IMAGINAÇÃO CRIADORA E ORAÇÃO CRIADORA
HCIA
A noção de Imaginação como intermediária mágica entre o pensamento e o ser — encarnação do pensamento em imagem e presença da imagem no ser — desempenha papel de primeira importância na filosofia do Renascimento e reaparece na filosofia do Romantismo, e é ela que introduz a segunda parte da obra.
- Novalis redescobriu através de Fichte a antiga doutrina tipificada na justaposição das palavras Imago e Magia — o mundo como Magia divina “imaginada” pela Divindade.
- Paracelsus já advertia que a fantasia, ao contrário da Imaginação, é um exercício do pensamento sem fundamento na natureza — “a pedra angular do louco.”
- Essa advertência é essencial para combater a confusão resultante de concepções do mundo que reduziram a função “criadora” da Imaginação a uma expressão meramente metafórica.
O estado atual do pensamento ocidental — moldado por teorias do conhecimento e “explicações” de cunho psicologista, historicista ou sociologista — anulou o significado objetivo do objeto e chegou a um agnosticismo puro e simples, no qual a Imaginação é confundida com a fantasia.
- Cessou de existir um nível intermediário entre a realidade empiricamente verificável e a irrealidade pura e simples.
- Todas as coisas indemonstráveis, invisíveis e inaudíveis são classificadas como criações da Imaginação — da faculdade cuja função seria secretar o imaginário e o irreal.
- Nesse contexto agnóstico, a Divindade e todas as formas de divindade são ditas criações da imaginação, portanto irreais — e a oração dirigida a tal Divindade seria apenas uma ilusão desesperada.
- O abismo entre essa noção puramente negativa da Imaginação e a noção dos teosofistas que será aqui tratada mede-se numa resposta que assume o desafio: precisamente porque essa Divindade é uma Divindade, ela é real e existe — e é por isso que a Oração a ela dirigida tem sentido.
A noção de criatividade atribuída ao homem só pode ser elucidada se se pressupõe o sentido e a validade de suas criações — e tudo dependerá do grau de realidade imputado ao universo imaginado e do poder real imputado à Imaginação que o imagina.
- A questão da criatividade humana — a necessidade de superar a realidade dada e a solidão do eu entregue a seus próprios recursos neste mundo imposto (o Nur-Ich-Sein que pode tornar-se uma obsessão beirando a loucura) — só pode ser respondida por quem experimentou profundamente essa necessidade de ir além.
- Os objetos produzidos pela atividade criadora — obras de arte ou instituições — têm seu lugar no mundo exterior, mas sua gênese e seu sentido fluem primariamente do mundo interior onde foram concebidos.
- Deixou de existir um esquema de realidade que admita um universo intermediário entre o universo dos dados sensoriais e um reino espiritual ao qual apenas a fé ainda tem acesso — e com isso a degradação da Imaginação em fantasia se tornou completa.
Entre a teosofia de Ibn Arabi e a dos teosofistas do Renascimento ou da escola de Jacob Boehme existem correspondências suficientemente marcantes para motivar estudos comparativos — e em ambos os lados encontra-se a ideia de que a Divindade possui o poder da Imaginação e que, ao imaginar o universo, Deus o criou.
- Deus extraiu esse universo de dentro de Si mesmo, das virtualidades e potências eternas de Seu próprio ser.
- Existe entre o universo do espírito puro e o mundo sensível um mundo intermediário — o mundo das “Imagens-Ideias” como dizem os sufis, o mundo da “sensibilidade supra-sensorial”, do corpo sutil mágico, “o mundo em que os espíritos se materializam e os corpos se espiritualizam.”
- Nesse mundo a Imaginação produz efeitos tão reais que podem “moldar” o sujeito que imagina — e a Imaginação “lança” o homem na forma (o corpo mental) que ele imaginou.
- O grau de realidade imputado à Imagem e a criatividade imputada à Imaginação correspondem a uma noção de criação sem relação com a doutrina teológica oficial da creatio ex nihilo.
- Pode-se mesmo perguntar se não há uma correlação necessária entre essa ideia de creatio ex nihilo e a degradação da Imaginação ontologicamente criadora — e se a degeneração da Imaginação em fantasia produtora apenas do imaginário e do irreal não é a marca característica de nosso mundo laicizado, cujos fundamentos foram lançados pelo mundo religioso precedente dominado precisamente por essa concepção da Criação.
A ideia inicial da teosofia mística de Ibn Arabi — e de todas as teosofias aparentadas — é que a Criação é essencialmente uma teofania (tajalli), e como tal um ato do poder imaginativo divino: essa Imaginação criadora divina é essencialmente uma Imaginação teofânica.
- A Imaginação Ativa no gnóstico é igualmente uma Imaginação teofânica — e os seres que ela “cria” subsistem com uma existência independente sui generis no mundo intermediário pertencente a esse modo de existência.
- O Deus que ela “cria” — longe de ser um produto irreal da fantasia — é também uma teofania, pois a Imaginação Ativa do homem é apenas o órgão da Imaginação teofânica absoluta (takhayyul mutlaq).
- A Oração é uma teofania por excelência; como tal, é “criadora” — e o Deus a quem é dirigida porque o “cria” é precisamente o Deus que Se revela à Oração nessa Criação, que é nesse momento uma entre as teofanias cujo Sujeito real é a Divindade revelando-Se a Si mesma.
