CIÊNCIA DO CORAÇÃO
HCIA
A noção de criação recorrente ilumina o modo como Ibn Arabi medita o episódio corânico do trono de Bilqis, rainha de Saba, que apareceu diante de Salomão num instante — sem qualquer deslocamento material.
- Asaf ibn Bakhiya, “aquele que era profundamente versado nas Escrituras” (Corão XXVII:38 ss.), disse que traria o trono antes que o olhar de Salomão pudesse retornar — e instantaneamente o trono apareceu diante dele.
- Não houve locomoção real nem involução do espaço — o que ocorreu foi um desaparecimento da manifestação do trono em Saba e sua existenciação diante de Salomão, no mesmo instante indivisível.
- Não houve nem mesmo uma sucessão: foi simplesmente uma nova criação — uma recorrência da Criação.
- Uma mesma essência do mundo do Mistério pode ser manifestada num lugar, depois ocultada nesse lugar e manifestada em outro; a identidade consiste na hexeidade da essência, não em suas manifestações recorrentes.
- A exclamação da rainha ao reconhecer o trono — “É como se fosse ele” (Ka'annahu huwa, XXVII:42) — formula uma síntese de pluralidade e unidade: é o trono quanto à sua hexeidade, mas não quanto à sua existência concretizada diante de Salomão.
- O episódio testemunha o poder mágico de Salomão — investido de um poder que lhe pertencia exclusivamente, podia provocar os mesmos efeitos sem a concentração mental pressuposta pela himma, bastando enunciar uma ordem.
- O convite de Salomão à rainha para entrar no palácio de piso de cristal (XXVII:44) — que ela tomou por uma piscina d'água — visava a fazer-lhe compreender que tudo que se percebe a cada instante é uma “nova criação” e que a aparente continuidade consiste numa manifestação de semelhantes.
A função da himma, utilizando a faculdade imaginativa, é perceber o mundo intermediário e, elevando os dados sensoriais a um nível superior, transmutar o invólucro exterior em sua verdade — permitindo que as coisas e os seres cumpram sua função teofânica.
- José acreditou ter encontrado o ta'wil — o sentido oculto dos sonhos ocorridos no plano das visões imaginativas — na ordem das coisas sensíveis e dos eventos; mas o ta'wil não consiste em descer a um nível inferior, e sim em restaurar ou elevar a um plano superior.
- O ta'wil de José foi a obra de um homem ainda adormecido que sonhava ter despertado de um sonho e começado a interpretá-lo, embora na realidade ainda estivesse sonhando.
A má compreensão de Aisha sobre as revelações do Profeta tinha a mesma origem que o erro de José — pois ela falou de seis meses de sonhos verdadeiros antes da aparição do Anjo, como se a aparição do Anjo fosse um acontecimento no mundo dos sentidos que punha fim à série de sonhos.
- Ela desconhecia que na realidade toda a vida do Profeta transcorrera à maneira daqueles seis meses.
- Tudo o que emerge do mundo do Mistério para tomar uma forma visível — seja num objeto sensível, numa imaginação ou num “corpo aparicional” — é inspiração divina.
- O Profeta não só teve as visões mas também viu o Anjo por meio da Presença Imaginativa (Hadrat al-Khayal) — e quando o Anjo tomou forma humana diante dele, graças à sua consciência visionária o Profeta pôde tanto falar dele aos companheiros como de um ser humano quanto ao mesmo tempo dizer: “É o Anjo Gabriel” — e em ambos os casos dizia a verdade.
- Uma vez reconhecido que tudo que o homem vê durante a vida terrena é da mesma ordem que visões em sonho, todas as coisas vistas neste mundo — elevadas ao grau de Imaginações Ativas — exigem uma hermenêutica, um ta'bir; investidas de função teofânica, pedem para ser reconduzidas de sua forma aparente (zahir) à sua forma real e oculta (batin).
O ta'wil do Profeta — sua Imaginação Criadora — operou uma espécie de transubstanciação quando interpretou o leite de sonho como “conhecimento” (ilm) em vez de buscar verificação material.
- O Profeta submetia tudo que lhe chegava ao ta'wil ou exegese simbólica mística — como o leite que os companheiros lhe traziam, que ele “interpretava” (yata'awwaluhu) conforme o fizera em sonho durante a sua ascensão celestial (noite do Mi'raj): “É o conhecimento.”
- Taqí ibn Mukhallad, por contraste, ao ver em sonho o Profeta lhe oferecer um copo de leite, forçou-se a vomitar para obter verificação material — e assim privou-se inteiramente do alimento espiritual ao exigir verificação material, destruindo o que havia absorvido no sonho.
- Esse exemplo ilumina o sentido da alquimia e da angelologia de Jacob Boehme — que fala do alimento dos Anjos como alimento verdadeiro, mas imaterial.
- O “docetismo” aqui praticado não degrada a “realidade” tornando-a “aparência” — ao contrário, ao transformá-la em aparição torna-a transparente ao sentido transcendente que nela se manifesta.
O círculo da investigação se fecha: sem Presença ou “Dignidade” Imaginativa não haveria existência manifesta — nem teofania, nem Criação —, e quando o Ser Divino Se manifesta nessa existência, faz segundo a Imaginação teofânica, não como seria em Sua Ipseidade.
- O versículo “Tudo perecerá exceto Seu rosto” (XXVIII:88) resume toda a ideia teofânica.
- Os literalistas ortodoxos entendem o “rosto” como o Rosto Divino; os teosofistas de Ibn Arabi compreendem: “Tudo… exceto o Rosto dessa coisa” — mas não há contradição, pois o Rosto Divino e o Rosto imutável de um ser remetem a um mesmo Rosto (wajh).
- O Rosto de um ser é sua hexeidade eterna, seu Espírito Santo (Ruh al-Quds) — e entre o Rosto Divino e o Rosto desse ser há a mesma relação que entre o Espírito Santo incriado e o Anjo chamado Espírito (Ruh).
- Abd al-Karim Jili formula com sua habitual densidade: “Cada coisa sensível tem um Espírito criado pelo qual sua Forma é constituída. Esse Espírito criado tem um Espírito divino pelo qual é constituído — e esse Espírito divino é o Espírito Santo.”
- Os dois hadith confirmam: “Adão foi criado à semelhança (ala surat) do Compassivo” e “Deus criou Adão segundo Sua própria Forma.”
- O estudo da Imaginação teofânica culmina na preparação para a Oração como Oração teofânica — a única que supera na prática o paradoxo de uma teosofia que, embora profundamente impregnada do sentimento de que Deus é oculto, convoca a uma visão concreta da “Forma de Deus.”
- Foi do Templo místico que, numa visão ainda envolta em mistério, Ibn Arabi viu erguer-se a figura juvenil que o iniciou em tudo o que o Espírito Divino pode ensinar ao espírito criado.
