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LIVRO DOS TEMPLOS DA LUZ

HCAE

Apresentação da Obra e das Versões

O “Livro dos Templos da Luz” de Sohravardi é uma das obras mais antigas do autor e oferece, em sua brevidade, uma visão panorâmica da doutrina da Ishraq, existindo em dupla versão: uma árabe e uma persa feita pelo próprio autor.

  • A versão persa, conservada em manuscrito único, apresenta lacunas graves em relação ao texto árabe, razão pela qual a tradução segue o texto árabe, baseado na colação de vários manuscritos.
  • As lacunas mais graves e as variantes mais interessantes da versão persa são indicadas em notas.

Os Dois Comentários Clássicos e Seus Autores

O “Livro dos Templos” foi objeto de dois comentários muito desenvolvidos por filósofos iranianos, célebres tanto pela qualidade de suas obras quanto pela rivalidade entre eles.

  • Jalaloddim Davani (ob. 907/1501-02), filósofo ishraqi e convertido ao xiismo, compôs o comentário intitulado “Shawakil al-Hur” (As Figuras das Houris), em Tabriz, no ano 872/1467-68.
  • Amir Ghiyathoddim Mansur Shirazi (ob. 940/1533 ou 949/1542), filho do filósofo Sadroddim Mohammad Dashtaki Shirazi — não confundir com Molla Sadra —, redigiu um contra-comentário repleto de invectivas contra Davani, intitulado “Iluminação dos Templos da Luz para desvelar as trevas das Figuras das Houris”.
  • Ambos os comentários seriam merecedores de edição e tradução integrais, por constituírem testemunhos importantes da tradição ishraqi no Irã.
  • Relevar os pontos de disputa entre Ghiyathoddim e Davani enriqueceria esse capítulo da história da filosofia.

O Título da Obra e Sua Interpretação pelos Comentadores

A interrogação sobre o que os intérpretes iranianos compreenderam ao ler os textos de Sohravardi orienta a análise do título dado ao opúsculo.

  • O título remete aos sabeus de Harã e a seus templos, conforme descrito no “Ghayat al-hakim” do pseudo-Majriti.
  • A religião de Hermes, figura central no pensamento de Sohravardi, é o elo entre ele e os sabeus hermetistas de Harã.
  • Davani explica que “haykal” (plural “hayakil”) significa etimologicamente forma ou figura, e que os antigos filósofos professavam serem os astros sombras e figuras das Luzes separadas da matéria.
  • Segundo Davani, os antigos estabeleceram para cada um dos sete planetas uma teurgia correspondente, confeccionada em metal e em momento do tempo em correspondência com o astro.
  • Esses templos eram denominados “templos da luz” por serem receptáculos das teurgias, que eram as figuras dos astros, os quais eram por sua vez as figuras das Luzes separadas da matéria.
  • Na interpretação de Davani, cada capítulo do livro seria o lugar de uma teurgia pela meditação da qual se chega à contemplação dessas Luzes: “Tal é minha opinião sobre este ponto, mas Deus conhece melhor os segredos de seus servos.”
  • No léxico técnico da gnose ismaeliana, “Templo de Luz” designa o elemento divino do Imam, constituído de todas as formas de luz de seus adeptos, formando conjuntamente, após a morte, o “Templo de Luz do Imamato”.

O Segundo Templo — Teoria do Sensório e da Imaginação Ativa

Já no Segundo Templo esboça-se a teoria do sensório e da Imaginação ativa, que constitui um dos pilares da doutrina de Sohravardi.

  • A metafísica da Imaginação está ligada à ontologia do mundus imaginalis (alam al-mithal), mundo intermediário entre o mundo intelectivo das puras Inteligências e o mundo da percepção sensível.
  • Sem esse mundo intermediário do imaginal, as visões dos profetas e dos místicos, bem como os eventos escatológicos, perderiam sua realidade e seriam reduzidos ao meramente imaginário.
  • A função do sensório, quando se torna órgão do conhecimento visionário, deve ser posta em relação com a formação e o crescimento do corpo espiritual ou sutil, com referência a João Filópono.

O Quarto Templo — O Primeiro Emanado e a Cosmogonia

O tema do Primeiro Emanado, exposto no Quarto Templo, capítulo III, é objeto de longo comentário de Ghiyathoddim Shirazi.

  • A primeira Luz emanada da Luz das Luzes é designada por Sohravardi, no “Livro da Teosofia Oriental”, pelo nome de Bahman — avéstico Vohu-Manah, grego Eunoia —, o primeiro dos Arcanjos a proceder de Ohrmazd na cosmogonia zoroastriana.
  • Nasiroddim Tusi (ob. 1274), em seu comentário das “Isharat” de Avicena, abala o famoso princípio “Ex Uno non fit nisi unum”, valendo-se das leis de uma catóptrica metafísica tomada diretamente de Sohravardi, sem o declarar.
  • A cosmogonia aviceniana clássica é aqui mantida: os três atos de contemplação da primeira Inteligência, dos quais procedem respectivamente uma segunda Inteligência, um primeiro Céu e a Alma motriz desse Céu, e assim por diante até a Décima Inteligência — uma fenomenologia da consciência angélica.

O Quarto Templo — O Anjo-Espírito Santo e a Questão da Inteligência Agente

A “clausura” do Quarto Templo coloca a questão decisiva para o fundamento da espiritualidade ishraqi: a identificação do Espírito Santo da Revelação divina com a Inteligência agente dos filósofos.

  • Meditação do filósofo e experiência interior do espiritual são conduzidas, inseparadamente, pela presença ativa do Anjo-Espírito Santo, inspirador tanto dos profetas quanto dos filósofos.
  • O Anjo da raça humana é Espírito Santo e Inteligência agente, anjo Gabriel da Revelação divina, de quem emanam as almas humanas; ele está para cada homem na relação de um “pai”, de um “parente celestial”, com seu filho.
  • Sohravardi e seus comentadores recorrem ao Evangelho de João por encontrarem ali explicitamente essa noção de “pai que está no Céu”, com o cuidado de precisar seu significado — em termos islâmicos, esse conceito não pode referir-se à divindade suprema.
  • Isso coloca em questão toda a teologia da Trindade tal como formulada pelo Concílio de Niceia.
  • Sohravardi observa que nos “livros” dos cristãos — seu ensinamento secreto? —, o “pai” significa o Princípio como Ser Necessário, o Espírito Santo é aquele já descrito, e o homem é o Verbo que é o “filho” desse Espírito Santo.
  • Os autores ishraqiyun demonstram preferência pelas citações do Evangelho de João, preferência encontrada também em pensadores xiitas e ismaelitas; a precisão das referências aos capítulos postula que Ghiyathoddim tivesse diante dos olhos uma tradução árabe desse Evangelho.
  • A sentença joanina citada por Ghiyathoddim Shirazi propagou-se amplamente na gnose ismaeliana, pelos hadith em que o Imam declara “Quem me viu viu Deus” — sem implicar encarnação, mas a visão de uma pessoa teofânica.
  • O filósofo ismaelita Nasir Khosraw atribui à Alma do mundo o papel de “pai” das almas, citando a página final do “Liber de Pomo”, em que são referidas as últimas palavras de Aristóteles moribundo: “Entrego minha alma ao senhor das almas dos filósofos.”
  • Quando Ghiyathoddim fala da “hierarquia longitudinal”, visa as Luzes soberanas e supremas das quais procede a Ordem latitudinal dos Arcanjos-arquétipos ou senhores das espécies.
  • Não há dúvida de que, para Sohravardi, a Inteligência agente é a Décima das Inteligências hierárquicas, fato fundamental para o sentido do “encontro com o Anjo” e para toda fenomenologia do Espírito Santo fundada nesse encontro.

O Quinto Templo — O Xvarnah e as Luzes Victoriais

O Quinto Templo apresenta o tema do Xvarnah (persa Khorrah), a Luz de Glória, conceito fundamental no mazdeísmo zoroastriano.

  • Esse conceito está na origem da denominação das Luzes arcanjélicas como “Luzes victoriais” (Anwar qahira, sendo o termo árabe qahir equivalente ao persa piruz).
  • O Xvarnah confere essa “victorialidade” ao ser que nela está investido, e foi uma percepção visionária do Xvarnah que fez de Sohravardi o Shaykh al-Ishraq.
  • A longa glosa de Davani designa Zoroastro como originário do Azerbaijão — ou melhor, segundo a ortografia velha-iraniana retomada hoje, o Azer-abadgan, o país do Templo do Fogo.
  • H. S. Nyberg foi o primeiro a perceber o pivotamento, sob os Sassânidas, da cartografia dos sete keshvars, que permitiu homologar ao ocidente do mundo iraniano, em Azerabadgan, o lugar dos locais santos originariamente situados no oriente, na Báctria — harmonizando assim as duas tradições contraditórias.
  • O “Livro zend” ao qual Davani se refere é, de fato, o comentário da Escritura sagrada que é o Avesta.

O Quinto Templo — O Eros Cosmogônico e os Príncipes Celestes

O encerramento do Quinto Templo vibra com a fervura inspirada pelo mundo espiritual do antigo Irã.

  • A relação originária entre o primeiro Amante e o primeiro Amado — entre a Luz das Luzes e a Luz arcanjélica inicialmente emanada — repete-se de grau em grau na escala do ser.
  • Essa relação está na origem de toda uma ascese espiritual, de uma mística do amor como religião do “Eros transfigurado”, que inspirará a Sohravardi os símbolos delicados e sutis do “Vade-mecum dos fiéis do amor”.
  • O tema do Eros cosmogônico leva o autor a mencionar brevemente os “príncipes celestes” da religião astral, cuja ideia parece estar na origem do próprio título dado ao livro dos “Templos da Luz”.
  • O Sol é introduzido como a teurgia do arcanjo Shahrîvar e designado pelo seu nome iraniano de Hurakhsh.
  • Davani refere-se oportunamente às “liturgias” (taqdîsat) de Sohravardi, nas quais se exprime, à maneira da piedade hermetista dos sabeus de Harã, sua devoção pelos “príncipes celestes” — na verdade as Inteligências, cujos astros são as teurgias.

O Sexto Templo — O Anjo como Senhor da Espécie Humana

A parte final do Sexto Templo introduz novamente a figura do Anjo que é o “senhor da espécie humana” e chamado Espírito Santo.

  • Sua relação com as almas humanas é tipificada como a relação de um “pai” com seus filhos.
  • Hermes, no meio dos perigos de sua experiência visionária, exclama: “Tu que és meu pai, salva-me.”
  • O peregrino do “Relato do exílio ocidental” reencontra seu “pai” no cume do Sinai místico; acima dele escalonam-se outros Sinais, moradas respectivas de seus “antepassados” comuns — as Inteligências hierárquicas superiores ao Anjo da espécie humana.
  • O Espírito Santo é aquele “ao qual as almas retornam como a agulha de ferro atraída pelo ímã.”

O Sétimo Templo — O Paracleto e o Johannismo da Ishraq

O Sétimo Templo coroado com a afirmação do Paracleto representa o que se pode chamar de “johannismo” da Ishraq.

  • Sohravardi evoca o Paracleto com referência ao Evangelho de João.
  • A “Natureza Perfeita” (al-tiba al-tamm) é o “Anjo do filósofo”, que Davani identificaria com o Anjo-Espírito Santo como Anjo da humanidade.
  • Para Sohravardi, o par formado pela alma humana — tipificada por Hermes — e a Natureza Perfeita é análogo ao par que o profeta Mani forma com seu “gêmeo celestial”, ora Anjo Christos, ora Paracleto — traço de gnose maniqueia nos pensadores ishraqis.
  • Pela mediação de Davani, a concepção sohravardiana do Paracleto encontra a concepção xiita do Décimo Segundo Imam como Selo da walayat mohammadiana, epifania final do sentido oculto das revelações divinas.
  • Davani inscreve-se na linhagem dos pensadores xiitas — Haydar Amoli, Ibn Abi Jomhur, e outros — que identificaram expressamente o Paracleto anunciado no Evangelho de João com o Décimo Segundo Imam da imamologia xiita, o Imam esperado, “atualmente oculto à vista dos sentidos, mas presente no coração de seus fiéis.”
  • A filosofia ishraqi situa-se sob o mesmo horizonte paraclético que a “filosofia profética” do xiismo, tanto duodecimano quanto ismaelita.
  • A conjunção da profetologia xiita e da teosofia da Ishraq é um fato consumado na obra dos grandes pensadores iranianos, à frente dos quais está o nome de Molla Sadra Shirazi (ob. 1640).
  • O sentido do Paracleto em Sohravardi aproxima-se da ideia do “Imam interior” entre os espirituais xiitas, e deve ser posto em relação com a cristologia de Sohravardi — reencontrando-se assim uma concepção desaparecida há muito do cristianismo oficial, cuja origem remonta ao cristianismo inicial, ao da comunidade de Jerusalém e dos Ebionitas.
  • Nesse contexto situa-se o paraclétismo do “Evangelho de Barnabé”, cuja tradução persa foi publicada no Irã há alguns anos.
  • A importância da ideia do Paracleto no Ocidente desde Joaquim de Fiore no século XII — o reino do Espírito Santo, a Igreja joanita, o Evangelho eterno — e a influência do joaquimismo sobre toda a teosofia cristã ocidental — Baader, Schelling, Berdiaev — tornam primordial para o pesquisador em ciências espirituais assinalar a convergência entre espirituais iranianos, ishraqiyun ou xiitas, e toda uma tradição de filósofos e espirituais ocidentais.
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