Ruzbehan e Jalaluddin Rumi preserva-se da idolatria — que seus críticos ascéticos, cegos à dimensão transcendente, tão prontamente lhes imputavam — precisamente por investir o ser amado com a aura da transcendência.
  • Esse é o paradoxo mais fecundo da religião dos Fedeli d'amore: em cada Amado reconhece-se o único Amado, e em cada Nome divino a totalidade dos Nomes — porque entre os Nomes divinos há uma unio sympathetica.
  • Uma vida em simpatia com os seres, capaz de dar dimensão transcendente ao seu ser, à sua beleza e às formas de sua fé, está indissoluvelmente ligada à teopatia que faz do espiritual um ser de Compaixão (um Rahman) e que por meio dele realiza a Sym-patia divina (Nafas Rahmani).

A profissão de fé do fedele d'amore irrompe no grande poema sofianico de Ibn Arabi — o Diwan —, secretamente dominado pela Figura que lhe apareceu em Meca como a Figura da Sophia aeterna.

  • Ibn Arabi proclama: “Ó maravilha! um jardim entre as chamas… Meu coração tornou-se capaz de todas as formas. É um prado para gazelas e um mosteiro para monges cristãos, um templo para ídolos e a Caaba do peregrino, as Tábuas da Lei e o livro do Corão. Professo a religião do Amor, e qualquer que seja a direção que seu corcel tome, o Amor é minha religião e minha fé.”
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