HOMOLOGAÇÕES
HCIA
A criatividade da Oração realiza, em cada instante, a parcela do desejo do Ser Divino de revelar-Se nos seres para ser conhecido a Si mesmo — cada oração, cada instante de cada oração, torna-se uma recorrência da Criação (tajdid al-khalq).
- Essa criatividade está ligada ao sentido cósmico da Oração tão claramente percebido por Proclo na prece do heliotropo.
- Duas homologações sugeridas por Ibn Arabi e seus comentadores revelam como o sufismo islâmico reproduziu operações e configurações da consciência mística conhecidas em outros contextos, especialmente na Índia.
- Numa das homologações, o homem em oração se representa como o Imã de seu próprio microcosmo; na outra, os gestos rituais da Oração são comparados aos atos da Criação do universo ou macrocosmo.
A figura do Imã — “aquele que guia”, que “está diante” dos fiéis — assume significados muito diferentes no sunismo e no xiismo.
- No sunismo, é simplesmente o oficiante numa mesquita, função sem relação com as qualidades morais e espirituais do indivíduo.
- No xiismo, designa pessoas que em sua aparição terrena eram epifanias da Divindade — guias espirituais da humanidade em direção ao sentido esotérico e salvífico das Revelações, e em sua existência transcendente assumem o papel de entidades cosmogônicas.
- Para os xiitas duodecimanos, o Imã do período atual — o décimo segundo Imã — está em ocultação (ghayba), arrebatado deste mundo como Enoque e Elias; apenas ele teria o direito de guiar a Oração.
- Na ausência do Imã real, os xiitas piedosos preferem frequentemente praticar o culto em privado — daí o extraordinário desenvolvimento, no imamismo, da literatura das Ad'iya, ou liturgias privadas.
- Essa forma de devoção está em profunda sintonia com o ritual privado que Ibn Arabi descreveu como Munajat — diálogo íntimo —, em que o místico está investido na dignidade do Imã em relação ao seu próprio universo, seu microcosmo.
- Ibn Arabi declara: “Todo orante (musalli) é um Imã, pois os Anjos oram atrás do adorador quando ele ora a sós. Então sua pessoa é elevada durante a Oração ao grau dos Enviados Divinos — ou seja, ao grau do Imamato que é o vicariato divino (niyabat an Al-Lah).”
Os “Anjos do microcosmo” são as faculdades físicas, psíquicas e espirituais do homem individual — representadas como Anjos, transformam-se em centros e órgãos sutis, e o corpo encarado na fisiologia sutil assume o aspecto de uma angelologia menor e microCósmica.
- Assim como os Anjos do macrocosmo brotaram das faculdades do Homem Primordial, do Anjo chamado Espírito (Ruh), os Anjos do microcosmo são as faculdades do homem individual.
- A situação do místico como Imã de seu microcosmo é análoga à do mystes no Hino de Hermes (Corpus hermeticum XIII), em que o eleito regenerado como filho de Deus — porque os Poderes Divinos residem nele — convoca esses mesmos Poderes a orar com ele: “Poderes que estais em mim, cantai o hino… cantai em uníssono com minha vontade.”
- Ibn Arabi declara: “É o próprio Deus que através da língua de Seu fiel profere as palavras: Deus ouve aquele que O glorifica.”
A segunda homologação da Oração com a cosmologia e o ato cosmogônico inicial renovado de instante em instante funda-se nas três atitudes corporais prescritas no ritual: posição ereta (qiyam), inclinação profunda (ruku') e prostração (sujud).
- Há um movimento puro do pensamento (harakat ma'qula) que transfere o universo dos seres de seu estado de ocultação ou potencialidade para o estado manifesto da existência concreta — e os movimentos dos seres naturais no mundo visível se reduzem a três categorias.
- O movimento ascendente e vertical — correspondente à posição ereta do fiel — é o movimento de crescimento do homem, cuja cabeça se eleva em direção aos céus.
- O movimento horizontal — correspondente à inclinação profunda — é a direção em que crescem os animais.
- O movimento inverso e descendente — correspondente à prostração — é o movimento da planta, que aprofunda suas raízes.
- Assim a Oração reproduz os movimentos do universo criatural — é ela própria recorrência da Criação e nova Criação.
- As mesmas homologações revelam-se no movimento de puro pensamento que é a aspiração do Deus absconditus à teofania: a “conversão” intencional do Ser Divino em direção ao mundo inferior para existenciá-lo (correspondente à prostração); a conversão divina em direção ao mundo superior dos Nomes divinos e hexeidades eternas, criação plerômica por movimento ascendente (correspondente à posição ereta); e a conversão divina em direção aos corpos celestes intermediários (correspondente à inclinação profunda).
- Ibn Arabi conclui: “Ibda' e 'ibada são homólogas; ambas procedem da mesma aspiração e intenção teofânicas” — a Oração de Deus é Sua aspiração a manifestar-Se, a ver-Se num espelho que por sua vez O veja; e a Oração do homem cumpre essa aspiração.
O coroamento da munajat é a contemplação (mushahada) e a visualização (ru'ya) — o critério pelo qual cada orante pode reconhecer seu grau de progresso espiritual.
- Ou o fiel vê seu Senhor que Se lhe mostra (tajalli) no órgão sutil que é o coração, ou ainda não O vê dessa forma — e então deve adorá-Lo pela fé como se O visse.
- Esse preceito tem profundo sabor da imamologia xiita — o Imã sendo a forma teofânica por excelência — e não é outra coisa senão um chamado a pôr em funcionamento o poder da Imaginação Ativa.
- Ibn Arabi declara: “Que o fiel O represente por sua Imaginação Ativa, face a face em sua Qibla, no decorrer de seu diálogo íntimo.”
- Jamais o fiel veria a Forma de Deus (surat al-Haqq) se sua visão não fosse ela própria a Oração de Deus (Salat al-Haqq) — que é a aspiração teofânica do Deus absconditus.
- A tradição diz: “Eu mesmo mantenho companhia com aquele que medita sobre Mim” — e se o Senhor divino fiel acompanha o fiel que O rememora interiormente, o fiel dotado de visão interior deve vê-Lo presente.
