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O FEMININO-CRIADOR

HCIA

A dialética do amor, ao acionar a Imaginação ativa e criadora, realizou no plano teofânico uma reconciliação do espiritual e do físico — e dela depende a possibilidade de “ver a Deus”, não com a visão impossível da Essência divina em sua nudez, mas com a visão do Senhor particular de cada alma mística.

  • Essa visão pressupõe e atualiza a co-dependência eterna (ta'alluq) do Senhor (rabb) com o ser que é também seu ser — pois a totalidade de um Nome divino compreende o Nome e o Nomeador, cada um “colocando o outro no passivo”, sendo cada um a ação do outro — e essa ação é compaixão, sympathesis.
  • Essa união é a unio sympathetica em seu pleno sentido — que detém o “segredo da divindade” do Senhor que é teu Deus (sirr al-rububiya), o segredo que és “tu” (Sahl Tustari) —, e que cabe ao fedele sustentar e nutrir com seu próprio ser.
  • A prefiguração dessa devoção é a hospitalidade de Abraão aos Anjos — a devotio sympathetica que o místico deve reproduzir e exemplificar em seu próprio ser.

Para que o místico possa exemplificar essa devoção, a contemplação deve efetuar-se numa forma que apresente a própria Imagem do Ser divino — e a intuição dominante no capítulo final dos Fusus é que o místico obtém a mais elevada visão teofânica ao contemplar a Imagem do ser feminino, pois é na Imagem do Feminino Criador que a contemplação pode apreender a mais alta manifestação de Deus: a divindade criadora.

  • O Sopro de Compaixão divina (Nafas Rahmani) — que liberta os Nomes divinos confinados na ocultação de sua existência latente — sugere uma dupla dimensão ativa e passiva no ser da Divindade que Se revela.
  • O ser que será e revelará Sua Imagem perfeita deverá apresentar essa mesma estrutura: ser ao mesmo tempo paixão e ação — patético e poiético (munfa'il-fa'il), receptivo e criador.
  • O Feminino não se opõe ao Masculino como o patiens ao agens — antes abarca e combina os dois aspectos, receptivo e ativo, enquanto o Masculino possui apenas um dos dois.
  • Jalaluddin Rumi expressa essa intuição: “A mulher é um raio da Luz divina. Não é o ser que o desejo sensual toma como objeto. É Criadora — deve-se dizer assim. Não é uma Criatura.”

A intuição sofianica do Feminino Criador encontra correspondência nos extremos do xiismo — ismailitas e Nusayris —, que na pessoa de Fatima, concebida como “Virgem-Mãe” que dá à luz a linhagem dos Santos Imãs, percebem uma teofania da Sophia aeterna e atribuem ao seu nome a qualificação demiúrgica no masculino: Fatima-Criador (Fatima fatir).

  • A intuição do Feminino Criador tem origem “experiencial”: quando o fedele atinge o autoconhecimento, atinge o conhecimento do Nome divino que é seu Senhor particular — e o mundo dos Nomes divinos representa, em ambos os lados, o mundo do Eu ao qual aspira a nostalgia do Ser divino desejando ser conhecido.
  • Assim como a nostalgia e a tristeza de Adão foram apaziguadas pela projeção de sua própria Imagem — que, separando-se dele e tornando-se independente como o espelho em que a Imagem aparece, o revelou a si mesmo —, Ibn Arabi sustenta que Deus amou Adão como Adão amou Eva: com o mesmo amor; ao amar Eva, Adão imitou o modelo divino.
  • Assim como Adão é o espelho em que Deus contempla Sua própria Imagem, a Mulher é o espelho (mazhar) em que o homem contempla sua própria Imagem — o Eu oculto que ele tinha de conhecer para conhecer seu Senhor.

A quaternidade formada pelos pares Adão-Eva e Maryam-Jesus — que nossos místicos foram levados a configurar para expressar o evento que experimentavam em si mesmos — exprime o símbolo e o “cifra” da sofiologia.

  • Assim como um Feminino foi existenciado por um Masculino sem mediação de mãe (Eva criada por Adão), era necessário que um Masculino fosse gerado por um Feminino sem mediação de pai (Jesus gerado por Maryam).
  • Maryam acede ao grau de Adão; Jesus ao grau de Eva — e essa tipologia está longe da exegese corrente no cristianismo.
  • Maryam e Adão são os dois progenitores; Jesus e Eva são “irmão e irmã.”
  • O que essa quaternidade exprime é o símbolo e a “cifra” da sofiologia: o Feminino é a criatriz do ser pelo qual ela própria foi criada — assim como é criada apenas pelo ser do qual ela mesma é a criatriz.

A preeminência do Feminino Criador como epifania da Beleza divina é sustentada por observações lexicográficas e gramaticais que Ibn Arabi trata com sua filologia pessoal como dados que revelam uma realidade metafísica superior.

  • Em árabe, todos os termos que indicam origem e causa são femininos — e o próprio Ibn Arabi nota que a palavra umm (“mãe”) designa a origem ou fonte de qualquer coisa.
  • Abd al-Razzaq Kashani, um dos grandes nomes da escola de Ibn Arabi, observa que a haqiqa — que designa a realidade verdadeira, a essência do ser, a origem das origens — é feminina em árabe, e que como “agente absoluto” (fa'il mutlaq) pode ser chamada de “pai de todas as coisas”, mas é ainda mais próprio chamá-la de Mãe, pois combina ação e paixão (jami'a bayna'l-fi'l wa'l-infi'al).
  • Ibn Arabi conclui: “Qualquer que seja a doutrina filosófica à qual aderimos, observamos, tão logo especulamos sobre a origem e a causa, a anterioridade e a presença do Feminino. O Masculino é colocado entre dois Femininos: Adão é colocado entre a Essência Divina (dhat al-Haqq) da qual procede e Eva, que procede dele.”
  • O Adão aqui evocado é antes de tudo o Adão espiritual, o Anthropos verdadeiro (Adam al-haqiqi) — o Nous, a Primeira Inteligência — colocado entre dois femininos: a Essência Divina e a Alma universal (Nafs kulliya), que é a Eva celeste.
  • A Primeira Inteligência é também chamada de Espírito Muhammadiano (Ruh Muhammadi) — e nesse Espírito, criado primeiro em puro estado passivo e depois investido de atividade demiúrgica, discernem-se os traços da Sophia Criadora.

O verso atribuído a Hallaj — “Minha mãe deu à luz a seu pai; isso é uma maravilha” — exprime o segredo da origem dos seres na forma de um paradoxo, e foi comentado por dois grandes nomes da religião mística do amor: Fakhruddin Iraqi no século XIII e Jami no século XV.

  • No plano do nascimento eterno, “minha mãe” designa minha existência eterna latente no Ser Divino — o que no vocabulário do antigo Irã zoroastriano seria chamado de meu Fravashi, meu arquétipo e anjo individual.
  • Se o Ser Divino é considerado como “pai” (walid) dessa individuação, ao “colorir-se” por ela em seu ser, então Ele é o filho (walad) dessa individualidade eterna — filho de “minha mãe”, que nesse aspecto é “sua mãe.”
  • No plano do segundo nascimento — o nascimento aludido em São João III:3, que todos os Espirituais do islã conheciam —, a alma mística “cria” seu Criador: a “sofianidade” do místico determina o grau em que é apto a assumir o segredo da divindade de seu Senhor.
  • Suhrawardi formula a mesma situação em sua invocação à “Natureza Perfeita” (al-tiba' al-tamm): “Tu és meu pai espiritual (abruhani) e tu és meu filho mental (walad ma'nawi)” — tu me engendrastes como espírito, e eu te engendrei por meu pensamento e minha meditação.

A substituição de Maryam pelo místico — realizada por Jalaluddin Rumi numa das mais belas páginas do Mathnawi — torna o episódio da Anunciação um dos símbolos que verificam a máxima “quem se conhece a si mesmo conhece seu Senhor.”

  • É a “sofianidade” do ser do místico (tipificada por Maryam) que condiciona sua visão do Anjo — define sua capacidade de visão teofânica, sua capacidade para a visão de uma forma em que o invisível e o sensível se conjugam.
  • O Anjo diz a Maryam nos versos de Rumi: “Sou a luz de teu Senhor — sou o novo-nascido e sou a Imagem no coração. Quando uma Imagem entra em teu coração e se estabelece, foges em vão: a Imagem permanecerá dentro de ti… Buscas refúgio de mim em Deus — sou para toda a eternidade a Imagem do único Refúgio… Buscas refúgio de mim, e eu sou o Refúgio.”
  • O ensinamento de Jalaluddin Rumi sobre o Filho Espiritual (walad ma'nawi) — a alma mística dando à luz a si mesma, “engendrando-se a seu Anjo” — é quase palavra por palavra o que Meister Eckhart ensinaria no Ocidente pouco mais de um século depois.
  • Mir Damad, mestre de teologia em Ispahan no século XVII, também registra esse motivo na tradição aviceniana e suhrawardiana do Irã.
  • Esse motivo difere essencialmente das teosofias que contribuíram para o surgimento no Ocidente de um pensamento sofiológico como o de Vladimir Soloviev, cuja intenção equivale ao que ele mesmo chamou de “Encarnação social” — fórmula que teria sido ininteligível para um discípulo de Ibn Arabi ou Jalaluddin Rumi.

O aparente monismo de Ibn Arabi dá lugar a um diálogo — a uma situação dialogal —, que o canto final do Livro das Teofanias exprime em voz que se identifica com a da Sophia divina, do Anjo, do Fravashi.

  • A voz proclama: “Sou a realidade do mundo, o centro da circunferência, sou as partes e o todo. Sou a vontade estabelecida entre o Céu e a Terra, criei a percepção em ti apenas para ser o objeto de minha percepção. Se me percebes, percebes a ti mesmo. Mas não podes perceber-me por ti mesmo. São meus olhos através dos quais me vês e te vês; através dos teus olhos não podes ver-me.”
  • A voz continua: “Amado! Chamei-te tantas vezes e não me ouviste! Mostrei-me a ti tantas vezes e não me viste… Por que não podes chegar a mim pelo objeto que tocas? Por que não podes respirar-me pelos doces perfumes? Por que? Por que? Por que?”
  • E conclui: “Outros te amam por causa deles mesmos; eu te amo por causa de ti mesmo. E tu, tu foges de mim… Sou mais íntimo de ti do que tu mesmo, do que tua alma, do que teu sopro… Sou ciumento de ti por causa de ti, quero que não pertencas a nenhum outro, nem mesmo a ti mesmo. Sê meu, sê para mim como és em mim, embora não estejas sequer consciente disso… Vamos em direção à União. E se encontrarmos o caminho que leva à separação, destruiremos a separação… Entremos na presença da Verdade. Que ela seja nossa juíza e imprima seu selo em nossa união para sempre.”
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