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LIVRO DOS TABLETES

HCAE

As Tábuas Dedicadas a Imadoddim — Apresentação da Obra

As “Tábuas Dedicadas a Imadoddim” têm a virtude de oferecer, assim como o “Livro dos Templos da Luz”, uma excelente visão panorâmica da doutrina da Ishraq, retomando seus temas característicos com um iranismo muito mais acentuado.

  • O dedicatário é o príncipe seljúcida da Anatólia Imadoddim Qara Arslan ibn Ortoq, emir de Kharpût, fundador em 581/1185 de um ramo colateral dos Ortókidas.
  • A obra é contemporânea do grande “Livro da Teosofia Oriental” (Hikmat al-Ishraq), concluído em 582/1186, com a morte do Shaykh al-Ishraq ocorrida em 587/1191.
  • O martírio do jovem Shaykh ocorreu três semanas após Ricardo Coração de Leão ter tomado São João de Acre — em 29 de julho de 1191 —, inserindo-o nas vicissitudes em torno do destino do reino latino de Jerusalém.
  • A relação de amizade com um emir seljúcida de Rum, somada à sua intrepidez de linguagem, tornava difícil para Sohravardi escapar à vindita de Saladino e de seus ulemas.

Versões, Edição e Comentário

O “Livro das Tábuas”, assim como o “Livro dos Templos”, existe em árabe e em persa, com o autor tendo se traduzido ele mesmo.

  • Somente a versão persa foi editada até agora (Op. metaph. III, pp. 109-195); o texto árabe permanece inédito.
  • Um importante comentário foi redigido pelo filósofo ishraqi azerbaijanês Wadud ibn Mohammad Tabrizi, que concluiu seu trabalho em Rabi II 930/fevereiro de 1524.
  • O comentário de Wadud Tabrizi, desconhecido por outros meios, amplia as ressonâncias sohravardianas, opera cruzamentos com outras obras e forma um compacto volume de 544 páginas no único manuscrito conhecido (Ragib 853).
  • Wadud Tabrizi informa ter também comentado o “Livro da Teosofia Oriental”, cujo manuscrito permanece até agora desconhecido.

Intenção Pedagógica do Autor

Sohravardi declara os motivos da composição da obra, propondo-se a um compêndio acessível.

  • Os “filósofos recentes” compuseram obras do gênero para seus príncipes, mas estes pouco delas aproveitaram por falta de boa pedagogia.
  • Sohravardi se esforça por colocar o vocabulário técnico ao alcance da compreensão de seus leitores.
  • “Não creio que alguém tenha feito algo semelhante a este livro. Trouxe provas sustentando os princípios das teses fundamentais; chamei em testemunho os versículos do sagrado Corão…”
  • A obra comporta um prólogo e quatro Tábuas; os extratos traduzidos provêm da Segunda e da Quarta Tábua.

A Segunda Tábua — Antropologia Filosófica e Diálogo das Tradições

A Segunda Tábua forma um breve tratado “De Anima”, estendendo-se ao que hoje se designa como antropologia filosófica, e traz a marca característica do Shaykh al-Ishraq.

  • O capítulo parte de uma argumentação filosófica sobre os graus do conhecimento e faz intervir os grandes místicos — Hallaj, Bastami —, o Primeiro Imam e o Profeta, encerrando-se com citações dos Evangelhos de Mateus e de João e versículos corânicos.
  • Os Livros sagrados de todas as “comunidades do Livro” são convocados a testemunhar conjuntamente, pois no plano espiritual nenhum abroga o outro, mas cada um reforça o outro.
  • O comentador Wadud Tabrizi encadeia textos de Bastami com a célebre Teologia dita de Aristóteles, e a famosa sentença de Hallaj com referências a Sócrates, Platão, Alexandre e Homero — attestando um helenismo islâmico que confunde afirmações apressadas segundo as quais faltaria um fundo cultural comum ao diálogo entre o cristianismo e o Islã.
  • O cristianismo nestoriano foi o transmissor da herança grega aos pensadores do Islã, que a fizeram frutificar admiravelmente — mas em um sentido diferente do helenismo ocidental, cristão ou não.
  • Para todos esses pensadores, os sábios gregos e os sábios persas hauriram seus conhecimentos no mesmo “Nicho das Luzes” que os profetas; é o mesmo intellectus sanctus que inspira profeta e filósofo, o mesmo Anjo-Espírito Santo, Anjo do conhecimento e Anjo da revelação.
  • A citação joanina “Não sobe ao céu senão aquele que dele desceu” (3/13) é invocada por vários filósofos como atestando explicitamente a preexistência da alma — posição que Molla Sadra Shirazi via como oscilação ou palinódia em Sohravardi, que recusa essa preexistência nos tratados didáticos exotéricos, reservando o ensinamento esotérico para outros textos.

A Terceira Tábua — Teologia Filosófica e Angélologia

A Terceira Tábua contém um exposé dos problemas da teologia filosófica e da angélologia.

  • Sohravardi recusa limitar o pléroma das Inteligências ao número dez, posição sustentada igualmente no “Livro da Teosofia Oriental”.
  • A física celeste é retomada em função da angélologia, com esboço já presente anteriormente no “Livro dos Templos”.

A Quarta Tábua — Os Temas Centrais da Teosofia Mística da Ishraq

A Quarta Tábua, quase tão extensa quanto as três primeiras reunidas, compreende doze capítulos e expõe os temas mais característicos da teosofia mística da Ishraq; os capítulos VII a XII são traduzidos integralmente.

  • A metafísica sohravardiana da Imaginação e do mundus imaginalis (alam al-mithal) é nela recapitulada: a Imaginação ativa (Virtus combinativa) oscila entre servir ao intelecto — tornando-se então Imaginação intelectiva ou cogitativa (mofakkira), órgão de penetração no mundo imaginal onde o espiritual toma sutilmente corpo e o corporal se espiritualiza — e render-se às seduções da estimativa (wahm), secretando apenas o imaginário.
  • A compreensão dessa doutrina é condição para a compreensão da cenografia real e do “realismo simbólico” dos Relatos místicos.
  • O capítulo XII orquestra o tema em imagens tradicionais: a Imaginação ativa é ora a árvore emergindo no cume do Sinai — de onde se colhe o “pão dos Anjos” —, ora a Sarça ardente onde flameja o Anjo-Espírito Santo da Revelação que Moisés avista de longe, ora a árvore maldita, infernal, a montanha pulverizada pela teofania.
  • O sentido oculto da Sarça ardente associa estreitamente o tema da Imaginação ativa visionária ao tema do Anjo-Espírito Santo, que os filósofos chamam Inteligência agente — reaparecendo o tema do “pai celeste” já presente no “Livro dos Templos” com suas referências ao Evangelho de João.
  • O iranismo se acentua fortemente: o Anjo é o sujeito da teofania concedida aos bem-aventurados reis da antiga Pérsia — Fereydun e Kay Khosraw —, reconhecidos por Sohravardi como precursores dos ishraqiyun (os Khosrovaniyun), testemunhos de uma tradição iraniana que se perpetua da Pérsia pré-islâmica à Pérsia islâmica.
  • A divindade solar é designada pelo nome iraniano Hurakhsh e considerada como a teurgia do arcanjo Shahrîvar — manifestando o aspecto solar e apolíneo da visão sohravardiana do mundo.
  • Sohravardi designa como Sakina a presença permanente das Luzes celestes do além no “Templo da Luz” da alma do visionário — identificando assim o Xvarnah, Luz de Glória do êxtase persa antigo, com a Sakina/Shekhina, equivalente árabe do hebraico Shekhina que designa a misteriosa Presença divina no Santo dos Santos do Templo, de papel fundamental entre os cabalistas e os místicos judeus.
  • Preferindo o termo “fenômeno de espelho” ao de sincretismo, duas imagens se refletem e se reconhecem mutuamente: a profetologia do antigo Irã é conectada por Sohravardi ao profetismo semítico da tradição bíblica e corânica, e toda a sua obra opera a junção entre a espiritualidade do Irã pré-islâmico e a do Irã islâmico.
  • Todos os grandes temas — a cristologia de Christos Angelos, o Anjo-Espírito Santo inspirando profetas e filósofos, a Luz de Glória e a Sakina/Shekhina, a vocação extática dos soberanos da antiga Pérsia, a metafísica da Imaginação conduzindo ao flamejamento da Sarça ardente — enraizam-se nas profundezas de um sistema do mundo sem equivalente alhures, suporte e coroamento de uma experiência espiritual que o autor quis encenar nos Relatos místicos traduzidos na segunda parte do volume.
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