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DIALÉTICA DE AMOR

HCIA

Ibn Arabi — juntamente com Ruzbehan de Shiraz — é entre todos os mestres do sufismo aquele que levou mais longe a análise dos fenômenos do amor, empregando uma dialética pessoal eminentemente adequada a revelar a fonte da devoção total professsada pelos Fedeli d'amore.

  • Ibn Arabi declara: “Chamo Deus como testemunha de que, se nos confinássemos aos argumentos racionais da filosofia — que, embora nos permitam conhecer a Essência divina, o fazem de modo negativo —, nenhuma criatura jamais teria experimentado o amor de Deus.”
  • A religião positiva ensina que Ele é isto e aquilo; as aparências exotéricas desses atributos são absurdas à razão filosófica — e no entanto é por esses atributos positivos que O amamos.
  • Ibn Arabi afirma: “Podemos tipificá-Lo e tomá-Lo como objeto de nossa contemplação… é Ele que em todo ser amado se manifesta ao olhar de cada amante… e nenhum outro senão Ele é adorado, pois é impossível adorar um ser sem conceber a Divindade nesse ser. Assim também no amor: um ser não ama verdadeiramente ninguém senão seu Criador.”

O Amado único nunca é visível senão numa Forma que é Sua epifania (mazhar) — Forma que, ao revelar-se, também O oculta, pois Ele a transcende sempre —, e entre o Amado real e a forma concreta que O torna visível há necessariamente uma con-spiração (ham-dami persa), uma sym-patia.

  • O “amor divino” (hibb ilahi) tem dois aspectos: o Desejo de Deus pela criatura — o Suspiro apaixonado (hanin) de Deus em Sua essência (o “Tesouro oculto”) ansiando manifestar-Se nos seres — e o Desejo da criatura por Deus, que é na realidade o Suspiro do próprio Deus epifanizado nos seres e ansiando retornar a Si mesmo.
  • O ser que suspira de nostalgia (al-mushtaq) é ao mesmo tempo o ser para quem a nostalgia suspira (al-mushtaq ilayhi) — não são dois seres heterogêneos, mas um ser que se encontra consigo mesmo, ao mesmo tempo um e dois: uma bi-unidade.
  • É Deus quem, determinado na forma do fedele, suspira em direção a Si mesmo, pois Ele é a Fonte e a Origem que aspirou precisamente a essa Forma determinada, à Sua própria antropomorfose.
  • Abu Yazid Bastami ilustra esse desejo infinito: “Bebi o filtro do amor, cálice após cálice. Não está esgotado, e minha sede não foi saciada.”

Ibn Arabi distingue três modos de ser do amor — o amor divino, o amor espiritual e o amor natural —, e sua classificação contém a própria motivação.

  • O amor divino (hibb ilahi) é ao mesmo tempo o amor do Criador pela criatura na qual Ele Se cria, e o amor dessa criatura por seu Criador — o eterno diálogo da syzygia divino-humana.
  • O amor espiritual (hibb ruhani) situa-se na criatura sempre em busca do ser cuja Imagem descobre em si mesma, ou de que ela própria é a Imagem — amor que não tem outro cuidado, alvo ou vontade senão ser adequado ao Amado e cumprir o que Ele deseja fazer com e por seu fedele.
  • O amor natural (hibb tabi'i) deseja possuir e busca a satisfação de seus próprios desejos sem cuidar da satisfação do Amado — e Ibn Arabi lamenta: “É assim, infelizmente, que a maioria das pessoas entende o amor hoje.”
  • Para que o amor floresça na criatura como teopatia correspondente ao anseio divino de ser conhecido, é preciso restaurar a simpatia entre o espiritual e o físico — realizar a bi-unidade, a unio sympathetica, do senhor do amor (rabb) e de seu vassalo do amor (marbub).

A questão de quem é o sujeito real do amor — pergunta que Ibn Arabi diz ter sido formulada por uma mulher de mente sutil que era grande mística, cujo nome passa em silêncio — revela que os amantes místicos mais perfeitos são os que amam a Deus simultaneamente por Ele e por si mesmos, pois essa capacidade revela neles a unificação de sua dupla natureza.

  • O Amado divino manifesta-Se à alma na forma física de uma teofania — produzindo-Se para a alma — e lhe concede um sinal (alama) que a torna incapaz de negar que é Ele quem Se manifesta nessa Forma.
  • Esse sinal não é identificado pelos sentidos mas por outro órgão — uma evidência imediata e a priori (ilm daruri).
  • A alma “vê” seu Senhor nessa visão extática — seu amor é “físico” pois apreende e contempla uma Imagem concreta, e ao mesmo tempo espiritual pois não visa a tomar posse da Imagem mas está ela própria inteiramente investida dessa Imagem.
  • Essa conjunção do amor espiritual e do amor natural que ele transmuta é a própria definição do amor místico.

O sujeito real que move o amor dentro do místico não é a alma por si mesma, mas Deus — e a alma toma consciência de que vê a Deus não por si mesma mas por Ele, ama apenas por Ele, e contempla a Deus em todos os outros seres não por seu próprio olhar, mas porque é o mesmo olhar pelo qual Deus os vê.

  • O “Senhor do amor” da alma é a Imagem que age dentro dela — o órgão de sua percepção — enquanto a alma é o Seu órgão de percepção.
  • A visão que a alma tem de seu Senhor divino é a visão que Ele tem da alma; a simpatia da alma com o ser é a teopatia que experimenta em si mesma.
  • Ibn Arabi conclui: “É Ele quem busca e é buscado, Ele é o Amante e Ele é o Amado.”
  • Ibn Arabi discerne nessa verdade a causa da emoção experimentada ao ouvir música — há simpatia entre a resposta da virtualidade eterna ao Imperativo que a despertou para o ser (KuN, Esto!) e o pressentimento das virtualidades que a incantação musical parece evocar e libertar.

O amor cuja força motriz é a Beleza — pois “Deus é um Ser belo que ama a beleza” e que ao revelar-Se a Si mesmo produziu o mundo como espelho para contemplar Sua própria Imagem — tem como objeto único a Deus em ambos os seus aspectos.

  • A conjunção do espiritual e do físico no amor místico implica a Energia imaginativa, ou Imaginação criadora, cuja teoria ocupa tão grande espaço na experiência visionária de Ibn Arabi.
  • Como órgão de transmutação do sensível, a Imaginação Ativa tem o poder de manifestar a “função angélica dos seres” — efetuando um duplo movimento: faz descer realidades espirituais invisíveis à realidade da Imagem, e realiza a única forma possível de assimilação (tashbih) entre Criador e criatura.
  • Esse duplo movimento — descida do divino e assunção do sensível — é o que Ibn Arabi designa etimologicamente como “condescendência” (munazala): a Imaginação é o cenário do encontro pelo qual o supra-sensório-divino e o sensível “descem” num mesmo “lugar.”
  • Ibn Arabi declara: “A Imaginação Ativa torna possível amar um ser do mundo sensível, em quem amamos a manifestação do Amado divino; pois espiritualizamos esse ser elevando-o à Imagem incorruptível, investindo-o de uma beleza superior à que era sua e revestindo-o de uma presença que não pode perder nem rejeitar — de modo que o místico nunca cessa de estar unido ao Amado.”
  • Sem essa “união imaginativa” (ittisal fi'l-khayal) e a “transfiguração” que ela opera, a união física é mera ilusão — causa ou sintoma de desequilíbrio mental.
  • O caso de Majnum é citado por Ibn Arabi como o fenômeno mais sutil do amor: a contemplação imaginativa pura atinge tal intensidade que qualquer presença material e sensível só a rebaixaria.

A experiência do amor místico implica que o fedele d'amore compreenda que a Imagem não está fora dele, mas dentro de seu ser — é seu próprio ser, a forma do Nome divino que trouxe consigo ao vir à existência.

  • Ibn Arabi observa: “O amor é mais próximo do amante do que sua veia jugular.”
  • O novato inexperiente, dominado pela Imagem que investe todo o seu ser interior, vai buscá-la fora de si mesmo, numa busca desesperada de forma em forma do mundo sensível — até retornar ao santuário de sua alma e perceber que o Amado real está no interior de seu próprio ser.
  • A partir desse momento, o místico busca o Amado apenas por meio do Amado — e o sujeito ativo dentro dele permanece a imagem interior da Beleza irreal, vestígio da contrapartida transcendente ou celeste de seu ser.
  • Ibn Arabi afirma que é igualmente verdadeiro dizer que o Amado está nele e que ele está no Amado — essa reversibilidade expressa a experiência do “segredo da suserania divina” (sirr al-rububiya), aquele segredo que és “tu.”
  • Ibn Arabi conclui: “O amante divino é espírito sem corpo; o amante puramente físico é corpo sem espírito; o amante espiritual — isto é, o amante místico — possui espírito e corpo.”
  • A qualidade e a fidelidade do amante místico dependem de seu “poder imaginativo” — pois é a Imaginação criadora que, como Imaginatrix, realiza a união teofânica do divino e do humano e a reconciliação entre o espiritual e o físico que é a condição do amor perfeito.
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