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O SEGREDO DOS RESPONSÓRIOS DIVINOS

HCIA

Para o discípulo de Ibn Arabi, muito está em jogo: o versículo corânico declara — “O homem é uma testemunha que testemunha contra si mesmo, qualquer que seja a desculpa que ofereça” (LXXV:14-15) — e o método de oração teofânica abrange três graus: presença, audição, visão.

  • Quem não apreende as respostas divinas no decorrer da oração não está realmente presente com seu Senhor — incapaz de ouvir e ver, não é verdadeiramente um musalli, um orante.
  • O fana' não significa, no vocabulário de Ibn Arabi, a “aniquilação” do indivíduo, mas sua ocultação a si mesmo — condição necessária para a apreensão do dhikr, a resposta divina que é a ação do Senhor colocando Seu fiel na presença de Sua própria Presença.

A estrutura da Oração como diálogo levanta a questão de quem toma a iniciativa — e a resposta revela a intuição mais profunda da teosofia de Ibn Arabi: cada um, por turnos, assume o papel do outro.

  • A teofania dada ao coração do orante origina-se no Ser Divino, não no musalli, pois é ela própria “Oração de Deus” — por isso o Profeta usou o passivo: “Em minha oração meus olhos foram postos no lugar.”
  • O versículo corânico “É Ele que ora por ti e também Seus Anjos, para te tirar das Trevas para a Luz” (XXXIII:42) confirma que a Oração de Deus e a Oração dos Anjos significam o processo teofânico — o guiar do homem à luz.
  • Ibn Arabi destaca a homonímia significativa do termo musalli — que connota tanto “aquele que ora” quanto “aquele que vem depois”, “o segundo” numa corrida.
  • Quando Deus é o musalli — “Aquele que vem por último” —, manifesta-Se sob Seu Nome “o Último” (Al-Akhir), isto é, o Revelado (al-Zahir), pois Sua manifestação depende da existência do fiel a quem e para quem Se manifesta.
  • O “Deus que ora em direção a nós” é o Deus que o fiel cria em seu coração — o “Deus criado nas fés”, determinado e individualizado segundo a capacidade do receptáculo; nesse sentido Ele é “posterior” ao ser do fiel, a Ele os Nomes divinos “o Primeiro” e “o Oculto” pertencem ao fiel.
  • Quando o fiel é o musalli — “aquele que vem por último” —, ele é posterior a Deus; então é Deus quem precede, o Primeiro. Mas é precisamente os seres que o “Tesouro oculto” manifesta à existência concreta que O manifestam nas formas múltiplas da crença.

A Imaginação Criadora do fiel não cria um “Deus fictício” — pois a imagem do Deus criada pelo fiel é a Imagem do Deus que seu próprio ser revela: seu próprio ser revelado pelo “Tesouro oculto.”

  • A imagem antecipadora, primordial e pré-existencial é a que o musalli projeta por sua vez em suas crenças e visualizações mentais durante a Oração.
  • É psicologicamente verdadeiro dizer que o “Deus criado nas fés” é o símbolo do Eu (Self) — mas Ibn Arabi nos coloca diante de uma encruzilhada.
  • Num caminho: o eu confundido com o indivíduo empírico que ignora ter outra dimensão, um “polo celeste” — e o auto-louvor denunciado como a pior das idolatrias.
  • No outro caminho: a elevação acima do eu empírico e das crenças coletivas para reconhecer o Eu como a Figura que o representa na visão mental — a hexeidade eterna do gnóstico investida de um Nome divino no mundo do Mistério.
  • A vida de oração praticada no espírito de Ibn Arabi representa a forma autêntica de um “processo de individuação” que liberta a pessoa espiritual das normas coletivas e dos evidentes pré-fabricados, habilitando-a a viver como indivíduo único para e com seu Único Deus.

O crente dogmático ignora que o louvor que oferece a Deus é um louvor dirigido a si mesmo — e isso precisamente porque, não sendo gnóstico, desconhece o processo e o significado da “criação” que atua em sua fé.

  • Ibn Arabi sustenta que a crença de tais crentes é meramente uma opinião — e eles desconhecem o que implica as palavras divinas: “Conformo-me à opinião que meu fiel tem de Mim.”
  • A ilusão piedosa da teologia negativa (tanzih) que remove de Deus todo atributo também não escapa: o tanzih depende da opinião, e qualquer “purificação” pelo intelecto racional mistura a divindade com as categorias da razão.
  • Há um profundo acordo entre Ibn Arabi e as premissas da teosofia ismailita: nem o tanzih (teologia negativa) nem o tashbih (teologia simbólica) podem atingir a Deus como tal — apenas uma essência (haqiqa) “essenciada” em cada alma proporcionalmente à sua capacidade.
  • Quanto mais o teólogo dogmático se escandaliza ao ouvir falar do “Deus criado nas fés”, mais ele se trai aos olhos do teosofista como alguém que caiu na idolatria metafísica precisamente pela “purificação” (tanzih) de seu monoteísmo (tawhid).

Ao transmutir o dogma em símbolo (mazhar), Ibn Arabi estabelece a verdade divina dessa criação humana — pois fundamenta sua verdade humana numa criação divina: não se refutam símbolos, decifram-se.

  • No curso do diálogo em que as duas partes continuamente trocam papéis, o fiel ganha consciência da função teofânica de seu ser.
  • O “Deus criado nas fés” manifesta-Se não para impor-Se ao fiel, mas para exprimir Seus limites — condição que torna possível uma entre as muitas epifanias divinas.
  • O gnóstico não recebe uma Imagem pré-fabricada de seu Senhor — compreende-O à luz da Imagem que no decorrer de sua munajat aparece no espelho de seu coração como órgão sutil.

O dom místico supremo é receber uma visão intuitiva da própria hexeidade eterna — que habilita o místico a conhecer sua aptidão e sua predisposição eterna, definindo a curva de uma sucessão de estados ad infinitum.

  • Nenhuma teofania (tajalli) é possível senão na forma correspondente à predisposição do sujeito a quem se revela — o sujeito que recebe a teofania vê apenas sua própria forma, e sabe que é apenas nessa forma como num espelho divino que pode ver a Forma da teofania.
  • Não se vê Deus em Sua essência — a resposta dada a Moisés permanece válida: “Lan tarani, não me verás.”
  • Ibn Arabi declara: “Deus (al-Haqq) é teu espelho — o espelho no qual contemplas teu eu (nafs, anima) —, e tu és Seu espelho — o espelho no qual Ele contempla Seus Nomes divinos.”
  • A hexeidade individual e a Forma divina cuja visão ela condiciona são os dois focos da elipse — são os dois elementos chamados Oração do homem e Oração de Deus; cada um por turnos é determinante e determinado.
  • Suhrawardi formula a mesma situação em seu Hino à Natureza Perfeita: “Tu és o Espírito que me engendrou (meu pai quanto ao espírito que formaste) e és o filho de meu pensamento (aquele que é engendrado, criado por meu pensamento de ti).”
  • Essa relação recíproca entre dois espelhos que se refletem mutuamente governa a iconografia mental das teofanias — e encontrará duas ilustrações: num hadith longamente meditado pelos sufis e na experiência visionária pessoal de Ibn Arabi.
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