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O DEUS MANIFESTADO PELA IMAGINAÇÃO TEOFÂNICA

HCIA

A “cosmografia” mística designa o mundo ou plano de ser intermediário que corresponde especificamente à função mediadora da Imaginação — o mundo luminoso das Imagens-Ideias, das figuras aparicionais (alam mithali nurani) — e a primeira preocupação de Ibn Arabi é com as conexões entre as visões e, de um lado, a faculdade imaginativa e, de outro, a inspiração divina.

  • Quando uma coisa manifestada aos sentidos ou ao intelecto exige uma hermenêutica (ta'wil) porque carrega um significado que transcende o simples dado, essa verdade simbólica implica uma percepção no plano da Imaginação ativa.
  • A sabedoria que se ocupa de tais significados — que refaz as coisas como símbolos e tem como campo o mundo intermediário das Imagens subsistentes — é uma sabedoria de luz (hikmat nuriya), tipificada na pessoa de José, o intérprete exemplar das visões.
  • A metafísica da Imaginação de Ibn Arabi toma emprestadas muitas características da “teosofia oriental” de Suhrawardi.
  • A Imaginação Ativa é essencialmente o órgão das teofanias, porque é o órgão da Criação e porque a Criação é essencialmente teofania — o Ser Divino é Criador porque desejou conhecer-Se em seres que O conhecem.
  • Nosso ser manifesto é a Imaginação divina; nossa própria Imaginação é Imaginação em Sua Imaginação.

A teosofia da Luz sugere a metáfora do espelho e da sombra — mas “sombra” não implica escuridão satânica ou um antagonista ahrimaniano: é essencialmente um reflexo, a projeção de uma silhueta ou rosto num espelho.

  • Ibn Arabi afirma: “Tudo que chamamos diferente de Deus, tudo que chamamos de universo, está relacionado com o Ser Divino como a sombra (ou seu reflexo no espelho) com a pessoa. O mundo é a sombra de Deus.”
  • A Luz revela ao Ser Divino as determinações e individuações latentes contidas em Sua essência — as hexeidades eternas que são os conteúdos dos Nomes Divinos.
  • O que esses arquétipos da Criação virtual recebem é a sombra, o reflexo, da Essência divina (dhat ilahiya) projetado sobre eles pela luz dos Nomes — esse é o primeiro espelho em que o Ser Divino Se contempla.
  • A luz sensível, o Sol, é a forma epifânica (mazhar) do Nome divino “Luz” (Nur) — agente da cosmogonia porque é o agente da Revelação, isto é, do conhecimento.
  • Ibn Arabi conclui: “Assim o mundo é pura representação (mutawahham), não há existência substancial — esse é o significado da Imaginação. Compreendei então quem sois, compreendei o que é vossa ipseidade, qual é vossa relação com o Ser Divino; compreendei em que sois Ele e em que sois outro que Ele — pois é proporcionalmente a esse conhecimento que se determinam os graus de preeminência entre os Sábios.”

A relação da sombra com o Ser Divino inaugura a manifestação do mundo do Mistério como Imaginação teofânica absoluta (khayal mutlaq); e a relação do Ser Divino com a sombra constitui as individuações e personalizações do Ser Divino como Deus, que Se desvela a e pela Imaginação teofânica no número ilimitado de Seus Nomes.

  • Esse processo é comparado à coloração do vidro que recebe a luz — a luz fica impregnada de uma sombra que é o próprio vidro.
  • Confinar-se à pluralidade dos Nomes é estar com os Nomes divinos e com os Nomes do mundo; confinar-se à unidade do Nomeado é estar com o Ser Divino no aspecto de Seu Eu (dhat), independente do mundo.
  • As duas estações são igualmente necessárias e uma condiciona a outra — ocupá-las simultaneamente é estar equidistante do politeísmo e do monoteísmo monolítico, abstrato e unilateral.
  • Há um hadith sobre o servo que nunca cessa de aproximar-se de seu Senhor — e o Senhor diz dele: “Sou sua audição pela qual ouve, sua visão pela qual vê…” — esse servo não se torna o que não era: o que acontece é que a “sombra luminosa” torna-se progressivamente transparente.

Quatro consequências essenciais decorrem do duplo papel da Imaginação teofânica — como Imaginação criadora que imagina a Criação e como Imaginação criatural que imagina o Criador.

  • É graças à Imaginação Ativa que o múltiplo e o outro existem — que as teofanias ocorrem —, de modo que ela cumpre a intenção divina do “Tesouro oculto” que ansiava ser conhecido: qualquer crítica puramente negativa da Imaginação seria insustentável, pois tenderia a negar essa revelação de Deus a Si mesmo e a recusar a Seus Nomes o auxílio que deles esperavam desde a pré-eternidade.
  • Porque o que é Outro que o Ser Divino não é absolutamente outro, mas é a própria forma da teofania (mazhar) — a reflexão ou sombra do ser que nela se revela —, e porque essa forma é Imaginação, ela anuncia algo outro que ela mesma: não é mera aparência, é aparição — e por isso um ta'wil é possível, pois há símbolo e transparência.
  • Não há fundamento para qualificar de ilusão a Imaginação Ativa — o erro consiste em não ver o que ela é, em supor que o ser que ela manifesta é algo acrescentado que subsiste em si mesmo fora do Ser Divino; mas é pela Imaginação Ativa que o ser manifestado se torna transparente.
  • Se, ao contrário, os dados sensoriais ou os conceitos do intelecto são tomados ao pé da letra sem função simbólica — dispensando o ta'wil —, o mundo é elevado a um estatuto autônomo que elimina sua transparência teofânica.

O Deus formulado pelo intelecto dos teólogos dogmáticos — investido dos Nomes e Atributos tidos por mais dignos dEle e elevado ao Summum Ens — despoja a Imaginação Ativa de sua função transcendente, fazendo-a parecer produtora apenas do irreal e do “imaginário”.

  • Para compreender em seu coração que o próprio Criador Se fez criatura porque Sua Criação é a Imaginação absoluta, o homem deve experimentar a Imaginação humana como uma energia que responde à mesma necessidade criadora.
  • O Deus professo pela fé dogmática é ele próprio elevado à sua verdade apenas pela Imaginação teofânica — que, ao vê-Lo em transparência, transmuta doutrina em símbolo (mazhar).
  • Nessa condição, o “Deus criado nas fés” pode tornar-se uma teofania para o coração.
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