O «DEUS CRIADO NAS CRENÇAS»
HCIA
A Epifania inicial que apazigua a tristeza do Ser Divino é dupla: uma ocorre no mundo do Mistério (alam al-ghayb), a outra no mundo fenomênico (alam al-shahadat).
- A primeira é a Epifania do Ser Divino a Si mesmo e para Si mesmo nas essências arquetípicas, as hexeidades eternas de Seus Nomes que aspiram à sua Manifestação concreta — a sacrossanta Efusão (fayd aqdas) na “Presença dos Nomes” (Hadrat al-Asma').
- A segunda é a Epifania no mundo manifesto, nos seres que são as formas ou receptáculos epifânicos (mazhar) dos Nomes divinos — a santa Efusão “hierática” e “hierofânica” (fayd muqaddas) que traz à Luz as formas que, como espelhos, recebem o reflexo da pura Essência divina em proporção às suas respectivas capacidades.
- Essa dupla Epifania é tipificada nos Nomes divinos “o Oculto e o Revelado, o Primeiro e o Último” — dos quais Ibn Arabi oferece verificação experiencial em sua prática teosofica da Oração.
Falar de Epifania dos Nomes divinos proporcional à capacidade das formas que os recebem implica seres para os quais essas formas se revelam como tais — seres que se conhecem a si mesmos —, e cuja capacidade de visão condicionará por sua vez a proporção de epifania investida no mundo neles e por eles.
- O coração do gnóstico é dito ser abarcado pela Compaixão Divina — pois a Compaixão Divina (Rahma) é o equivalente da existenciação (ijad).
- Apesar da vastidão dessa Compaixão que abraça todas as coisas, o coração do gnóstico é ainda maior, pois diz o hadith: “Nem meu Céu nem minha Terra Me contêm, mas o coração de meu fiel crente Me contém” — porque o coração é um espelho em que a “Forma de Deus” manifesta se reflete a cada momento na escala do microcosmo.
Muitos sufis sustentam que o Ser Divino se epifaniza no coração de todo fiel de acordo com a aptidão de seu coração — mas Ibn Arabi parece preferir a explicação inversa: não é o coração que dá sua “cor” à Forma que recebe, mas o coração do gnóstico que é “colorido” a cada instante pela cor — a modalidade — da Forma em que o Ser Divino se epifaniza a ele.
- O gnóstico assemelha-se a uma pura “matéria espiritual” informada pelas fés — ou a um espelho que recebe as formas e cores nele refletidas, expandindo-se e contraindo-se à medida delas.
- Ele revela seu coração ao Ser Divino na mesma forma que o Ser Divino escolheu para Se revelar a ele.
- É no coração do gnóstico — e somente aí — que o “Deus criado nas fés” revela Sua verdade, pois o gnóstico está predisposto à recepção de todas as formas de teofania, ao passo que o não-gnóstico está predisposto à recepção de apenas uma.
Nem o coração nem os olhos do crente veem jamais outra coisa que não a Forma da fé que professa em relação ao Ser Divino — essa visão é o grau de teofania que lhe é dado pessoalmente, em proporção à sua capacidade.
- Como tal, essa visão faz parte da Criação, que é ela própria teofania — a Imaginação teofânica do Criador imaginando a Si mesmo o mundo e as formas que O revelam a Si mesmo.
- O Deus que Se desvela a Si mesmo em Sua ipseidade — em Seu próprio conhecimento de Seus Nomes e Atributos, na “primeira Epifania” —, ainda isolado de qualquer relação com a existência manifesta, não é visível a ninguém; Ibn Arabi desautoriza os sufis que afirmam ver tal Deus em seu estado de êxtase e de fana'.
- Esse Deus torna-se visível apenas nas formas de Suas epifanias (mazahir, majalli) que compõem o que chamamos de universo.
- Ibn Arabi afirma: “O Deus que está numa fé é o Deus cuja forma o coração contém, que Se revela ao coração de tal modo que o coração O reconhece. Assim o olho vê apenas o Deus da fé.”
- Por isso há muitas fés diferentes — e quando Deus Se manifesta numa forma diferente da esperada pelo crente, ele O rejeita, o que explica por que as fés dogmáticas se combatem mutuamente.
Os crentes dogmáticos desconhecem as metamorfoses (tahawwul) das teofanias — e creem que a forma de sua visão é a única forma verdadeira.
- O conhecimento das metamorfoses requer himma — criatividade do coração —, que é ela própria a Imaginação teofânica do Criador atuando no coração do gnóstico.
- Para o gnóstico, todas as fés são visões teofânicas em que contempla o Ser Divino — e Ibn Arabi sustenta que o gnóstico possui um verdadeiro sentido da “ciência das religiões.”
- A visão do gnóstico não lhe é mais dada na forma desta ou daquela fé prescrita e imposta por uma coletividade religiosa ou social — o que se lhe revela é a forma em que ele próprio é conhecido por Aquele que evocou seu ser: sua hexeidade eterna, cujo conhecimento dele tem a mesma forma que seu conhecimento dela.
Um hadith frequentemente citado tipifica a situação: no dia da Ressurreição (Qiyama), Deus Se mostrará a Seus servos numa forma que não conheceram.
- Não será a forma do Deus de suas fés — e os servos O negam e rejeitam, refugiando-se em Deus contra esse Deus “falso”, até que enfim Deus Se lhes desvela na forma de sua própria fé e eles O reconhecem.
- A interpretação mística desse hadith encontra um sentido profundo: o “dia da Ressurreição” tem também um significado iniciático — é o momento em que a alma individual compreende sua unidade de essência (não de existência) com a totalidade divina, o dia em que as formas das fés particulares cessam de ser véus e se tornam manifestações (mazahir).
- É o dia em que se confirma a profundidade paradoxal do vínculo entre o Senhor e seu fedele (Rabb e marbub) — vínculo tão forte que nenhum dos dois pode existir sem o outro.
- O dia em que o gnóstico de Ibn Arabi toma consciência de que o “Deus criado nas fés” é também, em cada caso, abarcado pela Compaixão existenciante divina, que é uma das formas da Imaginação Divina revelando-Se a Si mesmo e dando a Seus Nomes a Manifestação a que aspiram.
- Compreender o dogma como mazhar, como símbolo, é “desatar” seu dogmatismo — e esse é o significado da Ressurreição: essa compreensão é já a Ressurreição.
- Ibn Arabi declara: “O conhecimento de Deus não tem limite em que o gnóstico possa deter-se. Como poderia ter um limite, já que se alimenta das formas teofânicas do ser, que estão em perpétua metamorfose, e já que a recorrência da Criação — que significa essas metamorfoses das teofanias (tahawwul al-Haqq fi'l-suwar) — é a própria regra do ser (qanun al-wujud)?”
